LEGADO DE SANGUE | marauders era
3 — CAPÍTULO I —
Sanatório St. Jude
A única vista que eu conhecia do mundo exterior era a pequena fresta da janela do meu quarto no Sanatório St. Jude, onde o céu irlandês parecia sempre tingido de cinza. Não havia balanços, nem árvores para escalar, apenas muros de pedra e uma sensação persistente de confinamento. Eles diziam que eu estava ali para ser curada, para acabar com os eventos estranhos que aconteciam quando eu estava com raiva, mas as pílulas apenas serviam para me deixar zonza, flutuando em uma névoa de pensamentos confusos e vozes distantes, tornando as horas mais lentas e as paredes trêmulas.
Vez ou outra, quando nos deixavam sair para aproveitar algumas das raras horas de sol, eu me sentava ao lado de Connor, um dos residentes do sanatório que ainda conservava sua sanidade, e observava as pedrinhas sobre o gramado seco.
— Me fale de novo sobre minha mãe — eu pedia.
Às vezes Connor parecia triste, às vezes parecia irritado, mas ele sempre contava a mesma história: — Era uma mulher muito estranha. Eu nunca perguntei o nome dela, mas todo o hospício podia ouvi-la gritando.
— O que ela gritava?
— Você sabe — ele suspirava. Coçava a barba por fazer e examinava algo sob as unhas antes de continuar: — Dizia que queriam te tirar dela, que você precisava ser protegida, que precisava ser escondida. Mas ela foi perdendo a coerência a cada dia, foi amarrada, você sabe, e antes de ser amordaçada começou a falar em outros idiomas, gritava sobre magia, sobre o Mal.
Certa vez, após a visita de um padre local que apareceu para uma extrema-unção de um velho que falava em uma língua desconhecida, eu indaguei para Connor: — Ela estava possuída?
— Não acredito nessas coisas — ele bufou. — Ela era uma mulher que precisava de ajuda e não souberam como ajudá-la. Assim como todos nós.
Além de Connor, eu conversava com Becky, uma jovem professora internada que escondia suas tentativas de suicídio sob as mangas longas de casaquinhos de tricô. Ela gostava de me contar sobre a história do país e tomou como sua missão pessoal me dar aulas de inglês e matemática. Becky não sabia nada sobre minha mãe, havia chegado recentemente ao sanatório, e era bem cuidada pelas enfermeiras, pois sua família a visitava sempre (e também contribuía mensalmente com as despesas da instituição).
Nós três estávamos sempre escondidos entre as prateleiras velhas da biblioteca. Connor lia livros de medicina, os quais as enfermeiras costumavam folhear, enquanto Becky lia os livros que sua mãe enviava a cada quinzena. Quando Becky me ensinou a ler, comecei a folhear livros dos Irmãos Grimm que os retardados mentais gostavam, mas logo se tornaram histórias bobas para mim, então logo me voltei para exemplares de Blyton e Lewis e seus universos fantásticos, onde eu podia me perder e fingir fazer parte daquelas realidades.
Além de Becky e Connor, eu não conversava com os outros internos. Eles eram ou insanos demais ou dopados demais ou, no pior dos casos, agressivos. Tive uma experiência bastante ruim com uma senhora esquizofrênica de unhas afiadas, quando eu tinha sete anos, que me deixou fatiada igual um cordeiro. Quando Connor correu para o superintendente Fennessy para relatar o ocorrido, o superintendente foi bem claro: “Ela mereceu, precisa ser mais esperta. Proíbo as enfermeiras de tratar esses machucados, algumas cicatrizes são úteis para se lembrar dos erros”. E foi assim que colecionei uma boa quantidade de erros marcados na pele, desde as costas até as mãos.
Eu evitava causar problemas, ao contrário do que se pode pensar. Criar uma situação caótica significava um aumento no número de pílulas diárias e uma supervisão mais firme. Com os incidentes se tornando mais raros, pude passar a esconder os comprimidos sob a língua e cuspir quando ninguém estava olhando, o que me dava um pouco mais de liberdade para ser eu mesma. Apesar disso, o superintendente parecia sempre estar sempre à espreita, aguardando por algo se quebrar ou desaparecer para me colocar como culpada.
