O Expresso de Hogwarts


Ao longo da semana seguinte, precisei comparecer ao escritório do superintendente todos os dias. Minha nova rotina era assinar documentos oficiais do Reino Unido, a maioria nomeando Albus Dumbledore como meu tutor legal durante o período letivo. Além disso, esses papéis garantiam que não fosse mais medicada ou participasse de psicoterapias contra a minha vontade, o que causou um grande desgosto em Fennessy.

— Quem esse sassenach pensa que é para dar ordens dentro do meu sanatório? — rugiu ao ler uma cláusula que proibia o uso de castigos físicos durante minhas férias.

Connor, tão ansioso quanto eu, repetia: — Você não precisa ir se não quiser.

— Connor — bufei —, pela última vez, o que eu mais quero é ir para Hogwarts.

Mas uma parte de mim se quebrava toda vez que os olhos lacrimosos de Connor brilhavam ao ouvir minhas palavras. Em um momento, eu o flagrei secando os olhos sob as armações dos óculos, mas quando perguntei o porquê do choro, gaguejou bobamente sobre um cisco que o incomodava.

Becky, por outro lado, parecia tão feliz quanto eu. Tagarela com as enfermeiras sobre como essa seria uma ótima oportunidade para mim, que eu era muito inteligente e merecia uma educação de qualidade (ela tomou o cuidado de deixar todas as menções sobre magia longe de suas conversas).

Continuamos nos encontrando na biblioteca até o dia 31 de agosto. Nessa data, já havíamos lido todos os meus livros letivos e Becky me ajudou com algumas coisas de História da Magia, fazendo paralelos com as informações que eu já sabia sobre o mundo trouxa. Connor ficou encantado com o exemplar de Herbologia, fazendo algumas anotações próprias sobre plantas medicinais que agora ele sabia serem mágicas.

Na noite do dia anterior à minha viagem, Becky conseguiu convencer as enfermeiras a deixarem os corredores da ala oeste livres, de forma que Connor e eu pudéssemos nos encontrar no quarto de nossa amiga logo após o toque de recolher.

— Não sabia que dormia em um palácio — Connor provocou.

O dormitório de Becky, assim como o meu, tinha chão de concreto, mas além de ser consideravelmente maior, havia um tapete felpudo ao redor da cama de casal, além de retratos sorridentes de seus amigos e família nas paredes cinzentas. A garota tinha uma pequena cômoda, onde guardava suas roupas, e uma única prateleira pesada de livros que recebia da mãe.

Becky encarou Connor com rigidez por meio segundo, mas depois se jogou sobre o colchão e nos chamou para mais perto. Abracei um de seus travesseiros fofinhos e Connor começou a cutucar um pelo encravado no queixo.

— Vou sentir falta de vocês — falei, as plumas fazendo minha voz soar abafada.

— Você não vai ter tempo para lembrar de nós — Connor brincou, mas notei uma pontada de ressentimento em sua voz. Muito antes de Becky ser internada no Sanatório, éramos apenas ele e eu, sentados no gramado seco do pátio, falando sobre como as pessoas podiam ser cruéis. Connor sempre me defendia dos loucos, sempre garantia que eu tinha comido o bastante no almoço e, às vezes, no meio do dia aparecia com uma maçã contrabandeada dos seguranças, que dividíamos pela metade e comíamos escondidos.

Deixá-lo para trás era o mesmo que deixar uma parte de mim, mas não ir para Hogwarts seria me negar inteira.

— Eu vou voltar todo ano — falei, como se pedisse desculpas. E pedia mesmo. Connor, sinto muito por te deixar —, estarei aqui no final de junho.

Magoado, Connor deu de ombros e desceu os olhos até o tapete de Becky. Houve um silêncio denso por alguns segundos, até nossa amiga pular para fora da cama e correr até a cômoda.

— Queremos te dar isso — ela me entregou um lenço chique, rosa pálido, provavelmente um presente de sua família, mas no verso havia duas palavras bordadas. Dois nomes em linha vermelha. Becky. Connor. O nome dela estava bordado graciosamente, com o B decorado com um pequeno coração ao lado. O nome dele, escrito de forma grosseira, em um lenço tão chique, com as letras O parecendo pequenos losangos pontudos, me provocou um sorriso.

Minha visão ficou turva com as lágrimas, transformando os nomes em massas indistintas sobre o tecido delicado. Balbuciei: — Quando?

