Laços da Magia
2 Capítulo I
Notas iniciais
Capítulo I
Seis anos mais tarde....
— Está tão linda, princesa – disse Miriam emocionada.
Alina observou o vestido de casamento no espelho e sentiu o estômago embrulhar. O vestido de seu casamento. De fato o vestido era perfeito. O corpete era cravejado de pedras, as mangas possuíam um tecido transparente e a saia várias camadas de tecido branco. Um vestido digno de uma princesa disse a costureira chamada Josephine. A garota imaginava que nesse momento estaria radiante e animada com o vestido e as preparações do casamento. Porém, cada dia que passava era como se a sensação de aperto no seu peito aumentasse.
Alina imaginava desde criança casar-se com um homem que ela amasse e que juntos teriam um reinado próspero. Mas no reino existia uma tradição de que apenas os homens poderiam assumir o trono e próximo na linha de sucessão era seu irmão. Apesar de Alina ser a filha mais velha nunca poderia ser rainha de seu próprio reino. Apenas por uma aliança de casamento e era exatamente isso que seu pai comunicou após ela completar dezoito anos. O rei de um reino vizinho havia feito uma proposta de casamento.
O rei Richard era um homem muito mais velho que Alina e já possuía até barba e cabelos grisalhos. A garota o tinha visto em apenas um jantar com seu pai e ele parecia ser um homem extremamente atrapalhado, bêbado e que adorava contar piadas sem graça. Como seu pai atrevia-se a dar sua mão em casamento a um homem daqueles? Quando Alina foi contestá-lo ele apenas a olhou indiferente dizendo que estava na hora dela se casar e que o rei Richard era um bom partido, afinal, ela ia tornar-se rainha. Apesar de estar contrariada com a ideia daquele casamento, Alina não fez nenhuma objeção. Afinal, desde criança ela estava sendo preparada para aquele momento. Mas sabia que seria infeliz ao lado do rei Richard.
As preparações para o casamento começaram rapidamente. Em menos de um mês a cerimônia deveria acontecer de acordo com seu noivo. Uma costureira foi enviada para fazer o vestido e Miriam estava encarregada juntamente com uma equipe de criados nos demais preparativos. Alina preferiu não envolver-se em nada. O casamento ocorreria ali mesmo no castelo e o rei Richard chegaria em uma semana. A cerimônia seria feita no dia seguinte à sua chegada.
— Ai! – gritou Alina ao sentir a picada da agulha da costureira.
— Preciso que permaneça quieta, princesa – repreendeu a mulher – Preciso terminar os ajustes.
— Então seja mais delicada! – reclama a garota..
— Tenha modos, Alina – lembra Mirim e diz para a costureira. – Ela está apenas nervosa.
A princesa lança um olhar fulminante para a criada.
— Quem não estaria? – fala a costureira – A princesa irá tornar-se rainha.
— Uma bela rainha! – exclama Miriam animada.
— Certamente – concorda Josephine – Este vestido é a minha mais bela obra de arte não concorda, vossa majestade?
— Claro – Alina força um sorriso.
— Está quase pronto – grita Josephine batendo palmas e assustando a princesa. A mulher empurra o espelho e o coloca bem em frente a Alina. Ela observa a figura refletida ali e alisa o vestido com as mãos. Sente as lágrimas acumular e uma delas descer em seu rosto. Sentia que aquela não era ela, mas sim uma estranha refletida no espelho.
— Vejam só! A princesa está até emocionada – disse a costureira orgulhosa do seu trabalho.
— Pode nos dar um minuto – Pede a criada.
— Oh! É claro – exclama Josephine envergonhada e sai do aposento.
Miriam aproxima-se da garota e enxuga suas lágrimas. Apenas ela sabia como Alina sentia-se em relação ao casamento. Mas a criada tinha ensinado a garota a ser uma pessoa forte e que o medo poderia ser um aliado ao invés de um inimigo. A princesa engoliu o choro e prometeu a si mesma que seria corajosa para enfrentar tudo aquilo.
— Tenho um presente de casamento – Miriam fala e pega uma caixa que estava sobre a cama e entrega para Alina.
— Sua mãe usou no dia do seu casamento e guardei para que pudesse usar no seu – relata a mulher.
A princesa abre a caixa e dentro estava a tiara mais linda ela já vira.
