Laços
1 Família?
- Como ele se chama? — Donna queria mostrar interesse, mas a verdade é que não acreditava que seria aquele diferente dos outros namorados de curto período que a mãe tivera.
- Leighton S., minha filha. Ele mora tão perto de nós, você devia ir comigo fazer uma visita. Estamos namorando há pouco tempo, mas ele ficou bastante animado quando eu falei sobre você.
- Não acha que ele só esteja sendo simpático? — Donna sabia que era um empecilho quando se tratava dos namorados de sua mãe. — A maioria deles não quer saber de uma adolescente em casa. Quero dizer, a maioria é jovem e sem filhos, normalmente eles não se interessam quando descobrem que eu existo.
- É aí que as coisas mudam Donna. — Emma parecia mais sorridente que o normal — Ele é jovem, sim, mas também tem um filho.
- Mesmo?
- Sim, é um menino muito inteligente e agradável. Tive medo que ele me rejeitasse, afinal ele perdeu a mãe ainda muito pequeno e sempre teve a avó como figura materna. Sabe, é difícil chegar assim e conquistar a amizade de um garoto, mas surpreendentemente, ele parece ter me aceitado muito bem. Sei que ele não é mais uma criança, alias, é mais maduro do que eu podia imaginar. Mesmo assim, senti que ele gostou de mim.
- Isso é ótimo mãe. Bom, te vejo mais tarde, preciso ir pra escola.
- Certo Donna. Hoje vou um pouco mais tarde pra delegacia e de lá vou pra casa do Leighton. Qualquer coisa a vovó estará aqui depois das 14h. Se quiser ir ajudá-la com as compras do restaurante, ela iria adorar.
- Pode deixar mãe, se cuida.
A menina sentia-se feliz pela felicidade da mãe, mas ao mesmo tempo sentia medo de que ela se magoasse mais uma vez. Sentia culpa por ter arruinado tantos relacionamentos e ao mesmo tempo raiva pelo fato de que os homens simplesmente não teriam aceitado que Donna fosse parte da família. Uma filha sem pai. Um estorvo.
Por que nunca a quiseram na família? Será que era tão difícil assim aceitá-la? Donna já havia pensado em pedir a mãe para que não a mencionasse para os seus namorados, assim, ela poderia deixar a filha com a avó e ser feliz. É claro que Emma jamais aceitaria, era uma ideia no mínimo ridícula. O fato é que doía ver a mãe infeliz, mesmo que ela se esforçasse para não parecer assim.
Donna era uma boa aluna, mas às vezes seus pensamentos tomavam toda a sua atenção.
Foi e voltou da escola pensando sobre sua família, afinal, o que é uma família? Família é quem nos aceita, pensava Donna. Nunca poderia ter sido feliz com qualquer um daqueles caras namorando sua mãe, eles nunca a aceitaram. Era melhor viver a vida toda com a mãe e avó, que sempre lhe tiveram amor, a dividir a casa com alguém que preferia que ela não estivesse ali. Não havia dúvidas.
- Não pensarei mais sobre isso... é um fato — A garota deixava essas palavras escaparem baixo dos seus lábios — É um fato, um fato...
Quando chegou, Anna a esperava sorridente.
- Olá querida! Quer fazer compras?
- Ah, vó! — A menina correu para abraçar aquela figura dócil e divertida que estava no jardim. — É claro que sim. Como vai o restaurante?
- Bom, o chefe acha que está na hora de expandir, estou tendo muitas oportunidades pra crescer como cozinheira. Alias, hoje sou a encarregada das compras, vamos?
- Vamos sim!
A avó, que ajudara a criar Donna sem nunca criticar as atitudes da filha, era para a neta como um herói para os pequenos meninos. Era insubstituível.
-Vovó, o que você acha do namorado da minha mãe? — Já estavam enchendo o carrinho de compras quando Donna fez a pergunta.
- Se ele for como a mãe dele, o que eu acredito que seja, é um ótimo homem.
- Você conhece a mãe dele?!
- É uma grande coincidência não é? Yumi e eu nos conhecemos há muitos anos. Lembro-me inclusive do casamento dela. Ela teve apena um filho, um rapaz. Perdemos contato quando ela se mudou devido ao trabalho do marido.
- E agora ela está de volta. Por que?
- O marido faleceu há alguns meses. Eles viviam com o filho e o neto em uma cidade distante daqui. Yumi achou que seria melhor voltar pra Sunset Valley.
