Lágrimas No Espelho - Aimée.
1 Capítulo 1 - Lágrimas ardentes.
Notas iniciais
Lágrimas no espelho — Aimée.
Durante muito tempo todas as noites eu tinha a mesma impressão, mas como sou títulada como Louca, porque dar mais motivos para Ele me encher com novos remédios? Então, achei melhor deixar pra lá...
Mas, certa noite em meu quarto... Espere um momento! Disse meu quarto? Devo estar ficando louca, pois aquele recinto não é meu quarto, mas sim um quadrado branco onde me prendem com a desculpa de que não posso conviver com a sociedade, mas talvez seja a sociedade que não pode conviver comigo.
Mas, deixe pra lá... Não quero me fazer de vítima.
Certa noite algo quente senti em minha face, algo quente e angustiante. Senti aquilo descer ardendo por minha face ferida e a sensação não foi boa, tentei levar minha mão à face com o intuito de acabar com aquela ardência, porém minhas mãos pálidas estavam presas para trás naquela maldita camisa de força que insistiam em colocar em mim. Por que? Nunca machuquei ninguém e nem o faria, apenas gostava de me cortar... Que mal há?
Contudo, aquela ardência incomoda continuou e atingiu meu peito também. Sentindo meu peito doer numa angústia sofrida, pensei: Deve ser apenas o efeito colateral de algumas dessas drogas que chamam de ''remédios''. Pensei e sorri seca, iria voltar a dormir, mas aquela sensação ardente continuava em mim.
Inferno, porque não me deixam morrer de uma vez? Minha família me trancou aqui...
Então, ninguém irá sentir minha falta e ainda me dizem atrvés de cartas que isso é o melhor para mim. Droga, se isso é o melhor que guardem o melhor para si! Se bem que... Acho que o pior já conheci e ele é frio como uma noite sem estrelas... Seu nome? Bom, o conheço apenas como psicólogo, mas prefiro chamá-lo de: Meu demônio particular.
Todos os dias tenho de passar duas horas trancada numa sala junto dele, sala onde ele pode fazer o que quiser comigo e... Ele faz.
Mas, deixe pra lá... Não quero me fazer de vítima.
Hoje — Um dia qualquer sem importância.
Estava solta no pátio junto das outras loucas e, então digo para mim mesma: Será hoje!
Precisava saber o que era aquilo que insistia em escorrer por minha face todas as noites, então enquanto os enfermeiros de plantão estavam distraidos, eu corri para sala do meu demônio, lá tinha o que precisava. Enquanto corria, senti aquela ardência infeliz novamente.
Adentrei a sala e para minha sorte ou azar, a mesma estava vazia. Hesitante segui até o banheiro, onde tinha um grande espelho... Temerosa me aproximei e finalmente pude ver o que era aquela ardência. O que era? Ah, sim... Minha face ferida estava banhada em lágrimas... Lágrimas no espelho. Eu ri e através do espelho o vi encostado no batente da porta.
- Feliz agora, minha pequena? — indagou-me cínico como sempre.
- Isto são lágrimas? Tu me fizeste chorar! — gritei revoltada.
- Sim, irei fazer-te chorar por muito mais tempo. — ria-se sádico.
- Não... Não! Eu vou contar para todos o que fazes comigo! — em puro desespero, ameacei.
- Vais mesmo, anjo? — fez uma falsa cara inocente.
- Vou, seu maldito! — o desgraçado avançou sobre mim e aplicou um sedativo em meu braço. Ah, ele e aquela maldita seringa...
Sentindo meus reflexos lentos, ainda pude ouvi-lo sussurrar em meu ouvido:
- Quem irá acreditar em uma louca? — ria gostosamente.
Realmente... Ninguém iria acreditar em mim... Então, só me restou continuar em meu inferno. Presa no quarto branco, presa na vida com tons de cinza... Só me restou sentir todas as noites minhas lágrimas amigas.
Tive de aguentar tudo o que faziam comigo quieta até mesmo porque... Quem acreditaria em uma louca depressiva?
''E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.''
Friedrich Nietzsche.
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