Laços Imperfeitos
29 Chocolate, chocolate e mais chocolate
Notas iniciais
Capítulo vinte e dois — Chocolate, chocolate e mais chocolate
Renji sentia que poderia ter um colapso nervoso a qualquer momento. A data que estava malditamente próxima e suas questões pessoais quanto a isso o estavam deixando mais aéreo e, consequentemente, mais mal humorado que o normal. Estava tão confuso ultimamente que temia abrir a boca e diminuir o Q.I. do bairro todo. Não que Renji se considerasse burro, de jeito nenhum! Mas, algumas situações recentes exigiram muito de si e de sua capacidade de se desdobrar em dois nos últimos tempos. O que quer dizer que morreria de estresse. Que fim mais besta seria, sendo ele alguém tão bacana... E a situação infeliz até seria bem aproveitada, pois faria certo alguém esquecer de certa data. Então, poderia fingir que não estava apaixonado e que não tinha dúvidas inconvenientes para pensar sobre.
Porém, a realidade não é tão doce. "Nada de colapsos e mortes prematuras para você!", ela parecia dizer com autoridade. O que era uma pena, porque mais uma vez Renji estava naqueles impasses de novela mexicana que pareciam muito comuns para sua pessoa ultimamente: dar ou não dar (um presente), eis a questão. O porquê de todo esse drama? O dia dos namorados estava chegando, isso diz tudo.
(E uma corda, junto de um banquinho, pareciam malditamente tentadores. Oh, cara, dar chocolates para Byakuya? Mesmo que o amasse, ele ainda era outro homem, por Deus. E Renji nunca foi adepto dessas frescurites de feriado. Rukia tinha isso por todos.)
Fazer chocolates para Byakuya e entregá-los como honmei choco, como giri choco ou como tomo choco? Enforcar-se parece melhor que decidir isso. Muito melhor, na verdade. Afinal, aquilo era só para mulheres! Homens não fazem essas coisas. Ainda assim, ficaria muito feliz se Byakuya lhe desse algo... Já que isso nunca, em hipótese alguma, aconteceria, teria que se contentar em dar algo ele mesmo. Quem sabe receberia alguma resposta no White Day?
Qual é? Sonhar não faz mal.
...
Depois de algumas sofridas horas, Renji já cogitava parar com toda aquela palhaçada. Os empregados que trabalhavam na enorme cozinha provavelmente queriam enforcá-lo (e o ruivo não se oporia), porque, sobre a cozinha... Ela estava uma bela zona. Nossa, ninguém nunca disse que era tão complicado dar forma ao doce derretido. Talvez fosse mais fácil enrolar em um monte de cobrinhas e dizer: "Hei, é dia dos namorados, mas, não se engane. Só farei honmei choco quando aceitar namorar comigo". Aí Byakuya o atiraria da janela e ele fraturaria um osso. Seria uma bela conclusão de tarde.
O cheiro doce parecia impregnado em seu olfato, e pela primeira vez, não pareceu muito agradável. Porque era frustrante. Ninguém disse também que a dúvida do dar ou não dar (um presente) era tão corrosiva. Será que ele gostaria de receber? Ninguém sabe, ninguém entende a cabeça daquele homem.
Estava para jogar o chocolate na parede (e futuramente apanhar muito) quando Rukia apareceu. Ela carregava uma enorme caixa nos braços e todo seu ar saltitante passou quando olhou para Renji e seu olhar no doce, que mais parecia dizer: "você me decepcionou, senhor Chocolate".
– O que você 'tá fazendo? – questionou.
– Chocolate. – respondeu amargamente.
– Para quem?
– E o que te importa?
– Nossa, isso foi ofensivo pra caramba.
– Eu não ligo. Se for atrapalhar, vaza. – Aumentou ainda mais sua carranca.
– Ah, essa é a questão? Então eu posso te ajudar. Estou te devendo uma, no fim das contas... – Ela olhou melancolicamente para o chão. Renji discretamente procurou onde a câmera estava escondida para lhe pregar uma peça. Essa era Rukia, droga! Ela não ajuda ninguém de graça!
– Como?
– Depois desse tom grosseiro eu nem deveria te ajudar, – Ela estreitou os olhos. – mas o nii-sama não é fã de doces. – Renji finalmente olhou para ela.
– Ah, não, cara, por favor... – A garota limitou-se a rir, declarando em seguida:
– Entretanto!, – professou, seu tom cheio de cruel animação. – sempre há uma saída.
– Então, o que eu posso fazer?
– Muitas coisas, muitas coisas...
– Seja rápida!
