Lágrimas amargas

1 LÁGRIMAS AMARGAS


Ligou o chuveiro com uma calma diferente da normal, os olhos inchados de tanto chorar não mascaravam mais a causa. Ele tinha matado uma criança e não estava muito bem com isso,ainda não tinha se conformado.

Não conseguiu conter as lagrimas que escorreram face afora, ele sentia uma dor incomum, daquelas irreparáveis, alguém bateu na porta, era sua mulher que ouvia sussurros do quarto, ele retomou a respiração, “sugou” o choro e respondeu que estava tudo bem.

Olhou para o espelho e viu o reflexo de algo, negro, com vestes longas e um capuz tradicional de uma das maldições dos homens, não se incomodou com a presença da morte.

— Quem diria ... — Astuta e incisiva.

— Não sei se é a melhor hora.

— Todo mundo falha.

— Acho melhor você parar!

— Se não vai me matar ? Isso soa irônico ...

—Está bom, eu tirei a vida de uma pessoa hoje, quando peguei meu diploma sabia que ia ter que passar por essas coisas, mas eu não sabia se eu estava preparado, agora está a resposta. — Mordendo os lábios a cada palavra, continuou — Não quero continuar com isso, já deu!

— Matar uma pessoa não é tão ruim assim.

—Para você é fácil! Por que veio aqui?

—Só vim adiantar um pouco o seu tempo de vida, ao contrário morreria afogado em palavras que nunca disse.

— Profundo ... Agora pode sair daqui!

—Foi uma complicação na cirurgia, você não teve tanta culpa, só agilizou meu trabalho.

—Você não está ajudando.

Olhou para o piso azul marinho e viu sangue misturado à água, a boca sangrando e a mente sendo bombardeada, a morte tentando invadir junto a negatividade de toda vibração que o rodeava.

Olhou para o teto e viu as rachaduras, o embolorado causado pelo vapor daquela água quente que queimava suas costas, ele não sentia mais a presença da morte, entretanto toda hora que olhava para o espelho via a pobre menina que teve a vida arrancada por um corte de bisturi errado.

Lembrou de tudo que a morte falou, deixou as lágrimas escorrerem lavando sua alma aos poucos e deixando a negligência do pensamento de lado. A morte argumentou certo.

Desligou o chuveiro, enxugou-se vagarosamente e sentou no vaso, difícil deixar uma vida esvair pelas mãos, pediu desculpas, perdão, batidas na porta interromperam seus pensamentos.

—Vamos amor com esse banho!

—Já to saindo ...

—Tem toalha ai?

—Tem, pode deixar.

—Vou por a comida na mesa.

— Chama as crianças que eu já vou.

Vestiu-se todo de branco, olhou para a face compungida mais uma vez pelas mágoas e se dirigiu a mesa, quase dando a mão para a morte que o acompanhava.

Sentou na cadeira, deu um sorriso, dos mais falsos e perguntou como foi o dia das crianças, lembrou da mãe da garotinha culpando ele por tudo. Perdeu o controle, deu um soco na mesa, derrubou o prato, as 2 crianças e a mulher olharam assustadas, meio desajeitado pediu desculpas.

—Desculpas ... Desculpas, foi sem querer!

—Sobe crianças, depois eu chamo vocês! Deixa eu conversar com o seu pai.

—Desculpa mesmo, estou um pouco mal hoje.

—O que está acontecendo?

—O trabalho foi muito cansativo...

—Não mente para mim Wagner! Primeiro você chora no banheiro, depois quase derruba a mesa... Você esta me traindo?

—Mais o que? Para com isso.

—Você está me traindo, está? Não é Wagner? Fala logo seu cafajeste! – Gritou, foi áspera, rude.

—Não tem nada haver com isso! – Aumentou a entonação.

—O que é então?

—Eu matei uma pessoa hoje!

O silêncio prevaleceu por cerca de meio segundo.

—O que você está me dizendo?

—A cirurgia ocorreu errado.

—Espera, você operou aquela criança hoje?

—Sim...

—E ela ...

—Morreu, sim, morreu! – Interrompe com convicção de acabar com aquela discussão.

—Desculpa... — Ela se arrepende amargamente pelo que falou.

—Acho que eu vou subir, descansar a cabeça.

—Eu não sabia, desculpa mesmo, meus pêsames, era uma cirurgia complicada.

Wagner subiu as escadas correndo, e deitou embaixo das cobertas para se proteger contra os monstros, usando a tática de quando éramos crianças, cobrindo a cabeça.

Acordou no outro dia e viu que a vida seguia, e que veria o fim do mundo muitas vezes e na manhã seguinte tudo estaria “bem”.

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