Laços de amor

81 Capítulo Bônus 27: a vida de Tommy e Sofia


Laços de amor

Los Angeles

Sofia

A dor sempre me pareceu um fenômeno biológico fascinante. De acordo com a Ciência, sentimos dor quando algo não está funcionando corretamente em nosso organismo. Os nervos captam esse sinal e enviam estímulos ao cérebro, que processa a informação e aciona o córtex motor para desencadear uma reação adequada. Essa resposta, então, retorna através dos nervos até o ponto de origem, na tentativa de proteger ou corrigir o problema.

Em outras palavras, a dor é um sofisticado mecanismo de defesa — um alerta natural do corpo de que algo não vai bem.

Eu sempre fui uma pessoa bem resistente a dores físicas. Na infância, sabendo que não poderia perturbar minha mãe com mais problemas além dos que envolviam criar uma filha sozinha enquanto cursava medicina, aprendi a aguentar tudo calada.

Febre? Tomava água e dormia.

Dor de barriga? Chá de camomila e posição fetal.

Cólicas menstruais? Meu Deus, aquilo sim doía. Mas metia um sorriso no rosto e seguia a vida como se não tivesse um útero psicopata que queria me matar todos os meses.

Agora... essa dor? A tal dor que todos os livros de obstetrícia descreveram com entusiasmo e gráficos coloridos?

Essa era a dor.

Na teoria, eu a conhecia bem. Estudei todas as fases do trabalho de parto, os centímetros de dilatação, os hormônios envolvidos, as contrações de treinamento, as contrações reais, os sinais do corpo e, finalmente, o milagre da vida.

Na teoria.

Mas a prática? Ah, meus amigos... na prática ela era uma filha da mãe.

Eu me mexi na cama pela milésima vez, com uma careta que mais pareceu a de alguém que acabou de levar uma pancada no cóccix. A sensação era desconfortável e crescente, como se um rolo compressor estivesse me esmagando de dentro pra fora.

Tentei ignorar. Fechei os olhos. Respirei fundo, mas nada. A dor sempre voltava. Chata. Persistente. Filha da mãe².

Levantei e fui ao banheiro. Talvez fosse só... vontade de defecar. Porque sim, isso também acontece no fim da gravidez. O bebê desce, a pressão aumenta e o intestino se confunde. Uma beleza.

Mas não. Fiquei sentada no vaso alguns minutos, encarei o azulejo à minha frente como quem encara o próprio destino, e percebi que não era isso. Nada perto disso.

Então, voltei pra cama, frustrada.

— Você quer nascer, princesa? — perguntei, passando a mão pelo meu ventre dilatado, mas tudo que obtive em resposta foi outra contração, mais forte que a anterior que me obrigou a trincar os dentes para não gritar.

Tommy dormia tranquilo. Claro que ele dormia, pensei com ironia.

O homem que me colocou nessa situação — com muito entusiasmo, diga-se de passagem — estava ali, deitado feito um anjo, enquanto eu era a encarnação do caos uterino.

— Isso não é justo — murmurei, encarando seu rosto amassado de sono. — Somos dois adultos responsáveis pela concepção desse bebê, mas toda a parte dolorida ficou comigo. Alguém na evolução definitivamente não gosta de mulheres.

Bufando, voltei a me sentar na beirada da cama, pressionei as mãos contra as costas e respirei fundo outra vez. Lembrei de uma paciente na emergência que disse que só conseguiu suportar as primeiras contrações porque ficou 40 minutos embaixo do chuveiro.

— Banho. Vou tomar um banho — disse pra mim mesma, como se fosse uma decisão nobre e não um ato de desespero.

Entrei no box, liguei a água na temperatura quase derretendo minha pele e deixei cair sobre a lombar. Alívio imediato. Temporário, mas real. Fechei os olhos e sorri. Tentei manter a respiração calma, apesar da sensação de que alguém estivesse tentando me abrir com as mãos por dentro.

Fiquei lá e os minutos passaram. Talvez vinte.

