Laços Inquebráveis
16 Capítulo 16 — Um Passo De Cada Vez
Emmett tomou todo um cuidado ao preparar o café da manhã, priorizando tudo o que a filha mais velha gostava. Queria agradá-la e tornar o hoje mais agradável. Ela já vinha de uma fase de mudanças dolorosas. Começar em uma escola nova, às vezes, podia ser bem assustador, mas, ao mesmo tempo, desafiador.
Finalizou a mesa do café, percebendo haver feito um bom trabalho. Subiu os degraus na escada. Encontrou ambas as portas dos quartos abertas, isso lhe deixou curioso.
Se aproximou então do quarto das meninas.
— Makena? — Ele espiou no lado de dentro. A cama estava com os lençóis revirados, mas ela não estava lá. Foi até o banheiro e bateu à porta. — Filha, está aí? Makena. — Aguardou um momento, como não respondeu, abriu a porta, espiando lá dentro. Ela também não estava lá. Decidiu conferir na suíte, ao se aproximar, percebeu a menina de costas. Ela observava a ambas dormindo juntas, a mão da irmã enroscada em alguns fios de cabelos de Rosalie. — Makena — tornou chamá-la em voz baixa. — Filha.
Ela virou o rosto ao olhar onde ele estava. Mantinha a mão na medalhinha da Virgem de Guadalupe pendurada ao pescoço. Os olhos carregados de lágrimas.
— O que houve, meu amor? Você está bem? Por que está aqui?
— Luna não estava na cama dela — contou com a voz trêmula.
— Ela veio para cá bem cedinho. Está tudo bem. Está dormindo agora.
Entrou no quarto, chegando mais perto da filha.
— Precisa terminar de se arrumar.
Makena voltou olhá-las na cama.
— Luna ficava assim com a mamãe… — Lágrimas molharam o seu rosto morosamente.
Emmett segurou sua mão.
— Sinto falta dela. — Um soluçou escapou. — Quero minha mãe de volta.
Ele abraçou a filha.
— Não é justo, isso que aconteceu…
Afagou os cabelos da menina no alto da cabeça.
— Sei que não é igual, mas estou aqui.
— Pedi muito a Deus para você voltar para perto de mim e também de Luna, mas… acho que não fiz direito. Não expliquei que a mamãe também tinha de ficar. Então ela morreu.
— Não — murmurou. — Não é assim — percebeu Rosalie sentada na cama, olhando-os. — Não é bom pensar nessas coisas. Elas não fazem bem para você.
— Luna… — Soluçou novamente.
— O quê? O que tem sua irmã?
— Ela está esquecendo a mamãe.
— Você conviveu mais tempo com Aurora. Terá muito mais lembranças, pode compartilhar com sua irmã. Dessa forma ajudará permanecer viva nas lembranças dela também.
— E se eu esquecer?
— Com o passar dos anos, é normal que não se lembre de tudo. Ainda assim, a figura de sua mãe, nunca será esquecida.
— É verdade, papai?
— Sim.
A menina apertou os braços ao redor da cintura dele. Então, notou também Rosalie os olhando.
— É culpa dela que Luna esteja esquecendo a mamãe. Está roubando o amor de minha irmã.
— Não é assim, Rose cuida de sua irmã. Elas se gostam. Luna se sente confortável ao lado dela.
— E quanto a mim?
— Estou aqui para cuidar de você. Tenho certeza que Rose fará o mesmo, se você permitir. Ela não é uma pessoa ruim.
Makena observou a madrasta, ainda que negasse, no olhar dela havia compreensão.
— Eu não quero. Não quero ela na minha vida. Muito menos ocupando o lugar da minha mãe.
Emmett limpou as lágrimas no rosto da menina.
— Não cultive essa raiva. Ela não é sua. Não é minha. Tampouco é de Luna. Nada disso faz bem a você, ou a qualquer pessoa. Agora, enxugue esses olhos lindos. Vá! Estarei te esperando para tomar café. Precisa ir para a escola. Não podemos adiar mais.
— Não quero ir.
— Dê uma chance. Pode ser que goste. E faça novos amigos.
— Pode trançar meus cabelos? A mamãe sempre fazia uma trança no primeiro dia. E tirava uma foto.
— Posso tentar. Pode ser não fique igual ao que Aurora fazia. E, não se preocupe com a foto, manteremos a tradição.
— Tudo bem se não ficar igual. Vou gostar mesmo assim.
Rosalie sorriu para ele no momento que os olhares se cruzaram.
