LEGADO DO XOGUM
7 CAPÍTULO 6 - NOSTALGIA FAMILIAR, DAMA SOLAR

O vento soprava forte, agitando seus cabelos dourados.
Lá de cima, Amateri Yǒngshì-Nǚ via toda a festa da Cidade Âmbar: as ruas lotadas de festeiros, as apresentações nas praças e as construções de pedra, pintadas com faixas vermelhas e amarelas, refletiam o entardecer alaranjado.
Pela velocidade do voo, o som chegava quebrado. Vozes, risos e músicas eram como ruídos cortados pelo vento.
Mais à frente estava o Palácio Âmbar, a imponente morada do Xogum; aquela que, outrora, fora sua casa.
Lembrou-se do primeiro voo. Do aconchego no colo do pai, que guiava a fera. Das fitas balançando em seu cabelo. Do primeiro toque na pelagem da criatura alada.
Do sorriso cúmplice do Xogum e de seu perfume doce de ameixas. Quase pôde senti-lo.
Com um comando nas rédeas, o grifo girou para baixo e fechou as asas, descendo de forma sinuosa em direção aos fundos do palácio.
Tudo cresceu rapidamente diante da aproximação abrupta.
Enquanto percorria a extensão do palácio, Amateri notou o átrio do pátio central cheio de pessoas festejando. Passou direto. A nostalgia tomou as rédeas antes dela.
A parte de alvenaria do palácio ficou para trás, e um extenso jardim se revelou.
Com outro toque nas rédeas, o grifo abriu as asas e planou até tocar a relva.
Em um salto, Amateri deixou as costas da fera. Mal seus pés tocaram a relva, guardas já vinham correndo em sua direção.
— Obrigada, amigo. Vou ficar um pouco por aqui. Vá se alimentar. — A voz saiu sutil como uma carícia, enquanto seus dedos morenos deslizavam na pelagem marfim do grifo.
A fera emitiu um arrulho baixo, balançou as penas e bateu as asas novamente, mergulhando no céu.
— Parada aí! — gritou um dos guardas do jardim.
Um samurai e dois arqueiros.
Sem armaduras chamativas, o alto e forte samurai veio à frente. Os outros dois ficaram mais atrás, com os arcos apontados para Amateri.
O vento revolveu pétalas de cerejeira no ar antes que ela respondesse.
— Já estou parada.
O samurai fechou a cara.
— Largue a lança e deite no chão!
Quanta eficiência — pensou ela.
— S-senhor… — murmurou o guarda mais atrás.
Ele foi ignorado pelo líder, mas Amateri o fitou.
— Essa lança faz parte do meu corpo. — Amateri deu um passo à frente, virando-se para o grupo; a perna coberta por pelinhos dourados surgiu pela fenda sinuosa do vestido. — Não posso largá-la.
O samurai desviou o olhar da coxa insinuante e sacou a espada num chiado.
— A pena por invadir o Palácio do Xogum é a morte! Qual seu nome, mulher?
— Amateri.
— Vou falar apenas mais uma vez, Amateri. Largue a lança e deite no chão.
Ela suspirou fundo.
Até para ter paz eu preciso discutir?
— Não. — a resposta seca veio junto de um sorriso sem graça de canto.
— S-senhor… — murmurou novamente um dos arqueiros.
Ignorado mais uma vez.
— Mirem nas pernas. Atirem!
Sob o comando, apenas um dos arqueiros soltou a flecha.
Amateri girou a lança e aparou a flecha no ar; no mesmo movimento, a redirecionou no rumo do samurai — ela fincou no chão bem próxima ao pé dele.
O samurai olhou enfezado para ela, depois para o arqueiro que não disparara.
— Atire! — mas o arqueiro hesitou.
— Cuidado… a próxima pode acertar no seu pé — disse Amateri.
A ameaça só serviu para enfurecê-lo ainda mais. Com passos pesados, marchou em guarda na direção dela.
— Senhor! Ela é filha do Xogum! — gritou o arqueiro murmurante.
Filha postiça.
O samurai parou.
— Ouça seu companheiro. Não estou para a guerra hoje.
— I-isso é verdade? — perguntou ele, ainda com a espada em riste.
Amateri fechou os olhos devagar e confirmou com a cabeça.
— P-perdão, minha senhora.
