LISARB - O Início do Fim

2 CAPÍTULO I - Consciência


Notas iniciais
Neste capítulo conhecemos Davi e o início da sua história. Espero que gostem dele assim como eu. Boa viagem.

Não lembro como aconteceu. Não senti dor e nem vi uma luz no fim do túnel. Foi como uma respiração profunda que preenche o corpo inteiro e depois, quando se expira, se sente leve como ar. Assim foi quando morri. Com minha pequena mente humana, ainda não consigo entender o que isso representa ou o porquê de ter acontecido. Na verdade, não sei bem se é necessário saber o porquê ou como. Apenas aconteceu e não há nada mais libertador.

Mas ainda sinto meu corpo e cada pedaço dele como se eu ainda o tivesse. Ainda posso sentir o coração bater forte, posso escutar os últimos sons que ouvi em vida, como um eco distante. Aos poucos estou esquecendo essas sensações, como se elas estivessem se dissolvendo nas águas de um mar calmo. Não sei exatamente há quanto tempo estou aqui. O aqui que não sei descrever, mas arrisco a dizer ser como uma caixa de vidro colocada em uma sala escura e sem som. Parece que estou no espaço, pois é frio, grandioso e escuro.

De tempos em tempos, um ser que não consigo enxergar insiste que eu lhe diga o segredo. É estranho dizer isso, mas não escuto nenhum som, não é uma conversa. A comunicação acontece através do pensamento, pois sinto o que ele diz da mesma forma como sinto o frio.

Não sei como, mas sei que a única maneira de ser libertado é revelando o segredo. O problema é que não sei de segredo nenhum. Nem a mais ínfima parte do meu ser sabe que segredo é esse. Só sei que estou morto e, pela ordem natural das coisas, eu não deveria estar neste lugar.

Os outros, que assim como eu estão presos, me disseram que ao revelar o segredo toda a espécie humana será salva. Eles me disseram que existem nove de nós, e eu sou o último. Disseram que o tempo está acabando. Mas não sei o segredo e isso não parece justo, porém disseram que é o que se ganha quando se desafia o universo como muitos de nós fazemos.

Muitas pessoas procuram por Deus como uma personificação não física de algo, feito inteiramente de luz e consciência, que deu vida a todos. Porém, Ele é muito maior do que qualquer pessoa que passou pela Terra poderia ter imaginado. Deus é o Universo, agora sei disso, porque eu o vi. Foi Ele quem me trouxe aqui.

Meu nome é Davi e meu dever é salvar a humanidade, porém para isso preciso descobrir o segredo. O segredo que salvará todos e nos dará paz além da vida.

Os outros me disseram para eu lembrar toda minha história, todo o momento que passei pela Terra, pois o Universo pode me ajudar a encontrar o segredo. Então, irei contar a vocês uma história, a minha história, prestem muita atenção, pois no fim, tudo é feito de escolhas e nada mais, foi o que aprendi até aqui. Se você escolher continuar, não poderá desistir mais, e tudo que descobrir junto comigo não poderá ser dito a mais ninguém. Então faça a sua própria escolha, você controla o seu futuro.

***

Nasci em um dia de chuva forte do quarto período do ciclo, em um dos milhares de cubos nos quais milhares de pessoas sobrevivem no assentamento 17 da cidade Central. A nossa vida não era como os estudiosos do início do século sonharam, cheia de tecnologia, carros voadores, viagens espaciais. Na verdade, estamos bem longe disso. A guerra de Aiga interrompeu todo o avanço do conhecimento no mundo, pois com o fechamento das fronteiras, famílias foram divididas, vidas foram tiradas e as principais cidades dos países foram destruídas. Foi horrível, era o que diziam os hologramas no que chamávamos de centro de aprendizado.

Para lidar com a nova formação da sociedade pós capital, as pessoas foram divididas em assentamentos, pelo menos no Brasil, na região central do país, onde existe a única reserva de Nix do planeta. Todas as pessoas trabalhavam na extração ou enriquecimento ou produção de Nix, como meus pais Noa e Lisa, a não ser as que trabalhavam nas plantações de milho e cana mais ao Norte. Ninguém, pelo menos das pessoas comuns vestidas em trajes iguais e cinzentos, sabia o porquê da extração do Nix. Só sabiam que era o que tinham que fazer e não questionavam.

Os hologramas contavam que o Brasil era um lindo país tropical visitado por muitas pessoas de todas as partes do mundo e, que Rio de Janeiro e São Paulo eram suas principais cidades. Porém, após os acontecimentos de abril de 2019 tudo mudou. A guerra começou, as cidades foram destruídas, nem mesmo a ONU, que acabou sendo desmanchada, foi capaz de conter a destruição e as mortes. Depois disso, tudo o que o ser humano sabia morreu junto a milhares de pessoas. Hoje, no país, existem quatro grandes cidades formadas cada uma por vários assentamentos.

As pessoas, quase em sua maioria velhas, eram estranhas, talvez tristes, e não possuíam brilho nos olhos. Não havia celebrações, festas, religião, templos ou igrejas, não havia nada que as tornassem humanas, pois parte do humano que havia dentro delas foi arrancado brutalmente. Os vizinhos não se cumprimentavam, todos agiam conforme foram programados para agirem. Somente a elite parecia ser diferente e esta não se misturava, mal era vista pelas ruas ou em qualquer outro lugar. Possivelmente vivem dentro da torre mais alta da cidade com seu mais de um quilômetro de altura, que chamamos de prédio da ciência.