— Você passou muito tempo assinando documentos essa semana — Becky riu. — Tivemos tempo livre. Você gostou?

— Eu amei! Obrigada — funguei.

Passamos o resto da noite espremidos na cama de Becky, conversando entre cochilos, falando mal dos funcionários do St. Jude, falando sobre como eu iria para Hogwarts e sobre a possibilidade de escrever-lhes cartas.

— Não perguntei para McGonagall sobre — confessei —, mas acredito que não seria um problema. Vou procurar saber disso assim que chegar em Hogwarts.

— E essa história de separação por casas? — Becky perguntou após um longo bocejo. — Parece meio estranho.

— Meio segregatório — Connor opinou.

— Acho que é só para manter a organização. Ou para ajudar os alunos a interagir com quem vão ter mais afinidade.

— Você vai fazer muitos amigos novos! — Becky exclamou, empolgada.

Eu duvidava um pouco disso, mas não quis preocupá-los com minha ansiedade infantil. A verdade é que eu nunca tinha feito amizades da minha idade. Minhas relações mais próximas eram com Connor, que já tinha 42, e Becky, que estava chegando nos 30. Eu podia até mesmo contar nos dedos quantas crianças eu havia visto em minha vida. No fundo, eu desejava que Becky estivesse certa e que eu fosse capaz de criar alguns laços em Hogwarts.

No dia seguinte, nos levantamos bem cedo e tomamos o café da manhã no refeitório praticamente vazio. Foi um momento silencioso e repleto de olhares ansiosos, que só teve fim quando a enfermeira Murphy se aproximou de nossa mesa.

— Sua hora chegou, menina. — O tom foi levemente ameaçador, mas não me importei com isso. Corri até meu dormitório e peguei a mochila que eu havia deixado pronta no dia anterior. Além dela, eu levaria também uma pequena maleta que Becky arrumou para mim, grande o suficiente para caber meu uniforme novo e as roupas trouxas menos puídas que eu tinha.

Do lado de fora do meu quarto, Murphy me esperava com Becky e Connor ao seu lado. Connor parecia miserável, mas a moça forçava uma expressão alegre que fazia suas bochechas ficarem ainda mais salientes.

— Eu nunca vou me esquecer de vocês — falei baixinho, na esperança de que só meus amigos pudessem me ouvir, mas o suspiro profundo de Murphy deixou claro que ela também escutou.

— Vamos logo! — ela rugiu, virando-se e sumindo pelo corredor.

Dei um abraço desajeitado em Connor e Becky, que devolveram o carinho ainda mais sem jeito, surpresos com uma demonstração de afeto tão repentina. Corri atrás da enfermeira, sem olhar para trás, para que meus amigos não pudessem ver as lágrimas que desciam por meu rosto. A cada passo, me sentia mais próxima de Hogwarts, mas uma parte de mim parecia ainda presa aos corredores cinzentos e aos amigos que eu estava deixando para trás. No átrio, McGonagall me esperava com uma pasta de papel pardo em suas mãos, a expressão usualmente contida estava mais tensa que o normal: — Vamos, Srta. Smith. Não temos tempo a perder.

Corremos apressadas morro abaixo. O ônibus, com sua notória lentidão, chegou ao ponto apenas alguns segundos depois de nós, sem nos dar tempo para trocar uma palavra sequer. Escolhemos um assento entre todos os disponíveis e lancei o último olhar em direção ao Sanatório St. Jude, que me espiava sobre a colina.

— Já está sentindo falta? — Minerva perguntou, conferindo seu relógio de pulso.

— Não — respondi com firmeza.

A professora me encarou por alguns segundos, chegou a entreabrir os lábios, como se quisesse falar alguma coisa, mas rapidamente desviou o olhar para a pasta de papel pardo que havia em seu colo.

— Ah, perdão. Isso é seu.

— Meu?

Confusa, peguei a pasta e enfiei a mão dentro, puxando um documento de aspecto velho que me fez ficar sem ar. Corri os olhos pelas palavras, tentando absorver todas as novas informações que eu tinha sobre mim.


Registro de Nascimento Certificado

Registro distrital: Tuam, Condado de Galway

Número de entrada: 03/1959

Certifico que o Livro de Registro de Nascimento nº 3, sob a ordem de nº 03/1959, registra que no dia 31 de outubro de 1959, na localidade Sanatório Psiquiátrico St. Jude, Tuam, Condado de Galway, Irlanda, nasceu uma criança de nome MARY ANN SMITH.