— Vou levar Makena para a escola. Volto para te acompanhar a oficina. E levar Luna na terapia.
— Estaremos prontas quando voltar.
[…]
Roxie olhava com curiosidade enquanto Rosalie falava no celular.
— Preciso sair agora — contou, já pegando a bolsa no armário abaixo do balcão, na floricultura.
— Aconteceu alguma coisa?
— Tenho de ir à escola pegar Makena. Tentaram entrar em contato com Emmett, mas ele não atende as ligações.
— Ela não deveria ficar na escola até a três e quarenta?
— Advinha? Ela brigou com uma colega de turma. Emmett está com Luna na terapia agora. Acontece que meu carro está na oficina. Ele me deixou aqui após me acompanhar a oficina. Pode me emprestar o seu?
— É claro. Sempre que precisar. Agora, minha língua não quer ficar quieta. Tenho de dizer, que peste é essa menina. No primeiro dia na escola nova, já se meteu em briga. Tudo bem que nunca fui santa, mas isso é demais até para mim.
Roxie explicava algumas coisas sobre o veículo, quando a sineta na porta tocou e Tanya, irmã de Rosalie, entrou na loja.
— Por que precisa do carro de Roxie?
— Tenho de ir à escola. Não estou com o meu hoje.
— Kate me contou o que aconteceu. A monstrinha riscou seu carro com uma pedra.
— Não chame a menina assim, Tanya.
— O que vai fazer na escola?
Roxie foi quem respondeu primeiro.
— Resolver os problemas da monstrinha. — Diante o olhar de reprovação de Rosalie, tentou se redimir. — Perdão. — E para Tanya, completou: — Vai descobrir o que aconteceu.
— Como assim?
Rosalie então contou:
— Ela brigou na escola.
— E por que o pai dela não vai? Ele não já ficou ausente por tempo demais, não? A menina nem gosta de você.
— Ele está com a menor, na terapia. O telefone deve estar no modo silencioso. Como deixou meu número nos contatos de quem ligar em caso de emergência, eles me ligaram.
— Certo. Então, eu te levo.
— Não precisa.
— Pare com isso, Rose.
— Então, por favor, se controla.
— Por que está dizendo isso?
— Porque conheço a irmã que eu tenho. Estamos falando de uma criança com dificuldade em lidar com o luto. Não precisamos tonar esse momento ainda pior.
As irmãs saíram para o estacionamento.
— Uma criança que parece te odiar.
— Não é culpa dela.
— E nem culpa sua.
— Tanya.
— Que sorte a dela a madrasta ser você e não eu.
Rosalie a olhou com reprovação.
— Seu coração é mole, Rose. A garota atormenta sua vida e você aceita. Se culpa por coisas, erros que não são sobre você.
— Se vai ser assim todo o caminho, é melhor que não me leve.
— Está bem, ficarei calada. Agora, você fica quieta nesse banco e nem pense em abrir a porta até chegarmos na escola. Vai, me passe o endereço.
Uma vez no estacionamento da escola, Rosalie pediu que Tanya esperasse no carro. Encontrou com Makena na sala da diretora. O penteado que o pai fez estava bagunçado, o rosto corado. Seus olhos revelavam o choro recente. Pouco antes de entrar na diretoria, cruzou com a outra criança e a mãe no corredor.
Makena abaixou a cabeça ao se dar conta que não era quem ela esperava. A partir daquele momento ignorou a presença da madrasta. Depois de falar com a diretora, finalmente puderam deixar a sala. Rosalie caminhou ao lado da menina no corredor.
— Você está bem?
— Onde está o papai? Por que ele não veio?
— Ele está com Luna na terapia. Ainda não sabe o que aconteceu.
Seguiram andando pelos corredores da escola até estarem do lado de fora do prédio. A menina parou, olhando adiante.
Rosalie ergueu a mão na tentativa de tocar o ombro dela, mas ela chegou para o lado com um pulo.
— Não toque em mim.
Rosalie recolheu a mão, constrangida.
— O carro está no estacionamento. — Percebendo o olhar de interrogação, explicou: — Não é o meu. Ainda não o peguei de volta. Minha irmã me trouxe. Ela vai nos levar de volta.
— Não vou a lugar algum com você.
— No momento…
— Eu não vou, está bem? — Se afastou indo se sentar na lateral do prédio, de frente para o estacionamento. A mochila nas costas. — Vou ficar aqui até meu pai vir me buscar.
Rosalie foi atrás dela.
