LEGADO DO XOGUM
8 CAPÍTULO 7 - FESTIVAL DA TERRA, O SERENO

Takedo e Jun haviam acabado de comer todos os okonomiyaki, mas a estranheza da coincidência ainda pairava entre eles.
A penumbra da noite caía sobre a praça de forma tímida. Todas as luminárias já estavam acesas e a música do festival ainda permeava até eles.
Jun bateu uma mão na outra, depois espanou a própria roupa para remover as migalhas.
— Tori-Chi sabe mesmo fazer um okonomiyaki, né? — deu alguns tapas na barriga estufada, abrindo um sorriso largo.
— E amazake também. — O Sereno ergueu o copo.
Será que o Xogum está convocando todos os seus campeões?
— O amazake também — repetiu Jun, brindando com o novo amigo.
Eles deram o último gole quase ao mesmo tempo, encerrando a refeição de vez.
— Mestre Jun, seria presunção minha perguntar o motivo de sua visita?
— Seria presunção se você perguntasse sem estar disposto a revelar primeiro o motivo da sua. — O olhar de Jun era incisivo, embora o sorriso ainda resistisse em sua face.
Esse sujeito é diferente de tudo.
— Compreensível… Mas infelizmente não tenho certeza. Apenas uma suspeita.
— Suspeita? Então me diga, amigo. Quem sabe eu não posso solucioná-la?
“Pise de leve para saber se o chão é firme.”
— O senhor já ouviu falar sobre… — Takedo baixou a voz — Sōzō Sekai?
— Há! Mas é claro. O que tem Sōzō Sekai? — O gigante arqueou a sobrancelha.
Takedo sorriu discretamente.
— Suspeito que minha vinda esteja relacionada a esse lugar, mas não sei do que se trata. Talvez o senhor possa me adiantar alguma informação pertinente.
— É… talvez eu possa… O que você quer saber?
Está escondendo o jogo.
— O que exatamente é Sōzō Sekai?
— É um lugar.
Takedo pigarreou.
— Mestre Jun-Hyung, o senhor pretende me fazer de bobo?
— Jamais, jamais! É contra minha religião! — Jun balançou os braços em negação.
— Então por que está se fazendo de desentendido? Nitidamente o senhor conhece Sōzō Sekai, mas não quer me revelar. Se é um lugar, diga-me que lugar é esse.
Jun-Hyung riu alto.
— Você não se tapeia facilmente, hein, meu jovem? Não era minha intenção fazê-lo de bobo. É só que prefiro que Umarekawa explique por conta própria. — Piscou para Takedo.
— Compreensível… Porém, não seria justo que o senhor me ajudasse, depois de eu tê-lo ajudado com a situação de Tori-Chi? Gostaria de chegar ao Xogum com algo mais palpável.
— Como é mesmo que você diz? Compreensível... — Jun gargalhou. — Bem, vamos lá.
Ele lambeu os lábios antes de continuar.
— Sōzō Sekai é um domínio astral. Está conectado a tudo e, ao mesmo tempo, apartado de tudo. — Jun moveu os punhos em círculos, buscando a forma certa para aquilo que tentava explicar. — É um lugar onde o Único depositou uma herança. A mesma essência da qual nasceram os Deuses Dragões… simples assim!
Takedo levou a mão ao queixo.
— Interessante… Suas palavras serviram mais para me confundir do que para me esclarecer.
Jun-Hyung riu enquanto se levantava. Olhou de um lado para o outro, como se procurasse Tori-Chi no meio da multidão.
— É assim mesmo, jovem mestre. Sōzō Sekai tem um conceito complicado. Eu mesmo só estou repetindo o que ouvi. O Xogum vai explicar melhor… ou não.
A última parte saiu quase como um murmúrio.
Takedo também se levantou.
— Nesse caso, não vou insistir mais com o senhor. — Ofereceu a mão a Jun.
— Você já vai? Não vai me fazer companhia até a volta do barraqueiro? — Jun apertou a mão de Takedo, mas o sorriso lhe escapou da face.
— Infelizmente não. Eu não poderia firmar esse compromisso com Tori-Chi nem com o senhor. Já estou atrasado. — Sorriu para Jun.
Receba seu troco, uma mentirinha boba.
Naquele momento, a multidão se concentrava mais ao centro da praça, deixando algum espaço livre para que Takedo chegasse até o palácio.
— Nos vemos mais tarde então, Mestre Takedo-Khan de Uul-Galyn!
Takedo reverenciou Jun, tomou as rédeas do cavalo e seguiu cortando a praça.
Jun permaneceu junto à yatai, olhando o novo amigo se afastar com Kaminari, e riu sozinho pelo nariz.
Sōzō Sekai… um plano astral…
O Xogum quer mesmo me enviar para tão longe da minha família?
Um arrepio lhe subiu pelas costas.
Lamentável…
Mal se afastou da yatai, Takedo ouviu o rufar dos tambores crescer no centro da praça. Logo depois, labaredas foram lançadas para o alto, arrancando gritos encantados da multidão.