Em minha defesa, eu só tinha culpa realmente em metade das vezes.
Sem a medicação, as pontas dos meus dedos tremiam como se uma substância desconhecida percorresse minhas veias.. As manifestações também aumentavam, coisas como luzes oscilando, portas batendo e pratos voando costumavam acontecer quando eu me sentia irritada ou com medo. Nessas situações, o superintendente Fennessy costumava me jogar na sala de contenção (ou solitária para os íntimos) depois de uma boa surra. A simples visão do administrador da instituição desafivelando o cinto já fazia os músculos de minhas costas se tensionarem.
Mas não posso reclamar, nunca passei mais do que algumas horas na solitária, ao contrário de Connor, que foi mantido lá por semanas após descobrirem que ele costumava se encontrar com o segurança do período noturno. O rapaz nunca mais apareceu para vigiar o portão do sanatório, já Connor, foi espancado e privado de alimentos por dias.
Além das surras que eu recebia esporadicamente e alguns eventos paranormais inexplicáveis, houve um período em que eu era sempre visitada por psiquiatras e psicólogos que vinham das partes mais distantes da Irlanda para me fazer perguntas sem sentido (“Por que você não gosta que te toquem?”) e me mostrar manchas de tinta em cartões de papel. Em uma situação, tive meu crânio medido, fui presa à uma cadeira com amarras nos tornozelos e pulsos e precisei assistir cenas estranhas que saíam de um retroprojetor. As imagens piscavam rapidamente, mostrando cenas grotescas de procedimentos médicos, partos, experimentos em macacos e frases que eu não conseguia ler rápido o bastante. Ao final do filme, me perguntaram “o que você pensa sobre isso?” e eu ri, confusa, em resposta, o que levou o psiquiatra a fazer anotações em sua prancheta.
A maior parte de meus dias, porém, eram bastante rotineiros. Eu me levantava pela manhã, comia o mingau empapado do refeitório e perambulava pelos corredores enquanto Connor passava por sua sessão de terapia diária. Becky costumava passar a manhã fofocando com as auxiliares de cozinha sobre os doutores mais bonitos e as ajudando a preparar o refogado que seria servido no almoço, então eu não tinha companhia até depois do meio-dia, horário em que nos encontrávamos na biblioteca ou no gramado, quando fazia sol.
Foi em uma tarde sem nada de especial em que a Srta. Murphy, uma das enfermeiras responsáveis pelo turno do dia, me interrompeu no meio de nossa sessão de leitura (que Connor apelidou carinhosamente de “clube”, mesmo que lêssemos coisas diferentes). A moça tirou o livro de minhas mãos, me arrancando com força de meus pensamentos.
— Ei!
— Me acompanhe, criança — ela ordenou. Continuei sentada. Connor abaixou seu livro e Becky encarou a enfermeira com ansiedade. — Não me ouviu?
— Onde quer que ela vá? — Connor perguntou, protetor.
Murphy bufou. Lançou meu livro sobre a mesa e respondeu, sem paciência: — Não te interessa, pervertido. Se apresse, garota.
Connor abriu a boca com uma resposta pairando sobre a língua, mas Becky o chutou sob a mesa, fazendo-o repensar. Antes que a situação pudesse ficar mais acalorada, me levantei e segui Murphy para fora da biblioteca.
— Ajeite esse cabelo, menina. O superintendente não vai gostar de vê-la assim — a enfermeira ralhou.
Sem grandes expectativas, passei a mão pela massa de cachos bagunçados que desciam por meus ombros. Meu cabelo estava constantemente emaranhado e volumoso, o que deixava Fennessy muito incomodado.
Além do cabelo bagunçado, o superintendente também costumava resmungar sobre minhas roupas — como se eu tivesse culpa disso! Os internos costumavam vestir o uniforme do St. Jude, porém, como não fabricavam roupas para o meu tamanho, eu dependia de doações da paróquia local para ter roupas decentes. As calças costumavam ficar muito largas na minha cintura e, como suicidas não podem ter acesso a cintos ou cordas, eu não tinha como apertar as calças.
