Laços Imperfeitos
23 Crime e castigo
Notas iniciais
Capítulo dezessete: Crime e Castigo
(...)
– Senpai?
– O quê?
– Pode... me dar uma chance? – Dessa vez a resposta demorou, tanto que Renji pensou que não receberia uma.
– Tudo bem.
Renji foi dominado por um forte sentimento de felicidade, aceitação e algo mais. Como duas simples palavras poderiam ter tamanho efeito? Ah claro, porque era Byakuya. Partindo dele, um “tudo bem” não era tão simples. Notou que abraçava o moreno com mais força do que deveria, mas, estava tão contente. Afastou-se, mostrando para o Kuchiki um sorriso tão extenso que chegava a ser bizarro.
Mesmo assim, o homem não se assustou, obviamente. Tinha conhecimento do quão estranho Renji era. E, também, do quão impulsivo e equivocado. Tanto, que antes que Byakuya pudesse complementar as condições que vinham com aquele “tudo bem”, o garoto já tentava beijá-lo e sabe-se lá mais o que faria. Impediu-o antes que fizessem algo errado... outra vez.
– Renji, eu lhe darei uma chance, porém... – Tinha que ter um “porém” ou então não seria Byakuya. – Bom, você ainda é menor de idade...
– Mas, senpai, eu sou responsável por mim mesmo... – interrompeu o Kuchiki. Não gostava de ser tratado como criança. – Não há sentido esperar. Nós até já fizemos...
– Renji! – cortou-o irritado e constrangido. – Isso não vem ao caso. A partir de agora faremos do jeito correto...
– Mas, senpai...!
– Sem “mas”! – Suspirou, Renji fazendo bico era algo estranho e um tanto perturbador. – Vamos com calma. Ainda preciso me acostumar com a ideia. E ter o sentimento de que estou me aproveitando de uma criança não é uma boa forma de me acostumar com isso.
– Senpai, eu não sou uma criança. – Definitivamente, Byakuya tinha algum sério problema. Comparar um marmanjo tatuado de quase dois metros a uma criança não era lá muito normal. – E, bem... Não está se aproveitando de mim. Se alguém se aproveitou de alguém, não diria que foi o senhor... Digo, você...
Caramba, sempre o tratou de forma mais formal. Entretanto, se ele realmente teria uma chance, esse costume teria que mudar. Ao pensar em mudanças, sentiu uma pontada de culpa. Outra coisa deveria mudar: a mentira que contou. Mas, como diria a verdade? Sabia que aquela pequena chance era algo ao qual deveria se agarrar com todas as forças. Contar a idiotice que havia feito naquele momento destruiria tudo.
Esperou que Byakuya o repreendesse pelo “você” quando este voltou a falar:
– Não vamos discutir sobre isso. No momento, eu era o único adulto presente, deveria tê-lo impedido de alguma forma. – Corou ao lembrar-se da fatídica noite na biblioteca. Byakuya corado era tão fofo, fazia com que o ruivo desejasse o beijar ainda mais.
– Então, como ficamos até que se acostume com a ideia?
– Como antes.
– Mas, senpai, isso é impossível! E-eu posso ao menos beijá-lo? – A expressão do Kuchiki deixou claro que não poderia. – Só de vez em quando...
– Não, Renji. Seja paciente. Existem ainda outros problemas que preciso resolver quanto a esse... relacionamento.
Renji sabia que ele se referia a Rukia e também sabia que ela não se importaria nenhum pouco. Na verdade, daria muito apoio... Até demais. Pensou em dizer isso para Byakuya, mas, havia outra dúvida mais importante.
– Senpai, posso fazer uma pergunta? A resposta pode me ajudar a ser paciente...
– Faça-a então.
– O senhor... Você me ama? – perguntou, assustando-se com a expressão surpresa de Byakuya – Talvez seja um pouco cedo para isso. Acha que pode me amar? Ao menos está apaixonado por mim?
