Cara, como estava animado quando acordei. Tinha quase, completamente, esquecido minha irmã. A única coisa que importava era o First Rock, que me aguardava. Acho que ainda não expliquei, mas o First Rock é uma competição de bandas, além de ser uma oportunidade excelente, o vencedor ganha um bom dinheiro.

Coloquei a camiseta da minha banda favorita, uma calça jeans e um cinto. Olhei no espelho e fiz uma careta. Meu cabelo estava ridículo e aqueles óculos eram mais visual nerd do que roqueiro. Baguncei o cabelo com um pouco de gel, deixando arrepiado, ficou melhor, um pouco pelo menos. O óculos eu decidi que tiraria na hora de tocar, afinal, pra que enxergar se eu pretendia tocar com o coração. Ok, isso soou gay, não é isso não, foi só uma metáfora.

Como ainda não posso dirigir(ano que vem já vou poder!), Rick ficou de pegar todo mundo para que a gente pudesse chegar juntos lá. Começa às 10 horas, mas acho que a gente não vai tocar tão cedo, só a tarde. Escutei a buzina quando já estava no andar de baixo tomando café, nem consegui acabar e sai correndo agarrando forte minhas baquetas.

–Xau mãe!

–Boa sorte, filho.

Entrei no carro do Rick, e ligamos o rádio no rock. A sensação de poder ligar o rádio e escutar a nossa própria música transmitiu um tipo de energia diferente, uma vibração percorria meu sangue , podia ser apenas nervosismo, e realmente era um pouco daquele frio na barriga, mas tanto eu quanto Rick não conseguíamos tirar aquele sorriso bobo da cara.

Passamos na casa dos garotos e todos nós fomos apertados no carro até o Land’s Coffee e quando chegamos Rick não parava de xingar porque não tinha onde estacionar. O Land’s Coffee não tinha estacionamento. Depois de uns quinze minutos não podíamos mais ficar perdendo tempo, então, deixamos o carro encostado em qualquer lugar da rua.

Meu deus! O Land’s Coffe estava lotado! Era o maior café do bairro e, ainda assim parecia pequeno para tantas pessoas. Não havia mesas para sentarem, mas sofás e mesinhas altas. Os dois balcões enormes das vendas do local que expunham deliciosos pães doces, pães de queijo, brownies, cookies e palhas ficavam na parede lateral. Jovens e alguns adultos esparramados nos sofás, outros só tentavam fazer seus pedidos, outros só tomavam café e andavam pela loja.

Na parede oposta, onde sempre ficavam as máquinas de refrigerante, agora estavam mesas vendendo Cds (a maioria rock, obviamente.), botons, até alguns livros e camisetas, o que movimentava mais o Land’s. Li, de relance, aquela faixa e meu coração começou a bater mais forte e agora eu estava com medo.

FIRST ROCK

...

Algumas bandas tocaram antes de nós, o que só aumenta o nervosismo. O Vítor estava muito nervoso, eu sei disso porque sou melhor amigo dele, ele tentava controlar a respiração e as mãos dele suavam, sempre que ele estava nervoso. Na realidade, o único que não parecia nervoso era o Will que estava comendo um brownie. Fala sério, quem come antes de uma apresentação, isso é loucura, eu vomitaria, talvez...

Sentei numa das mesinhas altas, enquanto Vítor pegava uma água e se juntava a nós. Fechei os olhos e respirei fundo, mas não consegui limpar minha cabeça, por causa de todos problemas em casa.

–Nossa, cara, agora que eu vi... Você está parecendo um zumbi, igual aqueles de The Walking Dead! – comentou um deles nem sei... eu estava de olhos fechados e nem discuti, a pessoa devia ter razão.

–Que poser, os zumbis de “The Walking Dead” são uma piada...

Eles começaram a discutir o que eram zumbis e apocalipse zumbi e eu realmente estava com um zumbido doido no meu ouvido e foi quando abri os olhos e a vi. Ela estava vendo os Cds, de cabeça baixa de modo que o cabelo, castanho meio armado e encaracolado, mas hidratado, caia perfeitamente quase até a cintura escondia quase todo o rosto dela. Usava uma touca (talvez para aquecer, talvez para dar estilo) branca que parecia que ia cair da cabeça dela, mas ao mesmo tempo estava bem encaixada ali.

A menina usava uma blusa mais comprida atrás quer era cinza e azul, um jeans cinza claro skinny e um all star preto. Pareceu que ela achou um Cd de seu gosto, pois contraiu o canto da boca num sorriso e tirou um Cd da caixa analisando as músicas. Falou algo com o vendedor, deu o dinheiro e pegou o Cd.