Filha de pai desconhecido, nacionalidade desconhecida e mãe desconhecida, nacionalidade desconhecida, sendo seus avós paternos desconhecidos e seus avós maternos desconhecidos.

É o que consta no devido termo de nascimento, assinado pelo Escrivão John McMahon e testemunhado pelo Dr. Bran Fennessy.

Está conforme, dou fé.

Galway, 02 de novembro de 1959.


Sob as palavras, havia os espaços dedicados às assinaturas. Fennessy havia assinado como “responsável legal”. Corri o dedo pelas palavras “mãe desconhecida, nacionalidade desconhecida” e pisquei repetidamente para afastar as lágrimas que queriam chegar aos olhos.

Enfiei a mão novamente dentro da pasta e encontrei cópias dos meus registros médicos dos últimos anos. Na primeira página constava um breve registro de vacinação e as seguintes estavam repletas de descrições de procedimentos e experiências aos quais fui submetida. Além dos relatos médicos, havia também algumas fotos de uma criança presa à maca ou envolta em uma camisa de contenção. Os cachos revoltos mal deixavam o rosto visível, mas me reconheci imediatamente.

Pelo canto do olho, percebi que a professora observava a cena discretamente, sua expressão era um misto de curiosidade e preocupação. Seus olhos não estavam na pasta, mas em mim, como se esperasse o estopim de uma crise.

A última coisa que tinha lá dentro se enroscou em meus dedos. Surpresa, puxei para fora um medalhão de prata envelhecida, com uma grande pedra azul no centro. Atrás do pingente, as letras MAS estavam grafadas de forma delicada.

— Professora, isso é meu? — questionei, erguendo a corrente embolada para conseguir ver melhor. A pedra escura, pesada e sem brilho, descansava fria em minha palma, parecia algo que havia sido esquecido na gaveta de Fennessy por anos.

— Estava com o seu registro de nascimento quando o solicitei — ela explicou, fixando seu olhar no medalhão —, mas o superintendente não comentou sobre.

— Será que era da minha mãe?

— Eu não saberia te dizer, senhorita — Minerva falou, como se pedisse desculpas por não poder me ajudar com aquele mistério. — Mas isso não me parece uma jóia bruxa.

Guardei a pasta e todo o seu conteúdo dentro da maleta, decidindo que não lidaria com aquilo nas próximas horas, não a caminho de Hogwarts. Mas meus pensamentos não se aquietaram por um segundo durante o resto do caminho.

Chegamos à Galway pouco depois das dez da manhã, para o desespero de McGonagall, e enfrentamos uma chuva fraca até a casa da Sra. Ruoy, que nos recebeu com um grande sorriso no rosto redondo.

— Finalmente! Mary, querida, fiz um bolo para você comer no trem.

Senti meu rosto arder. Eu não estava acostumada a ser tratada com tanta gentileza, mas foi impossível não me sentir importante de alguma forma.

— Obrigada, Sra. Ruoy.

Enquanto corríamos até a lareira, Elfrieda enfiou um pote plástico pesado e uma garrafa térmica em minhas mãos.

— A viagem é longa — ela explicou —, então fiz um pouco de chá também.

— Isso é ótimo Sra. Ruoy — McGonagall começou —, somos muito gratas, mas estamos muito atrasadas. Srta. Smith, por favor.

A professora desapareceu entre chamas verdes, após anunciar o Caldeirão Furado. Em seguida, foi minha vez. Equilibrei o pote e a garrafa térmica contra o corpo e sorri para a Sra. Ruoy em despedida antes de atirar mais pó de Flu nos pés.

— Caldeirão Furado!

Fui sugada para dentro da lareira, rodopiando em meu próprio eixo, enxergando breves flashes de famílias apressadas em suas próprias casas. Saltei quando vi Minerva do lado de fora, dessa vez tomei o cuidado de não cair e, apesar do enjoo, consegui segurar meu café da manhã no estômago.

— Minerva! — Tom, o estalajadeiro, cumprimentou, mas a professora sequer o ouviu, já estava marchando para o lado de fora do bar, em direção ao mundo trouxa.