A apresentação principal estava começando.
Como a maior parte das pessoas se concentrava diante do palco, ele conseguiu ladear a massa de espectadores com Kaminari pelas rédeas. Ainda assim, avançava devagar. Havia crianças nos ombros dos pais, vendedores espremidos entre curiosos, velhos se inclinando para enxergar melhor e jovens abrindo caminho a cotoveladas educadas.
À medida que contornava a multidão, o palco redondo de pedra se tornava mais nítido.
— Foi na Guerra Primeva que ele apareceu! — A voz do apresentador atravessou a praça, vibrante e chamativa.
Takedo olhou para o palco.
O narrador se vestia como um Xái Yōu, de vestes amarelas e solenes que contrastavam com sua face pintada de branco com expressões risonhas.
Crianças trajadas de verde ocupavam a parte da frente, sérias demais para o tamanho das próprias armaduras de pano. Algumas empunhavam arcos de madeira, outras seguravam lanças pequenas, e duas carregavam bandeiras esmeraldinas maiores do que seus próprios corpos. Atrás delas, erguia-se um grande paredão de papel, sustentado por hastes finas de madeira e pintado como a encosta de um desfiladeiro, com pedras escuras e arbustos agarrados às bordas.
Do outro lado do palco, crianças vestidas em tons terrosos fingiam cuidar de feridos junto a um templo de papelão, pintado com rachaduras dramáticas e manchas vermelhas exageradas.
A plateia ria, apontava e comentava enquanto todos eles subiam ao palco e encenavam o cenário.
Takedo não riu de imediato.
Crianças brincando de morrer.
— No desfiladeiro de Fei-Tzu, os Esmeraldinos se preparavam para desferir a última investida contra os monges do Caminho Terreno! — continuou o narrador. — O templo chorava pelo sangue que seria derramado!
Ao comando dele, duas crianças agitaram longos panos azuis diante do templo cenográfico, simulando lágrimas. Uma delas tropeçou no próprio tecido, quase caiu, e arrancou risadas da primeira fileira.
Takedo sentiu a boca querer sorrir, mas o sorriso não veio inteiro.
— A terra tremeu quando o grandioso exército marchou!
O rufar dos tambores se intensificou. As crianças de verde começaram a marchar em descompasso, algumas sérias demais, outras segurando o riso. Uma delas errou o lado, trombou com outra e derrubou uma lança de madeira. A plateia caiu em gargalhadas.
Kaminari bufou, impaciente com o barulho.
Takedo acariciou-lhe o pescoço.
— Calma, amigo. Eles ainda nem começaram a matar uns aos outros.
Um sussurro só para o cavalo.
— Os primeiros arcos estavam prontos para disparar! — O apresentador andava de um lado para o outro, apontando para as crianças trajadas de verde. — Os lanceiros, posicionados para avançar! As catapultas, prontas para lançar fogo sobre o templo!
Três crianças se esforçavam para empurrar uma pequena catapulta de madeira até a marcação correta no palco. Uma roda emperrou. O menino responsável por comandá-la deu um chute discreto no eixo, e a plateia riu outra vez.
— Mas alguém o viu! — gritou o narrador.
— Viu quem? — perguntou um espectador infiltrado no meio da multidão, levando a mão ao ouvido com exagero teatral.
— Ele! — O apresentador apontou para o alto. — Jun-Hyung! O ainda jovem Irmãozão!
Todos aplaudiram quando um homem sem camisa, musculoso demais para combinar com o restante do elenco, entrou em cena fazendo pose. Ele era pelo menos três vezes maior que as crianças ao redor e usava uma barba branca postiça que ameaçava descolar do queixo.
Takedo piscou.
Não pode ser.
Parou a caminhada e virou-se totalmente para a apresentação.
O falso Jun-Hyung ergueu os braços e abriu um sorriso heroico, enquanto as crianças olhavam para ele tentando não rir.
— Apareceu onde? — perguntou o infiltrado, outra vez.
— E-é… — O apresentador hesitou, porque o musculoso havia parado no lugar errado. — No alto do precipício!
O falso Jun olhou para os lados, percebeu o erro e correu dois passos até uma plataforma pintada de pedra, fingindo que sempre estivera ali.
A praça explodiu em gargalhadas.
Takedo não conseguiu segurar um sorriso.
Abaixou um pouco o rosto, escondendo a reação atrás da mão.
Será se Jun está vendo isso?
Olhou para trás, mas a multidão bloqueava sua visão para a yatai.
— Do alto do precipício, ele gritou! — O narrador correu para trás do musculoso, inflou o peito e imitou uma voz grave: — Esmeraldinos! Eu sou Jun-Hyung, e ordeno que parem agora!
O falso gigante estendeu a palma da mão, rígido, solene demais para a própria barba torta.
— Mas não… sua ordem não foi ouvida! Os Esmeraldinos acharam graça!
O apresentador fez um gesto para as crianças.