E então, a porta do banheiro se abriu devagar.

— Sofia...? — ouvi a voz do Tommy, ainda rouca, arrastada pelo sono. — Você tá bem? Porque... são quatro da manhã. Isso não é hora de tomar banho.

Abri os olhos devagar e ele estava parado na frente do box, com os cabelos ainda bagunçados. Parecia uma versão meio confusa do Edward Cullen nos dias em que meus irmãos caçulas davam trabalho.

— Tô com dor — disse, com a maior naturalidade possível, enquanto desligava o chuveiro.

Demorou dois segundos.

Um...

Dois...

Meu Deus! Tá com dor?! Amor, como assim dor?! Que tipo de dor? Onde? Quando começou? Você já estava sentindo há muito tempo? É a Wendy? É o parto? É agora? Cadê seu celular? A bolsa estourou? O hospital! A mala! Cadê a mala? Bella! A gente tem que ligar pra mamãe!

Ele começou a andar em círculos pelo banheiro, em pânico, derrubou a toalha do gancho e quase escorregou no tapete.

TOMMY! — gritei, tentando não rir (e falhando).

Ele congelou.

— Calma. Não é hora de surtar — pedi. E então, como se fosse uma resposta cômica dos deuses da maternidade... ploft.

Um estalo. Um calor estranho. E o chão foi sendo lentamente coberto por um líquido quente.

Olhei pra baixo. Depois olhei pra ele.

Tommy arregalou os olhos.

E eu sorri, porque, honestamente, não dava pra evitar.

— Tá bom... talvez agora você possa se desesperar um pouquinho.

— Meu Deus!... Eu... eu vou ligar pra sua mãe!

Tommy deu uma meia-volta tão rápido que quase escorregou no piso úmido. Ainda em pânico, procurou o celular em cima da pia, depois na bancada, depois dentro da gaveta de escovas de dente — por que alguém colocaria o celular ali, eu não sei — e, por fim, voltou para perto de mim, parecendo cada vez mais desesperado.

— Tá... mas antes... espera. Você precisa de ajuda pra sair daí! Você precisa... de uma toalha! Um roupão! Princesa, vai ser cesárea?

Eu suspirei.

Ele estava uma graça. Um completo desastre em calça de pijama, com os cabelos em pé e a cara de pânico. Uma parte de mim queria rir de novo. A outra parte queria esganá-lo.

Mas apenas segurei seu rosto entre minhas mãos molhadas.

— Respira, Tommy.

Ele me encarou, completamente imóvel, como se minhas mãos fossem o botão de pause da vida dele.

— Eu estou bem. A Wendy entrou, agora ela tem que sair. É normal. Tá certo que entrou em gota e vai sair em quilo... mas, né? Mulheres fazem isso todos os dias. A humanidade está aí pra provar.

— Certo — ele respirou fundo. — Certo. Você tem razão. Eu... vou me acalmar.

— Isso, amor. Tenta. Porque um de nós dois tem que manter o controle — murmurei, antes de roubar um beijo rápido. Claro que, sendo filho do papai, a pessoa que manteria o controle não seria ele.

Entre uma contração e outra, me lavei e me vesti com esforço. O pai da minha filha tentou me ajudar, mas vestiu minha blusa ao avesso e quase enfiou minha perna no buraco da manga. Fiquei tentada a gritar com ele, mas desisti. O esforço de gritar parecia maior do que o de aguentar a dor.

Com a mala pronta — porque claro que eu a preparei com antecedência — seguimos para o carro.

A cada buraco na rua, eu o amaldiçoava silenciosamente.

Chegamos ao hospital e a entrada estava estranhamente calma. Mas então a porta se abriu... e lá estava ela.

Minha mãe.

Graças a Deus!

Bella Swan Cullen se aproximou com o olhar emocionado e beijou minha testa.

— Vai dar tudo certo, meu amor. Nós estamos com você.

Atrás dela, vi rostos conhecidos.