– Ele gosta de banana, comida apimentada, passeios longos, chá, livros...
– Poxa vida, Rukia, como você é de grande ajuda no mundo!
– Eu sei. Agora, com licença. – Ela levantou-se da bancada e pegou a caixa absurdamente grande, tirando de lá alguma coisa. – Ah, – Ela virou-se para ele. – Pega. – Atirou uma pequena caixa com os dizeres "Tomo choco". – Para adoçar sua vida amarga. – E correu gargalhando antes de Renji atirar a caixa em sua cabeça. Pelo menos tinha uma ideia, ué.
...
Byakuya estava irritado. Naquele dia, recusou pelo menos cinco caixas de "Honmei choco". Não nasceu para isso, francamente. E também não costumava dar chocolates, mas, naquele dia deu um "gyaku-choco" para Rukia. Porque ela gostava de doces. Esperava não ganhar mais nada de ninguém, mas ela também lhe deu. "Apimentado,", disse, "do jeito que o senhor gosta, nii-sama". E Yoruichi, apenas para não perder o título de irritante, também entregou-lhe uma caixa de bombons de licor. Ele não pretendia comê-los, vai que estavam envenenados.
Diferente de muitas outras horas do dia, o Kuchiki estava em seu quarto, não na biblioteca.
Ouviu leves batidas; presumindo que era Rukia, largou na cama o livro parcialmente lido e deu permissão para adentrar:
– Está aberta. – Entretanto, ali estava Renji, não Rukia. Ele fechou a porta e a trancou. Byakuya cogitou a tentadora ideia de jogá-lo pela janela, mas logo desistiu. Seria complicado explicar isso. – Por que trancou a porta? – indagou de olhos estreitos.
– Ah, bem, senpai, não quer que Rukia veja, quer?
– Ver o que, Renji?
– Isso... – Estendeu hesitante uma caixa que tinha escrito "Honmei choco". E então, os outros presentes que ganhou ao longo do dia pareciam insignificantes demais para pensar sobre. Quem liga se Byakuya não gosta de doces? Byakuya não liga, e nem sequer faz sentido! Pegou a caixa com cuidado.
– Obrigado.
– Olha, acho que o senhor sabe o que significa...
– Sei. Mas, já conversamos sobre isso.
– Apenas pense, ok? – Aproximou-se, beijando-o em uma pálida bochecha. Byakuya pareceu impassível. Renji afastou-se destrancou a porta e foi embora (não queria ver a reação que o jogaria janela afora, afinal).
Abriu a caixa. E pesou a futura decisão de matar Renji e sumir com o corpo.
As bananas cobertas com chocolate pareciam zombar de sua cara. Pegou uma com os dedos compridos, saindo do quarto antes que Renji sumisse pelo corredor.
– Renji! – chamou-o.
– Sim, senpai? – respondeu esperançoso. Byakuya então fez algo que nunca cogitou fazer na vida: levou a estúpida banana até a boca. Renji acompanhou todo o trajeto do doce com um olhar tolo. Byakuya sorriu por dentro e então arrancou um generoso pedaço do doce, de forma muito sugestiva. Renji estremeceu.
– Esteja atento. – avisou, dando as costas e voltando para o quarto. Renji engoliu em seco. Oh, Deus, ele provavelmente nem dormiria naquela noite por tamanha atenção.
...
Hisagi não esperava ter uma tarde tão produtiva. Pensou muito seriamente em dar "Honmei choco" para Muguruma-sensei. Uma caixa do "verdadeiro amor", hein? Parecia uma ótima ideia, mas o que Muguruma-sensei faria? Riria, talvez? Diria que era um pirralho? Jogaria em sua cara a relação aluno/professor? A idade atrapalhava tanto assim?
Hisagi definitivamente não sabia o que ele faria. Cada ação parecia contrária à personalidade do professor e, mesmo que nenhuma delas ocorresse de verdade, não havia a mínima possibilidade de ele retornar seus sentimentos. Então não entregou nada, ficou na sua, e levaria o dia numa boa se não fosse ele: Kazeshini. Ele era completamente desnecessário (de nenhuma utilidade para o ecossistema, sabe?). Ultimamente, se fazia de coitado para a avó de Izuru (fala sério, o que alguém tão legal vê em um moleque frívolo como Kazeshini?) e ela totalmente caia. E também tinha o fato de ele estar estudando em sua escola, com seus amigos, colegas e professores. Hisagi, pela primeira vez em anos, experimentou certo instinto assassino (coisas simples, como sufocar seu primo com um travesseiro enquanto ele dormia ou colocar chumbinho em sua comida). Ele chegou na sua cidade, mudando-se para seu prédio, matriculando-se em sua escola, perturbando seus professores e tentando roubar seus amigos. Kazeshini era um bosta, mesmo.