Eu nunca soube como era a vida nos outros países – na verdade nunca conheci ninguém que já tivesse tido notícias sobre isso –, mas no Brasil controlado pela Novergo Corporate a vida era dura. As pessoas eram apáticas, pouco sociáveis e as crianças eram tristes. Eram como zumbis ou robôs, sem sentimentos, aspirações ou... sonhos. Ano após ano, todas as crianças que completavam quatro períodos de vida passavam pelo processo de Revogação. Processo no qual, a coisa mais valiosa da espécie humana era arrancada: seus sonhos.

Alguns anos após o início da guerra, uma empresa percebeu que as pessoas trabalhavam melhor quando não tinham pelo o que se importar ou pelo o que lutar e levantar todos os dias. Sem sonhos, elas se tornaram os operários perfeitos e ideais. Era o início da Novergo Corporate, que após convencer o governo social instaurado sobre o processo ser o melhor para evitar o mal do século, a depressão, o derrubou e assumiu o poder. Todos foram forçados a passar pela revogação e assim, com o tempo, o processo se tornou normal e algo inquestionável, pois o mais importante era ter uma vida longa sem o risco do mal do século. Gerações de pais acreditaram que isso era o certo e transmitiram esses conhecimentos aos filhos, transformando esse pensamento em algo comum e parte inerente a sociedade.

Meus pais não queriam que eu nascesse, pois não concordavam com a Revogação, era o que sempre me diziam. Embora tenham passado pelo processo, minha mãe era uma imune. Cresceu fingindo ser normal, quando na verdade era o que chamam de Preservados.

Quando completei quatro períodos ou um ciclo, como todos dizem, eu deveria ser levado ao prédio da ciência, controlado pela Novergo Corporate, para que eu passasse pela Revogação. Porém, ao invés disso, meus pais me esconderam e fizeram todos acreditarem que minha mãe havia me perdido durante a gravidez. Com o tempo, cresci e fui aprendendo a como ser forte e não ceder nunca para alguém que se acha mais importante do que a vida de qualquer outra pessoa. Até os meus quatro ciclos de vida eu vivi escondido naquele cubo branco semelhante a tantos outros no mesmo local.

Lembro que, em uma das manhãs após meu aniversário de 4 ciclos, alguns homens bateram à porta e pediram que a abrisse. Era uma vistoria da Novergo que procurava um imune que havia sido descoberto no assentamento 17.

— Abram a porta imediatamente ou nós entraremos a força. – Gritou um dos soldados.

Meus pais se apressaram para me esconder. Enquanto meu pai se preparava para distrair os guardas, minha mãe me levou para um esconderijo em uma parede falsa, mas que me permitia ver tudo que acontecia. Ficamos lá enquanto os homens entravam.

— Posso ajudá-lo, senhor? – Meu pai tentou distrair os militares para que eles fossem logo embora.

O militar olhou em seu dispositivo ao receber uma mensagem. Porém, sem motivo algum, sacou um Óplo, uma arma que libera energia em sua ponta, e disparou contra o meu pai que caiu no chão sem vida.

Minha mãe entrou em choque, mas manteve-se quieta, me protegendo dentro daquele esconderijo. Eu podia sentir suas lágrimas, seu coração acelerado. Eu não entendia porque aquele homem fez aquilo.

— Ele está sozinho? – Perguntou o assassino.

— Sim, senhor. – Um dos outros militares respondeu.

O militar então pegou seu comunicador e apontou para o rosto do meu pai. No mesmo instante, uma luz azul saiu do objeto e fez uma leitura.

— Senhor Noa Seito, identidade 91146-7-A17. Engenheiro de estabilidade de mineração, revogado. Casado com Lisa Claster, engenheira de manutenção, revogada. – Disse uma voz saindo do dispositivo.

— Limpem essa bagunça e incinerem o corpo. – Ordenou aos outros militares.

Já era noite quando partiram e finalmente saímos do esconderijo. Minha mãe não disse uma palavra. Apenas pegou uma mochila e me levou pelos becos e vielas apertadas até um cubo onde morava um dos maiores traficantes de Sere, um dispositivo eletrônico que te permite ter sonhos por breves instantes e também ajuda a disfarçar os sintomas de sonhos nos Preservados, do assentamento.

Ela bateu na porta e disse o que pareceu ser uma senha.

— O Noa foi morto. Está na hora. – Disse ao grande homem que havia aberto a porta.

Ela se abaixou, beijou minha testa e me entregou a ele. Lembro do seu último olhar antes de partir. Eu não entendia muito o que estava acontecendo, mas naquele momento eu soube que nunca mais a veria. Eu cresci com ódio daquela que um dia eu chamei de mãe. Como ela poderia ter me deixado com aquele homem horrível? Como ela poderia ter deixado meu pai ser morto?

Foi assim que a Novergo destruiu minha família e tudo o que eu considerava meu porto seguro. O tempo passou e o Mike, o homem que me criou desde então, não era bom. Ele me batia, me obrigava a trabalhar no tráfico e toda noite me ensinava a disfarçar quem eu era, disfarçar minhas características de Preservado. Eu sempre acreditei que ele era mau não porque queria, mas apenas porque nunca tinha aprendido a ser bom. Eu estava me tornando igual a ele.

Quando completei 14 anos, decidi fugir com a ajuda da filha dele, Kayla. Garota pela qual me apaixonei. Foi então que minha vida recomeçou.

Notas finais
Depois de mais de um ano, finalmente estou voltando a escrever esta história e em breve terei um novo capítulo. Acredito que já na próxima semana. ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.