Sob o olhar rígido da enfermeira, ergui as calças pelas laterais e continuei seguindo Murphy pelos corredores do sanatório.
Apesar do cheiro pungente e constante do St. Jude (uma mistura de desinfetante e doença), os corredores se tornavam menos sombrios a cada curva. O piso fosco acinzentado se tornou um revestimento amadeirado, e as paredes de azulejos esverdeados se transformaram em um papel de parede com um padrão xadrez amarelado e feio. A Ala Administrativa do St. Jude tinha algumas imagens de santos católicos nas paredes, a maioria de São Judas Tadeu, padroeiro das causas perdidas, que nunca baixou seu olhar para o sanatório.
Além dos quadros, havia também algumas janelas estreitas que davam para o pátio externo do hospício, local que não tínhamos acesso. Ao contrário do gramado em que nos deixavam ficar no verão, ali a grama era verde, polvilhada por florzinhas, com pequenas árvores bem podadas ao redor de um caminho de pedras que levava até o portão principal. Me permiti encarar o lado de fora por um instante. O St. Jude ficava em Tuam, uma cidadezinha minúscula alguns quilômetros ao norte de Galway. Era um lugarzinho frio e triste, completamente rural e bastante conservador. A maior parte das famílias tinham pelo menos um membro que trabalhava no sanatório.
— Rápido, Smith — Murphy chamou.
Continuamos pelos corredores até a porta dupla que escondia o escritório do superintendente. Apesar de fazer parte do mesmo prédio, Fennessy deixava bastante claro que havia uma hierarquia no local, que havia um “eles” e um “nós”, classes que não deviam frequentar os mesmos ambientes. Nós sequer podíamos ver algo além dos muros de pedra do hospício, enquanto eles tinham as paredes cheias de quadros. Nossos quartos não tinham trancas nem janelas, enquanto Fennessy se escondia atrás de portas duplas de madeira nobre.
Eu já havia ido até aquele escritório algumas vezes, fosse para apanhar ou para responder uma série de perguntas sobre meu comportamento, mas eu sempre me impressionava com a grandeza do lugar. Era uma sala ampla, pelo menos três vezes maior que o meu quarto, decorada com um crucifixo em uma das paredes e um antigo retrato da família Fennessy em outra. O superintendente me aguardava atrás de sua mesa de madeira nobre. Era um homem grande, com cabelos claros rareando e olhos estreitos maldosos. Sempre vestia um jaleco branco sobre seu terno elegante e talvez parecesse um bom médico se você não o conhecesse.
Naquele dia, porém, Fennessy tinha uma companhia singular ao seu lado: era uma mulher alta e esguia, de ombros retos e um longo pescoço, sobre o qual se equilibrava uma cabeça elegante, de queixo e nariz pontudos, e sobrancelhas escuras que marcavam a expressão severa. Ela vestia uma longa saia de padrão escocês e uma blusa branca de mangas bufantes com botões de marfim. A elegância daquela outra senhora só me deixou ainda mais nervosa.
Murphy me empurrou para dentro da sala sem delicadeza e fechou a porta logo atrás. Engoli em seco antes de questionar: — Mandou me chamar?
— Mandou me chamar, senhor — Fennessy corrigiu.
— Perdão — eu disse. Ele ergueu as sobrancelhas para mim, então completei: — Senhor.
O superintendente não parecia satisfeito. Ele se aproximou de mim lentamente e, por um instante, pude jurar que ele ia bater em meu rosto. Fechei os olhos, esperando o impacto, mas apenas senti seus dedos grandes e pesados sobre meus cabelos, tentando achatá-los contra a minha testa, em um falso ato de carinho. Com a voz mais suave, ele falou: — Essa é a Srta. Minerva McGonagall, ela gostaria de uma palavrinha com você…
McGonagall poderia ser facilmente confundida com uma estátua de gelo. Manteve o queixo erguido e o único olhar que me deu por trás de seus óculos foi excessivamente longo, avaliativo, como um gato à espreita de sua presa.
— Certo… — murmurei insegura.
