San abriu os olhos ao recobrar a consciência e sentiu que estava preso contra a parede. Não havia algemas, correntes ou amarras físicas. Nada. Olhou ao redor e percebeu estar em uma sala mal iluminada, sem móveis ou janelas. Ele sabia que alguém o observava.

— Finalmente. Por alguns segundos, pensei que estivesse morto.

Raven cruzou os braços e sorriu do olhar confuso dele. San lembrou-se de tê-la visto antes de apagar:

— Quem é você?

— Diga-me você, rebelde. Quem é você e por que veio até aqui?

— Eu...

Ela ergueu uma das sobrancelhas, aguardando. San tentou se mexer, mas não conseguiu:

— O que está me prendendo?

— Você não me respondeu.

Ele continuou tentando se soltar, encarando o olhar debochado de Raven:

— Quer mesmo saber a verdade?

— Estou esperando.

San respirou fundo:

— Eu esperava encontrar uma forma de invadir e destruir a Estrela da Morte.

Suas bochechas queimaram de vergonha quando Raven soltou uma gargalhada e balançou a cabeça em negação:

— Você e aquela garota? Sozinhos? Acreditaram mesmo que destruiriam uma arma desse porte? A sua esperança é tão ingênua, rebelde.

San bufou:

— E o que você entende de esperança? Você é só mais um monstro, como todos no Império. Eu sempre terei esperança de que a paz retorne à galáxia.

Ela riu baixo:

— Monstro? Obrigada pelo elogio. Mas, para sua informação, não sou igual a todos no Império.

San franziu a testa enquanto ela se aproximava:

— Eu quero que este Império caia mais do que qualquer coisa! E quero o Imperador morto.

— O quê?

— Não posso planejar tudo abertamente, já que meu pai e meu mestre vivem me observando. Mas saiba, rebelde: a única coisa em que tenho esperança é de ver o Imperador morrer pelas minhas próprias mãos.

San não sabia o que pensar. Definitivamente não esperava por aquilo:

— Vai me soltar, então? Já que temos ideais parecidos.

Raven balançou a cabeça:

— Não temos ideais parecidos. E eu perguntei quem é você, mas ainda não obtive resposta.

— San. Meu nome é San.

— San, o rebelde que destruirá a Estrela da Morte — debochou ela.

Ele revirou os olhos e mais uma vez tentou se mover:

— A Força é impressionante, não?

San a olhou, confuso:

— Você está usando a Força?

Ela sorriu de canto:

— Nunca ouviu falar da Força?

Antes que San respondesse, um grito ecoou pelos corredores. Seu coração disparou ao reconhecer a voz, e o desespero tomou conta do seu corpo. Raven apenas suspirou:

— Ah... É a sua amiga.

— Onde ela está?

— Teve sorte de eu ter escolhido você, rebelde. Os métodos de persuasão do meu mestre não são muito...

Mais um grito cortou o ar.

— ...indolores.

— Por favor, faça ele parar!

— Por que eu faria isso?

San suava frio. Outro grito ecoou:

— Por favor! Eu faço qualquer coisa!

Raven o encarou com um sorriso astuto:

— Qualquer coisa?

Ele assentiu freneticamente. Raven pensou por alguns segundos e suspirou:

— Muito bem!

San sentiu a pressão invisível ceder de golpe. Suas pernas estavam dormentes, mas ele conseguiu apoiar as mãos no chão antes de cair. Sentou-se e massageou as coxas para aliviar o formigamento:

— Vou propor um acordo e ajudarei vocês a escapar.

— E a Alydar.

Ela revirou os olhos:

— E a sua amiga também.

San franziu o cenho. Por que ela o ajudaria? E se fosse uma armadilha para levá-los à morte? Raven percebeu a hesitação nos olhos dele:

— A proposta é simples: eu vou com vocês para onde quer que fique a sua base e permanecerei lá enquanto planejo como derrubar o Império. Nesse meio-tempo, quero conhecer outros planetas e luas.

