Lágrimas De Sangue

9 Capítulo 8 (UnderFell)


Notas iniciais
Cadê meus leitores? :( Obrigada a todos que acompanham ♥

Senti meu corpo retornar à consciência, mas não conseguia me mover de maneira alguma. Pude sentir uma textura áspera me sustentar, assim descobri que não estava mais na cama do quarto de hóspedes dos irmãos albinos, por algum motivo fui tirada daquele conforto. Minhas mãos recobraram o movimento lentamente, tornando cada minuto torturante para mim. Meus olhos pareciam estar lacrados como uma mercadoria confidencial, não conseguia nem ao menos exercer poder sobre eles.

Foi então que ouvi vozes ao meu redor.

—Sans! Não ouse tocar nela! – Uma voz audivelmente desesperada pronunciou. Pude reconhecer como sendo a melodia serena de Frisk.

Apavorei-me internamente assim que senti meu corpo sendo sustentado no ar por uma força mágica grotesca.

—VOCÊ VIU O QUE ELA FEZ? É UM DEMÔNIO! AGORA ACREDITA EM MIM? – A segunda voz alcançava um tom incrivelmente estrondoso que fazia minha alma contrair de medo e minha pele empalidecer. Só podia ser uma pessoa: Sans.

—Mamãe! Por favor, me ajuda! – Frisk implorava para uma terceira pessoa. Provavelmente era Toriel, dado o tratamento que recebia.

Pude perceber que não havia apenas três pessoas no local, mas sim praticamente o vilarejo inteiro, visto que minha audição era potente o bastante para escutar os burburinhos. Algo muito grave havia acontecido e o que mais me amedrontava não era o aperto férreo da magia de Sans, mas sim o que eu havia feito de tão pecaminoso.

Imaginei que Toriel não demonstrou reação alguma pelo simples motivo de não poder usar magia em solo humano, o erro de Sans já traria consequências gigantescas.

—Q-querida, apenas se afaste. – A voz da mulher já não carregava o tom sereno de sempre, mas sim um desespero oculto que fazia com que gaguejasse.

Por mais que Sans estivesse me sustentando no ar e apertando fatalmente meu pescoço, eu sentia que ele não me mataria ali, por mais severo que tenha sido meus atos.

O que eu teria feito, visto que estava dormindo o tempo inteiro? Eu seria sonâmbula?

Foi então que senti a gravidade sob meus pés aumentar de maneira brusca. O solo rígido veio de encontro com minhas pernas despreparadas de maneira rápida, fazendo com que eu sentisse todos os meus ossos estalarem e alguns quebrarem de maneira lenta e dolorosa. Foi então que consegui emitir algum som, sendo este um grito desesperado de angústia e dor. Nunca duvidei da astúcia de Sans, apenas imaginava que ele não me mataria, e realmente não matou.

Apenas tinha me tornado uma possível paraplégica.

Nunca gritei tanto de dor em minha vida, nem mesmo em minhas batalhas com Sans em linhas do tempo passadas. Essa era a linha tênue entre ter ou não uma alma: os sentidos, os sentimentos, as emoções, eram muito mais intensas, porém reprimidas.

Após extravasar toda a minha dor, senti as lágrimas escorrerem por todo o meu rosto, aquela era a minha fraqueza. Eu fiz mal à alguém, mas nem sabia o que havia feito.

O sangue que jazia de meus olhos curou minha deficiência momentânea de visão, assim pude abrir vagarosamente minhas pálpebras, fazendo com que revelasse aos meus olhos uma visão nítida do que estava acontecendo.

Sans encontrava-se ajoelhado à minha frente, visivelmente inconformado por ter perdido algo ou alguém. Toriel abraçava Frisk enquanto se esforçava para não desabar, seu vestido negro estava misteriosamente sujo com sangue, assim como os fios castanhos da garota em seus braços. Alphys que até então não havia aparecido pessoalmente para mim, estava a uma distância segura e trazia consigo um aparelho estranho com um botão, coincidentemente, ela ameaçava apertá-lo.

Alguns aldeões apenas assistiam ao espetáculo, uns apenas curiosos, outros visivelmente assustados com tudo o que acontecia. Sans parecia ter planejado o local onde me machucaria, mas os sons estrondosos de sua magia e voz sinistra haviam despertado a audição de outras pessoas. Ele revelou um segredo que nunca deveria ter sido descoberto: a magia.

A ausência de Papyrus me deixou em alerta. Eu, por um acaso, havia... Não. Todos, menos ele.

Notei uma coleira disposta em meu pescoço, possivelmente respondia ao chamado daquele aparelho nas mãos de Alphys. Ao meu redor, muito sangue. Em minhas mãos, um coração humano e na outra uma pequena faca, esta que deve ter sido usada por mim em um assassinato. Senti vergonha e medo de mim mesma, se eu não conseguia me controlar, quem conseguiria? Nem mesmo a força de Sans pôde retirar o genocídio de minhas mãos. Uma pequena faca, quem diria que um objeto tão banal representaria o meu pecado?

