LRW - caçadora de demônios
7 Lembranças ruins
Notas iniciais
Sonho on
– ...Não se preocupe, sempre vamos estar com você! Não estará sozinha novamente. – um homem de uns trinta anos falou colocando a mão em meu ombro.
– Isso mesmo querida. – uma mulher, aparentemente da mesma idade completou de forma carinhosa– somos seus pais agora, nós te amamos, nunca mais estará sozinha.
Sonho off
Pela primeira vez em quase dez mil anos eu estava chorando, me desesperei, eu tive uma família que me amava e ela foi arrancada de mim.
De acordo com as poucas regras de Hella, caçadores de demônios não deveriam manter sentimentos por outras pessoas, pois isso nos torna fracos e suscetíveis a falhas e não temos o luxo de poder errar, quando há vidas em jogo. Eu estava sentindo minhas lágrimas escorrerem pelo rosto, mas não abri os olhos. Era preferível pensar no que eu faria a respeito dessas lembranças, eu poderia confrontar Hella e pedir que ela liberasse minhas memórias, coisa que ela nunca faria, ou poderia tentar descobrir uma forma de quebrar o bloqueio por mim mesma, o que tinha alguma chance de dar certo. Senti alguém me sacudir pelo ombro.
– Lavínia, você está bem? — Era o Gaara, não queria que ninguém me visse chorando.
–Estou. Não se preocupa – disse levantando e pegando a minha mochila – eu estou bem. Depois a gente se fala – disse enquanto saia correndo por entre as cadeiras.
Corri por todos os corredores, foi o que me pareceu, minha capacidade de me perder com facilidade está me deixando furiosa. Quando finalmente achei a saída, avistei uma praça um pouco distante da entrada, mas eu preciso ficar sozinha para esfriar a cabeça e não acabar perdendo o controle.
Era uma praça simples, apenas algumas árvores e um lago e atrás deste havia uma floresta. Encostei-me a uma das árvores e fechei os olhos, eu precisava recuperar a minha memória.
A dor de cabeça é uma defesa para que o bloqueio não seja removido, toda vez que se tenta liberá-lo a dor de cabeça se intensifica. Digamos apenas que depois de uns dez minutos tentando liberar minhas memórias, minha cabeça parecia que ia explodir, mas começaram a aparecer imagens na minha cabeça.
Lembrança on
Acordei em um lugar que parecia abandonado, acho que eram as masmorras de um castelo, tentei me levantar, mas parecia que tinha levado um tiro na cabeça, então cambaleei até uma parede para me apoiar. Agora sim, Hella passou dos limites e essas tentativas falhas de reinserção dela estão me deixando louca, tudo bem que eu matei milhares de pessoas que não deveriam morrer, mas me colocar em uma era medieval é tortura, principalmente por conta desses vestidos ridículos. Finalmente consegui abrir os olhos, sem maiores dores, e enxerguei uma luz no fim do túnel, se eu não fosse imortal, estaria com medo, pois isso significaria morte, mas como eu estou nem ai para a morte, decidi seguir a luz. Péssima ideia, acho que fiquei cega, eu odeio dias ensolarados.
Logo que eu saí uma mulher, acredito eu, de uns trinta e poucos anos me abraçou, quer dizer, ela tentou quebrar minhas costelas.
– Filha! Eu estava tão preocupada com você! Porque você se atirou no fosso? Queria morrer? – que mulher louca.
Agora sim me irritei, Hella me colocou em uma era medieval e, olha que maravilhoso, eu estou no lugar de uma princesa que cometeu suicídio, agora além de ter que passar dez anos aqui eu vou ter que fazer isso controlada por regras, realmente maravilhoso.
– Eu não tentei me matar, eu tropecei e caí, foi o que aconteceu. Somente isso. Mas eu acho que fiquei com problemas de memória, quem é você?
– Querida, eu sou Minerva. Sou sua mãe. – ela me olhou com lágrimas nos olhos – não se preocupe você vai se lembrar – como se eu estivesse realmente querendo isso..