— Por quê?

— Porque, rebelde, eu nunca vi nada além de Coruscant, Ruusan e o interior desta nave. É a única coisa que peço: um esconderijo e uma oportunidade de ver a galáxia.

O Skywalker levantou-se com dificuldade e a observou. Ela era mais baixa do que ele, devia ser bem menor do que Onaa Jin, mas sua postura ereta e altiva lhe conferia uma aura de superioridade intimidante.

— Então, o que me diz, San?

Ele pensou em Alydar e no sofrimento pela qual ela devia estar passando:

— Tudo bem — cedeu ele.

— Ótimo — ela sorriu.

— Qual é o seu nome mesmo?

— Raven Palpatine. Podemos ir?

San ficou boquiaberto enquanto ela passava por ele e sacava o sabre de luz do cinto. Ela olhou de relance por cima do ombro:

— O quê? Não quer fugir, rebelde?

— Você planeja mesmo matar seu pai?

Raven deu de ombros:

— Se seu pai fosse um tirano como o meu, você entenderia meus motivos.

Bem, ele nunca conhecera seus pais biológicos, então não podia julgar:

— Tem algum plano em mente, senhorita Palpatine?

Ela acionou o sabre de luz, aproximando a lâmina de San. O brilho púrpura iluminou o rosto dele:

— Primeiro: não me chame assim. Segundo: é claro que tenho um plano. Planejei minha fuga por sete anos, embora nunca tenha achado que realmente funcionaria.

— Como será essa fuga, exatamente?

Raven respirou fundo:

— O batalão de Stormtroopers diminuiu com o tempo, então está mais fácil. Teremos que passar por eles, pegar algumas máscaras de oxigênio na ponte de comando, ir até o hangar, abrir as portas e embarcar na minha nave.

— Fácil — disse San, esperançoso.

— Sim, superfácil. Como pretende fazer isso sem uma arma, senhor San?

O rebelde não respondeu.

— Exatamente. Não se preocupe, no caminho arranjo um blaster para você. O plano é o seguinte...

•••

— Por favor, me soltem! — protestou Alydar, sendo arrastada novamente pelos Stormtroopers.

Darth Vader sentira e ouvira os pensamentos de sua aprendiz: planos de fuga, assassinar o Imperador e derrubar o Império Galáctico. No início, nada fazia sentido, mas quando entendeu a verdadeira razão de os rebeldes terem sido trazidos a bordo, soube que precisaria tomar uma decisão.

Raven vira os rebeldes como uma oportunidade para escapar e rebelar-se, enganando a todos durante os últimos oito anos em que fingira estar sob o domínio do Lado Sombrio. "Inteligente como o pai", pensou ele.

— Senhor, a nave já está pronta — avisou um dos soldados que vinha pelo corredor da sala de controle.

— Muito bem. Agora vá, e não permitam que Darth Liathe fuja.

— Sim, senhor!

•••

— Fique atrás de mim.

Quatro Stormtroopers guardavam aquele corredor, atentos a qualquer movimento. Ao verem Raven surgir com o sabre em mãos, estranharam — e ficaram ainda mais surpresos quando San parou logo atrás dela:

— Darth Liathe? — perguntou um deles.

— Saiam do meu caminho ou sofrerão as consequências.

Os soldados se entreolharam e não hesitaram: ergueram seus blasters. Raven nem piscou. Levantou a mão direita e raios azulados se projetaram de seus dedos, eletrocutando os guarda-costas e arremessando-os longe. Em seguida, usou a Força para empurrar um blaster até a mão de San, que assistia a tudo de queixo caído.

Embora, no fundo, ele ainda desconfiasse dela.

