Laís Lilás
7 O único destino certo em nossas vidas é a morte.
Notas iniciais
Abril estava nos seus 20 dias, e Laís ainda estava sendo compelida pela mãe e quase que obrigada por Bruno a continuar o tratamento. Algo dentro dela estava a ponto de explodir. Não queria magoar nenhum dos dois, mas também não iria ficar nessa.
Júlio e Bárbara sempre conversavam sobre a condição de Laís, e antes do fim do mês, o clima da casa era tão pesado que parecia que uma nuvem de concreto andava junto com a cabeça de cada um. Enquanto isso, Bruno a levava Laís hospital todos os dias, algumas vezes perdendo aulas, e isso só a fazia sentir pior.
Mas Júlio dera a ela a melhor ideia da vida e ela precisava fazer funcionar.
Numa noite calma em que a mãe, quase que por milagre, chegou mais cedo, ela se sentou na cama e falou:
- Mãe, eu tive uma ideia genial.
A mãe olhou com cara de surpresa.
- Você quer me fazer feliz?
- Claro, Laís. Ah, meu deus, você tá me deixando preocupada, menina…
- Mãe, eu quero ir visitar meu pai.
Dante era um homem alto, de cabelos negros e pele muito branca (características que os seus dois filhos herdaram), e morava em Caxias do Sul. Ligava às vezes pros filhos, mas, como era quase um túmulo, de tão poucas palavras, nunca tinha o que dizer, mas sempre sentia falta deles.
- Como é, Laís? Que história é essa? Não. NEM PENSAR. Você vai fazer seu tratamento aonde?
- Eu não vou fazer. Eu não quero. Vocês não podem continuar me forçando, mãe!
Bárbara olhou, incrédula.
- Laís, eu não quero passar isso na sua cara, mas estou gastando MUITO com remédios e tudo mais pra você se sentir bem. Você quer piorar? É isso?
- Pior do que eu tô, não fico. A saúde da alma vem antes da do corpo, mãe. E eu tô muito triste por dentro. O único destino que é certo na vida é a morte, se eu tenho plena consciência de que a minha vai chegar logo, por que eu não posso fazer meu tempo ser bem utilizado? Isso é contraprodutivo!
Laís falava como se soubesse que ia quebrar uma unha, e não que iria deixar essa vida. Claro queos sentimentos dos parentes era considerado, mas ela não duvidava do fato de que eles iriam sofrer mais caso ela ficasse mal.
Bárbara não tinha argumentos, porque entendia o que a filha sentia. Simplesmente não conseguia aceitar. O medo de perder, o medo do futuro e o medo de um dia não tê-la mais por perto eram grandes demais. Então ela usou a única desculpa que tinha:
- Laís, eu já gastei meu dinheiro todo.
Laís murchou.
Nesse momento, Júlio, que fora esquecido no banheiro da suíte, saiu de lá e falou:
- Eu pago tudo, não se preocupe. Passagem e o que Laís precisar. Até compro umas roupas de frio, se quiser. — Foi fuzilado pelo olhar da esposa — Desculpa, amor, mas você sabe que a Laís tem suas razões.
Bárbara baixou as armas e fitou o chão tristemente. Seus últimos dias se resumiam a afogar no trabalho de cuidar de outras vidas o desespero de não ter como cuidar da própria filha.
- Então, mãe?
- Não sei, Laís. Preciso pensar.
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