Meus internos apareceram, sorrindo nervosos e desejando “boa hora”, como se eu fosse um foguete prestes a decolar. Mia e Elena chegaram juntas, vestidas como se fossem para um desfile de moda, mas com os olhos brilhando de ansiedade. Lara e Ethan estavam logo ali também, assim como meus tios, Alice e Jasper, Emmett e Rosalie. Nicolly e Anny também vieram, pois segundo elas, as tias precisavam participar de tudo. E papai... ah, papai. Edward Cullen tentou parecer sereno, mas seus olhos estavam marejados, e eu o conhecia bem demais pra não perceber o quanto ele estava emocionado.

Wendy ainda nem havia nascido e já tinha uma torcida organizada.

Fui levada para a ala da maternidade e as contrações se intensificaram. Fortes, ritmadas e cada vez mais insuportáveis.

— Dói muito? — Mia perguntou, me oferecendo um copo cheio de gelo como uma boa madrinha, e eu fechei os olhos com força, enquanto mais uma contração me atravessava.

— Você nem faz ideia — eu disse, respirando algumas vezes e mordendo uma pedra de gelo para descontar a raiva, a dor, a frustração...

Deus, quando isso vai acabar?

— Foca na Wendy, Sofia. Quando você tiver nossa princesa nos braços, nem vai se lembrar dessa dor.

Duvido muito, pensei, mas fiquei quieta, porque se abrisse a boca, iria gritar de verdade.

Na sala de parto, a Dra. Clay assumiu a condução com a calma de quem já havia trazido ao mundo centenas de bebês, e mamãe pediu que Mia saísse, e permaneceu ao meu lado, com um avental cirúrgico por cima do jaleco. Tommy também entrou, ainda trêmulo, mas determinado.

Eu estava... em frangalhos.

Sentia que estava sendo partida ao meio. Que um trator decidira sair do meu corpo pela entrada errada.

Devia estar horrível e não queria que ele me visse assim. Mas também não queria que ele me deixasse sozinha.

Grávidas parindo realmente não fazem nenhum sentido.

— Amor... respira. Vai, segue meu ritmo — Tommy disse, começando uma respiração no estilo cachorrinho e eu virei o rosto pra ele devagar, com um olhar que poderia abrir um portal para o inferno.

— Quem não tem útero, nem vagina, não tem opinião!

Ele arregalou os olhos e minha mãe soltou uma gargalhada, alta e espontânea, como se estivesse assistindo a um episódio da melhor sitcom médica da Netflix. Mas, ao também receber meu olhar mortal, ela engoliu a risada e mordeu os lábios.

— Você está indo muito bem, filha — disse, fingindo compostura.

— Eu quero uma anestesia! — gritei, ofegante. — Mudei de ideia! Quero epidural, quero bloqueio, quero hipnose, quero coma induzido... qualquer coisa!

— Aguenta só mais um pouquinho, Sofia — disse minha mãe, segurando minha mão. — Você está tão perto.

Perto, uma ova.

Eu estava perto do além.

Os minutos se arrastaram. Tommy ficou ao meu lado, segurando minha mão com tanta força que achei que sairíamos os dois de tipoia. Ele beijou minha testa, falou palavras doces, jurou amor eterno.

— Eu também te amo, Tommy, mas para de falar porque agora eu só consigo te odiar por ter me engravidado.

Ele me lançou um sorriso amarelo, beijou minha testa e ficou quieto. Meu namorado sabe quando não deve me irritar.

Chegou um momento do trabalho de parto que eu só queria empurrar. Era quase uma vontade instintiva.

— Sofia, eu já vi o topo da cabeça — disse Dra. Clay, e naquele momento eu respirei com força. Era real. Wendy estava chegando. Estava mesmo.

— Vamos lá, Sofia. Empurra com força! — Mamãe disse, firme. — É a hora da nossa Wendy vir pra gente.

Empurrei, gritei e empurrei de novo.

E então...

O choro mais lindo que eu já ouvi ecoou pela sala.

Minha filha nasceu.

Wendy Swan Cullen.

Minha filha.

