Acordar enquanto havia sol era um mártir, mas para manter sua vida, ele fazia o possível. Adotado, ele servia de conforto para um casal idoso que desconheciam seus desejos.

_Entenda nona, estou bem, não preciso ir a um médico – insistia ele para a velha senhora que queria lhe fazer comer as panquecas. Ela então com um olhar choroso recolheu o prato com a comida ainda intacta.

_Você deveria se alimentar melhor! Veja como está pálido! – contestava um senhor semi-escondido atrás das folhas grandes do jornal local.

_Não tenho fome, mas prometo comer bem no almoço! – respondeu com um sorriso maroto, tentando arrumar o cabelo bagunçado com a mão esquerda enquanto levantava para ir ao seu emprego de meio período.

Saiu correndo de casa correndo, abotoando a camisa de forma apressada, pulando algumas casas e esquecendo alguns botões.

Chegou à lanchonete onde atendia no balcão, extremamente desalinhado. Entrando pela porta dos empregados, foi puxado e posto contra a parede por Ryoshi, sua respiração forte lhe fez estremecer, por um momento não ouvia mais os passos ou risos vindos da cozinha, apenas as batidas rápidas e certeiras do coração do amigo lhe ressoavam aos ouvidos, ele re-abotoou a camisa rapidamente, ajustando enfim a gola e se afastou com um sorriso em um riso contido.

_ Você não toma jeito mesmo! – Afastou-se e deixou Nyeji com a mesma expressão de sempre, um olhar brabo e um beiço de criança birrenta. Apesar de seu coração disparar toda vez que o amigo chegasse perto, ele se controlava. Não deixaria seus instintos tomarem conta, mas sentia um arrepio toda vez que o via tão próximo.

Correu para por o avental e se apressou em começar a atender as clientes impacientes. A peculiaridade desse estabelecimento se dava pela grande quantidade de moças que o freqüentavam.

Ryoshi e Nyeji eram assediados todos os dias, o que não ajudava no problema de Ny. Aquele olhar vazio dele atraia muitas garotas que confundiam sua indiferença com mistério, enquanto o amigo as ignorava por disciplina.

Distraído e apoiado sobre o balcão, Nyeji via uma tarde movimentada passar monotonamente.

_ Ny... – nenhuma resposta se apossou daquela face. – Nyyy... – repetiu a voz já ficando impaciente – Nyejiiiiiiiiii! – Siatha para acordá-lo do transe conferiu a ele um, levíssimo, tapa nas costas, que o fez despencar para o outro lado do balcão.

_ Aiii... – ainda atordoado – O que houve? – cansado e castigado pelo sol da tarde, não fez menção de levantar daquele chão gelado.

_ Pois, levante-se logo! Atenda as mesas enquanto Ryoshi cuida da cozinha! – deu as ordens e partiu para a rua.

Siatha era uma mulher de cabelos compridos, rosto jovial e uma personalidade forte, como era dona da lanchonete onde os dois garotos trabalhavam, não dava moleza. Já havia superado situações difíceis e sua carga de vivencias era admirável.

_ Ouviu a chefe! – falou Ryoshi indo para a cozinha, deixando o amigo a mercê de uma dúzia de garotas mal intencionadas.

Com um sorriso falso ele olhou apavorado para o olhar daquelas jovens e viu-se completamente cercado.

_Olha! – disse uma voz doce e sedutora – poderia me servir o especial do dia? – Ela se debruçou sobre o balcão, fazendo com que Nyeji ficasse acuado. Ele então com um olhar frio virou-se e depositou o papel com o pedido da moça na janela de serviços da cozinha e voltou a encará-la – Mais alguma coisa? – ela já completamente enfeitiçada por aqueles olhos castanhos escuros, se aproximou sorrateira de seu desejo. Quando próxima de concretizar a ambição de muitas outras encontradas ali, viu seu cavaleiro se afastar com uma expressão de perplexidade.

Ele correu até a cozinha sem dizer uma palavra, deixando embasbacada a donzela que pretendia beija-lo e muitas outras que assistiam à cena, enciumadas.

Notas finais
Edição Adiantada...Feliz Páscoa!