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Cinco anos depois

Puxei mais a gola do casaco de encontro ao meu pescoço e saí debaixo da soleira da porta, caminhando para casa.

Olhei o céu por instantes, parecia que iria chover. As nuvens escuras e carregadas ameaçavam chuva á quase uma semana. Porém, para já, todo estava basicamente igual. Nada tinha mudado muito. Nem o tempo nem eu mesma.

Já em frente ao portão de casa, empurrei-o e ouvi o rugido habitual. Quantas vezes, eu tinha pedido a Garrett que o mudasse ou que o arranjasse?!

-Bom dia Sra. Denali. – Cumprimentou a vizinha, a Sra. Williow, uma viúva, que por vezes tomava conta de Emily.

-Bom dia Sra. Williow.

Ela riu e abanou a cabeça negativamente como se me repreendesse por ainda lhe chamar de Senhora.

Eu sorri-lhe e continuei o meu caminho. Passando pelo grande jardim até alcançar a porta de casa.

Porém antes de a abrir, percebi que a chuva caía atrás de mim. Virei-me e pude constatar que de facto a chuva caía com toda a sua intensidade. O vento colocou algumas mechas do meu cabelo na minha face.

Imediatamente me lembrei do compromisso que tinha agendado para hoje.

Todos que um dia tinham conhecido Edward Cullen, estariam hoje presentes numa homenagem feita pela família em honra de Edward.

Alice Cullen, tinha-me pedido que fizesse um discurso, pois eu tinha sido a última pessoa a vê-lo com vida. Tinha sido a pessoa pela qual ele, de certa forma, se tinha sacrificado, e podia não aparentar, mas isso doía em mim, mesmo depois de um ano. Sempre que me lembrava dele sentia as lágrimas a querer invadir os meus olhos. Como se até o meu corpo sentisse falta de alguma coisa.

Mas eu ainda o podia sentir perto de mim. Olhar para Emily era como estar na presença do seu pai. Os mesmos olhos, o mesmo sorriso e o mesmo calor que ele me transmitia, estavam presentes nela. Poderia jurar que ela tinha reencarnado uma parte do próprio pai.

Lembro-me da primeira vez que a vi revirar os olhos, tinha ela quase três anos, quando depois de acordar e de eu lhe beijar a face, um gesto dela me fez lembrar o seu pai. E lembro-me perfeitamente de chorar como se me sentisse perdida.

E mais uma vez tive a ajuda de Garrett ao meu lado, que sempre me apoiou nunca me deixando desistir, recordando-me sempre da pequena vida em meus braços.

Emily era e é a minha salvação.

Por ela eu tenho forças para me levantar todos os dias, pelo seu sorriso, pela sua alegria e pela sua vida, eu vivo e tento seguir em frente, apenas com memórias.

Tentando reerguer um pedaço de mim todos os dias…é assim que eu vivo agora.

Garrett e eu…bem, estamos felizes…juntos!

Não posso dizer que o amo como nunca amei alguém, porque estaria a mentir a mim mesma e a ele. Eu nunca amarei alguém como amei e como amo Edward Cullen, e Garrett sabe disso.

Ele sabe, que não há um único dia que ele não passe pela minha cabeça, não existe um dia que isso não aconteça, e a razão para isso é a filha que Edward me deixou. A pequena Emily, agora com quase cinco aninhos, é a perfeição do Edward em feminino.

-Pensando em quê? – Perguntou Garrett abraçando-me pela cintura.

-Em Edward! No que irei dizer mais tarde.

-Tudo irá correr bem. Eu vou estar lá, bem perto.

-Obrigada!

Ele virou o meu corpo de frente para si e suavemente beijou os meus lábios. Apenas paramos pelo som baixinho do riso de Emily, que atrás de Garrett encolhia o seu pequeno corpo no chão de tanto rir.

Os seus cabelos compridos e ondulados de tons castanhos- claros caiam pelos seus ombros delicados e frágeis e moviam-se constante a sua gargalhada deliciosa.

Garrett aproximou-se dela começando a fazer-lhe cocegas. Ela riu e implorou que ele parasse na sua linguagem ainda infantil. Ela chorava de alegria. Vi de relance ela abrir os olhos verdes e procurar-me com o olhar, tentando pedir ajuda para se livrar de Garrett.