– Tudo bem então. Onde nós estamos mesmo? – ela enganchou o braço no meu e saiu caminhando, ou seja, me arrastando.
– Nós estamos no reino de Frandellz, você é uma princesa muito querida pelo nosso povo – que legal! Mas eu não sou a princesa boazinha de vocês – Vem, meu anjo, vou te levar para dentro do castelo para ver se você se lembra de alguma coisa – ela me puxou novamente e eu soltei o meu braço do dela.
– Não gosto que me arraste. Eu sei caminhar sozinha – ela me olhou com uma expressão estranha, acho que era pena — vamos? – ignorei sua expressão e comecei a andar em seu lado, mas sem contato.
Caminhamos por cinco minutos até conseguirmos entrar no castelo, e que castelo! Era enorme!
– Querida! Ficamos tão preocupados com você! – um homem, também de uns trinta e poucos anos, veio até mim e me abraçou, outra tentativa de quebrar minhas costelas. Eu me afastei dele – O que foi Livie? Aconteceu alguma coisa? – eu fiz um aceno negativo com a cabeça.
– Eu perdi a memória – falei calma. E pensando, o nome da princesa que se matou, tinha o mesmo nome que eu – Quem é você mesmo?
– Sou Alexander, sou seu pai, não lembra? – eu fiz um gesto de negação.
– Porque eu tentei me matar? – perguntei.
– Você era contra se casar sem conhecer seu noivo.
– Não era, ainda sou e não vou me casar – sorri de lado.
– Mas é claro que vai! Ordens são ordens! Não podemos criar uma guerra contra nossos aliados só para satisfazer suas vontades!
– Acho que vou me atirar no fosso novamente – e dei as costas para eles e sai andando na direção em que nós tínhamos vindo, mas um cara loiro bonito me segurou – me solta – fiz uma cara de psicopata e ele me largou foi uma pena porque vieram mais três homens, esses conseguiram me segurar – não tem outro jeito? – perguntei esperançosa.
– O único jeito é se alguém o desafiasse para um duelo e vencesse. Mas isso é impossível...
– Eu aceito, só marcar que eu resolvo esse problema.
– Como assim? Você nem sabe lutar, como pensa que vai achar alguém para derrotá-lo?
– Já tenho alguém em mente. Poderia marcar esse duelo? – ele fez uma careta – Por favor?
– Vou fazer isso, mas espero que saiba o que está fazendo.
– Ótimo! Agora preciso descansar. Onde é o meu quarto? – eu odeio precisar pedir ajuda.
– Vamos querida, eu te mostro! – a rainha me disse chegando mais perto, mas eu me afastei, então ela fez sinal para segui-la e assim eu fiz.
– Bom e você será enforcado pela manhã! – o rei falou.
– Quem vai ser enforcado? – perguntei retornando a local onde eles estavam.
– Ele! – o rei apontou para o loiro que tentou me segurar antes – ele devia proteger você, mas deixou que tentasse se matar, merece ser enforcado!
– Não precisa enforcá-lo só por causa disso! Sejamos racionais eu não tentei me matar, mas se eu quisesse mesmo, ninguém conseguiria me segurar – olhei para eles e os mesmos estavam com uma expressão de “porque ela está defendendo ele?”, sinceramente, nem eu sei.
– Tem certeza? – como eu posso ter certeza se eu nem sei por que estou defendendo ele? – Não é uma ação que eu esperaria de você...
– Sei lá, só acho que não é necessário.
– Tudo bem, mas se repetir, nem minha filha vai te tirar da forca, entendeu? – o rapaz que estava até agora de cabeça baixa assentiu – agora a acompanhe até seu quarto.
Eu comecei a caminhar novamente e depois de subir muitos degraus cheguei ao meu quarto, e o loiro abriu a porta para mim, até me surpreendi, era magnífico, ele entrou logo atrás de mim e fechou a porta atrás de si.
– Qual seu nome? – perguntei enquanto observava o quarto – porque te culparam por ela... – quase falei besteira – por eu ter tentado me matar?
