Lágrimas de Maroto - 1ª temporada
27 Capitulo 27 - Até logo
Notas iniciais
A noite avançava cada vez mais rápido pela janela da sala de feitiços, e com ela, a esperança de Sirius ia junto. Já a algumas horas ele estava ali, absorto em seus próprios pensamentos, apenas encarando o céu lá fora, desejando imensamente que pudesse estar ao ar livre, sem o peso de seu destino sobre suas costas, ao menos por algumas horas.
Como Dumbledore iria tira-lo dali? Sabia muito bem que seu antigo diretor era capaz das mais mirabolantes e também brilhantes ideias, mas no que tangia a seu próprio caso, ele não conseguia enxergar nenhuma saída possível.
Pelo contrario, era como se tudo que conseguisse vislumbrar para si fosse o manto negro do dementador que lhe tiraria sua essência, deixando para trás apenas uma casca vazia, um receptáculo de trevas e loucuras, e esse definitivamente não era um pensamento nada animador.
Apesar de preocupado com o que seria feito de sua pessoa, a mente de Almofadinhas vagava para outros lugares, para outras pessoas. Estava preocupado com Remus. Como Aluado estaria lidando com aquela noite, que parecia ser a pior transformação que ele já presenciara? E, mais importante ainda, como Lupin lidaria com tudo isso, com tudo que aconteceu, quando recuperasse a consciência? Sirius conseguia até mesmo prever a reação do amigo, de desalento e desgosto. Aluado iria se culpar pela fuga de Rabicho e pela captura de Almofadinhas. Iria acreditar que estragara tudo.
Mas a verdade, e ela ficara muito clara para Sirius agora que ele tinha tempo para pensar e refletir, era que nada daquilo fora culpa de Remus. Nem mesmo dele próprio, ao menos não inteiramente. Mais uma vez, tudo dera errado por causa de Pedro Pettigrew, que mais uma vez escapara ileso, deixando para trás um rastro de destruição e um antigo amigo prestes a ser condenado novamente sem ter praticado nenhum crime, a não ser talvez, confiar na pessoa errada.
Além da preocupação com Remus, a mente de Sirius também ia e voltava para Harry. Dumbledore dizera que o garoto estava bem, mas mesmo assim, o coração de Almofadinhas estava aflito. Queria muito ver com seus próprios olhos que seu afilhado estava bem, queria ele mesmo se certificar de que nada de grave acontecera a ele, e também a seus amigos. Mais do que tudo, desejava desculpar-se. Mesmo que se livrasse de sua sentença, sabia que precisaria manter-se escondido, teria que fugir, e não poderia dar a Harry a família que lhe prometera. Aquela perspectiva fez com que o coração do maroto se apertasse, corroído pelo pesar e pela desesperança.
Devagar, por conta das fortes dores que ainda sentia em todo o corpo (apesar do tratamento que Dumbledore lhe aplicara, ainda sentia como se todo seu corpo rangesse a cada movimento, parecia que a cada vez que movia um musculo, milhares e milhares de sensores de dor se ativassem, fazendo-o ranger os dentes para evitar soltar um grito involuntário) levantou-se das almofadas em que se encontrava deitado, girando o olhar pela sala onde estava confinado, parecendo reconhecê-la pela primeira vez. Era a sala de feitiços, onde passara algumas horas dos melhores sete anos de sua vida, e também, o local de origem dos Marotos.
Flashback on
— O que será que ele irá nos ensinar? – perguntou James, sua voz soando alta e animada. Estava extremamente empolgado com a aula de feitiços. Aquela seria a primeira aula prática que teriam, finalmente uma chance de testar suas aptidões mágicas, e o garoto aguardava ansiosamente por isso.
— Espero que seja algo legal. Quem sabe um feitiço que faça as coisas voarem pelos ares? Ou explodirem? Um feitiço para explodir coisas seria bem útil, não acha James? Imagina o que poderíamos fazer com um desses....- respondeu Sirius, com um brilho divertido no olhar. Só de pensar em um feitiço desses, conseguia imaginar um sem número de situações engraçadas nas quais ele poderia ser utilizado.