Houve um breve momento de estranho silêncio, enquanto Fennessy continuava a acariciar meus cabelos de forma mecânica, mas sem qualquer resultado que o deixasse satisfeito. McGonagall encarou o superintendente, que a encarou de volta e, pude jurar, tremeu levemente.
O homem limpou a garganta e, com a voz esganiçada, disse: — Vou deixar vocês duas a sós.
Encarei as costas largas cobertas pelo jaleco grande enquanto Fennessy se afastava. A sensação de sua mão pesada continuava a comprimir meu crânio.
Quando me virei novamente para a Srta. McGonagall, ela já estava sentada atrás da mesa do superintendente. Havia um sorriso quase imperceptível em seus lábios finos, ela arqueou levemente uma das sobrancelhas escuras antes de fazer um gesto abrangente com a mão direita, convidando-me a sentar na outra cadeira.
Não me sentei, o que McGonagall deve ter considerado uma espécie de ofensa, já que sua sobrancelha se ergueu ainda mais, formando um amontoado de rugas em sua testa. Ela não aparentava ter além de cinquenta anos, havia apenas alguns poucos fios brancos em seu coque apertado, porém seu olhar tinha um brilho de sabedoria, típico de quem já havia vivido muito.
— Acredito que nossa conversa será um pouco demorada, senhorita… — ela começou, porém eu a interrompi, com um quê de grosseria na voz.
— Estou bem em pé, obrigada.
Sua boca se torceu para baixo e suas narinas se dilataram, quando falou, porém, sua voz parecia tão firme e pacífica quanto antes: — Se é assim que prefere, senhorita.
— Desculpe-me pela grosseria, mas se veio aqui para me levar para um orfanato ou reformatório, está perdendo seu tempo, apesar de não gostar desse hospício, não pretendo sair daqui!
Não era a primeira vez que o governo tentava me levar para um orfanato, alegando melhores condições de vida para uma criança, um ambiente mais acolhedor. Fennessy sempre foi contra, alegando que eu tinha grandes transtornos psiquiátricos, que eu poderia apresentar risco a outras crianças e que o sanatório era o melhor local para me manter contida. Apesar de odiar a forma como os funcionários do hospício me tratavam, eu não queria me afastar de Connor, que precisava tanto de mim, e de Becky, que aprendi a amar, então nunca fiz questão de me esforçar para sair do St. Jude.
Apesar da minha resposta grosseira, McGonagall apenas me encarou demoradamente. Um dos cantos de sua boca enrugou-se levemente para baixo antes que ela me respondesse: — Eu sou professora e venho em nome de Hogwarts, onde leciono, dizer que a senhorita possui uma vaga em seu nome.
— Ah — assenti, levemente constrangida por ter sido tão grosseira com uma simples professora —, bom, você deve ter reparado que sou órfã, não tenho como pagar para estudar…
McGonagall ergueu uma das mãos, a palma voltada para mim, pedindo silêncio. Foi a minha vez de arquear a sobrancelha para ela. Antes que eu pudesse lhe retrucar, ela disse: — Hogwarts não é uma escola paga, a senhorita possui essa vaga desde o seu nascimento.
— Então acho que você me confundiu com outra pessoa — bufei, dando-lhe as costas.
Estava pronta para sair do escritório quando o forte sotaque escocês de McGonagall retumbou atrás de mim: — Srta. Smith, escute-me. Acredito que a senhorita já tenha presenciado eventos estranhos, objetos que flutuam ou se quebram quando está irritada ou triste, acredito que já tenha se perguntado o porquê de ser diferente das outras pessoas.
Apesar de “diferente” não ser um termo apropriado em um hospício, onde a norma era a insanidade, eu entendi o que a professora queria dizer. Me sentei na cadeira e pedi: — Prossiga.
— Srta. Smith, a senhorita é uma bruxa — ela anunciou, os olhos percorriam cuidadosamente o meu rosto.
Eu jamais serei capaz de descrever com exatidão a torrente de pensamentos que me atingiu naquele instante. Primeiro veio a confusão, depois a desconfiança. Pensei nas bruxas más de Nárnia, que eram sempre vencidas pelo Bem. Talvez isso explicasse porque minha mãe tinha tanto medo: ela sabia que eu nasceria bruxa e temia o Mal dentro de mim. Tentei manter aqueles sentimentos borbulhantes escondidos quando lhe perguntei: — Como saberei que não está me enganando?
