Laços Inquebráveis

15 Capítulo 15 — Entre a Alegria e o Medo


Emmett exibiu um sorriso ao perceber a menina, ansiosa, subindo a escada para encontrá-lo e, assim, poderem jantar juntos. No entanto, Luna mudou o foco ao ouvir a irmã.

— Papai.

Ele olhou para trás.

— Mudei de ideia — observou Makena. — Vou jantar com vocês.

— Já sabe o que precisa ser feito. — Inclinou a cabeça sutilmente na direção de Rosalie ao pé da escada.

— Papai…

— Faça o que tem de ser feito.

Makena a olhou de soslaio. Ofereceu a mão ao pai quando o alcançou na escada.

O olhar de Rosalie cruzou com o de Emmett no momento que ficaram frente a frente.

Luna inclinou o rosto para olhar para eles.

— Estamos esperando — continuou ele.

A menina relutou, forçando a raiva que sentia permitir se retratar.

Percebendo a dificuldade da criança em pedir desculpas, Rosalie começou virar as costas para se retirar.

— Rose, espere — Emmett pediu.

Makena tinha os olhos marejados ao olhar no rosto dele. Implorando silenciosamente para não ter de fazer o pedido de desculpas.

— Precisa fazer isso — ele insistiu.

Ela respirou fundo.

— Me… — começou com dificuldade. — Eu… é… — Ela olhou para o pai. O olhar firme dele, não permitiu recuou de sua parte. — Me desculpe. Não deveria ter riscado seu carro. Sinto muito.

— Está tudo bem. Eu aceito seu pedido de desculpas. — Embora soubesse que não se tratava de um pedido sincero, preferiu acabar ali o assunto.

Luna tocou na mão da irmã. Uma lágrima molhou a bochecha de Makena bem quando olhou no rosto da irmã caçula. Disfarçou a lágrima, esfregando a mão no rosto depressa.

— Meu pai vai pagar a reparação. Se ele quiser, pode fazer isso com o dinheiro que minha mãe me deixou. — Passou por Rosalie, cruzando a sala, a caminho da cozinha. Bastou virar as costas, o choro contido se libertou.

Emmett percebeu a esposa preocupara com o quanto a menina se esforçou e com seu choro. Fez um afago no rosto dela.

— Ela vai ficar bem — confirmou. — Só foi um pouco difícil. É importante que aprenda aceitar as consequências de seus atos.

— Ela está chorando.

— Eu sei. Também recusou o apoio de Luna. — Olhou a criança ao lado de Rosalie. Estendeu os braços para pegá-la no colo. — Vem com o papai, meu anjo. — Beijou em seu rosto.

Makena novamente jantou sozinha, sentada à ilha da cozinha. De tempos em tempos, o pai olhava naquela direção e podia ver suas costas.

Enquanto trabalhavam para deixar a cozinha em ordem, Makena foi até o quarto, retornou instantes depois com o tablet e os fones de ouvidos lilás.

Luna estava distraída com alguns brinquedos logo ao lado da ilha. Emmett recolheu o lixo e levou para a garagem, pela manhã colocaria para fora, quando o carro da coleta passaria.

Makena observou Rosalie se movimentando pela cozinha, recolhendo louças para a máquina de lavar, revezando-se em limpar as bancadas. Ela também organizou os talheres no cesto removível ainda sobre a pia.

Propositalmente, desconectou os fones de ouvidos, permitindo o som ecoar na cozinha um tanto alto demais. Barulho de tiros, pegou Rosalie desprevenida, despertando memórias adormecidas e fortemente dolorosas. O impacto dessas memórias a levaram ao medo e angustia. Talheres caíram aos seus pés ruidosamente. Aquele barulho junto ao som dos talheres ao atingir o chão, a deixou desnorteada. A mão esbarrou no copo na bancada e os cacos de vidro espalharam-se pelo chão.

A sequência de acontecimentos, deixaram Makena espantada. Seus olhos se arregalaram. Assistiu ao rosto de Rosalie se transformar a face do medo. Se sentiu estranha com o que viu. Ela tremeu inteira, as mãos encobriram os ouvidos. Apressou-se em desligar o som.