– Me chamo Deidara, e eu deveria lhe proteger, mas a senhorita normalmente fugia de mim.
– Porque eu fazia isso? – essa garota tinha problemas sérios de comportamento.
– Porque a senhorita era apaixonada pelo homem que trabalhava no meu lugar antes de mim, daí quando os senhores tentaram fugir, o rei o mandou para outra cidade e ai a senhorita achava que a culpa era minha. Porque não deixou o rei me enforcar? – me senti velha agora “senhorita”.
– Nem eu sei. Ah, e não use toda essa formalidade comigo quando estivermos a sós, use um “você” que já está ótimo – disse enquanto olhava dentro de meu guarda-roupa e ele assentiu– você sabe onde eu consigo tecidos? Não vou aguentar esses vestidos por muito mais tempo – achei uma calça... Quer dizer, parecia uma calça.
– Suas servas irão trazer novos vestidos se precisar, é só pedir.
– Eu não quero vestidos, quero tecidos. Odeio ter que usar vestidos – e abri outra porta era alguma coisa parecida com um banheiro, entrei e fechei a porta novamente atrás de mim.
Vesti aquela coisa que parecia uma calça por baixo do vestido, nem ficou tão estranho. Peguei uma faca que estava dentro da minha bota e retirei toda a armação do vestido, mas ainda não ficou bom, cortei o vestido na frente um pouco acima dos joelhos e deixei um pouco mais comprido atrás, mas fiz um corte vertical deixando minha perna esquerda exposta, cortei também a gola que estava me enforcando e deixei as mangas na altura do cotovelo. Agora tinha ficado apresentável.
– Tem como me levar aonde tem tecidos? – disse enquanto saia do banheiro e Deidara corou, que fofo, merda não posso pensar assim – Está me olhando com essa cara porque?
– Sua roupa...
– Eu sei que ficou estranho, não precisa me olhar desse jeito.
– Não é isso, ficou diferente. Ficou muito bonito em você. – ele corou mais ainda.
– Obrigada – sorri, que porcaria estou sendo educada demais.
– Posso te levar até as costureiras do castelo, elas devem saber onde se consegue tecidos.
– Boa ideia. Vamos agora? – ele acenou e abriu a porta para mim – para que lado nós vamos?
– Esquerda – e apontou a direção – porque você não gosta de usar vestidos?
– É desconfortável, você não vai entender porque é homem – balancei a cabeça – da mesma forma que eu não entendo a capacidade de vocês de usar armaduras. Parece tão desconfortável quanto ter que usar vestidos.
– Normalmente a gente acaba se acostumando, mesmo que não seja confortável...
– Existe diferença entre se acostumar e de não gostar, eu não gosto de usar vestidos porque sou obrigada a usar, se precisasse usar raramente, eu não teria problemas com isso.
– Do jeito que você fala nem parece a princesa que fugiu para tentar se matar.
– Eu já acho o contrário. Discordando do rei, eu fui contra os costumes, e com essa parte de vestuário é a mesma coisa.
– Chegamos – ele abriu uma porta – é aqui a sala das costureiras.
– Boa tarde princesa – uma morena fez uma reverência – em que podemos ajudar? Oh! Suas roupas, o que houve com a senhora?
– Não aconteceu nada, mas preciso de roupas novas.
– Acabamos de fazer vestidos novos! São lindos! – ela disse me mostrando alguns vestidos no mesmo modelo do que eu cortei.
– Não quero vestidos. Quero calças como esta – mostrei a que eu estava usando – só que mais apertadas e de um tecido mais confortável.
– Mas princesa, isso não são roupas para uma dama usar.
– Não perguntei o que é o correto para uma dama usar, eu preciso de roupas confortáveis como esta – mostrei novamente a que eu estava usando – mas se não for possível, me arrumem tecidos, agulha e linha que eu mesma faço, sem maiores problemas.
– N-Não é necessário que a senhora os faça, nós fazemos e lhe entregamos até o final do dia, mais alguma coisa?