Ou talvez Shuuhei estivesse apenas com ciúmes da forma que Kira parecia rir alegremente das piadas e dos trocadilhos horríveis do desnecessário. Para Hisagi, Izuru oferecia apenas sorrisos apagados nos últimos tempos.
Suspirando pesadamente, decidiu não pensar muito sobre isso, porque já estava lhe fazendo mal. Sua cabeça doía e o dia na escola foi totalmente estressante (Gin-sensei, o carrasco, passou três enormes capítulos para estudarem em casa). Mesmo assim, estava esperando Kira, seu amigo cabeçudo, sair do banheiro para que estudassem as matérias pendentes. As coisas estavam muito feias para o seu lado no sentido "notas", então, qualquer estudo era bem-vindo.
Kira estava demorando muito, então poderia ser esperto e tirar um cochilo, mas provavelmente apanharia. Então apenas deitou-se na cama do outro e fechou os olhos, pronto para esperar solenemente.
...
Estava quase dormindo; o rosto de estrutura óssea perfeita de Muguruma-sensei brilhava por trás de suas pálpebras por alguma razão, entretanto, ainda estava acordado. Parcialmente, pelo menos. O que queria dizer que quase dormiu e Kira ainda não saiu do banheiro ou de onde quer que estivesse.
Levantou-se, sentindo aquela costumeira preguiça de quando se está muito relaxado alastrar-se por seu corpo.
Foi até a porta com o intuito de sair e perguntar se seu amigo estava bem ou se desceu pelo ralo. Porém, seus planos foram lindamente frustrados. Kazeshini, o desnecessário, estava lá. Hisagi, então, com muita burrice, muita improvável esperteza ou talvez muita adrenalina correndo pelo sangue, não saiu do quarto; entreabriu a porta e, mesmo sabendo que era muito errado, ficou ali com a intenção de escutar a conversa. As vozes eram abafadas e nem um pouco audíveis. Encostou-se mais à porta, porém, ainda não ouvia nada. Até que achou ter escutado seu santo nome rolando por ali.
Em uma ação completamente precipitada, Shuuhei abriu a porta em um rompante. Não foi nada divertido, para mandar a real. Kira tinha sua costumeira face inexpressiva (ou que expressava apenas sentimentos negativos) parcialmente assustada e Kazeshini sorria largamente, daquela irritante forma cínica.
– Kira, não íamos estudar? – perguntou de modo que mais pareceu uma acusação. A presença de seu primo lhe causava raiva, é verdade, mas até a esqueceu por um momento. Só precisou bater os olhos na caixa com os dizeres "Honmei choco" nas mãos de Kira.
Oh. Inferno.
– Que é isso aí? – a pergunta pode ter soado estúpida por seus lábios, mas foi automática.
– Nem você pode ser tão burro. – Kazeshini respondeu.
– Não falei com você.
– Jogou a pergunta no ar.
– Hei, parem de agir como crianças do jardim de infância, sim?
– Primeiro explica isso aí. – Hisagi apontou para os chocolates.
– Isso aqui é...
– Eu dei pra ele, por quê? – Kazeshini interrompeu. Kira bateu com a mão na testa.
– Como assim?
– Ah, você não sabe sobre o "chocolate do amor verdadeiro"? Tu não mora aqui desde sempre? Realmente, como é burro...
Em sua defesa, Hisagi tentou, ele jura! Ainda assim, ele de alguma forma estava no chão atracado com seu primo quatro-olhos maldito, que provavelmente lhe quebrou o nariz. Não sem que Hisagi devolvesse o favor, claro. E alguém sairia tão quebrado que precisaria de semanas em algum hospital se Kira não tivesse jogado neles água tão gelada que queimava.
– Prestem atenção, caras! Podem se matar, mas tentem não destruir a minha casa! – ele exaltou-se. Em sua defesa, Hisagi diz que Kazeshini provocou!
...
Gazes com gelo em seus narizes que sangravam era realmente aliviante. E estancou o sangramento, ao menos.
Kira os olhava como um repreendor educador infantil. Ou talvez ele apenas estivesse em uma luta interna em que decidia a quem matar primeiro. Kazeshini estava desleixadamente esparramado no sofá, sendo um folgado. E Hisagi estava se perguntando o porquê de ainda cair nas provocações baratas do infeliz ao seu lado. Não aguentando mais o silêncio incômodo, ele começou:
– Olha, Kira, me desculpe, mas...