— Vamos, Makena, não podemos ficar aqui. Seu pai pode demorar.
— Já disse que não irei com você.
— Sei que não gosta de mim. Porém, seu pai confiou você a mim, do contrário não teria deixado o número do meu telefone com o pessoal da escola.
— Não me importo com isso.
— Vamos, Makena. — Fez menção de tocar no ombro, novamente a menina se esquivou.
— Não quero.
— Ei!
Rosalie olhou para trás ao ouvir a voz da irmã.
— O que estão fazendo aí paradas? Vamos embora!
— Nós já vamos. Me dê só um minuto.
Tanya se aproximou.
— Então, você é a famosa Makena? — avaliou a menina.
— E daí?
— Olha só, temos aqui uma pequena respondona.
— E você, uma grande intrometida. Quem te chamou aqui?
Rosalie e a irmã trocaram olhares. O olhar de Tanya, revelou estar pronta para a discussão. O seu, um pedido para ignorar a pirraça.
— Levante já daí e comece a andar direto para aquele carro — exigiu com a voz firme.
— Tanya.
— Precisamos ir embora, Rose. Uma garotinha não pode dizer o que vamos fazer.
— Vou tentar falar com Emmett mais uma vez.
— Não. — Segurou no braço da irmã. — Você decide o que fazer, não ela. Não permita, a criança mandar em você.
Rosalie estendeu a mão na direção da menina.
— Vamos, Makena, por favor.
Tanya perdeu a paciência, inesperadamente, puxou a mochila nas costas da menina chegando a levantá-la do chão.
— Tanya, não. — Pôs a mão sobre a da irmã, obrigando soltar a criança. — Não pode fazer isso com ela. Meu Deus!
— Se tocar em mim de novo, vou gritar até chamarem a polícia.
— Você está bem, Makena?
A menina ajeitou a mochila nas costas. Por um instante se sentiu confusa em relação a Rosalie. Porém, quando tocou seu braço, lembrou de Aurora dizendo: “É culpa da centopeia loura que seu pai não esteja aqui”.
— Não me toque.
Rosalie recolheu as mãos, receosa.
— Tudo bem, eu não toco. Mas, não grite. — O celular avisou da chegada de uma mensagem. Olhou na tela do aparelho. — Seu pai está aqui perto.
— Ótimo! — Cruzou os braços.
— Eu teria colocado essa moleca a força no carro.
— É uma criança. Agradeço por ter me trazido até aqui. É melhor você ir agora.
— E deixar você aqui com essa peste? Melhor não arriscar.
Makena foi na direção do carro do pai enquanto esse ainda estacionava.
— Papai.
— Esse é o momento que ela faz nossa caveira.
Emmett saiu do carro e parecia um tanto aborrecido.
— Papai. — Makena chegou ao lado dele. — Essas duas malucas queriam me colocar a força no carro. E aquela ali. — Apontou para Tanya — Quis me bater.
— O que você fez?
— Nada.
— Estou me referindo ao que fez na escola. Se não tivesse feito nada, nenhum de nós teria interrompido seus planos para estar aqui agora. Rose não teria precisado dá carona da irmã, se o carro dela não estivesse na oficina. Devo lembrá-la quem causou tudo isso?
Os olhos de Makena marejaram.
— Não precisa chorar. Ainda tive esperança que tivesse um dia de aula normal. Que todos pudéssemos ter um dia, no mínimo, próximo do normal.
— Não foi minha culpa.
— Como vou saber… Entre no carro, em casa conversamos. Por favor, seja gentil com sua irmã.
Enquanto Makena entrava no veículo, Rosalie se aproximou. Luna os olhava pela janela. Acenou para a pequena, que acenou de volta.
— Obrigado por vir.
— Não foi nada.
— Vamos, eu deixo você na loja. — Pegou na mão dela. Para a irmã de Rosalie disse: — Obrigado, Tanya. — A cunhada acenou em resposta.
— Como foi lá com Luna? — tentou Rosalie.
— Ela aceitou muito bem. Foi tranquilo. A terapeuta perguntou se poderia encontrar com você na próxima sessão. Alguns minutos antes de falar com Luna.
— Claro, posso ir sim.
Luna olhava aos dois. Makena permaneceu de braços cruzados.
Ao perceber que a irmã chorava, Luna se esticou na cadeirinha para tocar no braço dela. Makena a olhou, em seguida, secou os olhos, com gestos que demonstraram raiva.
— Me deixa.