– Sim, tem como fazer uns vestidos de tecido mais leve? Parecido com isso? – mostrei o que eu cortei.
– Claro! Ao anoitecer deixaremos no seu quarto, princesa.
– Eu espero, então. – disse enquanto saía da sala.
Segui caminhando pelos corredores, estava um dia bonito e eu poderia estar o aproveitando, mas como eu estou presa nessa dimensão é impossível. Fiquei meditando por alguns minutos, escorada em uma janela quando comecei a ouvir vozes na minha cabeça, meus poderes estavam se descontrolando novamente, me apoiei na parede e escorreguei desta até o chão.
Não poderia estar acontecendo novamente, se eu perdesse o controle de novo eu iria acabar matando todo mundo, não que isso fosse ruim...Droga...O que eu estou pensando?
– Princesa? – Senti alguém me sacudindo – Princesa Livie? O que aconteceu?
– Deidara... – eu não consegui nem falar, a dor de cabeça estava aumentando.
– Princesa, o que houve? – a voz dele era preocupada.
– Po... Posso confiar em você Deidara?
– Claro que pode – a voz dele estava confiante.
– Preciso que me tire daqui, que me leve para longe desse castelo, se possível para uma floresta... – tentei abrir os olhos, mas só piorou a dor de cabeça – por favor...
– Mas...
– Confie em mim... Quando eu estiver melhor te falo tudo... – o senti me pegando no colo e desmaiei.
***
Acordei sentindo cheiro de sangue, aliás, de sangue mágico, abri os olhos com receio que minha cabeça voltasse a doer, mas nada aconteceu. Levantei-me e me espreguicei e comecei a seguir o cheiro e vejo Deidara que estava coberto de sangue caído de bruços, parecia que tinha sido chicoteado, cheguei mais perto dele.
– Deidara? Tá me ouvindo? – ele resmungou. Tinha uma bolsa ao seu lado, eu a abri e achei alguns materiais para curativos – por favor, eu preciso que se levante para que eu possa cuidar desses ferimentos.
Ele começou a se levantar e eu o ajudei a se sentar.
– O que houve com você? – perguntei enquanto tentava retirar a camisa dele – cadê a tua armadura?
– Eu te trouxe para a floresta como você pediu, ah...
– Desculpa, mas isso vai doer um pouco. Tem pedaços de tecido nos cortes, mas continua falando que vai te distrair.
– Depois que eu te trouxe para cá, você apagou por dois dias e meio...ai isso dói!
– Sinto muito...
– Daí pareceu que você não ia acordar, e tentei buscar algumas coisas úteis, mas o rei viu que você estava sumida e me “castigou”, eu perdi a posição de cavaleiro, por isso perdi a armadura, acho que é isso.
– Sinceramente, me desculpa isso foi culpa minha...
– Você perguntou se podia confiar em mim, eu disse que sim e não vou quebrar minha promessa.
Ops...Assunto sensível...
– Mudando um pouco de assunto, você sabia que era um feiticeiro? – ele estremeceu – não vou contar para ninguém, só quero saber.
– Minha mãe era uma feiticeira – ele abaixou a cabeça – ela e meu pai foram mortos por isso quando eu era pequeno, ninguém sabia por que isso ocorreu em outra cidade e me mandaram para cá, como você ficou sabendo?
– Senti cheiro de magia em seu sangue. – ele ficou pensativo — Vou curar usando magia, vai doer muito tente não gritar, pode atrair animais para cá. Preciso que feche os olhos e se concentre.
– Não vou gritar. – ele disse e fechou os olhos.
Assim que ele fez o que eu pedi, comecei a curá-lo, coisa que eu não era capaz de fazer a muito tempo porque para conseguir usar magia de cura é necessário ter algo de bom dentro de si, algo que eu não tinha faz muito tempo.
Quando eu terminei, Deidara havia desmaiado. Mas já estava recobrando a consciência.
– Você está bem? – ele não parecia nada bem.
– Vou ficar, mas ainda esta incomodando.