Os brinquedos já não eram importantes para Luna. Ela correu para o outro lado da ilha, onde estava Rosalie e também os cacos de vidro.

— Luna — Makena gritou. — Volte!

O alerta à criança trouxe Rosalie de volta ao agora. Percebeu a pequena indo em sua direção. Os talheres e os cacos de vidro no chão. Estendeu os braços em forma de barreira.

— Não, Luna — pediu. — Fique onde você está.

Luna parou, porém, seus olhos não a deixaram um minuto sequer.

Makena levantou, dando a volta ao redor da ilha, para segurar a irmã.

Luna começou a chorar, estendo a mão para Rosalie.

— Meu amor — Rosalie tentou. — É para você não se machucar. Fique aí, eu vou até você. — Passou cuidadosamente, evitando os cacos de vidro. Ainda tremendo, conseguiu segurar nas mãos da criança. Então a pegou no colo.

Makena permitiu a irmã ir com ela. Não conseguiu deixar de reparar quão assustada parecia.

— Tudo bem. Está tudo bem agora — disse para Luna. As mãos pequenas da criança tocaram seu rosto, ambas se olharam com conhecimento e segurança.

— O que aconteceu? — pediu Emmett, olhando no rosto de cada uma delas. E então, a bagunça no chão da cozinha.

Makena virou-se para olhar o pai.

— Rosalie deixou cair as coisas — acusou.

Ele observou que aquela foi a primeira vez que se referiu a sua esposa pelo nome e não com o uso de palavras depreciativas.

— Alguém se machucou? — Começou recolher os talheres no chão e colocá-los na máquina. Recolheu também os cacos de vidros e finalizou com o aspirador de pó para que não restassem resíduos.

Rosalie ainda parecia assustada, segurando Luna no colo, encostada ao armário.

Emmett se aproximou. Levou a mão ao seu rosto, fazendo um afago.

— Você está bem?

Ela meneou a cabeça, confirmando.

— Estou. Agora estou.

Ele afagou também o rosto de Luna.

— O que aconteceu aqui?

— Não sei, continuo organizando os pensamentos. De repente, me vi em uma daquelas lembranças dolorosas.

— O que pode ter acionado o gatilho?

Makena escondeu o tablet atrás das costas e então debaixo da roupa.

— As coisas caíram antes ou depois?

Rosalie tocou no braço dele, atenta a Luna em seu colo.

— Não sei… depois, talvez. Conversamos em outro momento.

— Tudo bem. — Ele abraçou a ambas, ela e a acriança. Beijou no alto da cabeça da esposa. — Precisa que eu faça algo por você?

— Não, obrigada.

— Então vou preparar o leite para Luna.

Ele se movimentou pela cozinha. Percebeu o olhar assustado de Makena.

— Tudo bem, filha?

A menina anuiu.

— Posso ir para meu quarto agora?

— Pode. Não esqueça de escovar os dentes. Daqui a pouco, eu subo para te dar um beijo de boa-noite.

Enquanto se retirava, olhou de rabo de olho a madrasta. Ela ainda estava pálida. Uma parte sua estava assustada com que acabou de fazer, outra, orgulhosa. Assim que chegou à sala, correu escada acima para esconder o tablet.

Rosalie sentou-se em uma das banquetas, com Luna no colo. Uniu sua testa a da criança enquanto se olhavam com carinho e afeto.

— Medo — sussurrou Luna.

Surpreso em ouvir a voz da filha pela primeira vez, Emmett deixou cair um pouco de leite na bancada da pia, quando colocava o leite no copinho da criança. Sentiu-se ansioso, temendo ter sido imaginação sua, o som daquela doce voz. Viu, Luna, levar as mãos ao rosto de Rosalie. Novamente, sussurrando:

— Medo. Ose teve medo.

Ele chegou mais perto, deixando de lado o que estava fazendo.

— Luna falou — disse de repente. — Eu ouvi.

O sorriso no rosto de Rosalie foi genuíno. Afastou suas testas. Olhou para o marido. O sorriso se refletiu no rosto dele e também em seus olhos.