Tommy desabou e as lágrimas dele molharam meu rosto. Beijos choveram sobre minha testa, meus cabelos, minha boca.

Mamãe cortou o cordão com as mãos trêmulas e sorriu como se tivesse acabado de nascer junto. Dra. Clay embalou Wendy com cuidado e a colocou nos braços da avó primeiro, que fez uma rápida avaliação, profissional e emocionada, antes de entregar o pacotinho pra mim.

E ali ela estava.

Pele quente. Boca trêmula. Olhos semicerrados.

Meu mundo inteiro num embrulho de pano rosa.

— Oi, meu amor... — sussurrei, com a voz embargada. — A mamãe está aqui, minha pequena Wendy.

Tommy beijou nossas mãos entrelaçadas. E eu entendi, ali, naquele instante, o que era amor.

Não o amor da ficção, mas o amor em sua forma mais pura: o que grita, o que geme, o que sangra e o que nasce.

Agora éramos três.

***********

Acordei com a luz suave invadindo o quarto e o som delicado de uma respiração que não era a minha.

Por alguns segundos, achei que estivesse sonhando. Que tudo — o trabalho de parto, a dor, o caos, o grito primal que ecoei quando Wendy finalmente nasceu — tivesse sido uma alucinação induzida por hormônios e exaustão.

Mas então virei o rosto e vi Tommy sentado ao lado da cama, com a nossa filha nos braços. Ele olhava para aquele pacotinho cor-de-rosa como se fosse o milagre mais precioso do mundo. Seus olhos estavam marejados e um sorriso bobo se espalhava pelo rosto, como se ele tivesse acabado de descobrir o sentido da vida e não conseguisse acreditar na própria sorte.

Naquele instante, senti meus olhos se encherem de lágrimas também.

Ali, naquela cena silenciosa e serena, todos os meus sonhos adolescentes ganharam forma. Era tudo o que eu imaginava, lá atrás, desde a primeira vez que vi Tommy no ginásio da escola — antes dos nossos pais se apaixonarem, antes de nos tornarmos uma família.

E depois… depois que perdi o nosso bebê em Londres, desejei viver exatamente essa cena um milhão de vezes. Sofri por acreditar que ela jamais se tornaria real.

Mas aconteceu.

E ali estava ele — o amor da minha adolescência — com a nossa filha nos braços, olhando pra ela como se tivesse acabado de descobrir o universo.

Depois de uns minutos, Tommy percebeu que eu o observava e sorriu devagar.

— Ela é perfeita, princesa — ele disse, com a voz baixa, rouca de emoção. — E é a sua cara. Como eu sempre sonhei.

Fez uma pausa, acariciando os cabelinhos escuros da Wendy com o dedo indicador.

— Eu até poderia dizer que é injusto... mas, honestamente, acho que o útero de uma Swan é tipo uma máquina de xérox. Porque olha... a cópia veio fiel.

Sorri, divertida.

Era verdade. Eu e Elena sempre fomos muito parecidas com mamãe. Os genes dos Cullen eram maravilhosos, não me leve a mal, mas no fundo, eu sempre torci pra que Wendy puxasse a mim.

Justo. Depois do show de horrores que foi o parto, eu merecia uma recompensa.

— Posso pegar ela? — perguntei, estendendo os braços e Tommy assentiu, se aproximando devagar e depositando nossa filha nos meus braços com a delicadeza de quem manuseava um cristal.

Segurei Wendy contra o peito e... meu Deus. Ela era uma perfeição.

Pequenina, rosada, com o nariz delicado e a boquinha curvada como se estivesse sempre sonhando.

Todas as vezes em que trabalhei na neonatal, achei que bebês tivessem cara de joelho. Não todos, claro — alguns pareciam joelho amassado. Mas a minha filha não.

Ela era linda. Linda de verdade. E era minha.

Wendy se remexeu contra o meu peito e eu soube exatamente o que ela queria.

Meu coração disparou, junto com uma dúvida que me atravessou como uma contração silenciosa:

Será que eu vou saber amamentar?