Luna sinalizou as lágrimas nos olhos dela.
— Só estou triste.
Ofereceu o coala de pelúcia a irmã.
— Não precisa. Pode ficar com ele.
Emmett e Rosalie entraram no carro. Ela estendeu a mão para Luna.
— Oi, bonequinha.
Luna segurou na sua mão.
— Você está bem?
Ela fez que sim com a cabeça.
Rosalie mandou um beijo. Makena olhou ambas de canto de olho.
— Coloque o cinto, Makena — Emmett pediu. Ela obedeceu, sem questionar.
Em frente a floricultura, Rosalie soltou o cinto de segurança, e se inclinou para beijar no rosto do marido.
— Vejo você mais tarde.
Quando saiu, Luna pôs as mãos no vidro da janela. Emmett abaixou para que pudessem se despedir. A criança sinalizou que queria ficar com ela.
— Tudo bem se Luna ficar comigo?
— Se estiver tudo bem para você.
Rosalie abriu a porta traseira. Luna soltou o cinto e se lançou nos braços dela.
Makena viu Rosalie beijar o rosto de Luna e a menina beijar o dela de volta.
— Tchau, Makena. Tchau amor, até mais tarde.
Luna deu tchau, movendo a mão.
Somente Emmett respondeu de volta. Ele observou as duas entrarem na loja de mãos dadas. Luna levou o coala embaixo do braço.
Makena ficou olhando a paisagem enquanto ele dirigia.
— Para onde estamos indo?
— Tenho de fazer algumas coisas. Agora, estou indo visitar uma das casas a venda, preciso fazer algumas imagens com o drone.
Pouco tempo depois, estacionou na vaga para veículos, no jardim de uma casa recém-construída. Saiu do carro, e abriu a porta para menina.
— Precisa descer. — Deixou-a com o aviso e foi abrir o porta-malas de onde retirou a bolsa de transporte do drone.
Makena se colocou ao lado dele.
— Posso tentar, papai?
— Talvez. — Fechou o porta-malas. De canto de olho, percebeu ela ficar mais animada.
— Precisamos conversar antes.
Ela olhou algo no gramado verde, mexendo o pé.
— Quero que me conte o motivo da briga na escola. A verdade, sem mentiras.
Pai e filha caminharam lado a lado, passando pela lateral da casa, indo para o jardim dos fundos onde ficava a lareira externa, com sofá em pedras rodeando toda ela, almofadas próprias para área externa. Um ótimo lugar para contar histórias, olhar as estrelas e comer s’mores.
Sentou-se, e retirou o drone da bolsa de transporte.
Makena sentou ao lado dele.
— Pode começar.
— Agora?
— Preciso saber o que aconteceu.
— É culpa da outra menina. Ela começou.
— Como posso saber se está dizendo a verdade?
— Estou falando a verdade. Mas, tudo bem se não quiser acreditar. O vovô acreditaria em mim.
— O que a outra menina fez?
— Desde que me viu chegar, me chamou de novata. Exigiu que contasse o motivo de minha vinda para cá. Ela parecia obcecada com isso.
— O que você fez? Ou disse para ela?
— Não devo satisfação de minha vida àquela garota. Então, disse que não era da conta dela. Ela me empurrou. Eu a empurrei de volta. Então a briga começou. E quando ela puxou meus cabelos, eu a mordi no braço.
— Makena.
— Ela mereceu, papai.
— Se algo assim voltar acontecer, você conta para um adulto.
— Acho que agora, ela vai pensar duas vezes antes de provocar.
Ele observou a filha, pensando no tanto de coisas que ela teve de enfrentar recentemente. Era demais até mesmo para um adulto.
— Continua bravo?
Ele meneou a cabeça, passando um braço ao redor dos ombros dela.
— Se te baterem, está liberada para bater de volta.
Makena sorriu.
— Mas só se te baterem.
— Tá bom. — Inclinou a cabeça ao olhar para ele. — Entendi. A mamãe também me disse isso uma vez.
— O que acha de me ajudar? — Lançou o olhar ao drone.
— Eu posso?
— Pode. Eu te ensino.
— Sei um pouco como funciona. O vovô tinha um para observar toda à fazenda.
— O que estamos esperando?
Ambos ficaram de pé. Makena se mostrou animada.
— Você é minha ajudante hoje.
— Quanto irei ganhar pelo serviço? Cobro por hora.
— Como é?
— Estou brincando. Estou ansiosa para começar.
Emmett sorriu.
— Pequena mercenária.