— Ela falou — repetiu, sorrindo. — Falou com você.

Rosalie meneou a cabeça, o sorriso ainda estava lá.

Emmett sentou-se na bancada ao lado de ambas.

— Você falou, meu anjo.

Luna olhou nos olhos dele.

— Meu Deus! Você falou, Luna. Fale outra vez. Diz alguma coisa para o papai. Você ouviu, não ouviu, Rose?

— Sim, com certeza ela falou.

Ele segurou nas mãos da filha. Observou-a um instante.

— Você consegue dizer “papai”?

O olhar de Luna buscou o olhar de Rosalie.

— Você pode falar com ele. Pode falar com o papai, meu amor.

Luna voltou a atenção para Emmett. Em um sussurro, disse:

— Papai.

A emoção fez os olhos do pai se encherem de lágrimas.

— Fale outra vez — pediu.

Um pouco mais alto que na primeira vez, voltou a dizer:

— Papai.

Ele a pegou no colo, beijando ambas as suas bochechas.

— Luna tem um papai agola.

— Sim, Luna tem um papai agora — disse e voltou a beijar a bochecha dela. — E o papai te ama muito. — Beijou suas mãozinhas.

— Papai — repetiu Luna.

Emmett secou a umidade nos olhos.

Rosalie ficou de pé, fez um afago no rosto do marido. Ele passou o braço livre ao redor de sua cintura.

— Você fez isso — disse. — Foi seu carinho e cuidado. Sua paciência admirável.

Luna olhou de um para o outro.

— Papai. Ose.

Uma gargalhada fez o peito do pai sacudir.

— Coisa linda. Agora diz o nome do papai.

— Papai Emmett.

— O nome da irmã.

— Kena.

— Meu amor, você está mesmo falando.

— Papai.

— Sim?

— Luna pecisa do leite. — O dedo apontando para a garrafa em cima da pia.

— Claro, papai esqueceu do leite. Desculpe! — Ele ficou de pé. Deixou Luna no banco e foi pegar o leite para ela. — Percebeu ambas darem-se as mãos e seus narizes se tocarem em um beijo de esquimó.

Instantes depois, ele bateu à porta do quarto de Makena antes de entrar. Ela usava o tablet quando a avistou sentada na cama.

— É hora de guardar isso.

Makena não questionou. Deixou o tablet na gaveta da mesinha de cabeceira. Ao perceber o rosto dele sorridente, tentou descobrir o motivo.

— O que aconteceu, papai?

— Uma coisa maravilhosa.

— O quê? — Balançou a cabeça como considerasse impossível.

— Sua irmã falou comigo.

Num ato de alegria, Makena ficou de joelhos na cama, ansiosa demais para permanecer sentada.

— Quando isso aconteceu?

— Há alguns minutos.

— O que ela disse?

— Me chamou de papai. E mais algumas outras palavras. Antes disso, ela já tinha conversado com Rose.

— Onde ela está agora?

— Está lá embaixo.

Makena pulou da cama no chão.

— Aonde vai?

— Preciso ver a minha irmã. Ouvir a voz dela novamente.

Ficou olhando a menina sair correndo do quarto.

— Luna — chamou pela irmã ainda no corredor.

Emmett foi atrás dela.

No alto da escada, voltou a chamar:

— Luna! — Desceu apressadamente os degraus. — Luna.

A irmã se assustou com os gritos. Escondendo-se atrás das costas de Rosalie, ambas sentadas no sofá.

Rosalie observou a criança mais velha, sem saber o que esperar.

Makena chegou mais perto, ofegante da corrida. Os pés descalços. Por um instante, Rosalie enxergou a menina que Emmett costumava descrever em suas conversas antes de a distância se tonar um problema. Viu um leve sorriso e uma covinha surgiu na bochecha esquerda dela.

— Papai disse que você falou.

Nesse momento, Emmett parou ao pé da escada, olhando a cena. Rosalie logo percebeu sua presença. Isso lhe deu mais segurança.

