Laís Lilás
8 Todo mundo se conforta com o que tem.
Notas iniciais
Primeiro de Maio.
Laís iria continuar fazendo o tratamento até estar perto de viajar. A decisão já tinha sido tão certamente tomada por ela que nem esperara a permissão da mãe pra se preparar.
Secretamente, Júlio comprou as passagens. Ela viajaria dia 25/05 e voltaria 01/07. Os dois combinaram tudo, e, disse Júlio, daria certo, já que ele estava aos poucos convencendo Bárbara a permitir. Laís achou melhor deixar pra avisar de última hora, assim não teria chance de ter a viagem boicotada.
Com as esperanças renovadas, Laís até começou a aceitar melhor o clima do hospital e os horários esquisitos. Isso terminaria logo, pensava.
A verdade é que a gente se adapta a tudo. Todo mundo se conforta com o que tem.
Alice, que estava quase sempre em casa, exceto na hora da escola, sem que eles vissem, ouvira Laís conversando com Júlio sobre. Quase ficava louca porque mal conseguia ter a atenção que queria.
Tão ignorante quanto Laís inicialmente era sobre o assunto, pensava que teria um jeito. Não achava justo ser esquecida.
Ficou com inveja da irmã e resolveu contar à mãe o que ouvira.
Quando Bárbara chamou Laís no quarto pra perguntar do que se tratava, estava quase bufando. Laís confessou que já tinha os planos feitos pra viagem e que no dia seguinte combinaria tudo com Dante.
- COMO você faz tudo escondido de mim, Laís? Logo você, que nunca foi de me esconder nada e logo num momento desse! E COMO você, JÚLIO MARCOS TEIXEIRA, — disse, virando-se pra onde estava sentado o marido — AJUDA NISSO? COMO?
Laís estava atordoada e irritada, não era assim que gostaria que a mãe ficasse sabendo. Queria que ela aceitasse primeiro pra depois contar. Deixou o cômodo onde a mãe discutia com o padrasto e foi até a sala. Bruno ouvira a briga e estava indo perguntar a Bárbara o porquê disso, e essa explosão Laís não queria ver.
Alice estava lá.
- Caralho, por que tu contou? — perguntou.
- Eu? O que eu fiz?
Não. Não acreditava no nível de dissimulação da irmã. A raiva de tudo explodiu nela:
- Alice, para de ser cínica!
Laís gritava como nunca antes gritara.
Júlio, que também saíra do quarto por conta da reação extrema de Bruno, estava a ponto de fazer o mesmo, mas se controlou porque sabia que a menina não estava a par de tudo.
- Laís, é melhor eu dar um choque de realidade na minha filha, porque, pelo visto, ela ainda não se tocou de que logo logo não terá mais você pra se espelhar.
Alice olhou o pai com uma cara de intrigada, meio ofendida pela observação dele. Em seu íntimo, sabia que Laís era uma meta a ser alcançada, mas não queria admitir a admiração interna que tinha por ela.
- Alice, você ainda não entendeu que Laís irá embora logo, logo? Não quero ser pessimista, Laís, desculpe, mas a realidade é que a sua irmã não entendeu o que um câncer é. Alice, ela não vai embora só de recife, nem do Brasil. Ela vai embora de nossas vidas. — ele falava num misto de tristeza com raiva pela tolice da filha.
- Quê? Pai, hoje em dia quase tudo tem cura, até o câncer... — Laís correra pro quarto, machucada pela insensibilidade da mais nova.
- Sua irmã tem quatro meses, Alice.
- Ahn? Como assim 'tem quatro meses', pai?
- Da forma como você tá pensando.
A cara de sabichona de Alice foi se desfazendo quando ela foi se dando conta, até desmoronar. Como assim? Mesmo com as brigas, as constantes faíscas, era Laís quem ela procurava quando tinha um problema com alguma amiga ou queria conversar sobre algum garoto, era Laís que a socorria quando queria ajuda pra algum trabalho, era pro quarto de Laís que ela ia quando estava sozinha, era dela que ia ficar perto. Apesar dos ciúmes que tinha de Bruno com ela, Laís era sua irmã e não queria perdê-la.
A mãe chorava.
Bruno chorava.
Alice era só mais uma chorando.
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