McGonagall pareceu surpresa por um momento, mas logo rugas suaves se formaram nos cantos de seus olhos brilhantes e a boca se retorceu em algo que quase se assemelhava a um sorriso. Ela assentiu firmemente uma única vez e enfiou a mão direita por dentro de sua manga bufante e tirou de lá um graveto fino e de tonalidade marrom-escura.
Encarei-a com descrença enquanto ela agitava o graveto suavemente sobre a mesa. Arregalei os olhos ao testemunhar a aparição de um elegante cálice de prata, vazio. Ela tocou suavemente o metal, fazendo surgir água límpida.
— Isso é o suficiente? Pode beber, se quiser — McGonagall falou, havia um tom quase convencido em sua voz, os olhos ardiam como duas chamas vívidas.
Não respondi de imediato. Lentamente, ergui a taça até os lábios e provei da água. Fresca e muito mais saborosa do que qualquer outra coisa que eu já havia bebido.
Após o terceiro gole, apontei para o graveto e perguntei: — O que é isso?
— Isso é uma varinha...
— De condão?
— Não, ou melhor, quase. Pode chamá-la de varinha mágica, se preferir. Todo bruxo tem uma, serve para canalizar nossa magia, isso facilita na hora de fazer feitiços.
— Isso é incrível — soltei ao ter certeza que McGonagall falava a verdade. Abaixei os olhos até minhas mãos e encarei as pontas dos dedos que pareciam formigar ainda mais após beber do cálice. Isso era magia?
— Qual é o problema, Srta. Smith?
Ergui os olhos para a mulher. Não. Ergui os olhos para a bruxa.
Não havia maldade ali, mas havia nos olhos estreitos de Fennessy. Havia maldade nas enfermeiras que agrediam os loucos e nos transtornados que falavam coisas obscenas para Becky e eu. Mas o olhar de McGonagall parecia ter apenas calma e preocupação.
Decidi confidenciar meus pensamentos à professora: — Isso significa que sou má?
Algo perpassou o rosto da bruxa, uma sombra de tensão, mas foi tão breve que pensei ser ilusão de minha mente. Sua resposta foi: — Existem pessoas más em todos os lugares. E pessoas boas também.
Concordei, satisfeita com a resposta. Encarei novamente a varinha nas mãos da bruxa, então perguntei: — Onde posso conseguir uma?
— Tudo a seu tempo — respondeu, parecendo mais tranquila com o rumo da conversa. Enfiou novamente a mão dentro de sua manga e puxou um grosso envelope pardo — Isso lhe pertence.
Peguei-o imediatamente, o que eu sentia era algo muito além da felicidade, era êxtase. Escrito com uma caligrafia elegante, em letras verdes e inclinadas, o endereço era muito claro:
Srta. M. Smith
Segundo quarto a contar da direita, terceiro andar, ala oeste,
Sanatório Psiquiátrico St. Jude
Tuam, condado de Galway, Irlanda
Deixei escapar um ofego de pura animação ao puxar a carta do envelope e correr os olhos pelo conteúdo. Acredito que meus olhos se arregalavam mais a cada palavra que eu lia. Tive a impressão de ouvir McGonagall rir com suavidade, mas eu estava muitíssimo distraída com aquela carta para lhe dar atenção.
ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS
Diretor: Albus Dumbledore (Ordem de Merlim, Primeira Classe, Grande Feiticeiro, Bruxo Chefe, Cacique Supremo, Confederação Internacional de Bruxos)
Prezada Srta. Smith,
Temos o prazer de informar que V. Sa. tem uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Estamos anexando uma lista dos livros e equipamentos necessários.
O ano letivo começa em 1º de setembro. Aguardamos sua coruja até 31 de julho, no mais tardar.
Atenciosamente,
Minerva McGonagall
Diretora Substituta
Perguntas explodiram em minha mente, porém, a única coisa que consegui soltar foi: — Confederação internacional de bruxos?