E se ela não pegasse direito?

E se eu fizesse algo errado?

Respirei fundo.

Abri a frente da camisola com as mãos trêmulas e ofereci meu seio com delicadeza.

Ela levou um tempo. Buscou. Procurou com a boquinha ainda sem prática... até que encontrou.

Doeu, não vou mentir.

Foi uma dor aguda e cortante, mas breve, e então senti uma onda quente, um formigamento nos seios, como se meu corpo tivesse entendido o recado, e o leite desceu.

Wendy sugava com ritmo calmo, e ali, no meio daquela dor inicial e daquele instinto milenar, eu entendi o que era ser mãe.

A natureza era, de fato, impressionante.

— Obrigado por me dar a Wendy, Sofia — Tommy sussurrou depois de alguns instantes.

Levantei os olhos e encontrei os dele fixos em mim, cheios de uma ternura que fez meu coração acelerar.

— Obrigado por me perdoar, por voltar pra minha vida, por ser minha e por me permitir viver essa felicidade que, até hoje, eu nem sabia que existia.

Ele fez uma pausa, respirando fundo, como se buscasse as palavras certas.

— Eu achava que era um garoto completo. Eu tinha meu pai e a Mia. Mas aí conheci você... e tudo mudou. Eu não era ninguém sem a minha princesa. Mas agora, com a nossa filha nos braços, percebo que era disso que eu precisava pra ser inteiro de verdade. Vocês são o meu pedaço que faltava.

Sorri, mesmo com os olhos marejando, e baixei o olhar para Wendy, ainda aninhada ao meu peito.

— Você sempre teve esse dom de falar bonito, né? — murmurei, tentando conter a emoção que ameaçava transbordar. — E eu aqui, com a cara amassada, os peitos vazando leite e o corpo parecendo que foi atropelado por um caminhão.

Ele ri beijando minha testa.

— A mamãe mais gata de todos os tempos — ele diz e eu reviro os olhos, pois sei que estou bem longe de estar bonita nesse momento.

Toquei os dedos dele com os meus, por cima do cobertor.

— Eu também achava que sabia o que era amor. Mas você... você bagunçou tudo. E depois, me reconstruiu. E agora, com a Wendy, eu entendo. A gente precisava passar por tudo, Tommy, já que a jornada nos trouxe até aqui. E eu prometo... com todos os hormônios, as dores e as olheiras do mundo, que nunca vou deixar vocês dois esquecerem o quanto são tudo pra mim.

Ele sorriu e beijou meus lábios com carinho.

É, eu estava completa e estaria sempre enquanto eles estiverem comigo.

**********

As visitas começaram ainda naquela manhã. Eu estava cansada, com os seios doloridos e o corpo inteiro parecendo ter passado por uma queda de paraquedas sem paraquedas… mas cada nova entrada naquele quarto me lembrava de uma coisa: a Wendy era, oficialmente, o bebê mais amado do universo.

A começar pelo meu pai.

Edward Cullen chorou. Chorou. E olha que ele tinha ensaiado uma postura contida, elegante, sóbria — até segurar Wendy pela primeira vez nos braços.

— Eu sou jovem demais. E bonito demais — murmurou, a voz embargada, encarando o rostinho da neta. — Não é possível que já sou avô…

Mamãe riu, acariciando o braço dele.

— Você vai ser pra sempre o avô mais sexy dos Estados Unidos, amor.

A gargalhada coletiva foi inevitável, e eu fiquei só observando aquele momento ridículo e adorável, pensando em como meus pais continuavam sendo o casal mais apaixonado da história depois de anos juntos.

Mia parecia em transe. Literalmente. Pegou a Wendy com um cuidado tão exagerado que achei que fosse desmaiar.

— Ela é... ela é... o bebê mais lindo do universo! — disse, entre soluços, enquanto tentava não borrar a maquiagem com as lágrimas.

Elena, claro, não perdeu a deixa.

— É linda porque parece comigo — disse, como se fosse uma verdade científica. — Não tinha como ser diferente.