— Vocês não tem jeito, não é mesmo? Poucos dias de convivência e já me acostumei com vocês passarem o dia todo tramando peças e brincadeiras para fazer com as outras pessoas. – comentou Remus rindo. Apesar de estar a pouco tempo na companhia dos amigos, era como se os conhecesse desde sempre, e já estava mais do que habituado com as tramoias dos dois. Além do mais, não podia negar que dera boas risadas com elas, e até mesmo participara de algumas. – não sonhem alto. Tenho certeza de que será um feitiço mais simples, já que esta é a nossa primeira aula. Lamento desaponta-lo Sirius, mas não acho que vai ter algo haver com explosão. – continuou, rindo da cara de desapontamento do amigo.
— Têm momentos que você é realmente um estraga prazeres Remus! – falaram James e Sirius juntos, lançando um olhar de falsa zanga ao amigo, que apenas os ignorou.
— É melhor irmos, ou vamos acabar nos atrasando. – falou James, levantando-se da mesa do café da manhã, mas não sem antes pegar mais um bolinho de abóbora, que pretendia comer no caminho para a aula.
— James preocupado com o horário, essa é nova. – zombou Sirius, levantando-se também para acompanhar o amigo. – Andem vocês ai, ou vamos mesmo nos atrasar, e não quero levar uma detenção logo na primeira semana, é melhor guarda-la para dar de presente de natal para os meus pais. – continuou, arrancando boas gargalhadas dos companheiros por seu comentário.
Remus se levantou e se juntou aos amigos, seguindo para fora do salão onde a refeição da manhã estava sendo servida. – Esperem, cadê o Pedro? – perguntou para os outros dois, notando que o quarto integrante do “grupo” não estava presente.
— Ainda deve estar comendo. Aquele lá parece que guarda uma cidade inteira no estômago, de tanto que come! – respondeu James, rindo. – Vamos voltar para busca-lo, senão é capaz de ele se esquecer que tem aula e passar o dia todo lá comendo.
Com essas palavras, os garotos retornaram ao Salão, chamando por Pettigrew. – Ande logo Pedro! Vamos nos atrasar por causa desse seu apetite gigante! – ralhou Sirius, sobressaltando um garoto gordinho e de cabelos loiros que estava prestes a morder o que deveria ser o seu sétimo bolinho só naquela manhã.
— Se continuar assim, esse ai não passa da porta. – uma voz arrastada e desdenhosa se fez presente, parecendo vir de algum lugar atrás dos quatro garotos.
— E o que exatamente você tem com isso? – perguntou James, virando-se para encarar o dono da voz, que descobriu ser de um menino sonserino, magricela e de cabelos lisos extremamente oleosos, apenas alguns centímetros mais alto do que Potter, mas que parecia ter a mesma idade.
— Eu nada. Se vocês querem ter uma verdadeira orca como amigo, isso não é problema meu. Mas se querem um conselho, se fosse vocês não deixava ele comer tanto bolinho assim, pode acabar passando mal, e eu não quero ter que assistir a aula de feitiços com a sala fedendo. – continuou o garoto, com um tom de voz cruel.
— Se não ficar quieto, quem vai acabar passando mal é você, porque juro que faço você engolir todos os bolinhos que restaram, até estar saindo farinha pelas suas orelhas, seboso. – rosnou Sirius, indignado com a forma como aquele desconhecido tratava seu amigo. Ele podia até zombar de Pedro, mas não ia deixar que aquele filhote de cobra saísse por ai xingando-o de gordo. Quem aquele garoto pensava que era?
Antes que qualquer um deles pudesse voltar a falar, porém, uma bruxa de vestes verde esmeralda se aproximou do grupo, lançando lhes um olhar severo. – Não deveriam estar na aula, garotos? – questionou a Prof. Minerva, em um tom de voz baixo, mas perigoso.
— É...é...nós estamos indo para lá professora. Mas tivemos que voltar para buscar Pedro. Ele ainda estava terminando de tomar café, e achamos que poderia se perder, já que é nossa primeira semana...- respondeu James, tropeçando nas primeiras palavras, mas encarando a professora nos olhos. Sua mãe sempre lhe ensinara que quando se fala com uma pessoa deveria olhar nos olhos delas, e era isso que ele iria fazer, mesmo que a professora de transfiguração lhe causasse certo receio pelo ar imponente que emanava.