— Não se preocupe. Avise ao Xogum que cheguei.
Os guardas começaram a discutir entre si sobre o ocorrido.
Amateri não esperou resposta. Virou-se de costas e caminhou adentro no bosque de cerejeiras do jardim.
Parece que nem um dia se passou por aqui.
O vento do outono arrancava as últimas flores das cerejeiras, que ainda permaneciam exuberantes. O rosa e o laranja eram tão vívidos que aqueceram o coração da Dama Solar.
Lembrou de correr por aqueles jardins. Da sensação de pés na grama. Da gargalhada das irmãs. Do abraço da mãe e seu cheiro suave de flores.
Amateri sorriu. Mesmo que o destino a tivesse arrastado para longe daquilo, a memória ainda era reconfortante.
Parou. Agachou-se, removeu as botas de tiras e deixou os pés tocarem a relva.
Ao longe, os que a observavam comentavam entre si em voz baixa. Para eles, era como contemplar uma criatura mística — feita de bronze e ouro.
Ela caminhou até um arbusto próximo, colheu um lírio vermelho e o prendeu no cabelo. Da mesma forma que fazia sua mãe, Kazumi-Hin.
Retomando a caminhada, cruzou uma pequena ponte sobre um riacho ladeado de pedras e bonsais. Do outro lado, havia um torii que ela não conhecia — pequeno, branco, quase despretensioso. O caminho sob seus pilares levava até onde ela queria chegar: o santuário jinja, erguido em homenagem a seus verdadeiros pais.
No torii estava escrito: “Que o silêncio dos amigos que se foram, traga paz para o coração dos companheiros que ficaram.” Suas cores, adornos e curvaturas eram similares aos do santuário que vinha logo atrás.
Ler aquilo foi como um soco no estômago.
Ele ainda cuida das coisas que até o tempo se esqueceu.
Amateri seguiu. Subiu os degraus do santuário e abriu a porta corrediça.
O cheiro de coisa guardada se chocou contra ela. Limpou os pés no tapete de esteira, encostou a lança na parede e entrou com passos vagarosos.
O santuário era apenas um cômodo pequeno. Um altar de pedra com incensos apagados ficava sobre o tatame bege de palha igusa.
Seus olhos pousaram em algo que não conhecia.
Um mural pintado à mão ocupava a parede de fundo — uma família de leoninos no jardim de cerejeiras, o mesmo que ela atravessara pouco antes. Pai, mãe e três pequeninas. Amateri se reconheceu no colo do leonino de juba bronzeada, seu pai.
Levou a mão ao coração. A fisgada da angústia era velha conhecida.
Tanto tempo… e ainda dói…
Deu a volta no altar e encarou a pintura de perto.
Tocou o rosto da mãe — uma leonina de pelagem dourada — e percebeu a semelhança. Era como ver a si mesma, não fosse a tez levemente mais morena.
As lágrimas desceram sem que percebesse. Mesmo assim, sorriu ao fitar as feições das irmãs, que pareciam brincar aos pés do pai.
Então notou as duas figuras pequenas, pintadas em desfoque, ao fundo da imagem. Discretas, quase propositalmente à margem da cena — um âmbar e outra rubi. Umarekawa e Kazumi.
Eles sempre estiveram aqui. — correu os dedos sobre a pintura.
A dor familiar a assaltou novamente.
Lembrou-se do dia em que eles se separaram — Âmbar tomado pela cólera da guerra, e Rubi, pelo desgosto de ver seus irmãos duelando.
Do rosto furioso de Umarekawa ao ser questionado. Mas também de seu choro culpado, ajoelhado entre milhares de corpos de inimigos esmeraldinos.
Amateri ficou ao seu lado por toda a Guerra Findiva, mas no fim, se afastou, assim como Kazumi.
Viu a assinatura no canto inferior, mas já havia reconhecido o traço impressionista do Xogum Âmbar.
Respirou fundo.
Crescer é uma guerra à parte.
Pegou quatro incensos — bastou soprá-los para acendê-los. Posicionou-os sobre o altar e se ajoelhou. O cheiro de jasmim inundam o santuário.
Por um momento, não pensou em nada. Depois começou a orar em voz baixa.
…
— Que os senhores do limbo guardem meu pai, minha mãe e minhas irmãs. E que quando estiverem prontos, Yuiitsu, o Único, os abençoe e lhes conceda a vida após a morte.