—Eu poderia te matar, mas eu não sou como você. – O albino pronunciou. Sua voz estava aparentemente calma, mas as aparências realmente enganam.

Tentei me arrastar até ele, dado que minhas pernas estavam impossibilitadas de exercer ao menos um movimento.

—Não pense que porque não te matei, gosto de você. Tem sorte que Papyrus está bem longe daqui. Caso tivesse matado ele, retornaria ao inferno centenas de vezes. – Balbuciou. A voz amedrontadora retornara. Senti alivio por não ter machucado Papyrus, mas ainda temia saber quem tinha sido meu alvo.

Parei de me aproximar de Sans assim que senti seu olhar pesar em minha direção. A dor tinha se tornado suportável, mas sabia que tudo iria apenas piorar.

—Sabe o que fez? Você matou o rei. Matou Asgore. Ordenava que ele te entregasse seis almas. Pode me dizer o que isso significa? – O albino indagou. Pelo seu tom, ele queria uma resposta imediata.

Espantei-me com suas palavras. Nunca imaginei que retornaria a procurar as tais seis almas, visto que nesse mundo elas nem ao menos existiam, pelo menos não fora de um corpo humano. Não podia ser eu, Chara, quem havia matado o rei tão covardemente.

—N-não f-fui eu. –Sussurrei em um fio de voz.

Foi então que presenciei os olhos de Sans mudarem de cor. Um vermelho-sangue coloria seus orbes, fazendo com que um deles faiscasse e brilhasse de maneira assassina. Ele então se levantou de maneira lenta, como quem ainda pensasse seriamente se partia para um lado mais agressivo, muito, mas muito mais agressivo.

Notei que Toriel e Frisk não estavam mais presentes, apenas Alphys e alguns aldeões que pareciam assistir a um filme. A curiosidade humana supera o medo da morte.

—Todos aqui viram. Você matou o rei. Você fez pessoas desmaiarem. Você fez muitos desaparecerem. Você iniciou um caos em um lugar de paz. – Sans dizia tudo pausadamente. Não consegui por nenhum momento desviar o olhar de seus orbes, estavam me prendendo de maneira angustiante.

—E sabe o que eu acho disso? – Continuou. Seus olhos dobraram de tamanho. O que era sinistro, tornou-se demoníaco. Aquele não era Sans. Nem mesmo o esqueleto que havia me enfrentado após o assassinato de seu irmão, chegava aos pés desse rapaz, ou melhor, dessa criatura. Seu sorriso conseguia vencer seus orbes em tamanho, cobria quase toda a largura de sua face. Seus dentes, tornaram-se sobre-humanos.

—EU. QUERO. QUE. TUDO. VÁ. À. MERDA. – Sans vociferou pausadamente, espantando o restante dos aldeões que ainda estavam ali. Apenas Alphys ainda acompanhava tudo enquanto tremia e mantinha os olhos arregalados.

Por mais que eu já estivesse acostumada com meus próprios instintos genocidas, senti minha alma tentar sair de meu corpo. Levei o maior susto de minha vida, acompanhado do medo e da intimidação.

O rapaz estava fora de si. Olhava ao redor como se procurasse alguém para ferir, como se estivesse com sede de sangue humano.

Foi então que ele simplesmente desapareceu. Provavelmente teletransportou para algum lugar com corpos humanos. Desesperei-me por um momento, o Sans descontrolado não era nada amigável, ainda mais essa versão ainda mais demoníaca dele.

O céu estava vermelho como em meu pesadelo, mas era uma coloração mais aceitável, como aquela que indicava que iria chover. Torci para que Sans não ferisse alguém, mesmo desconfiando se ele seria mesmo capaz de matar um amigo.

O sangue ao meu redor havia secado, a grama apresentava a coloração avermelhada do mesmo. Minhas pernas permaneciam torcidas, meu braço visivelmente quebrado. A coleira ainda jazia em meu pescoço, meu cabelo estava ligeiramente violado, visto que estava mais curto que o habitual, possuindo um corte torto.

Só então percebi que eu estava nua, mas isso não me incomodava tanto quanto um rapaz descontrolado e solto por aí. Meu corpo não deveria causar pudor a ninguém, o que realmente havia enojado as pessoas foi meu ato. Eu havia matado uma pessoa. E pior: não tive nem consciência do que fiz.

Veio-me em mente se Asriel havia presenciado o assassinato, ele nunca me perdoaria por ter matado seu pai. A chance que tinha de ele me reconhecer como alguém especial se tornou completamente nula, eu era apenas mais um monstro solto naquele mundo. O melhor seria me afastar de todos para que não causasse mais discórdia para alguém.

A primeira gota de chuva se desfez em meu cabelo. Ela marcava o começo de um novo arco, uma nova realidade para mim.

Aquele dia prometia muita dor e sofrimento.

Notas finais
Até o próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.