Uma risadinha.
Ele preparou o drone para decolar, explicando algumas coisas para a menina.
— Isso, já sei papai.
[…]
Às quatorze e trinta, Rosalie voltou para casa com Luna, de carona com Kate dessa uma vez. Preparou um lanche para ela e a deixou no assento de elevação à mesa de jantar. Colocou roupas para lavar.
Luna foi procurar por ela quando terminou de comer. Parou, olhando os girassóis no vaso sobre o aparador na entrada da casa. Pensando na mãe, levantou o braço para tocar as flores. Ficou nas pontas dos pés.
— Mamãe — sussurrou. — Desistiu, olhando em volta. Viu Rosalie chegando.
— Você está aqui — brincou.
Luna foi até ela. Com a mão, mostrou as flores, na sequência, a porta do escritório.
— Quer ir até lá?
Fez que sim com a cabeça.
— Tudo bem, vamos.
Lá dentro, mostrou o material de pintura de Rosalie.
— Você quer pintar?
Voltou concordar.
— Muito bem. Vou preparar tudo para você usar.
O dedo de Luna tocou sua cintura.
— Quer que eu te ajude?
A criança concordou.
Rosalie sorriu.
— Eu adoraria. — Segurou na mão pequena e deu um beijo no dorso. Começou preparar o ambiente para não fazer sujeira, forrou o local com uma toalha de piquenique, separou as tintas que ela usaria e também os pinceis. Colocou um avental na menina, ficou grande demais, porém, em breve cuidaria de encontrar o no tamanho dela.
Prestou atenção à criança, que tentava reproduzir girassóis.
— Está tentando reproduzir o vaso com girassóis que está na sala?
A menina concordou, segurando um pincel sujo de tinta amarela.
— Gosta de girassóis?
— Mamãe de Luna gosta.
Ouviu com surpresa a voz infantil outra vez. O sorriso em seus lábios foi automático.
— Por isso ficou feliz quando os viu na floricultura. Na fazenda tinha girassóis?
— Uhun.
— Muitos deles?
— Um montão.
— Uma plantação inteira?
Balançou a cabeça, concordando.
— Peônias — disse. — Pode ajudá Luna fazê peônias?
— Te ensinar fazer peônias? — Sorriu. — Claro que sim.
— Ose gosta de peônias.
— Isso mesmo. Peônias são minhas flores favoritas. Você tem uma flor favorita?
— Luna gosta de gilassol e peônias.
— Por causa da mamãe? Mas e as peônias?
Luna soltou o pincel na toalha de piquenique, ficou de pé, abraçando o pescoço de Rosalie, que estava sentada ao seu lado.
— Pô causa de Ose.
— Por minha causa, amor? Por serem minhas flores favoritas?
Ela moveu a cabeça, concordando.
— Ah, Luna, você é tão doce. — A abraçou de volta. Deu um beijo estalado em sua bochecha. Uma sorriu para a outra. — Ok, vamos continuar?
O sol se punha do lado de fora, quando o último papel que Luna pintou, foi pendurado num cordão, esticado de uma parede a outra do escritório, para secar.
Olhou a criança ao seu lado; o narizinho sujo de tinta e também os dedos. Pôs as mãos na cintura, de um jeito brincalhão.
— O que achou?
— Lindo.
— Eu também achei lindo.
O barulho de chaves na fechadura da porta da frente, chamou a atenção de Rosalie. Então as vozes de Emmett e Makena foram ouvidas.
— O papai chegou — disse para a menina.
Luna segurou sua mão.
Emmett as viu de mãos dadas saindo do escritório.
— Vocês estão aí.
Luna correu, e passou os bracinhos em volta de suas pernas.
— Que abraço mais gostoso. — Afagou as costas dela, então a pegou nos braços. Percebeu a tinta no nariz da criança. — Estavam fazendo desenhos com tinta, certo?
Luna confirmou, movendo a cabeça.
Makena foi de mansinho na porta do escritório, espiando no lado de dentro. Reparou na arte da irmã e o cuidado com que foram penduradas para secar.
Emmett colocou Luna no chão. Tanto ele quanto Rosalie deram um passo em direção ao outro. Ela parou, ele, porém, continuou até estar de frente para ela. Ergueu as mãos a altura do rosto dela, fazendo um carinho.
— Está tudo bem? Você e Luna se divertiram? Desculpe, não ter conseguido te pegar mais cedo.
— Está tudo bem. Adoro ficar com ela.