— Pois muito bem. E precisam de um mapa para acharem a sala correta? Ou podem acha-la sozinhos? – voltou a perguntar McGonagall, ironicamente.
— Não professora, podemos acha-la sozinhos, mas obrigado pela oferta. – a resposta veio de Sirius, que assim como seu amigo fizera, encarou a professora nos olhos, mesmo que essa atitude fizesse seu estomago dar cambalhotas.
Sem esperar por uma resposta, os quatro saíram do salão, deixando para trás o garoto de cabelos oleosos, que James jurou que faria pagar pela afronta que havia feito.
—--
— Muito bem crianças! Muito bem! Silencio, por favor, silencio! – a voz fina do professor de feitiços ressoou por toda a sala, como se este estivesse se utilizando de um amplificador. O silencio reinou quase que instantaneamente, tamanha era a curiosidade dos alunos do 1º ano com relação aquela matéria.
— Ótimo! Hoje, iremos estudar o feitiço de levitação, “Wingardium Leviosa”. Na primeira parte da aula, vou ditar algumas anotações sobre esse feitiço, por favor, copiem. Depois, faremos uma tentativa prática, está bem assim? – continuou o professor, com sua vozinha fina e esganiçada.
A turma não respondeu, e o mestre entendeu o silencio como uma concordância, começando a ditar as anotações. Enquanto todos anotavam, Sirius e James conversavam aos sussurros, sentados um ao lado do outro:
— Acho que pudemos usar esse feitiço. Pra fazer aquele seboso pagar pelo que disse a Pedro. – falou Sirius, um brilho travesso crescendo em seus olhos. – e ainda podemos dar boas risadas com essa história!
— excelente ideia! Você tem alguma coisa em mente? – respondeu James, com uma voz que transbordava entusiasmo.
— E se fizéssemos as coisas dele flutuarem pela janela? Ia ser realmente hilário!
— Sim! Ou então podíamos fazer com que algo saísse voando e o cutucasse, ou caísse na cabeça dele, nunca ia saber de onde o objeto tinha vindo! – terminou Sirius, mal contendo as gargalhadas ao imaginar a cena do que estavam planejando.
— Vocês dois parecem ter planos muito interessantes, gostariam de comentar com a classe? – falou o professor, sobressaltando os garotos, que haviam parado de prestar atenção na aula, entretidos em suas maquinações.
— Não...não, professor. Desculpe. – respondeu James, que sentiu suas bochechas esquentarem de vergonha.
— James vermelho de vergonha, isso é novidade. – falou Sirius depois que o mestre de feitiços tinha retomado sua atenção para a aula que ministrava; rindo da cara do amigo.
— Não enche, ou posso acabar fazendo com que as suas coisas saiam voando pela janela! – retrucou James zangado, voltando sua atenção para as anotações.
Flashback off
Almofadinhas foi desperto de seus devaneios por um estrondo de algo explodindo e vidro se quebrando. Quando deu por si, estava diante de Harry e Hermione, montados em um hipogrifo magnifico, o mesmo que Harry montara na primeira aula de Trato das Criaturas Mágicas daquele ano.
— Harry! Mas o que...? – começou o maroto, sem saber o que perguntar. Era como se a explosão tivesse arrombado não somente a estrutura da sala de feitiços, mas também a possibilidade de Sirius formar frases completas e conexas. Estava extasiado, sem saber o que fazer ou como agir. Dividido entre a alegria e a surpresa.
— Anda! Venha logo, não temos muito tempo! – respondeu o garoto, lançando um olhar aflito ao padrinho. Não poderiam demorar, ou acabariam sendo pegos e tudo iria por água abaixo.
Ainda sem entender o que estava acontecendo, o maroto correu para os garotos, montando no hipogrifo atrás da garota. Tão logo se acomodou, o animal começou a ganhar altura, deixando a sala de feitiços para trás.
O coração de Sirius dava saltos de alegria. Estava livre! Não teria o beijo de dementador como selo de seu destino; e aquela era uma sensação realmente maravilhosa.
