Laís Lilás
9 Todo tempo é precioso.
A noite horrível tinha passado.
Era manhã cedo, antes de Bárbara sair. Bruno estava sentado na mesa do café com a mãe. Quando Laís sentou-se com eles, parecia mais abatida que o normal. Alice já tinha saído pra aula com Júlio, que a fora deixar.
Bruno descansou o pão no prato.
– Não quero que você vá, Laís.
Estava sério e impassível.
– Bru, eu preciso ir. Preciso muito. Por favor, não queira me prender aqui... — Seu tom de voz entristeceu mais ainda o irmão.
Ele sabia que a escolha de Laís significava que ela não iria ficar pelejando pra prolongar a própria vida.
– Laís, você precisa continuar tentando, por favor, por mim, por mim.
Ela o olhou com ternura. O choro da noite anterior fora o suficiente. Não queria mais isso pra ela nem pra família.
– Bru, não vou gastar meu tempo precioso lutando contra um destino irreparável. É aceitando que vou mudá-lo. Você entende? Se não tem como mudar a última palavra, o único jeito de mudar o contexto é mexendo no resto da frase.
Bruno abraçou a irmã.
No dia anterior, já tinha extravasado tudo o que sentia de frustração. Agora era hora de ser razoável e compreender.
– Pra gente se sentir mais perto, eu vou escrever uma carta por semana, ok? Vou contar tudo o que acontecer comigo lá. Prometo.
Bruno. Coração inquieto, afobado, naturalmente ansioso. Mas bom, bom de uma forma que pouquíssimas pessoas conseguem ser.
– Tá bom, mas com TODOS os detalhes, entendeu?
Bárbara levantou da mesa como se não tivesse ouvido nada. Ainda não digerira a informação. Não aceitara enem pretendia aceitar essa loucura.
Pelo menos Bruno tinha entendido.
– Bruno, vamos ligar pro pai comigo? — pediu Laís, ao ver o portão se abrindo e o carro da mãe deixando a casa.
– Tá. Aproveito e já falo pra ele tomar todos os cuidados com você.
– Não, Pera. Você não pode contar. Entendeu?
– Como assim? Ah, não, Laís, aí tu quer demais!
– Por favor, Bru! — pediu, fazendo sua carinha de gato-de-botas do shrek — Eu sei que é arriscado, mas vai dar tudo certo. EU JURO. Eu decidi que não quero incomodar ninguém com isso. Por favor, irmãozão, você, que já é o melhor irmão do mundo, mas me apoie! Por favor! Pedir pra ficar na casa do pai, só de ele já ter esposa e entiada já é demais...
– Laís, eu não vou tar lá perto pra cuidar de você.
– Mas vai tar no meu coração, e, eu juro, se qualquer coisa acontecer, você vai ser o primeiro a saber, mesmo com milhares de quilômetros de distância.
Bruno olhou com cara de reprovação, mas não conseguia resistir às vontades da irmã quando ela pedia assim. Ainda mais na condição em que ela estava...
Ele se deu conta de que estava sendo muito egoísta ao querer que a irmã vivesse como ele desejava, pelo meno de perdê-la. Agora tudo o que queria era ela feliz.
O telefone chamou duas vezes e uma bela voz feminina atendeu.
– Alô?
– Oi, Ana! Aqui é a Laís...
– Não, Laís, não é a Ana. Aqui é a Marcella, filha dela.
– Ah, oi, Marcella! Eu nunca tinha falado com você, acho... Tudo bem?
– Sim! Bahh, lembrei!Tu que é a filha do Dante, né?
– Isso, isso. Ele tá por aí?
– Sim, sim. Ele já tá saindo, mas acho que dá tempo de falar. Só um minuto.
Laís ouviu Marcella chamar o padrasto e esperou ele rugir ao telefone, com sua voz grave, mas calma.
– Laís? Quanto tempo, minha filha.
– Sim, pai, desculpa por sumir.
– Não, tá tudo bem. Eu também sumi. Como vão as coisas?
Laís pensou bem antes de responder, mas se decidiu por um "tudo bem". A conversa deslizou suavemente sobre assuntos como Bruno, Alice, a mãe, Ana, Marcella, a escola, a faculdade...
– Quer dizer que você não tá indo à faculdade?
– Não, pai.
– Por quê? Sua mãe deve tar louca... — Disse, rindo levemente.
Mais uma vez, a resposta foi difícil de ser dada.
– Eu não estava pronta, acho. Preferi ficar em casa e era exatamente sobre isso que queria falar com você,
– Olha, devo admitir que fico muito feliz por ti, guria! Bom saber que tu tá tomando as rédeas da tua vida.
– Então, pai, eu queria te pedir uma coisa.
– O quê? Na medida do possível, farei.
– Eu quero passar um tempo aí no sul com vocês. Você vivia me chamando pra morar aí, então eu contei que fosse permitir, já tenho até as passagens. Espero que isso não seja problema.
Dante sorria largamente, e falou, animado, como poucas vezes Laís -ou qualquer um- o ouvira falar na vida:
– Sim, claro! Tu não te importa de dividir o quarto com a Marcella, né? Ela é uma guria muito simpática e vai até gostar, eu acho. Tu chega quando?
Os dois combinaram tudo e Bruno conversou com o pai, falou pra que ele cuidasse bem da irmã — sem mencionar o estado de saúde dela. Estava tudo certo pra viajar, e Laís tirara um peso de si. Agora só faltava conversar com a mãe; não era possível que Bárbara não entendesse seu lado.
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