Correram pelos corredores enquanto mais Stormtroopers surgiam. San abateu alguns a tiros, e Raven arremessou outros contra as paredes. Um corredor antes da sala de comando, San avistou uma sala vazia onde havia uma única peça de roupa: a jaqueta da Aliança que a irmã da General Hemp sempre usava.

— Cadê a Alydar?

— Darth Liathe...

O piloto que se comunicara com Raven mais cedo estava ali, parado, observando os dois com os olhos arregalados. Ela se aproximou rapidamente e o prensou contra a parede, segurando-o pelo pescoço:

— Onde está meu mestre?

— Ele... mandou... levarem...

Raven usou a Força para invadir e ler a mente do piloto. Assim que conseguiu a informação, soltou-o. O homem caiu de joelhos, tossindo desesperadamente, enquanto ela se voltava para San:

— Estão tirando-a da nave.

— Por quê?

Ela balançou a cabeça, a dúvida estampada no rosto:

— Talvez sua amiga seja valiosa. Ela é parente de algum general rebelde, por acaso?

San não respondeu, mas o silêncio foi o bastante.

— É, ela é — resmungou a Sith.

— O que ele vai fazer com ela?

— No máximo, vai torturá-la até conseguir a localização da base rebelde de vocês para destruí-la com a Estrela da Morte.

San entrou em desespero, mas Raven sentiu a presença de seu mestre: ele ainda estava na embarcação.

— Acho que ainda temos uma chance.

Correram novamente sob o fogo dos Stormtroopers. Raven decepava membros com a lâmina púrpura enquanto San fornecia cobertura. Ao dobrarem a esquina do corredor, viram R3 parado. O droide apitou agudamente:

— R3!

O droide apitou, questionando o que ela fazia acompanhada de um prisioneiro.

— Sinto muito, mas meu pai precisa ser detido, cedo ou tarde — disse ela, convicta.

O droide apitou em negação.

— Não importa mais.

Ela passou por ele, seguida por San. R3 acabou disparando uma sequência de apitos afirmando que ela seria destruída pelos próprios sentimentos. Raven não suportou. Deu meia-volta, acionou o sabre e caminhou lentamente até o droide, cortando-o ao meio e destruindo-o por completo. Ao se virar, encontrou San de olhos arregalados.

— Venha, vamos salvar sua amiga — disse ela.

San não percebeu nenhum vestígio de remorso no olhar dela.

A ponte de comando estava um caos; o Almirante Pynbra gritava com os oficiais e ninguém prestava atenção ao redor. Raven usou a Força para puxar três máscaras de oxigênio de forma discreta. Porém, uma copiloto os avistou. A Palpatine usou a Força para desacordá-la instantaneamente, provocando correria na sala, o que deu a brecha perfeita para escaparem.

Finalmente chegaram ao hangar e avistaram Darth Vader. Ele segurava Alydar pela nuca enquanto a garota chorava de pavor. Raven acionou o sabre novamente, mantendo-o a um lado do corpo. San quase encostou na lâmina de energia e recuou rapidamente.

— Traidora — declarou a voz robótica e profunda.

— Solte a garota, Vader.

— Eu sabia... Você ainda se inclina para o Lado da Luz. Depois de tudo o que seu pai e eu fizemos por você...

Raven riu com amargura:

— A única coisa que vocês fizeram foi me ensinar tudo o que sabem. E eu usarei cada lição contra vocês!

— Seu pai irá destruí-la!

— Não se eu o destruir primeiro. San, agora!

O rebelde correu para o lado esquerdo do hangar, mas Darth Vader usou a Força para arremessá-lo contra a parede, soltando Alydar no processo. Raven usou um empurrão da Força para mandar a garota na direção de San e avançou contra o mestre. Vader acionou sua lâmina vermelha, e os sabres se chocaram com o característico zumbido elétrico.

Os dois Sith duelaram intensamente. Cada um antecipava os movimentos do outro, mas o confronto prendeu totalmente a atenção do Lorde das Sombras, exatamente como planejado.