– Eu não curei completamente, pois poderiam desconfiar de uso de magia, só curei o suficiente para não infeccionar, vão ficar cicatrizes. Vou fazer um curativo.
– Você não é a princesa, não é mesmo? – Deidara me perguntou medindo palavras.
– Não sou. A princesa morreu quando se jogou no fosso.
– Mas porque você está no lugar dela?
– Aff... – ele me olhou com uma expressão que dizia “conta”, revirei os olhos – vou te contar, mas se falar para alguém, eu te mato!
– Pode confiar em mim – Acabei de terminar o curativo e sentei ao seu lado. Ele pegou minha mão, mas quando viu o que fez tentou retira-la e eu não deixei. Sorri de leve pensando que Hella havia conseguido o que queria, eu estava me tornando humana novamente. — Tá legal. Vou te contar, mas vai me odiar depois disso – ele apertou minha mão num sinal de conforto.
– Não vou te odiar – isso foi uma afirmação? Sorri com isso.
– Ok. Assim como você é um feiticeiro, eu também tenho meus problemas, eu sou uma vampira – ele me olhou com uma cara de “sério isso?”– é sério, mas eu tento não machucar pessoas, aliás, tentava. Voltando ao assunto, eu ganhei uma luta contra uma amiga, ela se irritou e pediu ajuda a um demônio e ficou mais forte, mas eu ainda era mais forte que ela. Então para não causar uma destruição em massa eu aprisionei a ela e ao demônio dentro do meu corpo – falei sem olhá-lo – mas é muito poder, eu perdi a razão e sai destruindo tudo e matando todo mundo que ficava no meu caminho, estou aqui como punição pelo que eu fiz, pois Hella acha que eu perdi minha humanidade.
– Você se arrepende do que fez? – ele estava com uma expressão estranha, soltei sua mão e abracei minhas pernas.
– Me arrependo de ter matado inocentes, de ter perdido um tempo importante da minha vida. Queria ser capaz de mudar o passado, mas infelizmente eu não sou. – eu já estava quase chorando, senti ele me abraçar e eu correspondi – é a primeira vez que eu falo isso para alguém. Eu sou um monstro! – comecei a chorar, me senti muito idiota, eu estava aos prantos, abraçada em um cara que eu mal conheço.
– Você se arrepende do que fez, isso mostra que você não é um monstro. – eu chorei mais ainda quando ele falou isso – vamos, não chora. – ele disse enquanto secava minhas lágrimas. Eu o encarei, ele era muito bonito e me tratava diferente das outras pessoas, que lindo! Acho que estou apaixonada! Sorri pensando nisso — viu? Você fica muito mais bonita sorrindo. – ele corou.
Ficamos abraçados por um tempo, acabamos dormindo.
Acordei ouvindo passarinhos, me espreguicei, tateei, ainda de olhos fechados procurando Deidara e encontro... Uma cama! Abri os olhos, eu estava novamente no meu quarto. Droga, se eu estou novamente no castelo, Deidara deve estar em apuros. Levantei da cama em um salto e acabei por tropeçar em uma cadeira, acho que quebrei meus dedos do pé!
Corri pelo quarto catando uma calça enquanto arrancava a saia do vestido enorme que colocaram em mim enquanto eu estava dormindo, demorei dois minutos para fazer isso e vestir a calça. Fui até a janela e vi... Acho que é uma forca! Vão enforcar o MEU Deidara! Olhei novamente e já estavam o levando para lá, subi na beirada da janela para ver melhor, acho que Deidara me viu, fiz um gesto que eu iria pular, ele viu e parou chamando a atenção dos guardas para mim. Deixaram Deidara amarrado próximo a forca e vieram todos correndo para perto da onde eu estava.
– FILHA! DESCE DAÍ AGORA! – o rei gritou para mim.
– SÓ SE SOLTAREM O DEIDARA! – o rei fez um gesto de negação – ENTÃO EU VOU PULAR!
– PARE DE CRIANCICES LIVIE! VOCÊ JÁ É ADULTA, HAJA COMO TAL!