Levantei o saco de plástico que tinha na mão.

-Quem quer um bolinho? – Perguntei.

Eles olharam para mim e aproveitando as circunstâncias, Emily fugiu de Garrett, indo diretamente para a cozinha.

-Obigada mamã! – Gritou enrolando a língua.

Eu e Garrett rimos juntos e fomos atrás dela para a cozinha.

Servi o pequeno- almoço que tinha ido buscar na padaria próxima da nossa casa e juntos, entre conversas e brincadeiras, comemos como uma família normal. Emily era sempre o centro das atenções, sempre era ela que tornava a casa mais acolhedora e alegre.


…

-Mamã, não queo isso! É tão pioso…- Emily resmungou.

-Então deixa-me ver… A menina Emily quer alguma coisa relacionada com ballet, não é mesmo? – Perguntei com as mãos na cintura, fingindo estar chateada.

-É! – Ela olhou para mim suplicando com os olhos verdes cintilantes.

Virei as costas indo para o seu closet e procurei um vestido violeta, mais quente para o frio que se fazia sentir lá fora.

Peguei um vestido que Alice, lhe tinha oferecido e ela assentiu com a cabeça em concordância. Ajudei-a a vestir-se e pentear-lhe o cabelo, colocando um pequeno arco branco com uns enfeites da mesma cor do vestido, no cabelo.

No final ela olhou-se no espelho, tentando equilibrar-se ao fazer uma pirueta, que aprendia nos ensaios. Eu ria olhando para ela. Imaginando como seria quando ela crescesse. Ansiando por ver Garrett ameaçar e expulsar os rapazes de nossa casa…Ele sempre detestava quando alguém referia que Emily iria ter muitos namoradinhos no futuro.

Ele sempre dizia a mesma frase: “Ainda falta muito para tal! E aí que de quem lhe tocar num fio de cabelo sem antes se apresentar devidamente.”. Por vezes não se ficava por aí! Chamou todos os rapazes á face da Terra de imorais e sem princípios.

-Então as minhas princesas estão prontas? – Perguntou Garrett, vestindo um fato social, na porta do quarto de Emily.

-Pincesas?! – Exclamou Emily indignada.

Eu não aguentei e gargalhei com a cara que ela fez.

-Pô favo, papá! Eu sou mais uma bailaina de que uma pincesa!

-Peço desculpa querida! As minhas bailarinas estão prontas?

-Chim! – Ela disse contente. – Mamã? – Chamou.

-Diz fofa. – Eu vesti-lhe a sua capa preta para o frio e coloquei-lhe o capuz da mesma.

Ela olhou para Garrett e novamente para mim, parecia um pouco temerosa no que queria dizer, mas por fim tentou:

-É hoje, que nós falamos com o meu outo papá? – Perguntou.

Beijei a sua testa e antes que pudesse responder, Garrett fê-lo por mim.

-Sabes querida! – Começou. — Hoje nós vamos ter com o teu papá verdadeiro, sim. Vais poder dizer-lhe o quanto estás feliz e que tens saudades dele, e que apesar de nunca o teres conhecido…que o amas muito! Que ele sempre vai estar no teu coração e que sempre o vais levar contigo para todo o lado, está bem meu amorzinho? A mamã vai dizer a mesma coisa para o teu papá! E todos nós vamos dizer o quanto estamos felizes por o termos conhecido…Porque ele foi importante para todos nós, sempre será, e sempre estará connosco…aconteça o que acontecer.

Emily limpou uma lágrima com as costas da sua mãozinha e numa voz chorosa disse:

-Eu sinto fata do meu papá!

Garrett foi surpreendentemente abraçado pelos pequenos braços de Emily que chorou no seu colo.

As lágrimas caiam furiosas dos meus olhos. Saber que Edward tinha morrido e não tinha conhecido a sua própria filha…partia-me o coração, mas saber que ela apesar de nunca o conhecer, confessava que sentia falta dele, dava cabo de mim. Destroçava-me ver o sofrimento da minha filha. A sua inocência fazia-me sentir culpada de certas ações que tomei no passado.

-Todos sentem a falta de Edward, querida! – Confessou Garrett, acariciando-lhe o cabelo e olhando-me preocupado, sorri-lhe em forma de agradecimento.

