Laís Lilás
6 Coragem, menina, que fácil não é.
Notas iniciais
Laís. 17 anos. Sagitário. 4 meses de vida.
Há muito sentada, rígida como um poste, na poltrona da sala. Seus braços dormentes estavam cansados da mesma posição. Sua cabeça latejava, cansada de girar, de se esforçar pra tirar sumo de laranja seca. Cansada de gastar todas as energias em tentar agir de forma madura.
Abril caminhava quase parando. E quando ela parava pra pensar, via que era melhor pensar andando.
O fato é que, depois do início da radioterapia, não estava sendo fácil manter o foco em fazer algo de útil. A dor não estava tão forte, tinha melhorado bastante, por sinal. Mas isso não aliviava seu destino.
Na primeira semana, ela apenas ficava no quarto, meio sem ar, pensativa como nunca estivera em toda a sua vida, e ia maquinalmente se tratar, com o apoio do irmão, mas quase que indiferente a isso.
Diferente da previsão de seu fim, a possibilidade de manter essa vida até chegar tal ocasião a mortificava. Mais cedo que o câncer.
Pela primeira vez entendia Júlio, que ficava horas e horas refletindo. Será que ele tinha na alma peso tão grande quanto o dela, de deixar as pessoas que mais ama?
A criança dentro de si fazia birra, em cada membro adormecido tentava escapar, gritar. Tudo o que ela conseguia fazer era chorar de frustração, nem sequer de desespero.
Seria mais fácil jogar tudo nos outros;
A dor.
A vergonha.
A infelicidade.
Mas, pensou ela, sabia que a tristeza que sentia não era sequer comparável à da mãe ou à do irmão. E até mesmo Alice, pensou, ficaria muito mal caso tivesse consciência plena do que acontecia ao seu redor.
Ela era alienada; sempre fora. Mas, admitiu Laís, de vez em quando deixava transparecer em si uma boa companheira.
Quando brigavam, odiavam-se. E Laís dizia: "não gosto quando pessoas de quem eu não gosto gostam das coisas que eu gosto. Sai, Alice!". Parecia que a menina, de uma forma travestida, tentava sempre imitar Laís. Mas as reações bobas e o jeito imaturo de Laís tratá-la faziam toda a diferença. Talvez tudo o que Alice quisesse fosse ser como ela.
E brigavam por besteira demais. Bobeira demais. Coisas materiais.
E essas coisas materias... Ficariam todas. Ela não levaria nada.
Como pôde ser tão tola de deixar a relação com a irmã se desgastar dessa forma por esses motivos?
Suas pupilas captavam a falta de luz vinda da TV, que olhava de volta, quase tão estática quanto ela. Os móveis sorriam sorrisos tristes, em condolência. Um pernilongo observava, na porta de vidro da sala, sanguinário. Solitário.
O problema era que ficar presa diariamente a um hospital a mataria antes mesmo dos quatro meses passarem, refletiu Laís. Ela não aguentaria.
Júlio acendeu a luz da sala ao sair de seu quarto. Laís ia reclamar, mas o viu se aproximando e achou melhor ficar quieta. Ele sentou no sofá perto e ficou assistindo TV com laís. A TV calada, que não passava programa nenhum.
– Laís... — Chamou, alguns minutos depois. Ela o olhou e mudou de posição, deixando um alívio em seus braços. — Eu sei que você nunca foi com a minha cara. Nunca entendi o porquê — respirou fundo — e também não te cobro isso, você tem todo o direito de gostar ou não de mim. Mas eu queria muito conversar com você francamente nesse momento.
Laís não disse nada por alguns minutos, apenas o ficou observando e pensando no que estaria fazendo naquele momento caso ele não tivesse insistido com a mãe sobre a sua saúde.
– Júlio, sinceramente, não tenho nada pra afirmar contra você. Acho que era infantilidade de minha parte te evitar tanto, nem eu mesma me entendo... Mas agora eu vejo que isso não importa. Não tenho nada a dizer de ruim, então só te peço desculpas.
– Tudo bem. De verdade. Eu só queria saber o que você vai fazer agora.
– Como assim?
– Laís, você tem 17 anos, é nova demais, não viveu nada. E por isso mesmo devia ir atrás de viver. O mais rápido possível.
– É... Mas como? Eu admito. Tenho me sentido asfixiada e ir ao hospital todo dia pode até estabilizar a minha dor, mas nunca vai estabilizar a minha mente. Isso vai acabar me enlouquecendo.
– Olha, você sabe que eu sou escritor, e que os meus pensamentos nascem da janela de casa, ou de uma rua qualquer. Mas, que sua mãe não me ouça, se eu estivesse na sua situação, ia atrás de conhecer algum lugar diferente, viver algo diferente!
É. Ele tinha sua razão. Ficar lutando contra um futuro que já é certo talvez seja a pior estratégia. Nesse caso, a maior rebelião que poderia fazer era aceitá-lo e vivê-lo da melhor forma. Não era? Por que ficaria ali, jogando seu tempo fora, trucidando, enforcando seus dias? Só pra adiar o inevitável, que, por sinal, de uma forma ou de outra, podia surgir diante de seus olhos a qualquer minuto?
Ela levantou da cadeira e sentiu cosquinha nas pernas, cujo sangue voltava a circular. Talvez acabasse de voltar a circular também em seu cérebro.
Ela o abraçou, pela primeira vez. Não, ela não conseguiria ter dito isso a mais ninguém. Talvez por sempre ter sido tão distante de Júlio e não saber que ele também sofria com a sua situação fosse mais fácil. Mas agora ele estava feliz porque a ajudara, então tudo bem.
– Obrigada, Júlio. Principalmente pela paciência e pela grande ideia que você acaba de me dar.
– Coragem, menina, que fácil não é.
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