Laços inquebráveis
1 Capítulo Um
Tento levantar da cama silenciosamente, tentando não acordar minha amiga. Como sempre fui a primeira a dormir noite passada, então não fazia ideia de como havia terminado o filme. No escuro – eu gosto de dormir com a TV ligada, mas Sarah não, assim todas as noites quando ela vem dormir em minha casa, a TV é desligada -, esbarro na cadeira de rodinhas, que desliza pelo piso fazendo barulho, derrubando a pequena mala que estava sobre ela.
— Eu já estou acordada, pode ligar a luz. – a voz de Sarah perambula pelo quarto escuro até chegar em meus ouvidos.
— É muito cedo, volte a dormir. – recomendo enquanto acendia a luz.
— É difícil dormir com você roncando a noite toda.
— Eu não ronco! – atiro um travesseiro em sua direção enquanto ela levantava.
Sarah ajeitou a toca – um presente meu – para que ficasse no lugar. Por conta da quimioterapia ela havia perdido o cabelo, e no inverno dormia de toca para não passar frio.
— Bem, eu sei que não fui eu, — disse ela – e se você alega que não foi você, só resta a Roma... – Roma, minha lulu da pomerânia, levanta a cabeça ao pronunciarem seu nome – É Roma, sua mãe está te acusando de roncar a noite toda. – a cachorra olha de mim para Sarah sem entender nada.
— Se a madrinha dela não tivesse me acusado de roncar, eu não teria acusado ela.— procuro uma roupa para o trabalho – Está se sentindo melhor hoje? – sigo para o banheiro enquanto falo, ligo o aquecedor para trocar de roupa.
— Não muito. Roubei um de seus remédios noite passada.
— Vou colocar na conta. – brinco.
Desde que havia transferido a quimioterapia intravenosa para via oral, Sarah vinha tendo fortes enjoos, chegando até mesmo a vomitar sangue. Ela conseguiu colocar na cabeça de que o câncer já havia se espalhado para o estômago, não foi fácil tirar essa ideia da cabeça dela.
— Mais uma vez não vou trabalhar. – reclama ela – Me lembre, por que mesmo você quis abrir uma sociedade comigo?
— Porque você é minha irmã fofinha. – respondo enquanto saio do banheiro, me sentindo uma baleia por causa dos casacos.
— Você pagou a minha parte do investimento, eu quase nunca apareço para trabalhar, e mesmo assim recebo os lucros.
— Você trabalha em casa. – pisco para ela – O que seria de mim e Camile sem seus conselhos?
— Por falar em conselhos, como está indo o processo de venda para o exterior?
— Hoje vamos saber a resposta da editora americana sobre o livro Querida Priscila.
— Tomara que fechemos contrato. Estou louca para conhecer os Estados Unidos. – um sorriso se forma em seus lábios, Sarah sempre quis conhecer o mundo – E a escritora merece.
— Tomara. Tem certeza que não quer que eu a leve para casa?
— Tenho. Uma de nós precisa trabalhar. – Roma aconchega-se em seu colo, poucas pessoas conquistavam o afeto dela, e Sarah era uma delas – Eu vou com o Ivan sem problemas.
— Então vou pedir para o Ivan trazer seu café da manhã.
— Não estou com fome.
— Você precisa comer. – faço carinho em Roma, que abana o rabo feliz – Darei ordens ao Ivan apenas para sair dessa casa quando você tiver comido.
— Sim mãe. – ela revira os olhos – Mas não traga muita comida.
— Pode deixar. – a abraço e beijo sua testa – Até logo meus amores.
Assim que entro no carro mando uma mensagem para Ivan, obviamente eu iria exagerar na comida, e haveria muito brócolis e vitamina C no café da manhã especial de Sarah. No caminho para editora penso em minha melhor amiga.
Conheci Sarah Valentina Nogueira na faculdade de administração. Eu, ela e Camile nos tornamos grandes amigas, mas era perceptível para todos como Sarah e eu nos tornamos irmãs, de algum modo nos encaixávamos perfeitamente uma na outra. Encontrei nela a irmã que nunca tive. Tudo estava perfeito, até que no primeiro ano de faculdade Sarah sentiu um nódulo em seu seio, o médico o retirou e a mandou para casa com o diagnóstico de um tumor benigno.
O problema foi que não houve a retirana da margem de segurança ao redor do tumor, e não foi feita a biopisa da célula cancerosa, de acordo com o médico ela era nova de mais para ter um câncer maligno. Cerca de um ano depois ela teve que retirar toda a mama, e com 19 anos teve que ser submetida a seções de radioterapia e quimioterapia, pois o tipo de câncer que tinha era raro e maligno.
De algum modo isso nos uniu mais ainda, cuidava dela com todo o amor e carinho, até brigava com alguns professores quando queriam reprovar ela. Sempre a apoiava e dizia que ela iria melhorar, mas as coisas só pioraram... O câncer chegou ao pulmão, tendo que fazer a retirada de dois tumores, a espera pela saúde pública pela cirurgia só demorava, eu quis ligar no hospital e xingar todo mundo, mas obviamente ela não me deixou. Com a ajuda de minha tia e de sua família conseguimos fazer a remoção do pulmão. Eu dizia a ela que tudo ficaria bem.
Mas ai o tumor resolveu brincar em seu cérebro, em uma zona onde a cirurgia seria muito perigosa. Eu a acalmei quando teve que fazer a rádio cirurgia. Depois disso sua médica mudou a quimioterapia para os comprimidos, a intravenosa não estava fazendo efeito. Novamente eu disse que tudo ficaria bem. E como a mentirosa que eu parecia estar sendo, nada melhorou, só piorou. A dor de cabeça voltou, seu rosto estava inchado por conta dos corticoides, já não conseguia mais movimentar direito um lado de seu corpo e havia também as dores na costela, que poderia indicar outro tumor, e o tumor no seio parecia estar voltando.
Muitas vezes ela perdia a fé em sua recuperação, me dizia que iria morrer, e todas as vezes eu tirava aquela ideia da cabeça dela. "Quem vai ser a madrinha dos meus filhos? Você sabe que se depender de mim, meus filhos vão acabar sendo vestidos para um carnaval todos os dias.", eu dizia para ela. Eu tinha fé suficiente por nós duas.
As vezes era fácil esquecer que Sarah tinha câncer, ela sempre sorria, nunca reclamava, ia a igreja e nunca culpou a Deus por sua doença, ficou na faculdade até tudo piorar – em grande parte porque eu não a deixava desistir -, e nunca, nunca, agia como uma garota doente. Eu tinha orgulho dela.
Ela era uma guerreira.
Fale com o autor