— Se apresse, Srta. Smith — ela pediu, me puxando para trás de uma lata de lixo no beco ao lado do Caldeirão Furado. O lugar estava muito sujo e cheirava peixe podre e óleo de fritura. Lançando um olhar nervoso para a rua, McGonagall enfiou a mão dentro de sua mãe e resmungou: — Não vamos ter tempo para chamar um táxi, vamos precisar voar.

Voar!

— Shiu! — a professora arregalou os olhos e encarou novamente a rua, mas os trouxas que passavam sequer lançaram um olhar em nossa direção — Srta. Smith, é uma situação séria, não terei tempo de te dar aulas de voo agora, então precisa se segurar em mim e ficar de olhos fechados.

Uma vassoura de cabo grosso e nodoso surgiu sob a manga de McGonagall, que a montou calmamente e indicou que eu subisse na garupa. Segurei na cintura da bruxa e fechei os olhos com força, quando senti o chão sumir sob meus pés.

— Tudo bem, Srta Smith?

Balancei a cabeça contra o tecido fino de sua blusa. Após alguns segundos, quando senti o vento bater mais forte contra minhas bochechas, arrisquei abrir os olhos.

Naquela altura, Londres parecia uma cidade de brinquedo, com carrinhos minúsculos parando nos semáforos e buzinando uns para os outros. Pensei que seria possível enxergar o mar daquela altura, mas tudo o que minha visão alcançava era apenas Londres.

— Uau — falei baixinho.

— Já abriu os olhos, Srta. Smith? — A professora resmungou, mas eu estava tão impressionada com a cidade e com a sensação de estar voando, que não consegui inventar uma desculpa. Ao contrário do que eu esperava, McGonagall não me censurou, mas falou de forma compreensiva: — É impressionante, não? Sempre gostei de voar.

A sensação do vento agitando meus cabelos, a dificuldade de manter os olhos abertos, as figuras diminuindo cada vez mais, tudo isso me fez soltar um riso desesperado que ficou para trás com a velocidade da vassoura.

Chegamos em Kings Cross dentro de poucos minutos e, após uma aterrissagem brusca e pouco discreta, corri atrás de McGonagall entre os trouxas apressados. Apesar de sermos duas figuras estranhas, eu usando roupas muito velhas e grandes para meu tamanho e ela com sua longa saia de tecido escocês, ninguém em Londres tinha tempo para nos olhar.

Minerva me conduziu até uma pilastra de tijolos entre as plataformas nove e dez, meteu um bilhete de trem em minhas mãos e me indicou a parede.

— Gostaria de ter mais tempo para lhe explicar, senhorita, mas seu trem vai partir em três minutos. Preciso que corra em direção à parede, não vai se machucar, do outro lado se encontra a plataforma de onde o Expresso de Hogwarts sairá.

Encarei os tijolos, ciente de que aquilo era a única coisa que me afastava do mundo mágico. Desci os olhos até o bilhete e as palavras “Embarque na plataforma 9 ¾”me encararam de volta. Balancei a cabeça para a professora em sinal de despedida e corri o mais rápido que pude, torcendo para que o impacto não fosse tão forte. Fechei os olhos antes da colisão, porém o choque não aconteceu.

O som do maquinário e as conversas que tentavam se sobrepôr me fizeram perceber que eu havia feito a travessia.

Arregalei os olhos a tempo de ver uma grande locomotiva vermelha a vapor que estava parada na plataforma apinhada de gente. Nas janelas, as famílias se despediam de seus filhos e passavam recomendações para o ano letivo. Curiosa, encarei um casal de bruxos usando vestes elegantes e coloridas, que discutiam fervorosamente em voz baixa. Consegui capturar as palavras “impuros e nojentos” quando saíram dos lábios da mulher e tentei me aproximar um pouco mais.

Quando os olhos cinzentos do homem se cravaram em mim, me senti momentaneamente paralisada de vergonha por ter sido pega bisbilhotando a discussão, mas o apito do trem quebrou meu transe, me fazendo correr para saltar dentro do vagão, que já havia se movido alguns metros pelos trilhos.

Levemente ofegante pela correria arrastando a maleta, abri a porta de uma das cabines e me joguei no assento com um suspiro pesado, prestando pouca atenção em dois meninos que me encaravam com as sobrancelhas erguidas.

Ajeitei as costas contra o estofado do banco e murmurei constrangida: — Oi.

Um dos meninos abriu um grande sorriso para mim, revelando dentes muito brancos e tortos. Parecia uma criança bem cuidada, o que podia ser notado por suas vestes de qualidade impecável e seu topete aloirado perfeitamente alinhado.

