Laços de amor
63 Capítulo Bônus 10: A vida de Tommy e Sofia
Laços de Amor
Los Angeles
Sofia
Olhei minha imagem no espelho e sorri minimamente para a mulher refletida nele, que era tão igual e, ao mesmo tempo, tão diferente da menina que eu fui um dia.
Contrariando a todas as minhas expectativas, eu tinha ficado realmente bonita vestida de noiva e, apesar do vestido ser apertado e pesado, como eu imaginei que seria, não me parecia mais um sacrifício tão grande ter que usá-lo por um dia.
Afinal, eu faria por amor. Por amor a Tommy, aos meus pais e a toda minha família que, com certeza, morreriam se eu recusasse a me casar vestida de noiva.
― Você ficou maravilhosa, filha. ― Ouvi a voz embargada da minha mãe e a encarei pelo espelho, sorrindo para ela.
― Obrigada, mãe. Sabe que eu também me achei maravilhosa nesse vestido?
― Você já é linda, Sofia. Sempre foi. Vestida assim, então... Parece um sonho. Tommy vai ficar ainda mais apaixonado quando a vir com este vestido.
― É esse, então? ― Não consegui esconder o alívio, pois já estávamos há semanas andando por todos os centros comerciais de Los Angeles em busca do vestido de noiva ideal.
Eu briguei, esbravejei e me recusei a abdicar de todos os meus dias de folga a fim de encontrar esse bendito vestido, mas aparentemente minha vontade era o que menos importava, já que minha mãe, minhas irmãs e minha tia simplesmente me ignoravam e continuavam a me arrastar para todos os lados, quando tudo o que eu queria era dormir e aparecer pronta no dia da festa do meu casamento que eu não queria, definitivamente, organizar.
Mas, hoje era meu dia de sorte e, graças aos céus, essa busca havia finalmente terminado. O vestido estava escolhido e a partir de hoje eu poderia desfrutar dos meus dias de folga como eu bem entendesse.
Pelo menos era o que eu esperava.
― Por mim o vestido está escolhido. Você ficou mais do que linda com ele... ― Eu sorri satisfeita e me virei para encará-la. Foi quando me dei conta que Isabella Swan estava se debulhando em lágrimas. ― Ah, meu amor, eu não consigo acreditar que minha princesa linda vai se casar.
― Ah, mãe, não chora. É para você ficar feliz! ― Eu falei abraçando-a e ela fungou, me apertando em seus braços.
― Mas, eu estou feliz, Sofia. Muito. Mais do que feliz, até... Eu sou uma mãe muito orgulhosa da mulher maravilhosa e linda que você se tornou. Isso sem falar na profissional incrível que você é. Vê-la nesse vestido é a realização de um dos meus sonhos de mãe. Eu sempre desejei que você tivesse mais sorte no amor que eu e que encontrasse um homem bom que te fizesse muito feliz. E eu sei que Tommy é esse homem. Então, não há a menor possibilidade de eu não estar feliz com esse casamento. Acho que estou mais feliz que você. ― Eu ri e beijei seu rosto.
― Mãe, eu já aceitei a ideia do casamento. Ainda acho isso de festa um exagero, mas se é o que vai deixar Tommy e vocês felizes, eu aceito passar por esse suplício ― Ela revirou os olhos para o meu drama. ― E você tem razão quanto ao fato de Antony Cullen ser o homem que vai me fazer feliz. Eu o amo e, apesar de ele me irritar vezes sem fim, quero passar o resto da minha vida ao lado dele.
― Eu sei que tenho razão. Vocês são perfeitos juntos e apesar dos desencontros, estão felizes e serão felizes nessa nova jornada chamada casamento. Mas, agora, se troque. Vou acertar os detalhes da compra do vestido e te espero na recepção.
― Mãe, eu posso pagar por ele. ― Eu protestei e ela bufou, me encarando exasperada.
Já era a décima vez que tínhamos essa discussão, mas Isabella Swan Cullen era teimosa demais e não aceitaria nunca que eu pagasse pelo vestido.
Mas, não custava nada insistir.
― Eu sei que você pode, Sofia, mas eu quero dá-lo a você. Assunto encerrado. Agora se apresse, pois eu estou com fome e quero almoçar. ― Eu bufei.
Quando era eu que reclamava de fome, ela simplesmente me ignorava.
Mães!
Tirei o vestido com a ajuda da vendedora e fui para a recepção. Isabella Swan, é claro, já havia feito o pagamento e agendado as próximas provas, já que a peça teria que ser ajustada.
― Solta um pouquinho na cintura, pois ficou muito apertado. ― Eu pedi e ganhei uma cotovelada de Mia.
― Não solta não. Você tem que estar esbelta e elegante e a cintura apertada vai garantir isso.
― Eu tenho que conseguir respirar também, Mia. Solte um pouquinho sim. Eu sou a noiva e sou eu que decido. ― Ela bufou, mas eu fiz questão de ignorá-la e encarar a vendedora, para deixar claro quem era que mandava ali.