– DEIDARA SE ABAIXA! – gritei para ele, que não entendeu, mas fez o que eu pedi – VOCÊS QUE PEDIRAM...
Eu pulei e cai dando um soco no chão, o que causou quase um terremoto, as pessoas que estavam ali começaram a correr e eu fiz o chão rachar. Essa rachadura se estendeu até a forca, mas não feriu Deidara. Comecei a andar e vi que assustei a todos, inclusive ao rei, acho que eu me transformei, quer dizer, tenho certeza, pois eu vi asas na minha sombra. Minha forma transformada é maior que eu, com mais curvas e tinha orelhas e rabo de gato, além de ser coberta de pelos e ter asas. Caminhei até a forca e cheguei perto de Deidara que ainda estava abaixado de olhos fechados. Comecei a soltá-lo, ele abriu os olhos e me olhou, tinha medo na sua expressão, fiquei triste com isso. Concentrei-me na minha forma humana e consegui voltar ao normal, coisa que eu não conseguia fazer mais, eu sempre me descontrolava e acabava matando alguém.
– Não vou te machucar – disse quando consegui tirar as amarras dos braços dele, ele ainda estava abaixado– Nunca mais vou machucar ninguém inocente – me ajoelhei a sua frente, ficando da mesma altura que ele, sua expressão era indefinida. Fiquei magoada com isso, olhei para minhas pernas, ele também achava que eu era um monstro, sem querer deixei uma lagrima cair. Senti alguém a secando, encarei quem fez esse gesto e encontro um Deidara sorrindo de forma carinhosa para mim, sorri também.
– Bem melhor, você fica muito mais bonita sorrindo! – ele me abraçou e eu correspondi – fiquei com medo de perder você.
– Mas era você que iria ser enforcado. Não eu.
– Mas eu não poderia mais te ver da mesma forma. – ele corou – sabe Livie, acho que estou gostando de você – ele ficou ainda mais vermelho.
– Eu também gosto de você. Não me chame de Livie, me chame de Lavínia que é o meu nome eu devo tudo a você, me tornei humana novamente, por sua causa e... – Fui interrompida por uma tentativa de assassinato, jogaram uma flecha na nossa direção, estava direcionada a minha cabeça eu adoraria fazer uma piadinha e a deixar atravessá-la, mas como eu estava abraçada no Deidara, iria acabar o acertando também. Eu peguei a flecha no último instante e a quebrei – QUEM FOI O IDIOTA QUE TENTOU ME MATAR? – vi quem estava com o arco e fui caminhando até ele, era um dos guardas do palácio – Seu inútil, nunca se atira na cabeça! — Disse jogando os restos da flecha em seus pés enquanto pegava sua espada – Pega Deidara! – joguei a espada para ele, que a pegou – Onde esta o rei?
– Estou aqui – ouvi uma voz se aproximando – o que é você? E o que fez com minha filha?
– Sua filha morreu quando se jogou no fosso. – Senti Deidara se aproximando, ele segurou minha mão... Que fofo!
– O que você é? – ele estava assustado.
– Eu sou uma feiticeira – apertei a mão do Deidara, ele apertou de volta – sou muito poderosa, por isso que eu consegui provocar aquilo – apontei para a cratera que eu fiz.
– Você é um monstro! – esse rei perdeu o medo de morrer.
– Não fale assim com ela! – Deidara me defendeu, estou apaixonada por esse homem!
– Ora, seu moleque! Não fale comigo como se eu fosse da sua laia – o rei se exaltou.
– NÃO FALE ASSIM COM ELE! – eu já estava descontrolada, ofender MEU homem é pedir para eu ficar com raiva.
– Lavínia, se acalme. – Deidara falou e me mostrou meu braço que estava começando a se transformar.
– Estou calma... – vi a rainha vindo correndo em minha direção e... Ela me abraçou? Porque isso? Soltei a mão do Deidara e correspondi o abraço.