— Sou Frank Longbottom — ele falou, estendendo a mão em minha direção. Hesitei por alguns segundos antes de devolver-lhe o aperto.

A mão de Longbottom era quente e muito mais macia do que qualquer pele humana que eu já havia tocado. De uma forma esquisita, me senti cheia de um sentimento caloroso, como se eu não precisasse ter qualquer preocupação, uma sensação gostosa de felicidade constante.

Pisquei, atordoada, soltando sua mão. Percebi que Frank ainda me encarava, um brilho de curiosidade nos olhos. Um calor repentino subiu para as minhas bochechas, eu me conhecia bem o suficiente para saber que devia estar parecendo um tomate. Insegura, me apresentei: — Mary Ann.

O outro menino, este mais baixo e de rosto redondo e corado, também me estendeu a mão ao se apresentar: — Peter Pettigrew.

Quando os dedos roliços de Pettigrew roçaram minha palma, fui novamente tomada por aquela sensação estranha: sentia algo que não era meu. Dessa vez, de modo mais claro do antes, senti uma ansiedade enorme, um medo do que pensariam de mim, exceto que… Eu não era eu, não realmente. No fundo de minha mente, surgiu uma pequena casa de tijolos pálidos construída sobre um chão pedregoso. A imagem se tornou então uma mulher de olhos tristes, com uma enorme barriga.

Soltei a mão de Peter, quase o empurrando para longe de mim. Discretamente, esfreguei o suor da mão contra o estofado do banco, o que não passou despercebido pelos meninos, que se entreolharam antes de me encarar novamente.

Um silêncio desconfortável preencheu a cabine por alguns momentos, até que Peter deixou escapar, sua voz uma oitava acima do normal: — Merlin, estou tão animado, vocês não? Passei minha vida toda esperando por isso, passei muito tempo pensando que não era mágico o suficiente para isso… Mas aqui estou eu, finalmente! Mamãe mal pôde acreditar quando minha carta chegou, como seus pais reagiram?

Enquanto Pettigrew e Longbottom conversavam, o trem saiu de Londres.Passávamos agora por campos verdes, pontilhados por vacas e carneiros. Me mantive calada por um tempo, contemplando os pastos e as estradinhas que passavam num lampejo.

Por volta do meio-dia a porta se abriu novamente, uma senhora, toda sorrisos e covinhas, colocou a cabeça para dentro e perguntou: — Querem alguma coisa do carrinho, queridos?

Longbottom se colocou de pé e enfiou a mão no bolso de suas vestes chiques. Comprou caixas e mais caixas de doces, além de algumas garrafinhas de suco de blueberry.

— Aceitam?

Pettigrew aceitou prontamente. Eu, porém, balancei a cabeça, tímida.

A porta se abriu novamente e dois outros alunos entraram, tornando a cabine quase sufocante. A menina, bons centímetros mais alta que eu, tinha os cabelos em um tom bonito de vermelho, mais próximo de um tom castanho, enquanto os meus eram laranja berrante. Seus olhos verdes, muito brilhantes, se destacavam contra o rosto bonito, formado por bochechas gordas. Tinha a pele perfeita, sem qualquer sarda ou mancha de descuido. Ela usava vestes trouxas modernas, uma saia jeans e uma blusa amarela com flores bordadas nas mangas. Em nada se pareciam com as roupas que eu tinha no sanatório. Imediatamente senti inveja, dessa vez, tive certeza que o sentimento vinha unicamente de mim.

O menino que a acompanhava era bem diferente. Tinha uma aparência pegajosa e doentia… Os cabelos pretos tinham um brilho oleoso, a pele parecia macilenta e anormalmente pálida. Já usava o uniforme da escola, visivelmente velho e puído, tão desgastado quanto o meu. Pensei que pelo menos eu não seria a única órfã em Hogwarts.

— Com licença — a menina disse, educadamente, sentando-se ao lado de Frank. O garoto se espremeu imediatamente ao lado dela, como um fiel cachorro —, eu sou a Lily, ele é o Severus.

— Prazer! — Longbottom cumprimentou simpaticamente — Primeiro ano também? Eu sou o Frank, esses são Peter e Mary.

Mary Ann — corrigi baixinho por instinto.

A menina, Lily, olhou para mim com aquele par de olhos esmeralda que pareciam ver minha alma. Ela abriu um sorriso estranho para mim, como se estivesse surpresa com alguma coisa, e ergueu a mão em direção ao meu rosto.