Eram muitas perguntas. O Kuchiki havia ficado em choque. Qual é? Externar sentimentos não era uma das habilidades do pobre coitado. Ele sabia a resposta, mas como diria? Na verdade, ele realmente sabia a resposta?
Agradeceu à Kami mentalmente quando foi salvo pelo toque do telefone. Pediu à Renji que esperasse e foi atender. Entretanto, seu agradecimento fora equivocado. As notícias não eram boas, nenhum pouco. O ruivo logo notou que algo grave havia acontecido.
– Onde? – Byakuya perguntou nervoso. Renji não entendeu bem, mas, por algum motivo a resposta fez com que o moreno lhe olhasse preocupado. – Estou a caminho.
Desligou o telefone apressado, deixando Renji sem entender nada. Pegou as chaves do carro e um casaco, logo depois voltou para a sala.
– Senpai, o que aconteceu?
– Explico no caminho. Vamos!
– Para onde?
– Para a sua casa.
...
Era tudo extremamente surreal. “Casa” e “fogo” ecoavam na mente de Renji. Na verdade, só havia compreendido a parte em que sua casa havia queimado... Boa parte dela. O ruivo estava em choque, era a conclusão de Byakuya ao notar a expressão bizarra do outro. Até que está se alterou para pânico.
– Senpai, Rukia...?
– Ela está bem... – a resposta veio firme, mas ele murmurou em seguida. – Então você sabe que ela estava lá. Diga-me o porquê. Rukia me disse que dormiria na casa de uma colega...
– Ah, é que... ela... ela ia passar lá em casa para...
– Não minta para mim. – pronunciou pausadamente, da forma mais ameaçadora que se possa imaginar. – Se há algo que eu odeio são mentiras... – Renji engoliu em seco – Ela estava lá e ainda está com um garoto chamado Kurosaki Ichigo.
– Sim. – respondeu, revirando o cérebro em busca de alguma desculpa boa. Mas, não encontrou nada.
– Por que estavam na sua casa?
– Foi o que eu disse, senpai. Eles iam passar lá, sabe...
– Não, Renji, eu não sei.
O silêncio se apoderou do carro de luxo de Byakuya. Renji não sabia o que dizer, e o outro não queria o pressionar. É claro que, só não havia lhe arrancado à verdade porque o garoto tinha acabado de perder a casa. Fez uma nota mental para parar de pensar em Renji como “garoto”. De qualquer forma, já estavam chegando. Rukia explicaria tudo, sabendo o quão inocente a garota era, com toda a certeza faria sentido. Só não imaginava como.
O nervosismo de Renji aumentou quando conseguiu ver os danos em sua pobre casa. Bom, não tinha quase nada que ainda pudesse chamar de casa. A noção de que era um desabrigado o dominava. Byakuya também teve a atenção direcionada aos danos que o fogo causou. Sendo assim, o primeiro que viu Rukia foi Renji. E por Kami, o que ela estava vestindo? Por que Ichigo ainda estava lá? Por que estavam abraçados? Por que ele estava sem camisa? O Kuchiki mais velho os mataria, não havia dúvidas.
Virou-se rapidamente tentado evitar que Byakuya visse aquilo, mas, já era tarde. Estava tudo acabado, os três morreriam. Isso mesmo, o três! O casal inconsequente e o pobre ruivo por tabela. Logo agora que havia conseguido uma chance. Por que tinha que ser tão azarado? Devia ser castigo divino, não há outra possibilidade!
Ao estacionar o carro, o moreno se virou para o outro com seu habitual aspecto frio, mas, seus olhos queimavam. E, até era possível sentir e quase ver uma aura negra assassina em volta dele. Estavam muito ferrados!
– Desça, Renji...
– Senpai, é melhor ficar calmo.
– Eu estou calmo.
Renji decidiu ser sensato e obedecer ao Kuchiki. Ouviu-o batendo a porta do carro também, indo para o seu lado e logo após em direção ao que foi a casa de Renji. Aparentemente, os bombeiros já tinham ido embora, permaneciam apenas os policiais. Provavelmente, esperando o proprietário da casa e os responsáveis pelos menores, já que não podiam interroga-los sem a presença destes.
