LD 50
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Coloquei o coelho dentro da caixa de presente que entregaria a minha afilhada naquela noite, mas ele rapidamente pulou para fora e saiu correndo pelo quarto. Apenas fechei a porta para que ele não saísse do cômodo e se tornasse ainda mais difícil pegá-lo.
Ele não parecia se importar em me desafiar, fugindo cada vez que eu me aproximava. Era como se tivesse esquecido de onde havia vindo e que eu o havia resgatado. Balancei a cabeça relembrando como o havia encontrado no biotério.
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Cheguei à empresa um pouco mais cedo do que o de costume, pois precisava aprovar a entrada de novos animais para serem utilizados nos testes e pesquisas. Normalmente não era necessário a minha aprovação, mas devido a grande exposição da empresa na mídia e a pressão dos ativistas em prol dos direitos dos animais era imprescindível a liberação de uma nota à sociedade explicando o que faríamos com os novos animais adquiridos.
Tolice. Os animais morreriam de qualquer forma, pelo menos estávamos fazendo algo de útil para a população.
Fiz um esboço do que deveria constar na nota e repassei para minha secretária. Ela saberia a quem entregar o meu resumo para que fizessem um texto que enganaria a maioria da população e os deixassem satisfeitos.
Voltei para a minha sala e peguei o contrato que ainda não havia tido tempo de ler. Folhei-o e em seguida assinei.
Fazer negócios com a empresa Life & Freedom era muito mais vantajoso que a anterior. Não precisaríamos nos preocupar no transporte dos animais e nem que o nosso nome estivesse relacionado a eles, pois uma das primeiras cláusulas era de que eles não poderiam informar o nome das empresas envolvidas na transação, somente com ordem judicial. E dificilmente a justiça se envolveria no caso.
Enquanto todos estivessem felizes, aproveitando o verão no Caribe eu não teria que me preocupar com a justiça.
Finalmente, fui até o biotério para avaliar como estavam os animais que nos enviaram. Aparentemente estavam todos perfeitos. Eram adultos, saudáveis e estavam inquietos – assim como todos os animais que ali ficavam.
Passei pelas alas dos Beagles e dos coelhos. Tudo estava de acordo com o contrato, e os testes avançavam à medida que passava autorizando novos experimentos. A única coisa que faltava era a minha presença para o início, pois gostava de estar presente e ser a pessoa que iniciava as experiências.
A primeira ala em que estive foi na ala do Teste de Sensibilidade Cutânea com os Beagles. Desinfetei minha mão com o álcool que estava perto da mesa enquanto dois biólogos pegavam o cão que seria utilizado.
Ele não estava muito agitado, mas também não estava tranquilo. Depois de ser retirado de sua gaiola, observava tudo ao ser redor, provavelmente se perguntando o que aconteceria e porque os cinco outros cachorros que já haviam estado naquela mesa latiam sem parar. Era como se dissessem para ele tentar fugir, mas ele era pequeno e com alguns carinhos atrás da orelha e alguns chutes nas gaiolas dos cães que não paravam de latir, ele ficou quieto.
Em seguida, retirei uma boa quantidade do pelo do Beagle e apliquei a substância que queríamos testar. Ele se contorceu e tentou me morder, mas já havia sido imobilizado com um suporte no pescoço e o experimento continuou até que percebemos que o surgimento de edemas nos locais em que aplicamos a substância.
Infelizmente aquela substância não seria aprovada, mas ainda tinham outras para serem testadas e que não causariam nenhum efeito colateral para os seres humanos.
Depois, fui para a ala dos coelhos para realizar mais dois testes. O primeiro seria o de Irritação dos Olhos e o segundo o de LD 50 – o meu preferido – e que seria feito pela primeira vez ali.
Quando cheguei à sala já estava tudo organizado e o coelho já estava na caixa de contenção e havia sido imobilizado. Seus olhos seriam mantidos abertos através de clipes de metais em suas pálpebras por 72 horas ou quantos dias fossem necessários para que o teste fosse concluído.
Apliquei o novo componente químico que, se aprovado seria utilizado em alguns produtos de limpeza, e imediatamente ele tentou se libertar, mas era impossível uma vez que sua cabeça se projetava para fora da caixa e não haveria como ele arrancar seu próprio olho com as patas.
Parece absurdo, mas numa das primeiras experiências deixamos as patas livres de um coelho livre. O resultado final foi que, como ele não havia conseguido arrancar o próprio olho, havia conseguido quebrar seu pescoço para se livrar do incômodo.
Porém, agora nós já havíamos aprendido a lição e não desperdiçaríamos nenhuma cobaia, pois eles não passavam do que meras cobaias que havíamos comprado. E perder uma cobaia à toa é equivalente a queimar dinheiro.
Esperei que o bicho se acalmasse, apenas o suficiente para que pudesse pingar outra substância no outro olho a fim de comparar os resultados posteriormente.
Avaliei rapidamente como estavam comportando os biólogos ali presentes. Todos observavam o animal se debatendo, mas nenhum fez menção para aplicar anestesia ou se manifestou contra. Ótimo! Nós precisávamos de pessoas que almejassem a melhoria de vida para o ser humano, não de indivíduos com pena de animais descartáveis.
