Laços Imperfeitos
27 Extra – As rotinas
Notas iniciais
Extra – As rotinas
Rukia respirou fundo. O pé direito fora do aeroporto, um táxi os esperando, as malas cor-de-rosa longe de suas mãos. O olhar vivo e ao mesmo tempo tão indiferente de Byakuya. O ar poluído de Tóquio nunca pareceu tão doce ao respirá-lo em toda a sua vida. Certo, passar algum tempo com os avós em Osaka não foi de longe torturante. Francamente, foi algo muito bom e tudo mais, porém, estar a sós naquela enorme mansão com o irmão (e agora Renji. Este que meio que contava como outro irmão.) tornou-se parte de sua rotina. Mesmo que parecesse alguém alegre e animado demais para o próprio bem, Rukia tinha lá suas fraquezas e seus momentos sensíveis, por mais incrível que pareça.
Fazia parte de sua construída personalidade e agora ela enxergava o fato muito claramente: ela adorava rotinas. Mesmo que, por alguma razão infernal, as quebrasse periodicamente. O motivo? Muito lógico: seus pais morreram por quebrar rotinas; seu irmão já se magoou por quebrar rotinas; ela já cometeu um crime contra um ser humano e contra uma longa e duradoura amizade, crime este que logo foi perdoado por Renji, a vítima, por quebrar rotinas. Ela ficou de castigo por tempo indeterminado, quase perdeu o namorado e certamente perdeu uma diva festa por quebrar a porcaria de uma rotina. Pegou a bolsa carteira, a única que levou para dentro do táxi e agarrou seu celular, o único privilégio que seu irmão lhe deixou. Procurou nos contatos o nome do ruivo mais burro do mundo (para falar a verdade, ela ainda não se decidiu entre Renji e Ichigo. Mas, o ruivo burro em questão era Renji.) e mandou apenas uma simples mensagem. "Estamos chegando".
...
Renji estava nervoso. Depois da primeira noite em que se comunicou com Byakuya por mensagem de texto, conversar antes de dormir, falar de seus dias ou apenas encher o saco, tornou-se rotina pelas próximas duas noites a partir dali. E esse foi o único acontecimento que fez os seus dias se tornarem toleráveis. Comunicar-se com ele dessa forma, entretanto, trazia uma estranha e quase imprópria liberdade à conversa. Ele não falava com ele de outra forma há algum tempo, temia agir como um idiota agora que o veria. Essa era a fonte de seu nervosismo.
Depois de bons trinta minutos, um táxi estacionou em frente aos enormes e imponentes portões da mansão Kuchiki e os irmãos desceram. Renji observava sua chegada pela janela do salão de entrada e um sentimento quente, que em nada combinava com aquele frio infernal, alojou-se em seu peito. Rukia parecia ainda mais minúscula de longe e Byakuya poderia se passar por um adulto normal, sem parecer o Senhor Gelado ou um príncipe de histórias. Os enormes casacos que ambos usavam eram de longe identificáveis. A neve caia incessantemente e as figuras escuras se destacavam naquela imensidão branca. O Kuchiki mais velho virou o rosto para cima e seu olhar cruzou com o do Ruivo. Renji sentiu-se sorrir. Era bom estar de volta.
...
–... e então a vovó pediu para que nós assássemos biscoitos que nós mesmos faríamos. – Rukia abanou a mão em descaso enquanto falava animadamente sobre o seu fim de semana fora. – Você precisava ter visto. Foi meio bagunçado, mas divertido. O nii-sama fez tudo com perfeição! E, no fim, os biscoitos dele tiveram o formato perfeitos, bem melhores que os meus...
– Os seus também estavam ótimos, Rukia. – Byakuya se pronunciou pela primeira vez, tentando reconfortar a irmã. Mas, em nenhum momento negou que os seus eram melhores. Renji viu-se sorrindo idiotamente por isso. Até os "defeitos" dele eram charmosos.
– Eu tenho fotos aqui, quer ver, Renji? – Ela nem sequer esperou que ele respondesse, apenas puxou o celular cor-de-rosa com um chaveirinho de coelho de uma bolsa e logo o entregou a Renji. Os biscoitos consistiam em dois tipos: biscoitos estranhos e biscoitos muito estranhos. Uns tinham formato de coelhos com o cromossomo deficiente e sorrisos estranhos. Outros eram verdes e pareciam buchas... com sorrisos estranhos. Ele podia facilmente identificar de quem era o de quem. Byakuya não podia fazer tudo, afinal, e, por alguma razão, isso foi reconfortante. Estar apaixonado pelo homem que pode fazer tudo e que tem tudo não é legal.
– E você, Renji? Como foi a viagem? Ela brigou com você? – A garota franziu as sobrancelhas com a simples ideia.