Todas as crianças de verde começaram a rir de forma forçada, apontando para o falso Jun-Hyung com uma maldade ensaiada. Algumas exageraram tanto que caíram sentadas no palco, chutando as pernas no ar.
A multidão riu junto.
Takedo observou por alguns instantes.
O riso das crianças era limpo. A guerra que representavam, não.
E talvez fosse isso que tornava tudo tão estranho.
Aquelas pessoas não estavam celebrando a morte, concluiu. Celebravam ter sobrevivido a ela. Transformavam antigos horrores em farsa para que os filhos pudessem olhar para o passado sem tremer.
Compreensível…
Mesmo assim, algo nele se apertou.
Porque todo homem que já atravessou um campo de batalha sabe que não há beleza ou graça em ver um corpo caindo, nem em uma lâmina atravessando a carne.
— Jun-Hyung era um monge! — anunciou o narrador, recuperando a grandiosidade da voz. — Um herói misericordioso. Por isso, falou mais uma vez!
— Esmeraldinos! Recuem agora ou todos vocês perecerão! — virou-se de costas e imitou a voz grave mais uma vez.
O falso Jun-Hyung ergueu os dois braços, altivo, enquanto a barba postiça tremia no queixo.
— Mas eles ouviram? Ouviram?
— Não! — respondeu a plateia em uníssono.
— Então Jun-Hyung evocou seu poder! — esgoelou-se o narrador.
Novas labaredas irromperam das laterais do palco, e os tambores rufaram com uma gravidade quase convincente.
O ator musculoso abriu as pernas, dobrou os joelhos e baixou o corpo para invocar a força da terra. Suas veias saltaram e sua face ficou vermelha com a força que fez. A intenção era solene; a posição, nem tanto.
Por um instante, pareceu que o grande Irmãozão estava prestes a cagar no meio do palco.
A plateia morreu de rir.
Até Takedo sentiu o canto da boca trair sua compostura.
— A força do Irmãozão era tanta — continuou o narrador, lutando para não rir junto — que todo o desfiladeiro veio abaixo, levando consigo o exército esmeraldino de uma só vez!
O paredão de papel, erguido atrás das crianças de verde, tombou para a frente com um estrondo oco. Algumas delas correram aos gritos, saltando em direção à plateia, que já as esperava de braços abertos para apará-las. Outras se jogaram sob a estrutura caída, esperneando entre as dobras pintadas de pedra.
Lenços vermelhos foram agitados por mãos escondidas entre os escombros, simulando o sangue espirrado pelo esmagamento.
A multidão gargalhou, aplaudiu, assobiou.
Takedo observou em silêncio.
Era ridículo, inventivo e terrível em muitos sentidos.
O narrador caminhou entre os “escombros” de papel e, pouco a pouco, baixou o tom.
— A risada esmeraldina foi calada. Por um instante, ouviram-se apenas seus lamentos.
Os tambores cessaram.
Sob o paredão de papel, as crianças caídas começaram a gemer de forma desencontrada. Algumas exageravam tanto que arrancaram risos nervosos da plateia; outras agitavam os lenços vermelhos entre as frestas dos “escombros”, como se ainda tentassem dar importância à própria morte encenada.
A multidão reagiu num misto estranho de riso e compaixão.
Takedo não sabia ao certo o que sentir.
— Quando Jun-Hyung retornou ao templo, foi recebido com festa!
As crianças em tons terrosos correram para receber o ator musculoso. Ele abriu os braços, e todas começaram a dançar ao seu redor. As palmas da plateia cresceram, e a alegria voltou a ocupar a praça com a mesma rapidez com que os tambores haviam silenciado.
Pouco depois, as crianças soterradas se levantaram dos escombros de papel. Algumas corriam rindo, outras ajeitavam os elmos tortos, e uma delas ainda sacudia o lenço vermelho com orgulho, recusando-se a abandonar a própria tragédia. Todas se uniram ao apresentador no centro do palco para receber a ovação.
As palmas foram altas.
Os risos também.
Takedo retomou a caminhada, levando Kaminari pelas rédeas.
Por alguns instantes, todo aquele som pareceu se afastar de sua mente.
Viu nos rostos do povo âmbar a felicidade limpa de quem contempla uma história de vitória. Pais orgulhosos acenavam para os filhos no palco. Velhos sorriam com os olhos úmidos, alguns com a postura rígida de orgulhosos veteranos, como se a Guerra Primeva ainda lhes aquecesse o sangue.
Takedo não participara daquela guerra.
Seu pai, sim.
E foi depois dela que sua família deixou as terras esmeraldinas para trás e migrou para as montanhas de Uul-Galyn, no distante Reinado Rubi.
Na infância, ouvira poucas palavras sobre isso. Nenhuma delas vinha sem o peso do exílio.
E, naquele momento, cercado pela alegria do povo âmbar, lembrou-se de que, por mais longe que vivesse de sua terra natal, o sangue esmeraldino jamais deixara de correr em suas veias.
Fale com o autor