O movimento foi mais rápido do que eu pude prever, as pontas de seus dedos roçaram contra a minha bochecha, afastando uma mecha de fios grossos do meu rosto. Naquele momento, fui atingida por uma nova onda de sensações e visões.

Uma gravidez saudável e feliz, uma irmã mais velha tentando trançar os cabelos de uma bebê arruivada, um pai sorridente lançando-a para cima contra um céu cinzento, uma menina com um sorriso sapeca aprendendo a andar de bicicleta antes de rolar pelo morro, uma irmã irritada pelo sumiço de suas bonecas, um menino magrelo de cabelos escuros que lhe contava sobre bruxaria, uma irmã chateada, uma família confusa… Havia ainda algo mais, não pude entender a princípio o sentimento que aflorou de imediato em meu peito: uma mistura de ansiedade e tristeza, receio e empolgação, eu estava magoada por ter brigado com minha irmã, ao mesmo tempo que estava cheia de expectativas para a nova vida…

Nenhum daqueles sentimentos me pertencia.

Afastei a mão de Lily de meu rosto com um tapa. Ofeguei, assustada.

— Não me toque novamente!

A menina arregalou os olhos e gaguejou: — Desculpe… Foi por impulso, eu… Seu… Seu cabelo é bonito…

Franzi as sobrancelhas, furiosa. O que havia de errado com eles?

Saltei do banco e passei as alças da mochila por meus ombros. Encarei a garota novamente e soltei: — Nunca mais me toque, esquisita!

Acredito que toquei em um nervo, pois imediatamente os olhos da garota se encheram de lágrimas. Severus, o magrelo oleoso que estava quieto até então, pareceu se enfurecer com minha reação. Colocou-se de pé também, comprimindo os lábios, nervoso: — Não a chame disso!

Revirei meus olhos e tentei sair da cabine sem esbarrar no menino. Já estava abrindo a porta quando Severus, irritado, me puxou pelo pulso. Seu aperto foi forte a ponto de me ferir, mas não tive tempo para pensar sobre isso, pois novas imagens surgiram sob minhas pálpebras.

Uma gravidez conturbada, um bebê prematuro e fraco, um pai abusivo, uma mãe assustada e negligente. Roupas velhas, garrafas de bebida, uma varinha deixada de lado. Um rosto ferido, um tapa contra uma mulher que chorava alto… Qual era o nome dela mesmo? Eileen. Uma casa pobre, sem brinquedos e sem cor, um gramado cinzento onde duas meninas, uma loira e outra arruivada, brincavam no balanço. Raiva explodiu dentro de mim, uma tristeza que não deveria caber em uma criança, um sofrimento agudo.

— Solte-me, infeliz! — falei de forma áspera, ameaçadora. Severus afastou sua mão de mim imediatamente, como se tivesse levado um choque.

O silêncio caiu na cabine. Saí para o corredor sem olhar uma segunda vez para ninguém.

Havia algo de errado com eles. Com todos eles. Como isso era possível? Como eles podiam mexer com minha mente daquela forma?

Apertei os punhos com força, sentindo as unhas contra a carne. Meu pulso doía onde Severus havia apertado, mas eu não tinha tempo para verificar o hematoma. Precisava encontrar um lugar onde eu pudesse ficar sozinha, longe daqueles… Anormais.

No caminho, esbarrei em uma menina alguns anos mais velha, com um olhar tristonho. Seus dedos mal encostaram em meu antebraço, a única coisa que tive tempo de ver foi o enterro recente de sua avó. Apressei meus passos, em direção ao final do vagão.

Com as pernas bambas e a mente rodopiando, a conclusão me atingiu com força: o problema estava em mim, eu estava invadindo mentes, revirando memórias.

O trem sacolejou com força e me atirou contra a porta entreaberta de uma cabine.

Tombei para dentro, batendo a minha cabeça com força contra um malão puído, semicerrei os olhos, tentando enxergar contra a luz da janela. Uma sombra se projetou sobre meu rosto, encarei o olhar preocupado do garoto.

— Merda! Você está bem?

O menino esticou as mãos, cobertas por cicatrizes grossas, para me ajudar. Recuei imediatamente e deixei escapar um berro: — Não me toque!

O menino arregalou os olhos e puxou uma grande lufada de ar. Então, se jogou contra o banco, desviando os olhos para a janela.