Que meu pai, Ajamni de Doura-Prata, se farte à mesa das lendas que partiram de Kyūsekai.
Que minha mãe, Raia-Mesu, a Caçadora, esteja sempre ao seu lado e sorrindo.
Que Akoinuá viva cercada de flores e sob a sombra das árvores.
E que Ametisa tenha sempre alguém para brincar.
Jogue sua luz sobre o pai Umarekawa, acalente sua dor e absolva suas falhas — pois todos podemos errar com o intuito de acertar.
Jogue-a também sobre a mãe Kazumi. Amenize seu rancor, alivie sua cólera, que seu coração possa desabrochar e abrir-se novamente — assim como o lírio que ela é.
Por fim… obrigada por me iluminar em cada passo que dou. Sua presença em minha vida é nítida.
Sem ti, eu já teria desistido.
…
Nem mesmo Amateri soube por quanto tempo permaneceu ajoelhada.
O silêncio sagrado do santuário parecia ter se fechado ao redor dela, até ser rompido por uma voz solene vinda do lado de fora.
— Eles estão bem. Ainda desfrutam da companhia de teus ancestrais, aguardando o momento do retorno verdadeiro.
Sempre incisivo…
Amateri não se virou de imediato.
— E como você sabe disso?
— Eu…
— Você pode vê-los ou senti-los. — A voz dela não subiu, mas perdeu toda a doçura da oração para interrompê-lo. — Não preciso de suas amostras de poder.
Umarekawa respirou fundo.
— Perdoe-me. Só quis reconfortá-la com a certeza.
— Eu não preciso dela vindo de você. Yuiitsu já falou ao meu coração.
Só então Amateri abriu os olhos e percebeu que a penumbra da noite já lançava seus braços escuros sobre o Palácio Âmbar. Levantou-se devagar, tomou a lança encostada à parede e fitou seu pai adotivo parado além da entrada do jinja.
— Ele a ensinou a perdoar? — perguntou o Xogum com um sorriso fechado no rosto.
— Ele tem tentado.
Por um instante, Umarekawa não respondeu. As mãos, escondidas dentro das mangas do robe imperial em tons de laranja, amarelo e azul, surgiram lentamente e se abriram diante dela.
— Posso dar um abraço em minha filha?
Amateri titubeou.
Fitou aquela face jovial demais para pertencer a um Xogum, ou sequer para carregar o peso da palavra pai, e sentiu a mágoa cansada se mover dentro do peito.
Ela deu alguns passos em sua direção.
Então se abraçaram, depois de muitos anos sem se ver.
O Xogum a apertou forte, como se segurasse alguém amado.
— Meu sentido sempre esteve contigo — sussurrou Umarekawa. — Questione meus atos, minhas decisões, meu caráter… mas jamais duvide do amor que sinto por ti.
Eu nunca duvidei…
Amateri desfez o abraço sem respondê-lo. Deu alguns passos em direção ao riacho.
— Qual foi a última vez que viu a mãe? — perguntou, de costas para o Xogum.
— Naquele dia…
— É… ela é durona. Não é tão fácil de se dobrar quanto eu.
— Perdoar quem se ama exige um sacrifício extremo. Ela tem seus motivos, assim como você.
— Você pelo menos tentou?
Umarekawa se aproximou e ficou lado a lado com a filha, de frente para a água que se abria em um pequeno lago mais adiante.
— No começo, sim. Mas, depois de tantas eras vividas, aprendi que jamais sairei vitorioso se lutar contra mim mesmo. Por maior que sejam meu arrependimento e meu desejo de reconciliação, o perdão dela não depende de mim… Talvez ela já me tenha perdoado… Só não encontrou espaço em seu coração para mim depois disso.
— Não… ela não o perdoará tão facilmente… Kuáng-Qíng tinha muitos defeitos, mas ela o amava tanto quanto amava você.
O Xogum suspirou e balançou a cabeça em negação.
— Fiz o que era necessário…
— Não quis entrar nesse assunto. O que está feito, está feito. Você tinha seus motivos.
Umarekawa deixou o encerramento pairar por alguns instantes.
— Tu podes não ter o mesmo sangue dela, mas és muito parecida com tua mãe. Talvez possas ajudar-nos a reconciliar?
