Laís Lilás
11 Livre é aquele que vive plenamente a sua verdade.
O sol já caíra, despedira-se silenciosamente do lado ocidental da terra, quando Bárbara entrou na sala silenciosamente.
Laís sentia-se mal pela mãe, pois sabia que ela estava carregando um fardo muito, muito pesado. Também entendia que se compenetrar cada vez mais no trabalho era sua forma de cansar o corpo e extravasar os sentimentos.
Mas o Dr. Ângelo a ensinou que "o que tem que ser dito, tem que ser dito". É. Guardar as coisas na garganta acaba matando alguém entalado. E, com a proximidade da viagem, tudo só ia ser mais difícil. Ela precisava resolver tudo logo.
Quando a chamou, ela entrou em seu quarto com cara de cansada. Não teria paciência pra discutir, tudo o que tinha pra dizer fora dito na noite anterior.
– Mãe, senta aqui? Faz tempo que você não fica comigo.
Isso era álgo que Bárbara não podia negar. Estava sofrendo muito, e o carinho entre elas se fazia cada vez mais necessário. Sentou-se na cama e Laís a fez deitar em seu colo. Nunca se portara assim, como se fosse frágil, na frente da filha, mas tudo tinha mudado tanto...
Laís fez carinho em sua cabeça.
O toque da filha a fazia sofrer antecipado. E quando isso não existisse mais? Ela nunca fora uma pessoa fraca, também não era de chorar em público, mas sim do tipo que engole o tudo até estar só. Contudo, segurar o choro estava se tornando muito difícil.
– Sabia que eu te amo muito? Muito mesmo, mãe. Nunca vou deixar de te amar. Nem daqui a quatro meses, nem daqui a cinquenta anos.
E não aguentou. As lágrimas desceram de seu rosto até a coxa da filha, que continuava acariciando, com o coração doído, doído. Por si e pela mãe.
Será que era justo? Que a vida causasse isso, tanto choro, tanta dor?
Talvez não fosse...
Mas também não adiantava se lamentar.
Laís, com calma e seriedade jamais vistas em seus atos, continuou:
– Mãe, eu não me desespero com essa situação. Digo, já me desesperei com a possibilidade de me sentir presa, de jogar minha vida pelo ralo, mas não agora. Não se desespere por mim, por favor. Você enche meu coração de dor ao agir assim. — Ela puxou o rosto da mãe e ficou olhando em seus olhos claros — Seus olhos são azuis, são tão lindos. Você é linda. Não gaste sua beleza chorando. Como vovó costumava dizer, chorar dá ruga!
Os lábios de Bárbara se contraíram, como quem segura o ar e ele se estagna junto com a dor no peito, e caso ela os abrisse, iria sair com a força de um grito. Voltou a virar o rosto pra perna da fila, que usou pra tapar a própria boca quando o ar incontrolável saiu e ela começou a soluçar.
Bruno estava na faculdade, e Júlio tinha saído, mas Alice ouvia tudo do seu quarto, que era ao lado.
– Mãe, sempre me perguntei por que eu não tinha olhos azuis como os seus. Mas, recentemente, eu entendi que era pra que eu desse valor aos olhos do Bruno, único de nós que herdou tais olhos, e entender como se transparecia a sinceridade. Eu sei que mesmo sem essa cor de olho eu posso ser verdadeira, porque a verdade começa em ser sincera comigo mesma. Só é livre quem vive plenamente a sua verdade. Os olhos de vocês me deram isso. E a minha verdade é que a ideia de morrer não me assusta. Foi você mesma quem me ensinou que a vida não acaba aqui. Foi você, mãe! Isso é paz pro espírito. Por que você não consegue lembrar disso nesse momento? É agora que todos nós temos que usar o que sabemos a nosso favor, e você devia ter isso em sua mente, porque é esse conhecimento que você me deu que não me deixa desesperar.
Bárbara conseguia falar e não entenderia de onde a filha, tirava forças pra si caso ela não tivesse explicado tão claramente. Estava ainda calada quando Laís, cujos olhos derramavam algumas gotas quase que conformadas, prosseguiu: "O que me assusta mesmo é deixar vocês aqui, porque sei que a dor de quem vai não se compara à de quem fica. Mas eu preciso de te fazer entender que não sou alguém miserável. Vocês me deram tudo, mãe. Você não fracassou. Mas ver você assim... Isso sim destroça o meu peito. Mãe, a vida toda eu fiz o que você pedia. Sempre tentei te agradar. Retribui o favor: tenta me agradar agora? Eu juro que vai valer a pena. Fique em paz. Fique pra eu poder ficar também."
Bárbara soluçou mais alto e falou:
– Não tem como viver sem você, Laís!
- Obrigada, mãe. Obrigada por me valorizar. Por sempre ter me apoiado, por seu jeito meio mandão de fazer dar certo. Eu também te valorizo muito. Mas, olhe, não é o momento de pensar nisso. Essa viagem vai ser boa pra todos nós. Talvez sem ficar me vendo vocês pensem menos nisso, e assim me farão mais feliz. Eu prometi ao Bruno que ia mandar uma carta por semana da viagem, e vou. E VOLTO. Eu te prometo, mãe, Por tudo que houver de mais sagrado no meu coração. Eu volto.
Bárbara caiu num silêncio de profundidade quase abissal.
Fora vencida.
– Mãe, eu tô vivendo o que tô vivendo e tô muito compenetrada nos meus planos. Bruno tá ocupado com a faculdade e preocupado comigo. Mas Alice tá aí. Eu vejo que ela se sente largada, sozinha. Veja também, por favor. Não se afogue integralmente no trabalho pra fugir da realidade. Não sei se você já parou pra pensar, mas qualquer um dos meus irmãos, qualquer um de qualquer lugar está sujeito a partir assim, a qualquer momento. Prender as pessoas numa bolha não vai salvá-las. Se tiver que acontecer, nada vai remediar. Não fica com medo, nem fica pensando na morte de ninguém. Não deixe a realidade escapar. Isso é só pra te dizer: dê uma atenção à Alice. Valorize sua filha mais nova também. Faz um tempo que você não tem ido ficar com ela à noite, eu percebi. Ela sente falta disso, sem dúvidas.
Alice, que estava escorada na parede, de costas pro quarto de Laís, prestando atenção à conversa, foi deslizando até estar sentada no chão com a cabeça nos joelhos, tapada pelos braços. Estava sentindo tanta vergonha de tudo, tão mal por ter sido tão fútil...
– Agora vamos lavar o rosto, mãe. Você precisa sorrir.
É... Não tinha como mesmo. O jeito era aceitar. Já no banheiro e com o rosto lavado, mas ainda meio abatido, Bárbara perguntou:
– Que dia você viaja mesmo?
– Dia 25.
Baixou o tom de voz:
– Ah, ok, dá tempo de você participar do aniversário da sua irmã. Não conte a ela, a festa é surpresa. Agora fica aí, eu já volto. Vou dar uma palavrinha com a Alice.
– Sem pressa.
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