Tentei me levantar, soltando um choramingo ao sentir minha cabeça latejar. Desajeitadamente, me larguei no banco, de frente para o garoto, que parecia ter engolido algo muito azedo.

Ele era visivelmente alto, a ponto de ser desajeitado e anguloso, joelhos ossudos se projetavam contra o tecido fino da calça jeans que ele usava, sapatos grandes de couro comum, bastante desgastados nas pontas, e uma camisa simples faltando um botão na altura da gola. Sobre o rosto, não havia muito o que dizer além da constante expressão de ansiedade. Tinha um par de olhos ferinos, âmbar profundo, e cicatrizes feias cobriam as bochechas.

— Como se machucou? — perguntei antes que pudesse me segurar.

— Desculpe? — ele franziu o cenho e virou levemente o rosto em minha direção.

— As cicatrizes — falei bobamente. — Como se machucou?

— Caí das escadas — ele respondeu rápido, treinado e preciso. Uma mentira descarada e mal formulada.

Arqueei as sobrancelhas, mas não insisti no assunto, em vez disso, passei a encarar a paisagem bucólica além da janela.

— E você?

— Eu o quê?

— Suas cicatrizes — ele apontou para o próprio pescoço. Involuntariamente, ergui a mão até tocar a minha pele sob a orelha, onde marcas finas de unha desciam até a clavícula. Aquela cicatriz era tão pequena se comparada com as outras, que fiquei levemente surpresa que alguém as tivesse notado. Com meu movimento, o garoto encarou também minhas mãos, cobertas por linhas esbranquiçadas.

— Ah. Caí das escadas.

Ele forçou um sorriso para mim, sabendo de minha mentira tanto quanto eu sabia da sua.

Ficamos em silêncio, os dois olhando para fora da janela. Passávamos por um rio preguiçoso, cercado por árvores bonitas, mas ao fundo ainda era possível ver os pastos.

Pensei no que McGonagall havia me falado no dia em que me levou ao Beco Diagonal. Se invadir casas era um crime no mundo bruxo, invadir mentes certamente também seria, pouco importava se era acidente ou não. Eu precisava descobrir o que estava acontecendo comigo e resolver isso o mais logo possível, antes que outra pessoa descobrisse e me denunciasse para o Ministério Bruxo.

Flexionei os dedos, nervosa demais para ficar parada, e voltei meus olhos para o menino e seu grande malão, no qual eu havia batido a nuca. As iniciais RJL estavam estampadas contra o tecido marrom, as letras pareciam ser bem mais novas do que a mala em si.

Seus olhos âmbar acompanharam o movimento dos meus. Ele pareceu ansioso por um momento antes de dizer: — Remus John Lupin — ele parou, como se esperasse alguma reação minha. Como não recebeu nada, prosseguiu: — Você é...

— Mary Ann. Smith.

— Certo, Mary Ann pausa dramática Smith.

Esbocei um sorriso e Lupin me devolveu outro, igualmente rápido.

A viagem demorou pelo menos outras seis horas. Em algum momento, Remus me ofereceu metade de um sanduíche de frango e maionese, então dividi com ele as fatias de bolo que a Sra. Ruoy havia colocado em minha mochila.

O sol já estava se pondo quando Lupin murmurou que ia até o banheiro para vestir seu uniforme. Aproveitei sua saída para me trocar dentro da cabine. Quando ele voltou, compartilhamos um rápido olhar de simpatia para as vestes de segunda mão um do outro.

Não nos falamos muito depois disso. Já estava escuro quando a voz do maquinista ecoou pelas paredes, anunciando que chegaríamos à estação em cinco minutos, Remus saltou de seu banco, exalando ansiedade por cada um de seus poros, como se Hogwarts pudesse fugir caso ele não se apressasse. Seu nervosismo era tanto que eu podia senti-lo emanando em ondas e me atingindo, mesmo sem tocá-lo.

Deixei minha mochila ao lado do malão de Lupin, antes de nos enfiarmos na multidão de alunos que se apinhavam no corredor. Esbarrei em pelo menos três pessoas, vendo flashes confusos que não consegui decifrar. Enfiei as mãos nos bolsos fundos do uniforme e mantive a cabeça baixa, receando ver algo mais. Eu definitivamente não queria ir para a prisão dos bruxos logo no meu primeiro dia em Hogwarts.