Benjamin, com sua inseparável capa da Grifinória (sim, ele veio com aquilo no hospital!), olhou pra sobrinha e disse:

— Eu não sei se ela é linda. Bebês são todos meio estranhos. Mas ela não chorou quando me viu. Então acho que gostou de mim. Ou está avaliando minha utilidade.

Lara chegou depois, e por mais que tentasse manter a pose, seus olhos vermelhos a denunciaram.

Segurou a Wendy com firmeza, acariciou seus cabelinhos e disfarçou a emoção com um comentário típico:

— Depois dos gritos da Sofia, que foram ouvidos da recepção, eu estou mais do que decidida a não ter filhos. Nunca. Obrigada.

Ethan, que apareceu com um urso de pelúcia quase do tamanho da maca, apenas revirou os olhos para a fala da namorada. Ele não ia desistir de tentar convencê-la a ter um bebê também.

— Para a filha do meu primo e melhor amigo — disse, orgulhoso, entregando o urso ao meu namorado. — Considerem isso o primeiro mimo. Vou estragar essa criança em todos os sentidos. Vai ser meu hobby.

Tommy riu e eu rolei os olhos. Wendy dormia tranquilamente, alheia à sua reputação futura de mimada número um.

Tia Alice e tio Jasper vieram logo depois, sorrisos emocionados e olhares esperançosos.

— Agora só falta a Lara nos dar netos... — tia Alice soltou com doçura.

Lara apenas fez uma careta, do tipo que diz "nem nos meus piores pesadelos", e fingiu que não ouviu.

Vovô Carlisle e vovó Esme também estavam emocionados. Disseram que não acreditavam que chegariam a alcançar os bisnetos, principalmente depois do câncer do vovô. Mas aqui estão eles, tirando mil e uma fotos com a primeira bisneta.

Charlie e Renée também vieram e ficaram impressionados por ela se parecer tanto comigo e com a minha mãe. Vovô chegou a brincar que os Swan devem ter alguma linhagem ligada à feiticeiras, porque não é possível que seja só genética.

Tia Rosalie e tio Emmett, assim que puseram os olhos em Wendy, também começaram uma campanha intensa por netos.

— Uma bebezinha na casa de novo! Olha essa bochecha! — tia Rosalie quase gritou.

— Quero um neto até o Natal — exigiu tio Emmett, já olhando para a nora com expectativa, mas Lara fingiu que estava recebendo uma ligação urgente e saiu do quarto.

Minhas amigas da residência também vieram.

— Ela é uma graça, Sofia. Uma princesinha — Anny disse, espiando minha filha.

— Já seus gritos... a gente ouviu da escada de incêndio — Nicolly falou e eu senti meu rosto corar. Tinha feito tanto escândalo assim?

— Verdade. Amiga, será que sobrou vagina aí? — Anny pergunta divertida e eu bufo.

— A culpa é do Tommy. — retruquei, sorrindo. — Foi ele que colocou essa criança dentro de mim.

Elas riram e meu namorado deu de ombros.

E Wendy, claro, bocejou no meu colo, como se dissesse que estava tudo bem. Que ela sabia que era o centro do mundo agora.

Quando Adam chegou, confesso que fiquei tensa. Achei que Tommy fosse travar, ou lançar um daqueles olhares de segurança territorial. Mas ele apenas aceitou o cumprimento e murmurou um “obrigado” quando Adam, com um sorriso gentil, disse que Wendy era linda.

E então eu soube que, apesar dos traumas, das cicatrizes, das quedas, dos recomeços... eu estava exatamente onde devia estar.

Com a minha filha nos braços. Com o homem que amo ao meu lado.

E com uma família inteira orbitando nossa pequena estrela.

Sim. Minha filha seria amada. Mimada. Provavelmente desobediente, mandona, cheia de personalidade.

Mas também seria cercada de amor. Do melhor tipo de amor: aquele que transborda mesmo quando a gente acha que não cabe mais.

E isso… isso era tudo o que eu precisava.

***********

Alguns dias depois...