— É maravilhosa – diz a garota emocionada – Mas é valiosa demais. Não posso usar.
— A princesa não apenas pode como deve usar – Miriam aproxima-se de Alina e retira a tiara da caixa – Experimente – encoraja a criada.
Alina pega a tiara e coloca sobre sua cabeça.
— Se ainda estivesse aqui sua mãe estaria tão orgulhosa – sussurra Miriam.
— Obrigada, Miriam – Alina abraça a mulher – De verdade.
— Sabe que a considero como minha filha – Miriam diz com carinho.
Alina observa novamente sua imagem no espelho e sorri. Apesar das circunstâncias ela estava realmente parecendo uma rainha.
Após mais uma interminável hora fazendo ajustes no vestido, Josephine anunciou que o seu trabalho estava terminado e foi embora. Alina estava agradecida por ela ter acabado, pois não aguentava mais estar em pé a tanto tempo. Ela retirou o vestido e o guardou com cuidado. Josephine faria um escândalo se algo acontecesse com sua preciosa criação. Miriam estava terminando de ajudá-la a colocar um vestido mais simples quando começou a ouvir uma agitação do lado de fora do castelo. Ao olhar para a janela viu que várias pessoas aproximavam-se da entrada. Neste mesmo instante uma criada chamada Charlotte entrou no quarto trazendo uma bandeja de chá.
— O que está acontecendo, Charlotte? – perguntou Alina curiosa.
— Uma bruxa, princesa – respondeu a criada apavorada – Alguns homens a trouxeram e a acusaram de matar uma criança. Pedem uma audiência com o rei.
— Mas isso é ridículo – a garota fala exasperada – Bruxas não existem. São apenas personagens de contos de fadas.
— Com todo respeito, princesa – começa Charlotte – Não deveria ser tão cética. O mal está presente em nosso mundo e apenas um tolo para não acreditar.
A criada largou a bandeja sobre uma mesa, fez uma reverência e saiu do quarto.
— Como Charlotte fala bobagens, não acha? – Alina ri.
— Que atrevida essa garota – reclama Miriam da forma que a criada falou com a princesa.
— Está tudo bem, Miriam – disse Alina não querendo criar problemas para Charlotte.
— Mas acho que existe alguma verdade no que ela diz — fala Miriam seriamente.
— Acredita mesmo nisso, Miriam? Mas estou curiosa – confessa Alina – Vou ver essa bruxa mais de perto.
— Princesa... – repreende a criada, mas ela já havia saído.
Os dois guardas que estavam do lado de fora do quarto se apressam para seguir o passo da princesa. Ela caminha até a biblioteca e diz para eles que irá escolher um livro para ler o restante da tarde. Os guardas a aguardam na porta e Alina começa a andar entre as intermináveis estantes de livros fingindo escolher algum. Quando viu que eles estavam distraídos, Alina fugiu por uma outra porta que ficava escondida atrás de uma das estantes. Quando eles percebessem Alina já estaria na sala do trono para ver a audiência. A princesa soltou uma gargalhada e sorriu satisfeita pela sua transgressão.
(...)
As correntes machucavam seus pulsos. Sua pele estava machucada em alguns lugares e seu vestido estava sujo e rasgado. Tessa foi praticamente arrastada até ali. Podia ver os olhares raivosos das pessoas e ouviu elas a insultarem com palavras que ela preferia nem lembrar. O mundo não merece sua bondade. Sua mãe uma vez disse. Mas ela foi tola e descuidada. E agora pagaria muito caro pelos seus erros. Sentia vontade de chorar e gritar para todos que era inocente. Mas as lágrimas e sua voz haviam desaparecido. Agora ela estava diante do rei que jurou se vingar e cercada de pessoas que a queriam morta.
As audiências eram realizadas na sala do trono. Tessa observou os detalhes do salão a sua volta. Havia várias pilastras esculpidas com elegantes detalhes e o chão de mármore era tão branco que Tessa podia ver seu reflexo nele. Uma escadaria levava até o trono onde o rei estava sentado com um sorriso perverso nos lábios. Como se ele estivesse apreciando cada detalhe de toda aquela exibição. Ao seu lado havia um padre que fez um sinal da cruz assim que a viu. Tessa sentiu vontade de gargalhar. Aquilo tudo era ridículo. Um padre que servia a um rei tirano e que condenava pessoas, muitas vezes, inocentes.
