Lágrimas de sangue
3 O teste.
Notas iniciais
Muitas coisas mudaram desde a morte de Toly. Eu sabia que ela não sobreviveria àquilo. Com 13 anos, seria praticamente impossível resistir a uma gravidez daquela. Logicamente, se ela não fosse uma Semi-Demônio, não aguentaria nem o segundo dia de gravidez. O importante foi que ela aguentou até o parto. Eu só precisava de um filho. Demorou, demorou muito, mas consegui. Agora seremos eu e Dhuly.
A casa não era mais a mesma. Morávamos no mesmo lugar, mas reformei tudo. O quarto, meu e de Dhuly, continuava o mesmo porque era impossível fazer modificações. Isso por causa da magia negra que pus nele no dia do parto. Por mais que eu tente quebrar uma parede ou tirar algo do lugar, tudo volta ao normal.
Se passaram só cinco anos, porém Dhuly estava com 10. O rápido desenvolvimento que ela tinha, foi consequência da mistura do DNA de um Demônio com uma Semi-Demônio. Isso é algo maravilhoso para mim, porque odeio crianças.
– Vamos filha, mostre ao papai o que você pode fazer!
Dhuly estava sentada no tapete do chão da sala brincando com um ratinho que encontrara. Eu adorava vê-la mostrando seu potencial. Obedecendo o meu pedido, ela pegou o rato e o botou inteiro na boca. Levantou do chão, pegou a faca que eu havia deixado sobre a mesa de vidro da sala, e voltou para o tapete. Abrindo a boca, ela cuspiu o ratinho, que assustado, começou a correr loucamente. Pegando-o pelo rabo, Dhuly o prendeu e enfiou a faca em sua cabeça.
– Muito bem, filha! — Aquilo me deixava fascinado.
Ela sorriu. Seu sorriso era idêntico ao de sua mãe, com dentes afiados. Depois de ver o sangue sujando o tapete em que estava sentada, ela retirou a cabeça do rato de seu corpo e comeu.
– Isso é bom. — Ela disse baixinho.
Sorri e fui sentar no sofá, em frente a ela. Queria ver mais. Coisas melhores que isso.
– Querida, faça algo surpreendente para o papai ver!
Ela olhou para mim e balançou a cabeça em afirmação. Levantou do tapete, largou a faca e o corpo do rato, e ficou na minha frente. Fechando seus olhinhos vermelhos que puxou aos meus, ela respirou fundo por dois segundos e se transformou.
Com rapidez, seu corpo foi se deformando na forma de um monstro. Um monstro musculoso das sombras, que além de enorme e forte, possuía unhas que pareciam facas. Aquilo eu não havia a ensinado. Me deixava orgulhoso porque tinha aprendido sozinha uma habilidade especial.
– Gostou? — Ela perguntou com uma voz gutural masculina.
– Adorei, minha filha!
Ela voltou a sua forma normal e veio me dar um abraço. Dhuly era tudo o que eu queria. Tudo o que eu precisava.

Ela já conhecia alguns de seus poderes e sabia seu potencial, mas ainda faltava muito. Nunca tinha saído daquela casa e nunca tinha visto pessoas, além das babás que eu contratava para cuidar dela, mas que Dhuly acabava matando. Meu sonho era fazê-la ser mais forte que eu. Mais forte, mais poderosa, mais perigosa. O que eu queria, só ela conseguiria conquistar se fosse boa o suficiente.
– Bom, vamos lá em baixo? Quero fazer uma coisa. — Eu disse olhando no fundo de seus olhos.
– Claro papai! — Dhuly disse e sorriu.
A pegando pela mão, fomas até o elevador que ficava no canto da sala. Ela já tinha andado naquele elevador várias vezes, mas eu a proibi de descer sozinha. Nos andares de cima tinham diversas coisas para ela, mas no andar de baixo, Dhuly só ia para aprender coisas novas.
Chegando lá em baixo, saímos do elevador e ela ainda segurava minha mão. Parecia animada para aprender algo. O andar de baixo era dividido em várias partes. Tinham corredores e uma enorme sala, por onde estávamos passando naquele momento. Do lado direito da sala estavam os corpos humanos para testes. Do lado esquerdo, animais. Passando pelo corredor, entramos na primeira porta, onde dizia "Sala de Testes".
– O que vai me ensinar hoje, pai?
Ela não conhecia aquela sala e nem sabia para que servia. Era um lugar enorme e todo branco, com apenas uma cadeira de madeira no centro e um telão gigante. Eu a deixei sentada na cadeira e fui para trás do telão, onde ficavam os computadores.
– Vamos testar seu potencial, filha. — Eu respondi ligando os computadores.
O telão em frente a Dhuly ligou e ela podia se ver nele, como se fosse um espelho. Eu liguei mais um botão e fui até ela.