A casa estava silenciosa demais para conter tanto amor. Tinha cheiro de comida recém-aquecida, flores sobre a mesa da sala e um monte de balões espalhados — uma mistura de aconchego com festa de última hora.

Wendy dormia tranquila no berço portátil montado na sala. Eu, sentada no sofá, observava cada respiraçãozinha dela como se estivesse diante de uma bomba-relógio prestes a explodir.

Tommy estava ao meu lado, a mão entrelaçada à minha, mas mesmo seu toque não conseguia espantar aquela inquietação crescente no meu peito.

Mamãe se levantou, pegou a bolsa com delicadeza e se virou para me olhar. Papai fez o mesmo. Mia já estava com o casaco nas mãos, prestes a sair com eles.

E foi aí que eu entrei em pânico.

— Espera. Vocês vão... embora?

Os três me encararam, meio surpresos com o meu tom. Eu me levantei num pulo — ou no que o meu corpo pós-parto permitia como “pulo” — e encarei minha mãe como se ela fosse a única pessoa do mundo que ainda podia me salvar.

— Mãe... eu não sei cuidar de um bebê.

Ela abriu um sorriso calmo, o tipo de sorriso que Bella Swan Cullen dominava desde que segurou um bisturi pela primeira vez.

— E se ela chorar? — continuei, a voz vacilando. — E se eu não souber o motivo? E se eu achar que é sono, mas for fome, e ela morrer de fome porque eu errei? Eu não sei o que estou fazendo!

Mamãe se aproximou com ternura, segurou meu rosto entre as mãos e falou como se estivesse dizendo a coisa mais simples e mais certa do mundo:

— Primeiramente... respira. Wendy nasceu de você. Ela conhece o seu cheiro, o seu toque, o seu som. Vai dar tudo certo.

— Mas e se não der? — sussurrei, com os olhos já marejados. — E se eu travar? E se eu não conseguir?

Ela sorriu, apertando de leve minha bochecha.

— Aí você me liga e a mamãe vem. Porque eu sempre vou estar aqui. Sempre.

Fez uma pausa, olhando pra mim com o mesmo brilho nos olhos que eu vi no hospital.

— Você é médica, Sofia. Uma excelente médica. Inteligente, cuidadosa... dedicada. Você vai saber o que fazer.

Fiz uma careta, mordendo o lábio.

— Ser médica é uma coisa. Ser mãe... é outra completamente diferente.

— Eu sei. — Ela suspirou e me puxou num abraço. — Mas posso te contar um segredo?

Assenti contra seu ombro.

— Ver você assim... com a sua filha nos braços... é como voltar no tempo. É como reviver aquele amor tão puro e tão avassalador que me tornou mais forte do que jamais imaginei ser.

Seus olhos estavam brilhando quando ela se afastou um pouco para me encarar.

— Ver você mãe é a concretização de tudo o que eu desejei desde a primeira vez que te segurei nos meus braços.

Eu sorri, tentando conter as lágrimas, mas era inútil. O choro veio silencioso, carregado de gratidão.

— Vai ficar tudo bem, minha filha. Eu prometo — ela sussurrou, me abraçando de novo.

Depois que eles saíram, a casa ficou quieta demais.

Tommy foi colocar a mochila da Wendy no quarto e eu fiquei na sala, ainda tentando me adaptar à ideia de que éramos só nós dois agora.

Quer dizer... nós três.

Olhei para o berço. Ela ainda dormia.

Ou assim eu pensei.

Foi só a porta bater, sinalizando que mamãe, papai e Mia tinham realmente ido embora, que Wendy acordou. E não foi um chorinho fofo de bebê.

Foi um grito. Um berro desesperado, potente, como se ela tivesse acabado de perceber que tinha sido deixada com dois adultos emocionalmente instáveis e sem a menor ideia do que estavam fazendo.

— O que foi isso?! — Tommy apareceu na sala, ofegante.

— O alarme da maternidade acabou de ser ativado — murmurei, já a pegando no colo com os braços trêmulos.