– Não, tudo ocorreu bem. – Ele sorriu e esperou que sua voz não tremesse. Odiava ter que falar disso. Rukia estreitou os olhos, mas, abriu um sorriso em seguida.
– Espero que sim. Eu sei que você me contaria se ela brigasse contigo. – A garota levantou-se e deu "leves" tapinhas em seu ombro. Qual o problema desses Kuchiki em achar que são meus pais? – Eu vou subir, quero tomar banho e guardar minhas coisas. Com licença. – Ela logo sumiu de vista. Renji olhou para Byakuya, que o encarava de volta. Quase se sentiu encabulado, mas, não desviou a vista.
– Você esqueceu, não é? – Byakuya quase sorriu.
– Esqueci o quê? – O Abarai tentou lembrar-se de qualquer coisa que estivesse esquecido, mas, nada vinha a mente. Duh.
– O aniversário de Rukia será em breve. – Renji arregalou os olhos. Puta merda, que amigo crápula era!
...
Na semana seguinte, Rukia estava de cama. Toda aquela neve, todo aquele frio, todo aquele inverno não fez bem para a sua saúde. Espirrou, acomodando-se melhor debaixo das muitas cobertas. Queria dormir, acordar sem essa desgraça de gripe e... alguém bateu na porta.
– Entre... – um murmúrio anasalado foi ouvido. Queria dar a impressão que estava morrendo, mesmo. Vai que isso a livra do castigo. Dar de João sem braço nessas horas nem sempre funcionava, enfim. A cara curiosa de Renji foi vista. Ele entrou, sendo seguido de seu irmão. Estranhou. – O que houve?
– Nada... – Renji sentou em um lado de sua cama e seu irmão de outro. O ruivo olhava tudo ao redor. As paredes creme com papel de parede com florezinhas. Milhões de prateleiras com os milhões de bichos de pelúcia. O "armário secreto" com coisas impróprias para menores de cinquenta e seis anos e feriados que ela uma vez usou para traumatizá-lo... – Tudo parece assustador como sempre... – balbuciou sem querer enquanto olhava ao redor. Byakuya o olhou reprovador e Rukia o chutou levemente por baixo dos lençóis. – Desculpe. – Coçou a nuca.
– O que os senhores querem com a enferma, se me permitem perguntar? – a garota indagou dramaticamente. Byakuya a olhou com atenção.
– Desejar um feliz aniversário. – assim que disse isso, como em um timing perfeito, uma das empregadas entrou, trazendo uma grande bandeja. Renji piscou para a mulher, que corou e desviou o olhar. Abriu um enorme sorriso e virou-se para os Kuchiki, estes que o olhavam como se fosse um velho tarado pervertido psicótico.
– O quê?
– Nada... – responderam ao mesmo tempo.
– 'Tá...
Rukia olhou para a bandeja. Surpreendeu-se, todavia. Uma fumegante tigela de sopa e um não muito grande bolo estavam lá. No bolo, estavam dezoito pequenas velinhas. Enfeitado com glacê lilás e muitos animais fofinhos e sorridentes, era a coisa mais amor do mundo, não dava nem vontade de comê-lo. Rukia tinha os olhos brilhantes e olhava tudo como se fosse a coisa mais perfeita existente.
– Olha, eu sinceramente quase me esqueci da data pela primeira vez na vida. E eu faria uma festa que deixaria metade da cidade de boca aberta... – Renji chocou-se com a cara de pau crua dela, enfim. –... se não estivesse de castigo. Mas isso é tão fofo que eu não me importo! – Ela se ajoelhou na cama, chegando muito perto de Renji e lhe apertando as bochechas. Ele controlou a língua admiravelmente pelo fato de ela estar doente e de Byakuya estar no quarto. Chegou perto de Byakuya e eles trocaram um desajeitado, mas quente e reconfortante, abraço. O aniversário de Rukia não passara em branco ou esquecido, ao menos.
...
Rukia já estava quase dormindo. O sono e o cansaço que sempre vinha com as doenças estavam presente. Acomodou-se melhor... E então, seu celular tocou. Amaldiçoou quem quer que fosse. Que audácia, incomodar um quase cadáver há essa hora... Ia voltar a dormir, mas a curiosidade falou mais alto. Pegou o aparelho. A luz forte no escuro a cegou por um momento. Piscou longamente e leu a mensagem.
Kurosaki Ichigo
Assunto: Desculpa
"Eu queria estar com você hoje. Não estou contigo hoje por minha e exclusivamente minha, culpa. Feliz aniversário, desculpa por isso. Eu te amo."
Rukia sentiu-se sorrir. Era muito idiota, mas se sentiu melhor com uma simples mensagem. Respondeu quase que instantaneamente, apenas cinco palavras.
Kuchiki Rukia
Assunto: re: Não se desculpe
"Obrigada. Eu também te amo."
{...}
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