– Levante-se. — Ela obedeceu na hora. Com o olhar fixo a mim, sem demonstrar medo. — Venha comigo.
Fomos até a parede oposta ao telão. Me ajoelhei e pus a mão em seus cabelos lisos e compridos, assim como os de sua mãe.
– Hoje você terá que sobreviver. O teste vai medir sua rapidez, força, coragem, inteligência e potencial. Sobreviva de qualquer jeito. Não tenha dó. Dê o seu melhor.
Ela olhou para mim com a expressão séria. Sabia que precisava fazer aquilo com êxito ou morreria ali. Sabia que eu queria vê-la viva. Balançando a cabeça em afirmação, ela sorriu para mim e disse:
– Vamos lá. Pode começar!
Sua coragem me admirava.
Em poucos segundos eu me transformei. Na verdade, fiquei em minha forma real. A forma de um Demônio Supremo das Sombras. Um monstro enorme de 2 metros e meio, com unhas afiadíssimas e dentes que mais se pareciam garras. Em meus braços e pernas, espinhos grandes e afiados serviam como proteção, como se eu precisasse...
Dhuly observou fascinada minha transformação. Ela nunca tinha me visto em minha forma real. Seguindo o que fiz, ela também se transformou em um Demônio das Sombras. Habilidade que aprendeu sozinha e com rapidez. Mas ela tinha somente 2 metros e não havia espinhos em seus braços e pernas.
– Manda ver! — Ela disse.
Ao dizer isso, eu não exitei. Em poucos segundos me levantei, corri até suas costas e agarrei seus pés, fazendo-a cair com os braços no chão.
– Rapidez. — Eu disse.
A vendo se levantar, puxei sua perna esquerda com o braço direito a joguei contra a parede da sala.
– Força.
Dhuly estava de olhos fechados e parada, caída sobre a parede em que a joguei. Não seria possível ela ter desmaiado logo no começo do teste. Soltei um suspiro e caminhei até ela. Me abaixei para ver se ela estava bem, quando fui surpreendido.
Ela abriu os olhos e em questão de segundos se pôs atrás de mim. Agarrou minhas duas mãos atrás das costas.
– Rapidez. — Ela disse.
Segurando minhas mãos, ela me puxou e me jogou para o lado, contra a parede também.
– Força.
Enquanto eu abria os olhos, ela pegou minha mão direita, sabendo que eu poderia revidar e apunhalá-la se estivesse preparado. Como não estava, me jogou contra a outra parede novamente.
– Coragem.
Dando um salto mortal no ar, Dhuly caiu em pé e agarrou minhas mãos. Com outro salto de costas, ela me levou junto e bateu minha cabeça com força no chão na hora da descida.
– Inteligência.
Com mais um salto, no ar ela fez a forma de uma bola com o corpo, segurando os joelhos com as mãos. Desceu com toda velocidade que conseguiu e caiu sobre mim, me fazendo cuspir um pouco de sangue.
– Potencial. — Ela disse e piscou para mim.
Parando para respirar um pouco, Dhuly encostou na parede. Fechou os olhos por dois segundos, o que foi suficiente para eu me levantar e atacá-la. Arrancando um dos espinhos de meus braços, prendi a mão de Dhuly na parede. O espinho atravessou sua mão e a prendeu.
– Não baixe a guarda. — Eu disse enquanto ela gritava de dor.
Ses gritos, por mais que fossem em uma voz gutural por causa da transformação, eram de ensurdecer, assim como os de sua mãe. Cocei os ouvidos antes que eu ficasse surdo, mas foi um grande erro.
Quando olhei de volta para Dhuly, ela não estava mais lá. Só restava seu sangue preto escorrendo pela parede.
– Haha!
Quando me virei, estava ela com o espinho na mão não machucada. Em questão de milésimos de segundos, ela me apunhalou. Enfiou meu próprio espinho em minha perna. Depois disso, arrancou outro e enfiou em minha outra perna, o que me impossibilitaria de andar por um tempinho.
– Não baixe a guarda, papai.
Com meu braço direito, tentei lançar todos os espinhos na direção de Dhuly, mas ela foi rápida e os pegou para jogar de volta a mim. De todos os cinco espinhos, pegaram dois em cada braço e um no peito.
– Rapidez, força, coragem, inteligência e potencial! — Ela disse.
Para mim, aquilo já estava excelente. Para uma novata, ela já fazia coisas impressionantes.
– Querida... — Eu disse respirando com dificuldade, agarrado na parede em forma de cruz com os braços e as pernas presas. — Está muito bom...
– Sério papai? — Ela me olhou alegre, já com um pequeno sorriso.
– Sim filha. Você está melhorando cada vez mais e mais rápido.
Ela sorriu e tentou me abraçar, mas os espinhos atrapalharam.
– Parabéns! Você está quase pronta!
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