Deram-se um beijo breve. Os dedos dela lhe acariciaram a nuca.
— Como foi com Makena? — pediu em voz baixa. — Conseguiu levá-la na terapia?
— Ela não queria, como já imaginávamos. Mas não teve escolha. No horário marcado, eu a levei. No final, foi tranquilo.
— Fico feliz.
— Acho que pode dar certo.
— Vai, sim. — Viu de canto de olho, Makena entrar no escritório. Luna foi logo depois dela. — Ah, tenho de te contar uma coisa.
A expressão no rosto dele revelou curiosidade.
— O quê?
— Luna voltou conversar comigo.
O sorriso no rosto de ambos foi sincero.
— Não me admira que tenha conquistado a confiança dela. — Beijou na testa da esposa. — Eu mesmo me rendi aos seus encantos.
— É muito fácil gostar de Luna. Ela é um doce de criança. E tem tanto de você. Sinto que poderia ser nossa filha.
— Ela é nossa agora. — Após uma pausa, emendou: — Makena também.
Rosalie deu um passo para trás, constrangida por esquecer de mencionar a mais velha.
— Sim — murmurou.
A mão dele buscou a sua, seus dedos se entrelaçaram.
— Sei que não está sendo fácil. Que estamos sendo testados o tempo todo, mas vamos conseguir, não vamos?
— Vamos — a resposta dela, não pareceu muito confiante.
No escritório, Luna mostrou a irmã as tintas e os pinceis.
— Não quero pintar.
Então pegou o giz de cera.
— Também não quero colorir. — Sentou-se no sofá de dois lugares.
Luna se colocou em sua frente. Estendeu os braços, tentando alcançar o rosto da irmã. Ela recusou o gesto de carinho, afastando o rosto do alcance da mão pequena.
— Você gosta dela — acusou.
Luna abaixou a cabeça, ressentida.
— Fala com ela, mas não fala comigo. Saía daqui! — Empurrou a outra. Ela caiu de bumbum no chão. Os olhos marejaram. Se arrependeu do que fez, se levantou e foi auxiliar a irmã levantar. — Desculpe… não queria fazer isso.
Luna engatinhou para longe dela.
— Luna.
Emmett parou no limiar da porta, olhando os trabalhos de pintura pendurados no cordão.
— Uau! Parece que vocês dedicaram algum tempo aqui.
Luna levantou, um pouco mais afastada da porta. Rosalie prestou atenção ao que ela fazia. Percebeu os olhos assustados, quando correu para perto das pernas do pai.
Makena os olhou, desconfiada.
— Parece que temos uma segunda artista em casa. — Ele se abaixou para falar com a menina. — Papai amou todos. São lindos, tão adoráveis quanto você.
A expressão no rosto de Luna suavizou.
Emmett entrou no escritório. Junto ao material de pintura, pegou um lenço umedecido e usou para limpar a mancha de tinha no nariz de Luna.
— Talvez possa ajudar o papai fazer algumas pinturas também. Você ajuda o papai?
Rosalie viu o sorriso brincar no rosto do marido ao conversar com a filha mais nova.
— Espero ser um bom aluno — brincou.
Luna se divertiu com o que disse.
— Vou preparar o jantar. O que acha de ser minha ajudante, Luna? — Rosalie fez um convite.
— Sim, Luna qué ajudá.
Ela lhe estendeu a mão.
— Por que faz isso? — Makena os pegou de surpresa.
— Do que está falando?
— Makena — Emmett alertou.
— Pode ser minha ajudante também.
— Não quero ajudar você. Luna não é sua filha.
Luna balançou a cabeça, demonstrando incomodo.
Rosalie segurou sua mão pequena.
— Está tudo bem, meu amor — disse. — Vamos, você será minha ajudante. — As duas saíram de mãos dadas.
— Luna pode se machucar.
— Não vou deixar mexer com nada que ofereça perigo a ela.
— Makena — Emmett voltou a alertar.
— Ela age como Luna fosse filha dela.
— Não faça isso, estávamos indo tão bem.
— Mas…
— Agora não. Suba, tome seu banho e volte para o jantar.
Um suspiro aborrecido escapou por entre os lábios de Makena.
Quando saía do escritório, Emmett ressaltou.
— Eu te amo! — A tensão nos ombros dela relaxou. — Qualquer coisa, estaremos aqui.
Makena moveu a cabeça, positivamente, saindo de lá em silêncio.
Ele foi à cozinha, oferecer ajuda no preparo do jantar.
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