Makena chegou tão perto quanto havia chegado antes de Rosalie. Luna se apoiou nos ombros dela.

— Você voltou a falar. — Tocou na mão da irmã. A mais nova prestou atenção aos seus gesto e expressão facial. — Diz alguma coisa, irmãzinha.

Luna saiu de detrás de Rosalie, porém, não disse nada.

— Por que não quer falar comigo? — a expressão no rosto de Makena tornou-se triste. Ela olhou onde o pai estava. — Disse que Luna estava falando, papai. Mentiu para mim?

Ele deu um passo à frente.

— Não menti, filha. Luna realmente falou.

Makena voltou olhar no rosto da irmã.

— Luna. — De Canto de olho, observou a madrasta. — É culpa sua — acusou.

Emmett se apressou em ir até elas, antevendo a reação da filha. Antes que a menina se lançasse em Rosalie com agressividade, a segurou.

— Pare com isso. — Afastou-a. — Rose não fez nada além de cuidar de sua irmã. Foi doce e gentil o tempo todo.

Diante tudo aquilo, Rosalie percebeu Luna chorando.

— Está tudo bem, meu amor.

A criança segurou sua mão. A trouxe para perto. Luna passou os braços ao redor de seu pescoço.

— Shhhhh… está tudo bem, meu amor.

— Ela não é seu amor — gritou Makena. — Não é nada para ela.

Rosalie ficou de pé com Luna nos braços. Virou de costas e começou se afastar a caminho da cozinha.

— Não é a mãe dela. Luna não é sua filha. A mãe dela se chama Aurora.

Cruzou a cozinha com a criança e saiu para o jardim dos fundos.

Emmett forçou Makena a sentar no sofá. Sentou-se ao lado dela. Limpou suas lágrimas na palma da mão. Encostou a cabeça dela ao peito, tentando acalmá-la. Respirou fundo, cansado de tantas brigas. Amava as três, mas estava sendo extremamente desgastante controlar a impulsividade da filha mais velha.

— Mamãe ficaria furiosa com tudo isso — contou.

— Não ficaria, não. Nenhuma mãe ficaria furiosa por alguém cuidar tão bem de um filho seu. Não deveria ficar pensando nessas coisas.

— A mamãe não gostava dela.

Emmett fez um afago nos cabelos da filha.

— Isso não deveria estar com você, essa herança raivosa.

Makena fungou.

— Luna não quer falar comigo. Mas, falou com você e a centopeia loura.

— Talvez se melhorar seu comportamento…

— Luna não gosta mais de mim.

— É claro que gosta. Peça desculpas a ela.

— Não quero fazer isso agora. — Ficou em silêncio, em seguida.

— Faça isso por sua irmã.

— Está bem. — Ela ficou de pé. — Não sei onde estão, papai.

— Eu sei. Vá até a cozinha e saia pela porta dos fundos, elas estarão lá.

Ela parou e olhou para trás.

— Pode vir comigo, papai?

O pedido o tranquilizou. Foi até ela e segurou sua mão. A menina olhou para cima, no rosto dele. Ele sacudiu suas mãos unidas. Olhou no rosto dela e seguiram adiante.

Encontraram Rosalie sentada no banco de madeira ao lado de um arbusto florido com hortênsias azuis. Luna estava em seu colo. Ela cantarolava em voz baixa uma canção infantil para a menina.

Observando ambas ali, Makena percebeu a mão da irmã, os dedos enroscados numa mecha de cabelos louros.

Um sorriso sutil mudou a expressão no rosto de Emmett. O laço entre elas se tornava cada dia mais forte, a cada instante juntas.

O silêncio se fez presente no momento que os percebeu chegar. A mão permaneceu afagando as costas de Luna.

— Makena quer pedir desculpas a irmã.

— Ela está dormindo, papai — apressou em dizer. — Não tem como.

Ainda ficava surpreso com o quanto Luna se sentia confortável ao lado de Rosalie. Ela nunca chorava antes de dormir quando estava ao lado dela.

— Tudo bem. Pode fazer isso amanhã, quando estiver acordada.