Quando ela virou, eu só consegui pensar: ai meu deus, que gata! Cabelos castanhos, a blusa meio solta não demarcava muito o corpo. Usava uma gargantilha preta com um pingente que eu não conseguia ver direito com meu alto grau de miopia. Eu, sinceramente, acho que eu estava de boca aberta, praticamente, babando, porque a menina olhou para mim e seu olhar parou por um momento, franziu as sobrancelhas (os olhos dela pareciam verdes, indecifráveis), baixou o olhar para guardar o Cd na bolsa. Acho que esse era o sinal para que eu parasse de olhá-la, mas eu simplesmente não consegui. Não tive reação alguma. Ela subiu novamente o olhar e levantou uma das sobrancelhas, talvez indagando o quão idiota eu sou.

Depois, saiu andando, pelo Land’s Coffee, estava me levantando ( quando recuperei os movimentos), mas Vítor me puxou e disse:

–Vamos, Gabriel, temos que ir, faltam só 5 bandas pra gente.

Me deixei levar, segui Vítor e os meninos até o fundo, procurando por ela com o olhar, mas, não consegui encontrá-la. Nós estávamos nervosos para tocar, uma banda antes Rick juntou a gente, para falar as últimas palavras para o grupo. Acho que deu para perceber que o Henrique é um tipo de líder da banda, além de ser vocalista, ele tem todo aquele porte de extrovertido que passa confiança e sabe mandar nas pessoas, então, sim, é ele que nos reúne antes dos “shows”.

–Gente, vocês viram essa galera aqui? A gente vai arrasar, eles amam nosso estilo de música. Willian lembra de entrar só no começo do meu terceiro acorde, Vítor, lembre-se do que treinamos e concentre-se e... Gabriel, você está um pouco estranho hoje, tenta se concentrar e esquecer os problemas de casa... Nossos ensaios foram ótimos então pensem como se fosse um ensaio e não olhem muito pras pessoas quem não quiser, pra... ahn não ficar nervoso.

–Acho que chega, Rick, — falou Felipe. — Apenas, vamos arrasa ali.

Bem, não sei como explicar para alguém que não toca ou se apresenta, o nervosismo de subir no palco. È simplesmente, desesperador, a única coisa que a gente quer é vomitar ou fugir, as mãos suam frio e quando chamam o seu nome, no meu caso o nome da banda, a visão fica ligeiramente, o cérebro tenta impelir as pernas a se moverem e elas se movem, mas dificilmente alguém sobre esse efeito sobrenatural percebe que está caminhando até o instrumento que tem que tocar.

Ouvir os aplausos que nos recebiam? Nem pensar. Comecei a tocar, mas só me toquei o que estava acontecendo alguns minutos depois. Estávamos tocando sem retorno. Eu não conseguia escutar os acordes da guitarra, nem do baixo, muito menos do teclado, escutava vagamente a voz, mas nem isso estava claro. Ainda que o lugar fosse pequeno como o Land’s Coffee, tocar sem retorno é uma grande merda, porque tudo fica descoordenado.

Acabamos a primeira música. Aquela que não era de nossa autoria. Eu só rezava para que todos estivessem dentro da música. Ouvi Rick agradecendo o pessoal que estava assistindo.

–Valeu gente, agora, a gente vai tocar uma música de nossa autoria, para infelizmente finalizar.

Algumas meninas gritaram “GATOO!”, com certeza para o Rick.

–Então votem em nós, somos os....

Antes de começarmos a tocar novamente, vi a menina de antes e de pé em meio a pequena multidão, não enxergava o rosto dela nitidamente, mas tive a impressão de que me encarava fixamente. Eu devia ter ficado, mas nervoso quando a vi, talvez eu já estivesse nervoso o suficiente, então, a segunda música eu toquei com o coração, estava inspirado. E vou ser sincero, foi demais. A melhor apresentação da banda, mesmo sem retorno, todos aplaudiram e gritaram muito.

Descemos do palco improvisado ali e nos abraçamos animados. Podia até parecer uma cena estranha, mas era apenas um abraço entre amigos. Fomos tomar uma água para descansar e parar de suar e Felipe e Vitor não paravam de repetir: “Vocês viram quanto eles aplaudiram?” e o Rick dizia: “Para tudo, foi demais!”. Muitos vieram nos dar parabéns e apenas agradecíamos.

Fui até o balcão pedir uma Fresh Drink e estava esperando meu pedido sair quando escuto uma voz feminina atrás de mim:

–Parabéns, mandaram bem...

Notas finais
xoxo ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.