O hipogrifo sobrevoou o castelo, que aquela hora ganhava contornos incríveis, suas paredes de pedra banhadas apenas pela luz da lua e dos archotes de fogo. Enquanto sentia o vento em suas faces, o maroto ainda tentava entender tudo que acontecia, juntar as peças do quebra-cabeça que se tornara sua fuga. Como aquilo era possível? Realmente, era obra de Dumbledore, mas como o diretor realizara tamanha façanha, e ainda mais tendo a ajuda de duas crianças de 13 anos, era uma incógnita.
Acabaram por aterrissar no pátio da torre de astronomia, que estava deserto, como era de se esperar. Desmontaram do lombo do animal, que continuou parado no mesmo lugar, como se aguardasse novas ordens.
— Como você está? – perguntaram Harry e Hermione juntos, preocupados com as marcas que ainda estavam visíveis no corpo de Almofadinhas.
— Vou sobreviver, fiquem tranquilos. – brincou ele, ganhando um sorriso ligeiramente aflito de seus interlocutores. – e vocês, estão bem? Ranhoso fez alguma coisa com vocês?
— Vamos sobreviver. – responderam os garotos simplesmente, agora deixando que a risada escapasse, aliviando um pouco a tensão que sentiam.
— Ouça Sirius, você ter que ir embora, agora. Dumbledore nos mandou. Pediu que você levasse Bicuço com você. – o garoto indicou o hipogrífo com um gesto.
— Acalme-se Harry. Eu vou embora sim, mas antes gostaria de dar uma palavrinha com você, pode ser? – perguntou Sirius, que antes de partir queria ter a chance de ter uma conversa com o afilhado uma ultima vez, ao menos por algum tempo.
— Tudo bem, vou ficar de vigia na porta. Me chamem quando terminarem, está bem? – falou Hermione, respondendo pelo garoto, que apenas assentiu.
Quando a garota saiu, Almofadinhas dirigiu seu olhar para os intensos olhos verdes de seu afilhado, e começou a falar: — Olhe Harry...me desculpe. Sei que prometi a você uma nova casa, uma família...mas devido isto não será possível no momento, pelo menos não a parte da casa. Me perdoe, sei o quanto você queria sair da casa de seus tios, e acredite em mim, eu também queria que isso acontecesse, mas...
Não conseguiu completar sua fala, pois foi interrompido pelo garoto, que emendou suas palavras: — Não se preocupe! Vamos encontrar Rabicho, e provar sua inocência. Enquanto isso não acontecer, concentre-se em se manter escondido, e não faça nada imprudente, está bem? E tem mais uma coisa: Me escreva, quero ter noticias ao menos mensais de meu padrinho, ouviu? – terminou o maroto, a voz e o coração apertados pela tristeza da despedida. Era duro para Harry. Por um momento feliz, acreditara que iria finalmente deixar a casa dos Dursleys, que ia ter uma família, e no minuto seguinte todas as suas esperanças se esvaíram, tal como o sopro de um dente-de-leão.
Sirius sentiu os olhos marejarem, sensibilizado com a preocupação e o carinho que o afilhado demonstrava por ele. – Vou escrever sempre, prometo. E também quero saber de tudo que acontece por aqui está bem? Por favor, não hesite em me pedir ajuda ou em me contar alguma coisa, está bem? Fiquei por muito tempo longe da sua vida, e quero poder fazer parte dela....Vou sentir sua falta. Se cuide, tudo bem? – falou o maroto, sentindo que algumas lágrimas escapavam de seu controle. Era muito difícil ter que deixar seu afilhado novamente, quando tudo que mais queria era poder cuidar dele, dar-lhe uma família.
O garoto não respondeu. Ao invés disso, cobriu a distancia que os separava e abraçou o padrinho, depositando naquele abraço treze anos de palavras que ele gostaria de lhe falar, mas para as quais não tinha tempo agora.
Almofadinhas retribuiu o abraço, sorrindo de orelha a orelha. Mesmo que tivesse que partir, ver a ligação que se formara entre ele e seu afilhado, saber que Harry acreditava nele, era tudo que precisava naquele momento. Era o seu maior presente.
—Prometo a você que vou voltar, que vai dar tudo certo. Prometo que seremos uma família. – falou Sirius, a voz tão embaçada quanto sua visão.
— Eu sei que sim. – respondeu Harry simplesmente.
Fale com o autor