Conversaram, primeiramente, com os policiais. A situação era óbvia, o interrogatório seria mais por burocracia, já que o proprietário não abriria queixa. Rukia estava um tanto diferente do normal, parecia assustada e indefesa, não desgrudava de Ichigo de forma nenhuma. Fato que deixava a irritação de Byakuya ainda mais tangível, não que fosse algo visível em sua expressão, mas, uma atmosfera maligna em volta dele aumentava a cada minuto.
Resolveram os problemas com a polícia e combinaram que o depoimento da garota ficaria para o dia seguinte. Da mesma forma que ocorreria com Ichigo, cujo pai já esperava para levá-lo para casa. Renji dispensava olhares para casal como se dissesse: “Não estou bravo com vocês pela casa, mas poderiam ter morrido, idiotas.”. Não que eles conseguissem entender isso.
Finalmente, seguiram em direção à garota. Byakuya evitava olhar para o garoto de cabelo laranja, estavam mantendo sua postura calma com todas as forças... Não que olhar para aquele vestido que Rukia usava o deixasse com melhor humor. Estava na dúvida se realmente queria saber o motivo dela estar usando aquilo.
– Rukia, vamos!
A garota se afastou do namorado para ir embora, dispensando a ele um rápido olhar que foi retribuído. Ela teria ido embora em seguida e o assunto continuaria em casa, mas, Ichigo os impediu de ir.
– Byakuya. – Não há necessidade de dizer o espanto do Kuchiki ao ouvir o garoto o chamando dessa forma. Quanta audácia!– A culpa foi todo minha...
– Não preciso que me diga o óbvio. Era apenas isso?
– Não. Sei que começamos de uma forma errado, mas, gostaria de pedir Rukia em namoro, formalmente. Imagino que não concordará por agora. Mas, eu posso provar que sou bom para Rukia.
– Claro. Começou muito bem por sinal. – sarcasmo não era algo que utilizava frequentemente, porém, não conseguiu evitar. Aquele garoto era absurdo.
Ichigo, sabendo que era uma batalha perdida, voltou-se para o tatuado.
– Renji, eu realmente não sei o que dizer. Foi imperdoável o que fiz, mas, ainda assim espero que me perdoe.
Byakuya não gostava nenhum pouco do garoto, mas, devia admitir que era bem... digno.
– Qual é, cara? Tudo bem, sabe, não me importo tanto com a casa, o importante é que vocês estão bem.
– Você pode ficar na minha casa. Temos um quarto de hospedes, meu pai já ligou para casa pedindo para Yuzu arrumá-lo... Você fica lá até que eu veja o que posso fazer e...
– De forma alguma! – Byakuya interrompeu. – Renji ficara conosco. Temos melhores condições para acomodá-lo.
– Claro, mas, acredito que eu devo me responsabilizar já que a culpa foi minha...
– Isso não está aberto a discussões. Vamos! – Definitivamente, aquele garoto estava acabando com a compostura do Kuchiki. Ainda assim, o mais estranho era o silêncio de Rukia.
– Compreendo, mas, acredito que quem deve tomar essa decisão é o Renji.
Ichigo era mesmo briguento e um tanto burro, ficar discutindo com Byakuya não tornaria as coisas mais fáceis. Todos próximos ao ruivo voltaram-lhe suas atenções. O que deixou o pobre totalmente desconfortável e confuso. Realmente, não havia como ser mais azarado. Primeiro destroem sua casa, depois vê suas chances com Byakuya indo por água abaixo e agora estavam discutindo por ele, era só o que faltava mesmo.
Há um tempo preferiria a casa de Ichigo, obviamente. Por ter conhecimento disso, o morango continuava insistindo, entretanto, a situação atual era diferente. Nem precisava pesar os prós e contras, era óbvia sua escolha.
...