Makena soltou a mão do pai, sentindo os olhos marejarem. Em seu pensamento, Luna estava traindo Aurora. A primeira lágrima molhou a bochecha ao virar as costas. Saiu de lá apressada.

— Makena — Emmett chamou. — Filha.

Ficou olhando a porta fechar atrás das costas da menina. Ele olhou Rosalie e Luna juntas.

— Você está bem?

— Sim — respondeu em voz baixa. — Acho que Makena não gostou de ver Luna dormindo no meu colo. A verdade é que nunca gosta de nada que eu faço.

— Luna gosta e eu também. — Ele chegou mais perto. — Deixe que levo ela para a cama. — Se curvou, pegando a criança devagar.

Rosalie soltou cuidadosamente os dedinhos enroscados em seus cabelos. A menina se mexeu, mas não acordou.

— Luna disse mais alguma coisa?

— Desde que saímos da sala, não disse mais nada.

Ela o acompanhou pela casa até estarem de frente a porta do quarto das meninas. Segurou na mão pequena de Luna e deu um beijo.

— Durma bem, meu amor. — Seus olhos cruzaram com os olhos do marido enquanto soltava a mão da criança. Havia gratidão nos olhos dele e amor.

— Te amo! — Abriu a porta do quarto e entrou com Luna.

Rosalie seguiu caminho até o próprio quarto. Não percebeu o momento que Emmett chegou. Os pensamentos estavam distantes, em um momento de sua vida no qual lutou muito para mantê-lo na caverna sombria do esquecimento. A verdade é que desejava arrancá-lo da memória.

Se assustou ao toque cuidadoso das mãos dele em seus ombros. Deixou a escova de cabelos cair aos pés. O reflexo no espelho da penteadeira revelou ser Emmett atrás de suas costas. As mãos tremiam, no momento que virou para olhar no rosto dele.

— Me desculpe, não queria te assustar. Achei que tivesse me visto chegar.

Ela piscou os olhos devagar, recuperando-se do susto.

— Não vi. Estava distraída.

Emmett notou algo diferente em seus olhos. Talvez fosse medo. Fez um afago na bochecha, alcançando assim a nuca.

— Quer me contar o que está acontecendo? Tem relação com que aconteceu na cozinha? Foi algo que Makena aprontou?

— Tive uma lembrança do dia do atentado… — Ela ficou de pé. Os dedos das mãos entrelaçados. — Fazia muito tempo isso não acontecia.

Emmett segurou suas mãos, então a abraçou. O queixo descansou no alto da cabeça dela.

— Aconteceu algo diferente? Algo que acendeu a memória?

— A vinda das meninas para cá, tem me feito pensar muito em minha mãe e na Lily. Mas, hoje foi diferente, como ouvisse os disparos enquanto estava na cozinha. De repente, me vi naquele dia outra vez. Acho que assustei Luna sem querer.

— Luna ficou mais preocupada que com medo. Ela falou com você mais uma vez. Sentiu que teve medo. Reconheceu o sentimento cujo ela mesma enfrenta desde a morte de Aurora.

— Não queria que ela presenciasse esse momento de fraqueza. Além disso, teve toda aquela situação na sala. Ela é tão pequena ainda.

Ele se curvou ao lhe dar um beijo na testa.

— Casar com você foi um dos maiores acertos de minha vida. — Sentiu os braços dela envolveram sua cintura.

— Te amo muito — sussurrou tendo o rosto colado ao peite do marido.

— Amo você — disse-lhe de volta.

Levou um tempo para Rosalie pegar no sono essa noite. Nem mesmo estar ao lado de Emmett, dormindo em seus braços, foi suficiente para mantê-la tranquila. Mergulhou em um sono agitado, cheio de memórias difíceis de lidar.

[…]

Rosalie, aos 12 anos, a mãe, Leonor, e Lily, a caçula, com oito, dedicaram a maioria do tempo ao corredor com decorações para o Dia de São Valentim.

Leonor ficou alguns passos à frente, acrescentando itens ao carrinho de compras. Lily ficou para trás, pulando amarelinha imaginaria no corredor, as tranças em seus cabelos louros saltitavam ao cada pulo seu.