– Não. – Seu amigo calmamente levantou a mão. – Tudo o que um homem fala antes de "mas" é mentira. Você não está se desculpando sinceramente; nem sequer é a mim que você deve pedir desculpas! Agora cale a boca e se preocupe com o seu problema. – Apontou para seu rosto e Hisagi abaixou o olhar, subitamente envergonhado pela repreensão. Kazeshini deu uma risadinha estúpida e Izuru o olhou feio. Rapidamente se calou. Eles ficaram em silêncio por mais um tempo, até Kira se pronunciar:
– Quem ganhou os doces foi Kazeshini. – explicou. – Mas ele não os queria. Então me deu para eu dar para a vovó. – Ah, certo... Bem, Hisagi não podia adivinhar! – Agora peça desculpa. – Shuuhei o olhou chocado.
– Não. – teimou.
– Agora.
– Só se ele pedir primeiro.
– E por que ele faria isso? – exasperou-se Kira.
– Porque provocou... – O loiro suspirou, então virou-se para Kazeshini.
– Você pode...
– Eu prefiro desinteria! – Kira respirou fundo. Mesmo sendo tão infelizes um com o outro (sem que ninguém além deles soubesse o motivo), eles no fundo se gostavam. Resolveu deixar pra lá. Ainda que não pedissem desculpas formalmente, eles esqueceriam isso. Cedo ou tarde.
...
Ukitake estava planejando a melhor forma de matar certo alguém sem que descubram que ele é o assassino. Não exatamente assim. O porquê disso? Estava apenas cansado pelo fato de que ele e o diretor passaram aquele dia recebendo chocolates. Gente, funcionários não deveriam receber "Honmei choco" de estudantes! Sério!
Caixas e caixas do doce foram empilhadas na enfermaria, mas Ukitake apenas aceitou "Giri choco". Porque só aceitaria o outro tipo de chocolate de uma pessoa em especial.
Toda a irritação incomum de Ukitake se devia ao fato de que, no momento que ia até a sala de seu amigo (e chefe) buscar a chave, esta que não estava em seu molho, de uma gaveta, uma aluna descaradamente entregava-lhe a caixa que continha o dono daquele dia. Ukitake não gostou muito disso, na verdade, mas, mesmo assim estava disposto a ignorar. Se não tivesse ocorrido umas... vinte vezes naquele dia. Certo, sua situação não era muito diferente. Só que não estava aceitando o que não deveria. Ética profissional e pessoal é tudo, veja bem. Enfim.
No final do expediente, Kyouraku se ofereceu para acompanhá-lo até em casa e ele aceitou. Mas que ninguém ali esperasse nada! Nada aconteceria. (Infelizmente...)
...
Seu apartamento era familiar para os dois. Kyouraku subiu as escadas enquanto Ukitake ia até a cozinha. Deveria tomar uma decisão de vida ou morte ali mesmo (olha, na verdade, nem era tão vida ou morte assim): dar ou não dar (os chocolates), eis a questão. (Claro, ele tinha pleno conhecimento de que a reflexão não era assim.)
Certo, desde muito tempo atrás, eles se presenteavam com o chocolate para amigos, mas... alguma coisa mudou? Bem, se mudou, vamos ignorar, pois Ukitake ignorou. Pegou a simples caixa e subiu as escadas também.
Entrando em seu quarto viu seu preguiçoso amigo esparramado em sua cama. Isso já era normal, acontecia desde que eles eram crianças.
– Afasta mais pra lá. – mandou. Kyouraku obedeceu, sem olhar para o que o amigo segurava. O psicólogo deitou-se também.
– O que foi? – Shunsui perguntou depois de alguns minutos.
– Aqui. – Estendeu o objeto que tinha em mãos. Kyouraku o pegou, vendo um grande "Tomo choco" na letra elegante de Ukitake. Riu-se internamente. Isso mais parecia uma boba provocação. – Não é grande coisa visto os muito chocolates que você ganhou hoje, então...
– Eu devolvi.
– Hum?
– Devolvi os bombons que ganhei.
– Por quê? – perguntou curiosamente.
– Eu só os aceitaria da pessoa que amo. – Ukitake parou de construir qualquer fala e o olhou muito sério.
– Bem, se isso é uma frase feita para tentar entrar nas minhas calças, pode esquecer. – Kyouraku sorriu.
– Uhum. Porque quando isso acontecer, não precisarei de frase feita.
Ukitake controlou-se para não bater em seu amigo. De todo modo, quem sabe? Eles não, que coisa.
{···}
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