Rukia e Renji estavam sentados no sofá, apenas observando o Kuchiki andar de um lado para o outro. Esperavam que ele começasse um sermão, ou algo assim. Mas, ele não dizia nada, o que os deixava ainda mais nervosos. Rukia, cansada daquilo foi a primeira a quebrar o silêncio:
– Nii-sama? – chamou, atraindo a atenção do irmão que parou de desfilar pelo cômodo. – Acho que espera uma boa explicação. Bom, eu e Ichigo estamos namorando há alguns meses... E-eu sei que deveria ter contado, mas... Não o fiz, porque pensei que não aprovaria minha escolha. De qualquer forma, Renji não sabia de nada...
– Isso é mentira. – Renji a interrompeu. – Eu sabia do namoro desde o princípio, eu os ajudei a esconder.
– Mas, a culpa foi minha. Eu que pedi. Hoje seria a nossa primeira vez. – continuou, corando. Renji se controlou para não olhá-la com deboche, ou estragaria tudo. Qual é? Não esperava que ela contasse toda a verdade, né? – Tentamos fazer algo romântico... daí as velas começaram o incêndio.
Rukia poderia inventar uma boa desculpa, mas, queimar a casa do melhor amigo era um sinal de que a verdade, ou parte dela, deveria ser contada. Esperou que o sermão do Kuchiki começasse, pois aquele silêncio dele era pior que qualquer castigo. Byakuya suspirou longamente antes de começar:
–Eu confiei em vocês e mentiram para mim. Eu entendo que você ficou com medo que eu não aceitasse o seu “namorado”, mas, ele é seu namorado, você deve escolher. E, eu aceitaria sua escolha. Vocês me decepcionaram. Muito.
Rukia esperava muitas coisas, menos aquilo. Ela preferia que Byakuya cortasse sua mesada, vendesse sua coleção de ursos de pelúcias e a obrigasse a ter aulas em casa com Renji como professor. A última frase dele doeu mais que isso. Ela só pode sussurrar em um fio de voz:
– Desculpa, nii-sama.
– Renji, eu confiei a proteção dela a você. E você não a protegeu. Permitiu que fizessem coisas às escondidas e se colocassem em perigo. Vocês têm noção disso? Rukia, você e aquele garoto poderiam ter morrido! Você destruiu a casa do seu melhor amigo! Tudo isso por medo que eu não o aceitasse, e agora? Pensa que eu vou conseguir aceitá-lo?
Era tão complicado, sabe, quando alguém pega todos os seus erros e esfrega na sua cara. Preferiam que ele apenas tivesse gritado e os deixasse de castigo, mas, aquilo era bem pior.
– Os dois, não vão sair dessa casa para nada além da escola. Nem mesmo você, Renji. Não quero saber do seu emprego de meio período, agora você é minha responsabilidade.
Sério, depois de tudo o que aconteceu, o ruivo ainda estava de castigo. Não, não é possível tanto azar. Era castigo, não há outra explicação. Ele ia discutir, dizer que era emancipado, que Byakuya era seu futuro namorado e não sua mãe, mas Rukia o beliscou discretamente. E ele se controlou para não gemer de dor.
Então, iria ficar quieto e aceitar de cabeça baixa ou provavelmente algo ruim aconteceria. Se bem que gostou da parte em que Byakuya disse que ele era sua responsabilidade. Era bom sentir que ele se preocupava tanto.
– Por quanto tempo, senpai? – perguntou a contra gosto.
– Você até que se forme! Rukia ficará de castigo por tempo indeterminado.
Nas contas de Rukia, a concepção de “tempo indeterminado” de Byakuya equivalia à vida inteira. Renji, não conseguia acreditar que ficaria tanto tempo de castigo! Poxa, o colégio terminaria só no ano que vem! Um ano de castigo... Espera um pouco, e o que haviam combinado?
– Mas, senpai, e o que havia me dito antes...
– Não volto atrás com a minha palavra! – interrompeu, antes que Renji falasse alguma besteira na frente de Rukia. – Mas, seu castigo tem maior peso, pensarei no outro assunto depois da sua formatura.
Não, não, não, não... Não podia ser!
{...}
Fale com o autor