Rosalie se aproximou da mãe, carregando uma caixa de bombons em formato de coração.

— Posso levar esses chocolates, mamãe? — sorriu ao toque carinhoso da mão de Leonor em seu rosto.

— É claro que pode, meu amor.

Leonor ficou alguns passos à frente, acrescentando itens ao carrinho de compras. Lily ficou para trás, pulando amarelinha imaginaria no corredor, as tranças em seus cabelos louros saltitavam ao cada pulo seu.

Rosalie se aproximou da mãe, carregando uma caixa de bombons em formato de coração.

— Posso levar esses chocolates, mamãe? — sorriu ao toque carinhoso da mão de Leonor em seu rosto.

— É claro que pode, meu amor.

Lily ouviu e tratou logo de garantir que ganharia uma guloseima também.

— Também quero chocolate, mamãe.

— Pode pegar chocolate para suas irmãs também?

Rosalie anuiu. Satisfeita com sua compra, voltou e pegou mais chocolates para Lily e as outras duas irmãs que ficaram em casa.

— Lily, não se afaste. — Ouviu a mãe avisando a irmã. As risadinhas da menina ecoavam pelo corredor junto aos seus pulinhos. — Lily — O tom de voz um pouco mais firme. A criança retornou da seção ao lado. — Fique onde eu possa te ver, querida.

— Quero ver os brinquedos, mamãe.

— Não vamos comprar brinquedos dessa vez, meu bem.

O sorriso de Lily foi substituído por um beicinho de decepção.

— Só um, mamãe, por favor.

— Outro dia voltamos para comprar brinquedos.

— Posso ir com ela ver os brinquedos, mamãe.

— Quero ambas perto de mim, entendido?

As meninas não voltaram a questionar. Rosalie permaneceu perto da mãe ajudando com as compras. Lily, sempre se distanciando com suas brincadeiras e risadinhas.

De repente, o som de passos e as risadinhas de Lily foram misturadas ao barulho de disparos de arma de fogo, exatamente às onze e trinta e cinco da manhã. Gritos chegaram até elas numa sequência desesperadora. Rosalie deixou cair aos seus pés, o coração de pelúcia vermelho. O olhar assustado encontrou o da mãe, um reflexo do seu. Eleonor olhou ao redor imediatamente.

— Lily — o nome da filha caçula deixou seus lábios como um clamor.

Rosalie se agarrou a cintura da mãe, tremendo.

— É tiro, mamãe.

Leonor levou ambas as mãos ao seu rosto. O medo em seus olhos era visível.

— Vai ficar tudo bem — tentou, mesmo sabendo ser quase impossível. — Lily. — Voltou olhar ao redor. — Lily.

Rosalie pôde sentir o tremor na voz da mãe.

— Mamãe.

— Lily — Eleonor se apressou. — Preciso encontrar sua irmã. — Segurou o rosto da filha entre as mãos trêmulas. Atrás das costas da menina, a poucos metros, uma prateleira e uma caixa enorme cheia de bichos de pelúcia dedicados ao Dia de São Valentim. — Vá para lá e se esconda.

Rosalie negou freneticamente com a cabeça.

— Não — murmurou. — Não quero ir, mamãe. Estou com medo.

— Preciso encontrar sua irmã.

O som dos disparos ficava cada vez mais perto.

— Não consigo fazer isso sozinha.

— Você precisa, meu amor. Preciso encontrar sua irmã antes… Tenho de salvar minhas duas filhas. Se fizer isso agora, talvez ele não te encontre. — Eleonor forçou soltar sua mão.

Com os olhos cheios de lágrimas, Rosalie murmurou:

— Mamãe… — no fundo, sabia que aquele momento podia ser uma despedida. E isso lhe doeu profundamente.

— Vá, querida.

Rosalie já não conseguia vê-la com clareza devido à cortina de lágrimas nos olhos.

— Mamãe…

— Eu te amo, Rose. Tenho orgulho da menina que você é. Agora, vá e não saía de lá até que a polícia te encontre.