Wendy chorava como se fosse o fim do mundo. Eu comecei a andar pela sala, tentando encontrar uma posição, uma música, uma dança, qualquer coisa que servisse de manual para acalmar o bebê.

Tommy me seguiu.

— Você acha que é fome? Ou sono? Ou gases?

Nos olhamos desesperados.

— Bem-vinda à maternidade — sussurrei pra mim mesma, sentindo Wendy se aninhar contra meu peito. — A gente vai errar muito, minha filha. Mas vai te amar tanto que, com sorte, você nem vai perceber.

Continuei andando de um lado pro outro na sala, com Wendy colada ao meu peito, o coração acelerado e uma vontade absurda de chorar junto com ela.

Tommy estava ao meu lado, com o olhar atento e as mãos prontas para me amparar — ou para assumir a bebê se eu desmoronasse.

— Será que canto? — ele perguntou, num tom quase inocente.

— Só se quiser traumatizar ela pro resto da vida — murmurei, balançando suavemente enquanto Wendy ainda soluçava.

Tommy riu, apesar da tensão, e se aproximou um pouco mais. Colocou a mão sobre minhas costas, com um carinho silencioso, como se dissesse “tô aqui”. E de algum jeito, isso bastou.

Porque Wendy parou.

Não de repente, mas como se o mundo ao redor tivesse diminuído o volume só o suficiente pra ela perceber que estava segura.

— Acho que... funcionou? — ele sussurrou.

— Não respira — pedi, entre os dentes. — Nem se mexe.

Ficamos os dois imóveis por alguns segundos, até que ela soltou um suspiro comprido e voltou a dormir. Assim. No meio da sala. Nos meus braços.

Me sentei no sofá com cuidado, ainda a segurando como se fosse feita de vidro. Tommy se sentou ao meu lado e esticou o braço no encosto, me puxando devagar contra ele.

Apoiei a cabeça em seu ombro. E por alguns segundos... só ouvimos.

O som da respiração dela. O silêncio da casa. O barulho do nosso próprio coração, um batendo contra o outro.

— Acho que a gente sobreviveu à primeira crise — sussurrei.

— Por enquanto — ele respondeu, sorrindo contra meus cabelos. — Mas... ela se acalmou com você.

— Com nós dois — corrigi, virando o rosto para olhar bem dentro dos olhos dele. — Eu sozinha teria surtado.

Fiz uma pausa.

— Aliás, eu surtei.

Tommy riu baixinho e beijou minha têmpora.

— Você foi incrível. É a melhor mãe que nossa filha poderia ter.

Sorri. E dessa vez, não chorei. Só deixei o coração se encher.

— E você é o melhor pai. Mesmo com essa barba por fazer e cara de quem não dorme há três dias.

— Isso é o que me torna oficialmente um pai — ele disse, fingindo orgulho.

Wendy se mexeu no meu colo, mas só soltou um bocejo e voltou a dormir.

Eu passei a mão com cuidado pela cabeça dela, tão pequenininha, tão nossa.

— Eu tô com medo — confessei, quase num sussurro. — Medo de errar. De não dar conta. De falhar com ela.

Tommy ficou em silêncio por um momento, depois me puxou ainda mais pra perto.

— A gente vai errar. Isso é certo.

Eu ri.

— Ótimo incentivo, amor.

— Mas a gente vai acertar também. Vai aprender. E acima de tudo... vai amar tanto essa menininha que nenhum erro vai ser maior do que isso.

Fechei os olhos, sentindo as lágrimas acumuladas finalmente recuarem. Wendy estava segura.

Eu também.

A casa estava em silêncio, mas era um silêncio bom. Um silêncio cheio de promessas, de aprendizado, de noites longas e manhãs bagunçadas.

E ali, no sofá, com minha filha no colo e o amor da minha vida ao lado, eu entendi: a vida nunca mais seria a mesma. E eu não queria que fosse.



Notas finais
Eu não vou me desculpar. Só espero que vocês tenham gostado do capítulo!