- E por que o Leighton quis voltar também? Quer dizer, ele também deixou tudo pra trás.
- Bom, Yumi precisa de cuidados, ela já é bastante idosa. Além disso, em uma conversa que tive com ela há pouco tempo, ela me disse que a ideia de se mudar veio do filho.
- E por que?
- Bem, ele achava que era hora de esquecer a lembrança da falecida esposa. Era hora de encontrar alguém novo, em outro lugar, recomeçar.
- E foi aí que ele encontrou a mamãe?
- Não é fantástico? — Já estavam com o carrinho cheio, horas haviam se passado naqueles corredores do supermecado.
- Vovó, por que você não gostava do meu pai? — Donna tinha um olhar triste, diferente dos olhos verdes vivos que herdara da mãe e da avó.
- Minha querida, se um dia eu não gostei de seu pai, isso acabou quando eu vi você pela primeira vez.
Aquela não era a resposta que Donna esperava, mas foi muito melhor do que qualquer suposição que a garota pudesse ter feito. Aquela era sua família, sua mãe e sua avó.
Mais tarde, enquanto lia no seu quarto, hobby este que chegava a ser uma obsessão, ouviu ruídos na porta da sala.
- Filha! Tenho uma surpresa! — Emma gritava da cozinha.
Donna levantou-se e viu que a mãe prepara um jantar surpresa. Leighton viera com ela.
- Então esta é a Donna? — O rapaz tinha um sorriso perturbadoramente verdadeiro.
- Sim, sou eu.
- Prazer em conhecê-la! Você se parece muito com sua mãe, os mesmos olhos, cabelo... Com todo respeito, devo dizer que é belíssima!
- Que gentileza a sua. — Donna parecia nitidamente constrangida. Leighton parecia realmente animado em conhecê-la e sua mãe esbanjava felicidade por cada canto da casa.
- Desculpe se constrangi você Donna, mas estava realmente empolgado para te conhecer. Sua mãe fala de você o tempo todo e eu já estava achando que era uma invenção da mente dela! — O rapaz ria, muito feliz. — Espero que você possa aceitar meu relacionamento com sua mãe. De verdade, o que eu mais quero agora é ser aceito pela família Halley.
- Acredito que eu não serei um problema. — Donna olhou para a avó que acabara de chegar na cozinha.
- Oh Leighton! Como você está grande, que belo rapaz! Você deve saber, sou muito amiga de sua mãe e posso dizer que estou orgulhosa da forma como ela cuidou de você. — Anna ria muito também, o que deixava Donna ainda mais confusa com seus pensamentos — É claro que você será sempre bem-vindo na família Halley! Onde está o garotinho?
- Muito obrigado Srª Anna, é um prazer estar com vocês. Bom, o "garotinho" estava lendo um livro "fantástico demais para parar", segundo ele. Acredita que ele já vai fazer catorze anos? Não consigo mais levar ele pra todos os cantos comigo. — Todos riram — Mas não pense que ele não quis vir por que não gosta de vocês, por favor. Na realidade, estou começando a achar que ele gosta mais da Emma do que de mim! Toda vez que ela aparece ele só quer falar com ela. Estou ficando com ciúmes do meu garoto.
- Imagine só! — Emma estava muito feliz. — Acho que ele é um ótimo garoto e da próxima vez ele está convocado vir aqui!
Todos riam durante o jantar. Donna ria por fora, mas sentia-se confusa por dentro. Aquele rapaz era realmente diferente. Será que suas vidas iam mudar agora?
Ela finalmente tinha aceitado em seu coração que sua família eram aquelas duas pessoas conhecidas, a mãe e a avó, e de repente, tudo parecia mudar naquela mesa de jantar. Por fim, antes de todos se levantarem, a voz de Leighton fez o coração de Donna entrar em uma confusão ainda mais profunda.
- Quero dizer algo que não poderia dizer sem a presença de todos vocês. Gostaria que minha mãe e meu filho estivessem aqui também, mas infelizmente não foi possível. Hoje eu quero dizer que não estou aqui somente por que estamos passando bons momentos juntos. Quero anunciar que tenho o desejo de ser parte da família. — O homem ajoelhou-se e declarou — Emma, quer ser minha noiva?
Emma deixou que o homem colocasse aquele belo anel de noivado em seu dedo e, com lágrimas nos olhos aceitou o pedido. Em algum tempo eles iriam casar.
Donna estava feliz pela mãe, mas aquelas palavras não queriam sair de sua cabeça... "Família... parte da família... parte da minha família..."
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