Lágrimas De Gelo

1 Capítulo Único.


Notas iniciais
Resultado de uma viagem de avião bem tediosa.

— Eu não mudei. – soltou o garoto, indiferente.

— Não, claro que não. – ironizou a menina, já estressada.

Podia-se dizer que naquela, como na maioria das vezes, ela estava certa. Ele havia se tornado o Rei Gelado, como ela costumava insultar. Ele não ligava. Afinal, tinha de se aplicar ao apelido.

A morena suspirou de forma demorada, o que seria torturante para qualquer um, mas adivinhem quem não se deixou abater?

— Você não é mais o menino que tanto amei.

Ela disse, conseguiu! Sem nem mesmo hesitar. Teria ganhado aquele dom pela convivência? Talvez não, afinal, ela sentia uma ponta de orgulho. Ele não se permitiria àquilo, certo?

— O que faz aqui, então?

O moreno havia tocado sua ferida. Ela esperava que ele mudasse? Que voltasse a ser aquele menino ciumento de quem aceitou um anel de compromisso? Aquele que lançou fogos em seu aniversário? Ou até, o que dava o mundo para vê-la sorrir? Ela já não sabia. Já sentia como se aquele menino estivesse muito, muito distante. O bastante para não dar as caras nunca mais.

— O mesmo que você. – ela disse, num meio-termo entre dúvida e certeza.

Ele não diria mais nada, não era de seu feitio.

E como que prevendo isso, ela se levantou do balanço.

Ah, aquele balanço. Ele a trazia lembranças adoráveis. Naquele parque mesmo, o menino a havia levado, um ano depois do início do namoro. Na época em que a certeza predominava, e nada podia abalá-la.

— Meu pai pediu minha mãe em casamento aqui, sabia? – ele perguntou, e com a testa franzida, ela quis saber:

— Isso é uma indireta? – ambos sorriram.

— Interprete como quiser, madame.

Aquela simples frase fez a menina estremecer, imaginar de tudo um pouco. Mas como se tratava dele, não pararia por ali.

— Mas se quer saber, eu não faria isso. – provocou, um sorriso malicioso tomando conta.

— Ah, não? – ela copiou as feições do menino.

Aquilo era demais para ele, que levantou-se do balanço e segurou-a no colo, como uma noiva.

— Você merece bem mais.

E eles deram um de seus melhores beijos. Não o mais demorado, mas sem dúvidas, reconfortante.

Porém ali, naquele momento, ela tinha certeza de que não haveriam mais beijos, e muito menos, pedidos, afinal, aquele menino não existia mais.

E foi o que ele provou, quando ela se levantou, tirando o anel e gritando algo como "eu não aguento mais", apesar de que nem ela tivesse conseguido assimilar as palavras. Talvez pelas milhares de lembranças alegres, pela raiva que tomava conta, ou até mesmo pela certeza de que não iria se arrepender.

A garota jogou o anel nele, e amoleceu ao perceber que mesmo algo tão simples, a lembrava de um filme que haviam assistido juntos certa vez. Afinal, aquela ferida não era das mais fáceis de sarar.

Virou-se, determinando que seria a última vez. O que poderia ser algo positivo, levando em conta as lágrimas que lhe inundavam os olhos. Mas ao mesmo tempo letal, pois ela não poderia ver os olhos dele. Aqueles projetos de gelo que depois de tanto tempo, decidiram derreter. E céus, como escorriam.

Notas finais
Comentem, juro que não mordo. Beijinhos de doce de leite.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!