Emily largou Garrett mas antes beijou-lhe a face e correu para o interior do carro.

Garrett levantou-se do chão onde tinha estado ajoelhado e veio para o meu lado. Beijou-me os lábios e acariciou-me a face com as mãos suaves e calorosas.

-Está tudo bem? – Perguntou preocupado.

Pousei a mão no seu peito. No lugar do seu coração.

-Obrigada por tudo querido!

-Faço tudo por vocês as duas. Não é novidade, certo? – Eu assenti e ele beijou-me a testa.

-Garrett, eu nunca te perguntei, mas…como te sentes sabendo que dentro de ti, bate o coração da pessoa que um dia eu amei mais do que tudo?

Que ainda amo.

Ele riu e levantou o meu rosto com o seu indicador.

-Perfeitamente bem! Aliás, acho que depois do transplante que eu te passei a amar mais ainda…desconfio que a culpa seja inteiramente de Edward. E se o que eu sinto por ti agora era o que ele sentia…tenho de lhe dar os parabéns por ele te conseguir amar mais do que a ele mesmo


…


-Quem é a neta mais bonita do avô? – Perguntou Eleazar, segurando Emily nos braços.

-Eu! – Respondeu Emily corada.

Todos nós rimos.

-És sim, querida! – Eleazar descansou um beijo no rosto de Emily que gargalhou ao sentir a barba do avô por fazer.

-Pica! – Reclamou sorrindo.

Eleazar gargalhou e Carmen suspirou.

-Vês o que te digo? Ninguém consegue estar ao pé de ti quando estás com essa barba de três dias por fazer! – Ralhou. – Anda querida.

Emily saltou para o colo da sua avó adotiva e as duas dirigiram-se para o carro que nos levaria para a casa dos Cullen.

-Cada dia que passa, eu amo-a mais ainda. Será possível? – Perguntou Eleazar a sorrir para Garrett, que se riu também.

-Vamos embora pai! Chegaremos atrasados por este andar…


…


A casa dos Cullen estava toda ela decorada com luzes de cores leves.

O carro parou em frente das escadas da porta principal e um chofer abriu a porta permitindo-me sair do carro.

Encarei a casa á minha frente, e várias lembranças foram retomadas á minha memória, como se de ontem se tratasse. Tão vivas que magoavam mais ainda.

Senti uma leve brisa ao meu redor e por momentos fechei os olhos, querendo conseguir acreditar que ali, ao meu lado, estava Edward.

–Vamos? – Perguntou Garrett, repousando a sua mão direita no fundo das minhas costas. – Estão á nossa espera.

Eu sorri e assenti com a cabeça.

Uma pequena e muito macia mãozinha envolveu a minha e segurou-a fortemente. Olhei para o meu lado e um par de olhos verdes encaravam-me curiosos.

–Garrett vai entrando, nós encontramos-te lá dentro. – Pedi.

Ele olhou para mim e de seguida para Emily e sorriu, um pouco desconfiado, no fim entrou.

Quando estávamos sozinhas, abaixei-me até ficar da altura dela e sorri-lhe.

–Está tudo bem, minha pequena bailarina?

–Eu não xei, mãe! – Reclamou com voz chorosa. – Eu xinto ele comigo…

Eu ri e ela olhou-me curiosa novamente, com o rosto de lado, fazendo o seus caracóis caírem de uma lado só.

–Querida, está tudo bem!

–Também xentes mãe?

–Sinto, querida! – Respondi. Beijei-lhe o rosto. – E é muito bom, não é?!

Ela concordou temerosa com a cabeça e eu voltei a ficar em pé e estendi-lhe a mão que ela recusou.

–Tudo bem minha bailarina! – Disse. – Podes ir no colo, só um bocadinho!

Ela sorriu, sabendo que eu a deixaria nos meus braços o dia todo se fosse preciso.

Beijei-lhe a fronte e peguei no seu corpo leve, levando-nos para dentro da grande casa.

–Finalmente! – Disse uma Alice sorridente. – Estava a ver que se tinham perdido lá fora.

–Alice.

–Isabella, que bom ver-te depois de duas semanas desaparecida.

–Isabella?! Tem mesmo de ser? – Senti uma pequena risada no meu ouvido. Emily.

–Ah querida! Não sejas resmungona. Agora, onde está a princesa da tia?