Eu me lembrava de Becky mencionar coisas como parlamentos e confederações em suas explicações sobre os conflitos entre a Irlanda e o Reino Unido, mas nunca houve nenhuma menção sobre bruxos.
A boca de McGonagall se curvou ligeiramente em um meio sorriso antes que ela respondesse: — É uma organização que engloba todas as nações bruxas, foi criada para que as decisões pudessem ser tomadas em conjunto… Existem os Ministérios também, é claro, mas…
— Vocês têm ministérios?
— Nós temos, Srta. Smith — ela me respondeu, abrindo um sorriso, dessa vez maior que os anteriores. Eu sorri de volta — Devo lhe pedir, Srta. Smith, que me chame de professora ou senhorita McGonagall a partir de agora, isso se a senhorita estiver aceitando sua vaga, como acredito que está.
— É claro, Srta. McGonagall, sinto muito pela impertinência — respondi, ligeiramente constrangida. Eu não tinha o costume de ser educada com outras pessoas.
Meus dedos puxaram uma outra folha de dentro do envelope: a lista de materiais. Corri meus olhos rapidamente pelos itens necessários, sem me atentar verdadeiramente aos nomes, por fim, falei: — Srta. McGonagall, professora… Eu não tenho dinheiro para pagar por todas essas coisas.
— Não se preocupe com isso — ela respondeu, sem fazer grande caso —, Hogwarts possui um fundo para estudantes como a senhorita, que não podem custear os materiais, tudo será resolvido. Virei buscá-la para comprar seus materiais em agosto, tudo bem para a senhorita?
— Claro — respondi, assentindo fervorosamente. Contive a vontade de questionar se eu não poderíamos ir ainda naquele dia, mas duvidei que a diretora fosse permitir tal coisa. — Onde faremos as compras?
— Em Londres.
Arregalei os olhos novamente, afinal, eu sequer havia colocado os pés fora do sanatório, ir para outro país parecia muito mais absurdo do que a ideia de ser uma bruxa. Muito curiosa, lhe perguntei: — E como vamos chegar em Londres?
— Bruxos têm seus próprios meios — respondeu a professora —, não se preocupe com isso agora.
Concordei silenciosamente. McGonagall então se colocou de pé, e uma última vez enfiou a mão dentro da manga, desta vez tirou de lá um livro grosso, a capa era avermelhada e de um tipo de couro estranho. Estendeu-o para mim, com um sorriso aberto.
— Acredito que isso possa responder algumas de suas dúvidas — ela falou.
Peguei o livro, analisando as letras douradas gravadas profundamente no couro. Hogwarts, uma história, escrito por Bathilda Bagshot. Alisei a capa com cuidado, sorrindo de volta para a professora.
— Como cabe tanta coisa na sua manga? — perguntei-lhe.
Ela riu, em seguida colocou a mão sobre a boca, cobrindo-a educadamente. Rugas se juntaram nos seus olhos enquanto respondia: — É um tipo de feitiço, você o aprenderá futuramente. Preciso ir agora. Acho que não preciso dizer para não contar sobre Hogwarts e sobre quem você é aos trouxas, certo?
Franzi o cenho e perguntei confusa: — Trouxas?
— Oh, perdão! Quem não é bruxo, nós os chamamos de trouxas — explicou calmamente.
— Oh, sim — concordei rapidamente —, não se preocupe.
— Preciso ir agora — ela disse novamente, alisando o tecido xadrez de sua saia. — Nos vemos em agosto.
— Certo… Obrigada por tudo, professora McGonagall, acho que nunca me senti mais feliz em minha vida — eu lhe disse.
McGonagall abriu um sorriso em resposta. Em um movimento rápido, levou uma das mãos até a lateral de meu rosto e deslizou uma mecha grossa de meu cabelo, muito ruivo e muito bagunçado, para trás da orelha. Ao contrário da pressão quente que Fennessy havia deixado, o carinho de Minerva deixou um rastro de gelo em minha pele.
Após isso, a professora se foi, me deixando para trás como uma sensação esquisita retumbando no peito.
Fale com o autor