Tessa foi obrigada a ficar em pé no centro da sala e suas correntes foram presas no chão. A multidão foi afastada e era contida por vários guardas. Eles ainda continuavam gritando e o rei fez um pedido de silêncio.
Um guarda se aproximou dela e praticamente a jogou no chão.
— Ajoelhe-se diante de sua majestade, sua bruxa imunda – ele gritou para ela.
Tessa juntou as forças que lhe restavam e levantou-se. Olhou diretamente para o rei e depois para a multidão.
— Ele não é meu rei – cuspiu as palavras.
O rei a olhou com surpresa e interesse. O guarda aproximou-se dela e lhe desferiu um tapa forte no rosto. Suas pernas fraquejaram e Tessa caiu no chão.
— Tenha mais respeito, garota – o homem puxou seus cabelos – Ajoelhe-se diante do rei.
— Nunca – gritou Tessa para ele. Eles poderiam humilhá-la o quanto quisessem, mas ela nunca ajoelharia.
O guarda aproximou-se e ela preparou-se para mais um golpe, mas ouviu a voz do rei
— Já chega, Brandon – o guarda a largou no chão.
O rei levantou-se e caminhou até ela lentamente. Pegou o queixo de Tessa e forçou-a a olhar para ele.
— Qual seu nome, criança? – perguntou a encarando com aqueles olhos azuis frios.
— Tessa – responde a garota entredentes.
— É uma garota muito bonita, Tessa – o rei lançou um sorriso cruel.
Tessa preferia morrer do que ser tocada por aquele homem.
— Qual é a acusação contra esta jovem? – o rei gritou para a multidão largando-a e retornando para o trono.
Um homem usando roupas esfarrapadas saiu do meio do povo. Os guardas deram passagem para ele e aproximou-se do trono. O plebeu fez uma reverência e começou a falar.
— Essa garota matou minha filha – disse apontando com raiva para Tessa.
— Continue, meu caro – incentiva o rei.
— Minha pequena Samantha estava muito doente e esta mulher apareceu dizendo que poderia curá-la. Nós não sabíamos mais o que fazer e nem o médico sabia dizer o que ela tinha. Mas fomos enganados e minha filha está morta. Essa garota deve pagar pelo que fez – gritou o homem.
— Isso é mentira – defende-se Tessa – Eu só queria ajudar!
— Nenhuma palavra que saia dessa sua boca é verdade, bruxa – acusa ainda o homem.
— Eu sou inocente – grita a garota mesmo sabendo que ninguém a ouviria.
A multidão começa a gritar ao mesmo tempo e o rei grita novamente pedindo silêncio.
— A jovem negou tais acusações – inicia o rei levantando-se – Mas não posso deixar de ouvir a voz do meu povo. Por isso eu a declaro culpada e a condeno a morte.
As pessoas gritam de euforia com a sentença e Tessa desespera-se. A garota tomada pela fúria levanta-se do chão, mas antes que possa atacar o rei as correntes a impedem.
— Eu vou fazer você pagar pelo que fez – grita ela em meio a raiva – Lembra-se dela? Adelina.
Tessa viu o rei a encarar com olhos arregalados em reconhecimento ao nome.
— Ela era a minha mãe e você a matou a sangue frio – a multidão imediatamente começa a cochichar entre si diante de tal revelação.
— Isso é uma calúnia contra o nosso amado rei – o padre manifesta-se pela primeira vez – Nada que disser irá salvá-la da morte, bruxa – as pessoas começaram a murmurar em concordância com o homem – Guardas a levem para a masmorra – finaliza o padre.
Dois guardas aparecem para escoltá-la, mas o rei faz um sinal para que esperassem. Ele aproxima-se novamente de Tessa.
— Na verdade – o rei sorri maldosamente e sussurra somente para a garota ouvir – Ela morreu queimada na fogueira e sua filha terá o mesmo destino.
O rei ordena que Tessa seja levada para uma cela no subterrâneo do castelo e que a sentença aconteça no nascer do sol. A garota desligou do resto, esqueceu as pessoas xingando-a e dos guardas que a arrastavam sem piedade pelos corredores do castelo. Eles a levaram para uma cela escura e imunda. Ela sentou-se em um canto e abraçou a si mesma na intenção de trazer algum conforto. Na manhã seguinte quando viessem buscá-la ela iria com a cabeça erguida. Tessa não teria medo.