–Bailarina… — Resmunguei com os lábios.

–Eu não xou pincexa! – Resmungou. – Xou uma bailaina!

–Desculpa a tia, minha pequena grande bailarina!

Emily levantou o rosto do meu ombro e sorriu para Alice, que encantada a tirou dos meus braços, sem que eu pudesse interferir.

–Alice!

–Ah Bella! Deixa de ser invejosa!

Dando a mão á minha pequena, Alice levou-a até aos avós de Emily. Carlisle sorriu imediatamente abraçando a pequena e levantando-a e eu pode ouvir a gargalhada deliciosa da minha filha.

Senti-me orgulhosa de mim mesma, por em meio a tanta tristeza, Emily ter conseguido crescer como uma criança alegre e normal.

Senti-me viva, vendo-a sorrir genuinamente.

–Bella. – Garrett, apareceu ao meu lado de repente. – Eles pediram que dissesses algumas palavras no discurso de hoje. Eu deixei a resposta para ti.

Garrett beijou-me a testa suavemente.

–Eu vou tentar.

Ele assentiu.

–Irei comunicar-lhes então.

Ele afastou-se e eu caminhei em direção a Esme e Carlisle que entregavam algo a Emily.

Quando estava perto o suficiente consegui ver que Emily olhava algo dentro das suas pequenas mãos.

–Querida? O que tens aí?

–Um presente mamã!

–De quem é esse presente?

–Do papá! – Ela abriu as suas mãos para mim. – A avó disse que é meu. – Sorriu.

Nas suas mãos branquinhas, encontrava-se um pequeno fio com um medalhão e nele, no interior, uma foto de uma família perfeita. Edward, eu e Emily.

– É lindo, querida!

Emily sorriu e correu para Garrett para lhe mostrar o presente que recebera.

–Olá Bella.

–Esme. Carlisle. – Cumprimentei. – Obrigada pelo medalhão.

–A foto é um pequeno presente de Alice…

–Photoshop. – Completou Alice.

–O medalhão era o de Edward. Ele costumava usá-lo quando era pequeno.

–Obrigada.

Esme sorriu e afastou de nós. Pode ver que os seus olhos verdes cobriam-se de água límpida.

Carlisle acompanhou a esposa e Alice sorriu-me tristemente.

–Como é que ela está? – Perguntei.

–Melhor. Mesmo depois de cinco anos acho que ela ainda não aceitou ter perdido Edward de forma tão trágica.

–Ninguém aceitou, penso eu.

Alice assentiu e dirigimo-nos para o salão onde se iria realizar a cerimónia de homenagem.


…


–Aprender a viver sem alguém que nos marca durante uma fase da nossa vida, é uma das batalhas mais difíceis de ultrapassar. Eu tive de o fazer. Todos nós, aqui presentes nesta sala, o tivemos de fazer… Sem Edward…eu aprendi que lutar pelo que queremos não tem de ser algo forçado, algo em que pensemos. Têm de ser algo imediato, porque corremos o risco de o perder.

Levantei o rosto para encarar as pessoas que me ouviam.

–Edward marcou-me para o resto da vida. Não só por eu ter sido sua esposa, mas por me deixar algo incrível, que sempre me irá lembrar dele.

Emily, que estava no colo de Garrett, brincava com o medalhão do seu pai.

–Edward deixou-me um tesouro, deixou-me uma parte viva dele, e eu sempre lhe serei grata por isso. Eu nunca o irei conseguir esquecer. Ele foi e sempre será, aquele que marcou toda a minha vida. Aquele a quem eu amei mais do que a mim mesma!

Virei-me para o quadro de Edward atrás de mim e fechei os olhos, deixando uma lágrima traçar um caminho frio e rápido na minha face.

–Eu vou amar-te para sempre Edward. Da tua sempre, Isabella.


“Às vezes na vida existem laços reais que nunca podem ser rompidos.”

Notas finais
Último capitulo!
Espero que gostem.
Queria agradecer desde já, a todos os leitores que acompanharam a historia até aqui, mesmo aqueles que não comentaram, evidentemente é importante algum feedback dos leitores, então gostaria de saber o que pensam da historia, se gostaram ou não, se recomendariam a alguém e porquê!
Bjs, NikaCosta ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!