Afinal, era eu que teria que usar aquela por... Quer dizer, aquele vestido e, portanto, era eu que iria decidir qual o comprimento da cintura. Eu me recusava a passar horas sofrendo com uma roupa apertada apenas para parecer esbelta e elegante.
Depois de um almoço maravilhoso regado de frutos do mar e muito vinho, convenci minha mãe a me levar para casa, onde eu dormi pelo resto do dia. Finalmente estava tendo minha tão sonhada folga.
Já era tarde da noite quando Tommy chegou do trabalho e me encontrou ainda dormindo.
― Não vai sair dessa cama não? ― Ele perguntou, me beijando com carinho e eu sorri, me espreguiçando.
― Pra falar a verdade, não. Você vai me trazer comida e eu vou continuar aqui, até amanhã, quando eu tiver que ir para o hospital. ― Ele riu.
― Quem te falou que eu vou te trazer comida na cama?
― Eu falei, Antony Cullen. Fui obrigada a abrir mão da minha folga por semanas para ir atrás de um vestido de noiva perfeito. Eu te odiei, odiei nossas irmãs, nossa mãe e minha tia. Mas, por vocês não desisti e hoje, que finalmente encontrei esse vestido, mereço ser mimada. ― Ele riu e se deitou ao meu lado, me puxando para os seus braços.
― Mia me disse que vocês encontraram o vestido. Mal posso esperar pelo momento de finalmente vê-la vestida nele e vindo em minha direção na igreja para dizer sim para uma vida inteira ao meu lado. ― Eu sorri e ergui minha cabeça, beijando seu queixo.
― Logo você vai realizar esse sonho, Tommy. E, modéstia à parte, eu fiquei muito gata naquele vestido.
― Você é uma gata, Sofia. Sempre foi.
― Você também não é feio, Tommy. ― Ele me beijou e eu me derreti. Como sempre, aliás.
― Você sabia que nossos móveis chegaram? ― Ele me perguntou e eu sorri.
― Sabia sim. Aliás, o apartamento ficou lindo depois da reforma. Contratei uma equipe de limpeza e, se tudo correr bem, podemos nos mudar no próximo fim de semana.
― Sério? ― Os olhos deles brilharam. Acho que no fundo, Tommy não acreditava que eu fosse aceitar morar com ele antes do casamento. E a culpa era minha, pois eu realmente o havia enrolado nessa questão.
Mas, eu me sentia pronta e me mudaria. Estava até animada com a ideia de voltar a viver em Santa Monica.
― Sério. Vou começar arrumar minhas coisas para a mudança. Mas, não precisamos ter pressa. O apartamento não vai fugir de lá.
― Eu sei que não vai fugir, mas eu tenho pressa de viver só com você.
― Por causa dos seus planos sexuais? ― Eu brinquei e ele riu, me apertando em seus braços.
― Por causa desses planos também. Mas, a verdade é que eu tenho pressa para dividir uma vida com você. Eu sei que a gente namora há um tempão e que vivemos juntos na casa dos nossos pais, mas eu quero você só pra mim. Sou egoísta, eu sei. Mas, eu não ligo.
― Gosto do seu egoísmo. E saiba que eu também quero viver só com você. ― Ele sorriu e me beijou.
― Então, vamos mesmo nos mudar?
Eu respirei fundo e mandei todo o medo que eu ainda sentia para o fundo da mente. Tommy e eu seríamos felizes. Eu tinha certeza. Além do mais, arriscar-se era preciso.
― Sim, nós vamos. ― Eu respondi e ele sorriu largamente, me beijando em seguida.
Ia dar tudo certo.
Tinha que dar.
***********
Alguns dias depois...
― Como vai a casa nova? ― Nicky me perguntou e eu sorri, enquanto terminava as suturas de um adolescente que havia se metido em uma briga por causa de garotas.
― Ela está pronta. Tommy e eu terminamos de levar nossas coisas ontem. Hoje será nossa primeira noite como moradores da nossa nova casa.
― Não entendo o porquê de não esperar o casamento para fazer a mudança definitiva. ― Revirei os olhos.
― Porque Tommy morreria se tivesse que esperar mais por sua tão sonhada privacidade. Aí, pelo bem da minha sanidade mental, eu resolvi me mudar já. De qualquer forma, não falta muito para o casamento e uma hora eu terei mesmo que ir morar com ele. Por que não agora?
― E sua mãe? Já parou de chorar? ― Eu fiz uma careta. Se minha mãe fosse a única a chorar pela separação eminente seria fácil. O problema é que todos lá em casa estavam sofrendo, inclusive eu. Seria bem difícil me acostumar outra vez a viver sem minha família louca e barulhenta por perto.
― Por ela, Tommy e eu moraríamos lá para sempre. O que me consola é que já passamos por uma separação antes e sobrevivemos. E agora eu não vou mudar de estado. Só de casa. Então, vai ser mais fácil. Pelo menos é o que eu espero.
― Além disso, ela vai continuar te vendo aqui no hospital todos os dias, porque você é uma residente e residentes nunca saem dessa droga de hospital. ― Eu ri.