Assustada demais para continuar teimando, olhou a mãe uma última vez, o olhar dela lhe pareceu um adeus. Não lhe restou outra escolha que não fosse correr e se esconder. Forçou o esconderijo, se misturando as diversas pelúcias colocadas ali. O corpo inteiro tremia e o coração pareceu querer explodir no peito, estava difícil respirar. Minutos se passaram, os disparos ora pareciam distantes, ora perto. Não sabia com certeza, estava assustada demais. Apertou as mãos na própria boca, garantindo que não gritaria.

[…]

— Mamãe. Lily — o chamado escapou por entre seus lábios, exatamente quando seus olhos se abriram. O corpo passou de deitado para sentado. Percebeu com uma tristeza imensa que os pesadelos haviam voltado. O peito movia-se com a respiração irregular.

Ao seu lado estava Emmett, com o olhar preocupado. Ele a abraçou ao se dar conta do que havia acabado de acontecer.

— Está tudo bem — falou ao pé do ouvido. — Estou aqui com você. — Beijou na têmpora direita dela. Ela o abraçou de volta.

— Aconteceu outra vez… — sussurrou.

— Acabou. Está segura agora.

— Fazia muito tempo não acontecia… não posso viver tudo novamente. Eu não consigo.

Emmett lhe afagou os cabelos.

— Acabou — repetiu com firmeza.

Permaneceu abraçada ao marido até a sensação de pânico passar e voltar se sentir segura. Todo aquele terror havia ficado adormecido no passado com ajuda das várias sessões de terapia. E era lá onde esse medo e angustia deveriam ficar.

Os dedos de Emmett percorriam suas costas fazendo carinho. Se encontrava deitada, com a cabeça apoiada ao peito dele, os pensamentos circulando entre o presente e o passado.

O sol começava despontar. Emmett encostou o queixo ao alto de sua cabeça, ambos em silêncio. Não voltaram a dormir. Minutos se passaram até ouvir uma pequena batida à porta. Emmett foi quem levantou para ver o que acontecia. Caminhou de pés descalços até a porta, ao abrir, deparou-se com Luna do outro lado, o coala de pelúcia nos braços, os cabelos bagunçados, os olhos de quem acabou de acordar.

Ofereceu a mão a filha.

— Bom dia, meu amorzinho.

Rosalie sentou-se na cama, sabendo que ele falava com Luna.

A mão pequenina se perdeu na mão dele.

Com Luna em seu campo de visão, Rosalie só pensou em abraçá-la. A criança pareceu desejar o mesmo, porque olhou imediatamente para ela.

O pai a levou pela mão para perto da cama. Então a colocou sentada perto de Rosalie. Luna chegou mais perto, esticou os braços, alcançando o rosto dela com uma das mãos.

Quando seus olhos se encontraram, Rosalie soube que estava ali para confortá-la do sonho ruim, foi como sentisse que precisava disso. A menina ficou de joelhos na cama, e seus braços buscaram conforto uma na outra.

— Meu anjinho — disse, notando a criança suspirar. Toda angústia que esteve sentindo antes se tornou pequena com o carinho da menina.

Emmett observou ambas. Um sorriso de compreensão esteve em seus lábios.

Viu a esposa beijar no rosto da menina e ter a bochecha beijada de volta.

— Vou deixar as duas juntas e vou acordar Makena para se vestir para ir à escola. Também farei o café da manhã.

Rosalie afastou o cobertor para dar espaço para Luna ficar ao seu lado.

— Deite aqui pertinho de mim, meu amor.

Arrumou o cobertor ao redor da criança e lhe deu um beijo na pontinha do nariz.

Emmett as observou um instante mais.

— Amo vocês — disse. Em seguida, entrou no banheiro e fechou a porta. Ao sair já de banho tomado, usando um roupão preto, logo percebeu dormirem abraçadas. Ele entrou no closet para se vestir.

Quando acordou Makena, ouviu reclamações sobre ser muito cedo e ela estar cansada. Deixou se arrumando para ir à escola, enquanto isso desceu para preparar o café da manhã para a família.