San levantou-se com dificuldade e puxou Alydar para perto. A garota tremia dos pés à cabeça e o encarava em choque:

— Como...?

— Eu explico no caminho! — disse ele, ajustando a máscara de oxigênio no rosto da amiga.

San correu até o painel de emergência e apertou o botão para abrir as comportas do hangar. Ele ajudou Alydar a se erguer enquanto os Stormtroopers invadiam o local atirando, mas, como de costume, erraram todos os disparos.

•••

— Destruam a Avenger agora! — ordenou o Almirante Pynbra aos seus oficiais.

— Mas, senhor, o Lorde Vader ainda está no hangar! — alertou uma piloto.

— Não importa! Destruam a nave de Darth Liathe! Agora!

•••

Torretas automatizadas, que nem Raven sabia que existiam no hangar, emergiram do teto, apontando em sua direção. Ela olhou rapidamente para o lado e viu San entrando na nave com Alydar. Usou a Força para imobilizar seu mestre, fazendo-o soltar o sabre de luz. As armas no teto começaram a carregar energia, e ela ouviu os motores de sua nave ganhando vida.

— Seu pai não deixará isso impune — avisou Darth Vader.

Raven deu um leve sorriso:

— Sinto muito, mestre...

As canhões começaram a disparar rajadas vermelhas:

— ...mas eu preciso trilhar meu próprio caminho!

Ela usou a Força para arremessar Vader contra os Stormtroopers que atiravam na Avenger, correu para dentro da nave e acionou a rampa de acesso. Sem fôlego, gritou para a cabine:

— Temos que ir!

As armas do hangar atingiram a blindagem, causando danos leves. San acelerou e manobrou para sair do hangar, mas, por não estar habituado aos comandos imperiais, a nave oscilou perigosamente sobre o abismo espacial antes de ganhar velocidade e cortar a escuridão da galáxia.

•••

— Cessar-fogo! — berrou o Almirante Pynbra.

As armas se desativaram e um silêncio pesado tomou conta do hangar enquanto as comportas se fechavam. Pilotos e oficiais se entreolharam.

— Quero todos procurando por Darth Liathe e por esses rebeldes nojentos! — esbravejou o Almirante, saindo a passos largos.

O piloto que Raven havia enforcado entrou na sala de controle. Todos o encararam:

— Ela conseguiu — disse ele, abrindo um sorriso discreto.

Suspiros de alívio contido percorreram a sala. Embora não pudessem comemorar abertamente, os oficiais mantiveram a postura e voltaram aos seus postos, disfarçando o contentamento.

•••

A Avenger era uma nave personalizada que Raven pedira ao pai anos atrás, sob o pretexto de querer viajar, mas que na verdade fora projetada exatamente para o dia de sua fuga.

Ela caminhou até o compartimento traseiro e encontrou Alydar encolhida em um canto, tremendo, em meio a uma crise de pânico. Raven se ajoelhou:

— Ei... Já passou. Está tudo bem.

A garota olhou para a Palpatine e caiu em prantos:

— Eu achei que fosse morrer... — soluçou.

— Sinto muito.

Alydar balançou a cabeça:

— Não, você não sente! Você faria coisas piores do que ele...

— Posso lhe assegurar que não faria.

— Eu duvido!

Raven deixou a garota e foi para o assento de copiloto ao lado de San. Ligou o mapa estelar e desativou o transponder para que não fossem rastreados:

— Para onde estamos indo, rebelde?

San pensou por alguns instantes e sorriu:

— Tatooine. Preciso ver uma pessoa.

Raven franziu a testa, encarando-o:

— Achei que fôssemos direto para a sua base.

— Isso pode esperar.

Ela deu de ombros. Não sabia absolutamente nada sobre esse tal planeta Tatooine nem o que haveria de tão importante lá; apenas traçou a rota no computador de bordo e puxou a alavanca da velocidade da luz.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.