Lástia: Volume 1
3 Capítulo 3: O Jovem Príncipe.
LÁSTIA – Episódio 3
O quarto estava escuro. O som da arpa era tranquilizador, e sombrio ao mesmo tempo. O imenso local onde um pequeno Príncipe de dez anos estava. Era possível ver pelo tom de sua voz soltando aquela melodia, que ele não era feliz. De nenhuma maneira, para se falar a verdade. Olhava pela janela do seu quarto enquanto cantava e tocada aquele instrumento solitário. Via ao longe, na cidade, garotos de sua idade, brincando de pique-pega, pulando poças no meio das ruas e fazendo artes e travessuras, das mais variadas. Era possível sentir a lágrima cobrir o seu rosto lentamente. No entanto, sua mãe abriu a porta. A pessoa mais importante do Reino. A Rainha Dayane de Albuquerque.
Ele se virou e olhou para ela. Era um garoto cordial e elegante. Digno de um príncipe. Sua mãe sorriu quando o viu. Sentou-se em uma poltrona imensa e estendeu sua fina mão e disse:
— Venha, meu amor. Quero falar com você.
Ele então largou a arpa lentamente. Em seguida, seguiu em direção a Dayane. Meio rancoroso e com um olhar profundo, sentou-se perto dela e pegou em sua mão. Não se atreveu a olhar em seus olhos. Olhava para o chão todo o tempo.
Após um silêncio perturbador, Dayane perguntou:
— O que foi, meu querido? Por quê está desse jeito? Os empregados me disseram que você não está se alimentando direito. Disseram que você não sai do quarto.
— E para onde eu iria? Eu estou preso aqui.
— Não é verdade. E você sabe disso. – Ela então acariciou o seu cabelo e tratou de desamassar as suas vestes. – Apenas é proibido de ir a cidade. Eu fiquei extremamente preocupada com você, Daniel. Desde a peste.
Daniel... Ela havia dado a ele o nome de seu antigo amado. Fazia dez anos que não o via. Também, fazia dez anos que não sabia de sua filha. A verdadeira. A princesa de Guiera. Aquela que Dayane, que na noite de seu nascimento, havia lhe dado sem amor para uma mulher misteriosa na floresta. Os seus pensamentos ainda a martirizava por seu passado. Não conseguia esquecer o que havia feito. As coisas, que havia feito. E olhar para o jovem Príncipe... não lhe dava paz e nem conforto. Além de agonia e remoço.
— Eu queria sair, mamãe. Eu queria ver o mundo além desse lugar, entende?
— Isso não é possível querido. E você sabe, não sabe?
— Sim, eu sei. A senhora já me disse. Eu tenho que ficar nesse quarto. É para proteger o futuro Rei de Guiera. É para me proteger.
— Então você sabe o seu dever. – Dayane sorriu ironicamente. – Que bom. Já é um começo.
— Mas... Argh! A vida... tem que ser mais do que isso. Eu vejo aquelas crianças pela janela. A vida delas parece ser tão melhor do que a minha.
— Não é, querido. E sabe por que? Porquê nada disso irá durar para sempre. Eles são garotos agora, mas amanhã irão se tornar homens. Irão se tornar pessoas crescidas e com responsabilidades.
— E o que isso quer dizer, afinal?
— Quer dizer que essa felicidade que está vendo, não irá durar para sempre. E ela será substituível por maldade, violência, e ódio. E enquanto aqueles garotos estão ali, fingindo que estão felizes, eles estão se contorcendo por dentro. Eles dariam qualquer coisa para morar dentro desse castelo. Para ter a vida que você tem. Sabe o que é isso?
— Eu sei. A maior chatice.
— Daniel, olhe eu...
Um barulho de cavalo atiçou os sentidos de Daniel. O jeito que o cavalo havia relinchado... com certeza era ele. O Príncipe David. O enteado de Dayane, e irmão da Princesa Carla. Digamos que ele era o irmão preferido de Daniel. David era como um herói para o jovem Príncipe. Ele sempre lhe contava sobre as batalhas que havia lutado em nome de Guiera e todas as guerras nos quatro cantos do mundo. E elas eram realmente todas verdades.
{...}
— David! – Daniel gritou, indo em direção ao irmão.
O irmão deu a ele um grande abraço que o arrancou do chão. David se alegrou completamente. Ele gostava muito do irmão, acho que ela gostaria mesmo após descobrir que ele não era seu irmão de verdade, mas uma vítima das maldades da maldita Dayane.
— E ai, garoto. Como você está?
— Podemos dar uma volta na aldeia?
David olhou naquele mesmo instante para Dayane. Viu a cara de preocupação em seu rosto. Por mais que não fosse o seu filho, Dayane o amava muito como se fosse. Nada justificava a sua maldade, é verdade. No entanto, eu posso dizer que ela o amava. Me pergunto se ela amava a sua filha também.
— Não, querido. – Disse ela ao jovem Príncipe. – Não é seguro, eu já disse.
— Ah, vamos, mamãe. David vai resolver algumas coisas lá. Eu posso o acompanhar.
— Vamos, madrasta. Eu vou cuidar dele. Eu prometo.
Dayane então olhou para Daniel e olhou no fundo de seus olhos. Lembrou-se do que havia feito mais uma vez. Seu coração disparou em seu peito. Ela estava tendo aquelas visões com mais frequência.
— Sim. – Ela preferiu deixar o filho por um momento. Para pensar. – Podem ir. Eu... irei descansar.
{...}
Dayane abriu a grande porta de seu quarto e a fechou. Estava apavorada. Havia visto a verdadeira mãe de Daniel de novo. Havia visto a sua filha novamente. Olhar para o jovem Príncipe a fazia lembrar de tudo o que ela havia feito e isso nunca a deixava respirar, ou nem descansar.
— Meu senhor! – Ela gritou. Se ajoelhou no chão, com lágrimas nos olhos. – Me perdoe. Eu lhe imploro. Me perdoe!!!
— É tarde demais pra isso. Não acha?
Ela virou para os lados. Ouviu aquela voz. Soava feminina. Não sabia o que estava acontecendo.
— Quem... quem está aí?
— Hahaha.
— Por favor!!! Me deixe em paz!!! Me deixe em paz!! – Dayane realmente começava a perder os sentidos. Finalmente a culpa havia a alcançado depois de todo esse tempo. E eu devo dizer que essa foi a sua derrota. Essa foi a derrota dela, e em breve seria também a derrota do Reino de Guiera.
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