– Querido, eu sabia desde o início que ela não era nossa filha, eu sou uma feiticeira também – ela disse enquanto me soltava – mas eu quero que ela permaneça com a gente no castelo.
– Ela é perigosa, pode destruir toda essa cidade.
– Ela não machucou ninguém, mesmo causando toda essa destruição, ela sabe se controlar, confie em nela, por mim.
– Tudo bem, vou confiar nela, mas só por você.
– Obrigada – ela disse e o abraçou – vamos para o castelo agora que já está quase na hora do almoço. Vamos querida? – ela me olhou e começou a andar na direção do castelo
– Claro – eu disse pegando a mão do Deidara novamente e o fazendo vir comigo...
Tudo ficou embaçado...
– Vou precisar ir embora, eu não queria, mas é necessário, se eu não fizer isso a fúria de Hella pode cair sobre vocês e eu não quero que isso aconteça. – baixei a cabeça — Eu amo vocês e não quero que nada os aconteça, mesmo que para isso eu precise ficar sozinha novamente.
– Não se preocupe Lavínia, sempre vamos estar com você! Não estará sozinha novamente. – um homem de uns trinta anos falou colocando a mão em meu ombro, ele havia se tornado um pai para mim, não consegui controlar e uma lágrima rolou por meu rosto.
– Isso mesmo querida. – uma mulher secando minha lágrima completou de forma carinhosa, poderia dizer que ela se tornou a melhor mãe do mundo em apenas um ano– somos seus pais agora, nós te amamos, nunca mais estará sozinha, mesmo que não esteja aqui com a gente.
Tudo escureceu e outra imagem se formou
–... NANY! O que você fez? Eu o amava. Porque você apagou a memória dele? Para onde você o levou? O acordo era eu voltar para nossa realidade e voltar a caçar demônios – eu já estava desesperada e chorando – Porque você fez isso com ele? Porque você fez isso com meus pais?
– Desculpe Lavínia, mas é o melhor para você. Já estava se apegando demais a simples mortais...
Tudo escureceu novamente e dessa vez eu estava em um quarto moderno, meu quarto quando estávamos no Brasil.
Acordei desesperada, chorando muito. Estava completamente encharcada de suor e minha cabeça latejava, sinal de que não era apenas um sonho, era uma memória que havia sido apagada.
Liguei a luz e olhei para o relógio, eram 4 horas da madrugada. Liguei para o Nany.
– Aconteceu alguma coisa Livie? Você nunca me liga a essa hora.
– Por quê? – minha voz saiu chorosa – porque você fez isso?
– O que houve Lavínia?
– Eu me lembrei de tudo. Só me diz o por quê? Eu confiava em você...
– Livie, eu sinto...
– NÃO ME DIGA QUE VOCÊ SENTE MUITO, PORQUE É MENTIRA! PORRA! EU O AMAVA, AMAVA A TODOS DE VERDADE, E OLHA O QUE VOCÊ FEZ – não queria gritar, mas já estava fora de controle.
– Foi melhor assim, Hella disse...
–HELLA ESTÁ ENVOLVIDA? NANY, SE VOCÊ NÃO APARECER AQUI EM CINCO MINUTOS, EU VOU PESSOALMENTE AO INFERNO FALAR COM HELLA.
Desliguei na cara dele e me deitei novamente, pensando que esse bloqueio que eu tinha nas minhas memórias poderia não ser o único. Ouvi a campainha tocar, acho que vou destruir toda a cidade essa noite.
Lembrança off
Agora sim eu estava chorando desesperadamente, ao que parece minha memória tinha sido bloqueada duas vezes, e o Deidara do meu sonho é o mesmo que eu conheci hoje, parece que eu sentia algo forte por ele, mas agora não existe mais nada, nenhum sentimento.
Limpei minhas lágrimas e decidi que dessa vez não iria tirar satisfações com o Nany, sei que ele fez isso por que queria me proteger.
Olhei para a floresta e algo me chamou atenção, realmente não era comum ver algo desse tipo em uma cidade grande. Parece realmente que o dia será cheio.
Fale com o autor