— Sem chance. Não vim aqui para bancar o cupido.
Eles compartilharam uma risada tímida.
— Então por que vieste?
Amateri olhou para o céu púrpura-alaranjado antes de responder.
— Não sei… apenas segui minha intuição.
— Intuição ou coração?
— Os dois…
— Faz sentido. Teu elo com o Único te concede a percepção daquilo que não se pode ver. Tu ainda não sabes o que é, mas, assim como eu, sentes a angústia do momento crítico se aproximando.
Realmente, tem algo estranho no ar…
— E que mo— Amateri foi interrompida pela sensação estranha.
O vento parou de soprar, tanto Amateri quanto Umarekawa sentiram um agouro pairando pelo jardim, a penumbra suave da noite recém caída pareceu se adensar por alguns instantes.
Uma risada baixa, grave e rouca irrompeu das árvores à frente.
Um vulto escuro saiu de dentro do bosque, negro como a noite, com olhos amarelos e predatórios.
— Que momento lindo… — A voz da sombra fez Amateri se pôr em alerta.
— Espada da Morte? — ela murmurou.
Como isso é possível?
— O Xogum em pessoa e sua amada filha… Amateri Yǒngshì-Nǚ. — Ele caminhou lentamente até a margem oposta do riacho.
Amateri sorriu para o inimigo.
— É como dizem… Às vezes é preciso pisar em uma barata mais de uma vez para ela finalmente morrer.
Sua feição explodiu em seriedade.
— Não, Amateri! — gritou o Xogum, em vão.
Ela saltou impetuosamente na direção de Nagato, girou no ar e caiu sobre ele com uma violenta estocada.
Nagato saltou para trás, fazendo-a cravar a lança no chão. Em seguida, lançou um chute rodado contra ela.
Amateri bloqueou com a lateral da lança e, em um movimento brusco, jogou o pé de Nagato para o alto com um rugido.
Ele girou duas vezes no ar diante da força da leonina. Antes que pudesse retomar o equilíbrio, Amateri cravou a base da lança na grama, apoiou-se na haste e projetou o corpo para a frente, acertando-o em cheio no peito com um pisão voador.
Nagato voou para trás com o impacto, capotou na grama e só parou ao cravar uma das garras no solo.
O chiado agonizante da Espada da Morte irrompeu quando Nagato a sacou, ainda agachado. Ele riu baixo enquanto se levantava.
Estendeu uma das mãos, e uma sombra emanou de sua palma feito fogo negro.
Ele está fora de forma.
Amateri girou a lança com habilidade e se preparou para continuar o combate. Apontou a lâmina da arma para Nagato; seus olhos se inflamaram em fogo vivo.
Quando estavam prestes a avançar um contra o outro, o Xogum saltou entre eles, com o manto âmbar ondulando ao redor do corpo.
— Já chega!
A voz, antes suave e solene, irrompeu com uma força antinatural. As árvores se dobraram, a relva e as folhas foram empurradas para longe.
Até o vento pareceu se calar diante da ordem do Dragão Âmbar.
O ímpeto dos combatentes foi minado. Tanto o fogo negro de Nagato quanto os olhos incandescentes de Amateri se apagaram.
Eles sabiam: contra aquele ser diante deles, não havia sequer tentativa.
Nagato sorriu por baixo da máscara negra que lhe cobria parte da face: boca, nariz e queixo. Depois recolheu a espada à bainha.
— Mas… ele é ini— — Amateri tentou falar, mas foi interrompida.
— Ele é meu convidado.
Os olhos dela se arregalaram.
— Seu… convidado?
— Sim. Dá-me tempo e entenderás.
Não acredito nisso…
— Dar-lhe tempo? Espada da Morte, seu convidado? Isso é impossível de entender!
Ela fez menção de investir, mas o Xogum deu um novo passo à frente.
— Amateri… — ele virou-se para ela. — Por favor…
Nunca é simples com esse sujeito!
A raiva se acendeu em seu olhar.
— Por favor, minha filha, não compliques ainda mais uma situação delicada — insistiu o Xogum.
— Eu deveria ter ficado onde estava! Você continua fazendo escolhas torpes!
Ela se virou e caminhou para o palácio em passos pesados.
O Xogum a observou se afastar com o semblante abatido, quase cabisbaixo, como uma criança que acabara de receber um sermão.
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