Anotei as possíveis reações que pudessem ocorrer durante o processo: inflamação nas pálpebras e íris, úlceras, hemorragias ou cegueiras. Coloquei somente as mais comuns, mas tinha certeza de que colocariam quaisquer outras reações no relatório final que deveria ser enviado a mim.
Finalmente, depois de fazer os dois testes – que considerava apenas um aperitivo e o prato de entrada – fui para a ala dos testes de LD 50. Havia, inclusive, sido favorável a construção e adaptação de um laboratório apenas para esses testes, o que me custou uma despesa extra, visto que eu teria que pagar por algumas adaptações. Porém, o espaço havia ficado como imaginara e em menos de seis meses já teria recuperado esse dinheiro fazendo os testes para as empresas.
A sala era normal como todas as outras no prédio, mas o grande diferencial é que essa tinha mais características da época medieval. Haviam gaiolas – para aqueles que ainda seriam testados – ao passo que os outros ficavam dentro de caixas e com travas em seus pescoços. Não muito diferente dos coelhos da ala de Irritação dos Olhos, o da ala da Lethal Dose (Dose Letal) não viam os outros nas mesas sendo utilizados nas pesquisas para depois estarem na mesma condição. Todos eram submetidos ao teste quase que ao mesmo tempo, só não era realmente ao mesmo tempo, pois não tínhamos biólogos suficiente para administrar a substância em cada um no exato momento.
Por enquanto não tínhamos estrutura para administrar as substâncias por inalação, mas já estava incluindo uma nova ala somente para este fim. Por enquanto teria que ser por via intravenosa, subcutânea e ingestão.
Eu preferia a terceira opção, mas cada um era livre para fazer o teste como quisesse. Era até bom ter várias outras formas para podermos comparar quanto tempo levaria cada uma até começar a fazer os efeitos nos coelhos.
Sabia que algum morreria por perfuração, por causa da sonda gástrica que nem sempre era manuseada de forma adequada, visto que eram apenas animais e seriam substituídos assim que morressem ou fossem descartáveis para o experimento, mas, mesmo assim, optei por esse processo para medir a taxa de toxicidade do produto em questão.
Fiz o primeiro bicho ingerir o produto e imediatamente passei para o próximo. Repeti o processo incontáveis vezes até que todos os coelhos, que eu deveria administrar a substância, estivessem sobre o efeito do produto. Já não havia mais o que fazer, era esperar até metade morrer para sabermos exatamente o quanto do produto era necessário para matar e em quanto tempo estariam mortos.
A outra metade seria morta assim que os 50% já estivessem liquidados, mas, dessa vez, continuaríamos injetando a substância para sabermos o quão resistentes esses animais poderiam ser. Depois, eles seriam liquidados naturalmente.
Além dos prováveis efeitos que eles teriam – convulsões, diarreia, dispneia, epistaxe, supuração, sangramento nos olhos e boca, lesões pulmonares, renais e hepáticas e coma – a água e comida também seriam escassas.
Eles não teriam chances de sobreviver, e eu seria responsável por converter o quanto essa nova substância era tóxica para os seres humanos. Nada mais importante do que salvar a vida de pessoas inocentes utilizando bichos.
Já estava saindo do biotério quando encontrei-o debaixo da mesa que ficava um dos computadores. Ele estava atrás da mochila de um dos novos biólogos.
Admirei a sua capacidade de ficar escondido por tanto tempo e não ter se movido, mas tudo indicava que eles tiveram alguns problemas para colocar todos em suas devidas gaiolas e o coelho acabou adormecendo ali mesmo.
– Perdão.
– Nos desculpem.
Era o que eu mais escutava enquanto segurava o animal. Estavam todos amedrontados com o que eu faria. Não tinha muita paciência, principalmente quando se tratava de incompetência, mas naquele momento, olhando para o coelho me lembrei de que o aniversário da minha afilhada estava chegando e que ela queria, novamente, um animal de estimação.
Então, seria ele. O coelho sortudo que conseguiu fugir e teve a vida poupada – por enquanto.
Despedi-me rispidamente da equipe, dizendo que aquela foi a primeira e última vez que um animal conseguia driblar quinze profissionais. Se voltasse a acontecer algo parecido, estariam todos demitidos.
Escutei murmúrios enquanto voltava para a minha sala para pegar minha pasta e voltar para casa. Finalmente teria algum tempo para continuar lendo os artigos sobre os novos métodos de pesquisa em animais e depois poderia descansar em paz.
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Coloquei uma mochila em cima da caixa que estava o coelho para que ele não escapasse e saísse pulando dentro do carro em movimento. Havia feito alguns furos na embalagem apenas para que ele não morresse sufocado no trajeto que era um pouco longo, e me desliguei de que ele estava ali.
Não sabia se a Lucy iria gostar dele, mas ela sempre poderia descartar qualquer presente, principalmente sendo um animal. Não seria a primeira vez que ela amaria algo por uma semana e depois o deixava de lado, já havia acontecido a mesma situação outras vezes com outros animais.
Ela sabia que eles eram descartáveis e mesmo com apenas sete anos de idade já fazia bom uso do que havia aprendido com o pai e comigo.
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