― Esse é o meu maior consolo, Nicky.
Terminei a sutura e após dar alta ao paciente e recomendações sobre o uso do analgésico para sua mãe, voltei para a emergência que estava a todo vapor.
Fui designada a esperar por uma ambulância que estava a caminho e após vestir meu avental, corri para a entrada, me deparando com Anny e Adam.
― Sabem do que se trata? ― Eu perguntei e eles deram de ombros.
― Não. Só pediram pra gente esperar aqui. ― Anny respondeu e eu assenti, observando a ambulância se aproximar e me preparando para o atendimento.
― Mulher de 22 anos, desacordada e com hemorragia intensa. Pressão sistólica baixa. Tratamos com plasma e soro, mas não conseguimos conter o sangramento. ― O paramédico explicou, enquanto nós assumíamos os cuidados com a paciente e a encaminhávamos rapidamente para a emergência.
― Gente, será que foi um estupro? ― Nicky perguntou, enquanto a examinávamos e eu estremeci, torcendo para esse não ser o caso. Odiaria ter que atender uma vítima de um ato tão hediondo e violento.
Mas, depois de alguns minutos, eu cheguei rapidamente a um diagnóstico, o que fez minha garganta secar e meu coração falhar algumas batidas.
― Não é estupro. Essa moça está sofrendo um aborto. Chamem a Dra. Clay e peçam uma sala de cirurgia. ― Eu falei, me dirigindo aos meus internos, que saíram tropeçando uns nos outros a fim de atender meu pedido.
Senti o olhar de Adam sobre mim, mas tratei de ignorar. Aquela moça era nossa prioridade e, por isso, a encaminhei o mais depressa possível para o centro cirúrgico, jogando para o fundo da mente toda e qualquer lembrança ou sentimento que pudesse atrapalhar minha atuação profissional.
Mas, apesar de todas as tentativas, não conseguimos evitar que a paciente perdesse o bebê. Era muito difícil reverter um aborto espontâneo em andamento e sobre isso eu entendia muito bem.
Fizemos um procedimento de dilatação e curetagem supervisionado pela Dra. Clay, que me deixou responsável pela paciente.
― Sofia, quando ela acordar, dê a notícia da perda do bebê. Faça isso com todo cuidado, pois é provável que ela esteja muito fragilizada. Qualquer dúvida, me chame. Estarei de plantão a noite toda. ― Ela me pediu e eu assenti, evitando a todo custo o olhar atento de Adam.
― Dra. Clay, acho melhor que eu dê a notícia. Assim a Dra. Swan pode voltar à emergência. ― Ele sugeriu e eu respirei fundo, enquanto esperava a resposta da Dra. Clay.
― Eu prefiro que Sofia fique responsável por essa paciente, Dr. Jones. O caso é um aborto espontâneo, que é sempre uma experiência muito traumática para a mulher. Sofia é mulher e mesmo nunca tendo passado por algo parecido, é melhor que ela cuide do caso. Isso trará conforto à paciente. Volte você à emergência.
Depois que a médica atendente se afastou, eu me virei para voltar para o quarto da paciente, mas Adam me impediu, segurando meu braço.
― Sofia...
― Não, Adam. Hoje não. Eu preciso verificar a paciente.
― Não se faça de forte. Eu vi sua reação quando percebeu que a paciente estava sofrendo um aborto.
― Um aborto é sempre triste para uma mulher. ― Eu murmurei e ele revirou os olhos.
― Claro que é. Eu sei. Principalmente se essa mulher...
― Não. Cala a boca. Eu não quero falar sobre isso.
― Devo concluir que você não contou a ninguém o que aconteceu em Londres. ― Eu estremeci.
Não. Eu nunca havia contado para ninguém o que havia acontecido em Londres. Nem para Lara, nem para o Tommy e nem mesmo para minha mãe. O único que sabia era Adam e eu pretendia que continuasse assim.
― Isso não é da sua conta. A minha vida, minhas decisões e meus segredos não te dizem respeito. ― Ele riu.
― Nosso segredo, Sofia. E para deixar claro, eu sei que sua vida, suas decisões e seus segredos não me dizem respeito. Mas, você irá se casar em breve. Acredito que você esteja apostando na felicidade. E, na minha opinião, não dá para ser feliz escondendo algo tão sério do futuro marido.
No fundo eu sabia que ele tinha razão, mas eu simplesmente não estava preparada para reviver aquele pesadelo. Não saber o que aconteceu em Londres era o melhor para todos. Assim, todo o sofrimento seria sempre apenas meu.
― Vai pro inferno, Adam. E esqueça o que aconteceu em Londres. Do meu casamento e da minha felicidade cuido eu. ― Eu disse e segui rapidamente para o quarto da paciente.
Ela acordaria em breve e eu teria que lidar com a pior notícia que uma mulher poderia receber.
Já era tristeza demais para um dia.
Portanto, não precisávamos acrescentar minhas próprias dores e lembranças a esse quadro clínico.
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