(...)
Do alto da escadaria escondida atrás de uma pilastra, Alina observava toda a cena com seus curiosos olhos. A garota acusada de bruxaria parecia ter a sua idade e seus pulsos estavam presos por grossas correntes. Usava um vestido verde escuro rasgado e sujo. Os cabelos castanhos estavam soltos e alguns cachos cobriam o seu rosto. Era possível notar alguns arranhões em seu rosto e nos braços. Alina assistiu horrorizada quando Brandon bateu na jovem e puxou seus cabelos. Sentiu vontade de ir defender a garota e acabar com aquele circo. Ouviu o relato raivoso do homem sobre a morte da filha. E sentiu muita pena quando seu pai deu a sentença para a garota. A audiência acabou rapidamente e da forma que as pessoas gostavam. A jovem acusada condenada à morte.
Miriam costumava dizer que o rei era um homem justo, mas que após a morte de sua mãe ele mudou drasticamente. A garota ouviu alguns rumores pelo castelo de que ele havia enlouquecido.
Mas o que ela está pensando? Simpatizando com aquela desconhecida. E se de fato ela fosse uma criminosa? Ou pior, uma bruxa?
Alina ouviu a acusação da jovem sobre seu pai. Sem poder acreditar em tais palavras. Matar uma mulher a sangue frio? O rei não poderia ter feito tal coisa. A princesa sabia da fama que seu pai possuía pelo reino. Afinal, ela mesmo tinha sido vítima de sua frieza. Mas ela nunca imaginou que seu pai fosse um assassino de mulheres. Aquilo não passava de um delírio daquela garota.
A princesa estava perdida em tais pensamentos quando foi surpreendida pelos guardas. Eles a levaram de volta para o seu aposento e Alina sabia que contariam ao seu pai a fuga. Ele sempre fez questão de mantê-la vigiada e afastada da vida que existia fora do castelo. Quando criança nunca podia sair para brincar e sempre estava na companhia de Miriam que era proibida de deixar a Alina sair. Ela praticamente era o mais próximo que a princesa tinha de uma mãe. A criada tinha servido à rainha Melina até o dia de sua morte e, após, ficou encarregada da criação da menina.
Mas conforme a princesa foi crescendo foi ficando cada vez mais difícil vigiá-la. Então, o rei ordenou que dois guardas a seguissem por todos os lados do castelo. Algumas vezes a garota conseguiu despistá-los e era nesses momentos que Alina explorava o castelo até ser achada por eles. O rei sempre lhe dava um sermão e ela prometia que não faria novamente. Mas ela tornava a repetir. Ela não se importava com a fúria do pai. Apenas queria ficar livre por algumas horas.
A princesa retornou para o seu quarto escoltada pelos guardas e encontrou Miriam arrumando alguns livros.
— Já estava quase indo procurá-la – afirma Miriam arrumando o último livro.
— Estava assistindo a audiência – declara Alina inocentemente.
Seu pai ficaria furioso quando soubesse que ela esteve presente, mas lidaria com ele mais tarde.
— Como foi? – pergunta a mulher com a sobrancelha arqueada.
— Foi horrível, Miriam – a princesa senta-se na cama e relata tudo o que presenciou.
— Acha que é verdade? Sobre essa tal de Adelina? – pergunta a garota curiosa.
— Não repita tais bobagens, menina – adverte Miriam – Não cabe a nós especular sobre isso.
— Mas Miriam – começa Alina – Essa garota, Tessa, sinto que deveria fazer alguma coisa. Ela deveria ter ao menos um julgamento justo.
— A princesa tem o dom de ver o lado bom das pessoas, mas não esqueça que seu coração poderá traí-la algumas vezes. Esta moça pode parecer inocente, mas não deixe-se enganar por isso. E para o seu bem, Alina, esqueça isso – a criada temia que a inocência da princesa um dia causaria muitos problemas.
Alina prometeu para a mulher que não tocaria mais no assunto, mas ela sabia que não iria esquecer as palavras de Tessa tão cedo e que ficaria perguntando-se o que de fato havia acontecido entre seu pai e a mulher chamada Adelina.
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