Laços de Ódio
2 Irmã Problemática
Notas iniciais
Hoje é sexta. Os últimos dias foram um inferno na minha vida. Minha irmã fez tudo que conseguiu para me tirar do sério e me ferrar completamente. Felizmente, minha mãe concordou em me deixar participar do First Rock no sábado, porque comparado com minha irmã, eu sou um anjo.
Logo que eu saí da escola começamos a ensaiar na minha garagem. Eu toco bateria e por sorte o pé que eu quebrei foi o que eu não uso na hora de tocar, mas mesmo assim fica difícil e dói bastante o pé de ficar apoiado no chão.
–A gente tem que se concentrar, Vítor, assim não dá! – Henrique, o vacalista brigou com meu melhor amigo que era o baixista.
–Desculpa cara! É que está difícil me concentrar, enquanto só consigo pensar nela...
–Eu só penso em games e consigo me concentrar – Filipe comentou, ele era o guitarrista.
–É diferente – eu falei para eles. – O Vítor ta apaixonado, a gente tem que entender, todo mundo já esteve assim alguma vez.
–Eu não entendo essa de vocês de se apaixonarem, cara...- comentou Willian, o cara mais estranho da nossa banda e muito legal ao mesmo tempo, ele era o tecladista.
–Eu também não, Will... – Rick falou rispidamente – o meu lance é só pegar mesmo, não tem essa de romance, nem namoro, cara, as garotas gostam disso!
–Será?
Fiquei pensativo por muito tempo, mesmo depois que o ensaio acabou. Era engraçado e ao mesmo tempo triste de ver meus amigos, cada um tão diferente do outro, sofrendo e discutindo coisas assim. Eu fiquei mais na minha nesse ensaio, nesse momento preferia conversar sobre filmes, a banda, um livro, qualquer coisa que não envolvesse garotas ou notas. Era como um assunto proibido na minha lista negra de assuntos.
Cada um dos meninos da banda era especial de um jeito diferente. Henrique, mais conhecido como Rick era o vocalista da banda, mais desinibido, pegador e desencanado com a escola, muitas garotas gostavam dele, os olhos azuis ajudavam muito na hora de “seduzir” as garotas e muitas delas assistiam nossas apresentações apenas por causa dele.
Willian é um cara super estranho, não o conheço muito bem para julgar, mas acho que ele nunca pensou em garotas do jeito que a gente pensa e nem em meninos, quero dizer, ele não é homossexual, nem heterossexual, isso é o mais estranho. Ele é bem calado e fala nas piores horas da conversa. Não presta atenção em nenhuma aula e vai bem em quase tudo.
Felipe é o tipo de cara que se fizesse um esforço extra seria popular como o Rick. É difícil para mim, como um menino, dizer isso, mas ele é bonito (e eu não sou gay). Ele tem um estilo próprio, problema é que só pensa em games e isso o torna estranho. Eu só sei de duas garotas que ele gostou e até ficou, mas acabou que foi só isso.
Vítor era meio romântico demais e sofria por isso, acho. Tinha cabelos loiros e cacheados e era como o orgulho da mãe, ia bem na escola, não dava trabalho, fazia de tudo, tocava, jogava futebol, falava quase três línguas fluentemente. Acho que isso assustava as garotas, talvez isso não fosse o que elas pensavam ser perfeito. Não por enquanto pelo menos.
Eu entendia o Vítor e queria estar sofrendo do mesmo problema que ele. Fala sério, a gente está no nono ano, algo importante e inesquecível tem que acontecer conosco, algo que possamos contar para todos, nada tão simples como um baile de escola, venda de rifas ou festivais de música, tinha que ser como uma explosão. Fui despertado dos meus devaneios com um grito do Rick.
–Gente, fala sério, vamos ensaiar! Temos uma apresentação e eu não vou me ferrar por causa da falta de sexo de vocês!
Eu ia responder e cheguei até a abrir a boca, mas fechei-a quando Vítor virou de costas segurando a guitarra displicentemente e negou com a cabeça, num gesto de “cara, não vale a pena”.
@@@
Depois que todo mundo foi embora, entrei em casa. Estava tudo muito silencioso, o que me deixou espantado, meu pai mexia em seu computador e minha mãe assistia televisão, eles não conversavam, talvez estivessem em uma época ruim, não queria que eu e minha irmã fossemos a causa da briga deles, mas, sabia que era inevitável.
Entrei no meu quarto e me joguei na cama como sempre. Depois levantei-me para colocar o computador para carregar. Sabia que tinha que dormir cedo, mas, estava muito nervoso e agitado para conseguir. Não encontrei meu carregador em lugar nenhum e já estava começando a ficar irritado como sempre fico ( e acho que todo mundo fica) quando não acho alguma coisa. Mas, então, percebi:
–Esmeralda.
Falei para o nada rispidamente. Nós tínhamos o mesmo modelo de computador e, obviamente, ela tinha perdido ou quebrado o carregador dela. Peguei a chave do meu quarto, porque ela quase nunca deixava o quarto aberto. Fui pisando firme até o quarto daquela idiota, enfiei a chave e girei, entrando sem bater.
–Esmeralda! Eu quero meu carrega...
Parou quando viu a irmã. Não só ela, mas aquela tal de Paula, uma amiga dela que parecia santa. Bem, não só parecia, eu realmente acreditava que ela era. O namorado de Em estava sentado na janela, meu dentro, meio fora da casa. O problema nem era esse. O problema era o que eles estavam fazendo que impressionou. O cheiro doce invadiu meu nariz e fez meus olhos lacrimejarem.
–Em! Eu não acredito no que eu to vendo! – berrei com ela.
A expressão dela variou de choque para raiva, de raiva para medo, de medo para confusão, de confusão para arrependimento, em questão de segundos.
–Gabriel, você não devia estar aqui! NUNCA entre sem bater, seu filho da mãe! E feche essa porta agora.
Instintivamente, eu obedeci. Fechei a porta comigo dentro e fiquei encarando os três, sem palavras ou com muitas que não conseguia dizer.
–O que você quer?
–Queria meu carregador, mas agora, quero saber o que isso significa?
–Significa maconha seu idiota! Você vai me dedurar pro papai?
Eu pensei nisso por um momento, não sabia o que fazer. Não podia me preocupar com Em agora, sei que parece egoísta, mas ela já me causou problemas demais e eu não sei como lidar com isso, minha irmã fumando, era algo que me impressionou. Não que eu nunca imaginei, mas não pensava ser verdade.
–Eu não acredito que você trouxe isso pra nossa casa.
Ela jogou o carregador pra cima de mim. Os dois outros permaneciam calados, Paula parecia mais assustada, talvez ela realmente fosse santa...
–Eu não vou falar nada hoje, Esmeralda, tenho uma apresentação importante amanha.
–O mundo não gira em torno de você.
–Eu sei disso, eu só... – disse indo para a porta, chocado demais. – Esperava mais de você.
Eu sai e fui para o meu quarto, é claro que continuei pensando naquela cena, naquele cheiro estranho para mim e fiquei pensando o que tinha levado minha irmã à isso? O que meus pais fariam se descobrissem? Ficariam chocados, bateriam nela, provavelmente. Minha mãe diria que é melhor procurar ajuda e meu pai não diria nada. Eles me obrigariam a ir com Esmeralda no Grupo de Apoio e perguntariam toda hora se eu também tinha problemas com drogas. Em menos de seis meses meus pais estariam separados. Ninguém conseguia lidar com aquilo.
Me concentrar para amanha? Acho que ficou claro que vai ser bem difícil, consigo até ver o Rick me esfolando...
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