Lábios de dor

24 I want to know what love is


A pequena vila cigana abriga pouco menos de 50 pessoas, em seu centro está armada uma grande cabana de circo e em seu derredor estão armadas barracas menores e estacionados alguns trailers presos a carros, existem também barracas de trocas improvisadas tipo aquelas de feiras.

Luke apresenta a vila para o grupo recém chegado.

–Eu vou ver se arrumo algumas barracas para vocês. – Diz Luke deixando o grupo sozinho.

–E então, vamos ficar aqui? – Pergunta Magru animada com o local.

Filipe está pronto para dizer um não quando vê o brilho nos olhos da garota e a ela transmite uma alegria ao resto do grupo, apesar de Filipe querer sair dali o quanto antes ele não resiste e para a alegria do resto do grupo concorda em ficar ali.

–Obrigada Lipe. – Agradece Magru abraçando Filipe e saindo para buscar Parvaroti no carro.

O resto do grupo sai e começa a socializar com os moradores da vila. Enquanto isso Filipe vai até a barraca de trocas.

–Boa tarde. – Cumprimenta Filipe analisando alguns produtos.

–Ta procurando o que? – Pergunta o homem gordo que parece ser o dono do negócio.

–Preciso de armas pequenas.

O homem leva Filipe até uma bancada com alguns revolveres e pistolas.

–O que eu consigo com um rifle de caça? – Pergunta Filipe

–Posso te dar dois revolveres e uma pistola.

–Beleza, só vou pegar a arma e já volto.

Filipe vai até o carro, pega o rifle e efetua a troca, ele agora carrega dois revolveres Taurus 889 calibre 38 com capacidade para seis balas no tambor e uma pistola Taurus PT 58 HC PLUS calibre 380.

–Hey Lipe! Espera aí!

Filipe Vira pra trás e encontra Luke correndo em sua direção.

–Pode falar. – Diz Filipe.

–Consegui quatro barracas pro seu grupo, em cada uma cabem quatro pessoas, alguém vai ter que dormir nos carros. Tudo bem?

–Sem problemas, obrigado cara. – Agradece Filipe.

–Minha barraca é aquela ali. –Diz Luke apontando para uma barraca verde ali perto. – Se quiser comer ou beber algo passa lá.

–Obrigado. Viu alguém do meu grupo?

–A baixinha peituda ta ali. – Luke aponta para Paloma.

–Valeu, cara, preciso ir lá falar com ela, até mais tarde.

Filipe corre em direção à Paloma que está passeando pelas barracas de trocas.

–Oi, Loma, pode me ajudar rapidinho?

–Claro, do que você precisa?

–Me ajuda a reunir o nosso pessoal nos carros em uns dez minutos?

–Claro.

Os dois se separam e vão atrás do restante do grupo e com no máximo três minutos de atraso todo o grupo está reunido em frente aos carros.

–Bom, pessoal. – Começa Filipe. – As pessoas daqui parecem serem pessoas boas, mas não vamos baixar a guarda, consegui dois revolveres e uma pistola, vou ficar com um dos revolveres, vou deixar o outro revolver com o Marti e a pistola com Magru. – Ele entrega as armas. — Luke arranjou quatro cabanas e cada cabana pode alojar quatro pessoas, eu vou ficar no carro, procurem deixar as cabanas próximas uma das outras e deixem os carros prontos para saírem se houver alguma emergência.

–Acho melhor já fazermos a divisão pra não perder tempo depois. – Sugere Luc.

–Boa ideia, vou deixar quatro líderes e cada um escolhe três pessoas. – Diz Filipe. – Hmmm... Os líderes serão Isa, Loma, Nico e Celly, começa escolhendo Isa.

–Eu escolho o Mister, a Malutella e a Gabs. – Decide Isa.

–Marti, Lore e Gaby. – Se adianta Paloma.

–Comigo vêm o Léo, a Magru e a Luc. – Decide Nico.

–Então comigo ficarão a Clari, a Mapa e o Dudu. – Encerra Celly.

–Podem voltar a seus afazeres. – Libera Filipe.

O grupo se dissipa novamente e Filipe sai a procura de Luke que é encontrado em sua próximo a uma fogueira jogando baralho.

–Luke, consegue me arranjar uma cerveja? – Pergunta Filipe.

–Na minha barraca tem umas garrafas de Whisky barato, se quiser pega lá. – Autoriza Luke.

–Valeu.

Filipe entra na barraca verde bagunçada e assim que faz isso sente um metal gelado tocar sua testa e ouve o som de uma arma destravando.

–Quem é você?

A pergunta foi feita por uma bela garota de pele clara, olhos azuis e cabelo loiro.

–Sou novo aqui, o Luke autorizou que eu pegasse uma garrafa de Whisky.

–Desculpa. – A garota abaixa a arma. – Me chamo Bia, só estava me prevenindo. Entre.

Apesar de a barraca parecer pequena por fora, Filipe acha ela bem grande por dentro, ele vê dois sacos de dormir enrolados no canto da barraca, um frigobar ligado em um gerador e as armas de Luke e Bia.

–Me chamo Filipe.

–Chegou quando?

–Faz pouco tempo.

–Entendi, bom, sinta-se livre pra voltar aqui. – Diz Bia tirando uma garrafa do frigobar e entregando para Filipe.

–Obrigado, se precisarem de alguma ajuda vou estar no meu carro, é um Ford Galaxie, pode chamar a qualquer hora.

–Ta bom, até mais tarde.

–Até.

Filipe sai da barraca e vai para seu carro, ele senta-se no banco do motorista e dá uma leve inclinada no mesmo e ligando o rádio passa a ouvir Love Hurts da banda Nazareth. Ele abre a garrafa e começa a bebericar, em pouco tempo adormece sem perceber e assim permanece até que é acordado com o som de batidas no vidro do carro. Ele abre os olhos de forma sonolenta e encontra Magru do lado de fora do carro enrolada em um cobertor segurando seu galo debaixo de um dos braços.

–Aconteceu algo? –Pergunta ele após abaixar o vidro e diminuir o som do rádio que reproduz Born to be wild.

–O Léo ronca, não consigo dormir.

–Entra aí. – Deixa Filipe após rir brevemente.

Magru dá a volta no carro e entra sentando-se no banco do carona e colocando o galo no banco de trás. Filipe oferece a garrafa que é aceita por Magru e desliga o rádio.

–Se quiser pode deitar mais o banco. – Diz Filipe deitando de frente para Magru.

–Obrigada.

Magru reclina o banco o máximo que consegue e devolve a garrafa para Filipe que dá um longo gole acabando com o liquido e depois a tampando.

–Lipe, você ta bem?

–Só to meio pensativo.

–Preocupado com algo?

–Eu não quero me apegar a mais ninguém sabe? Tenho medo de perder as pessoas e ficar mudado.

–Como assim?

–Eu era totalmente apaixonado pela Marea, mas nunca revelei isso e me arrependo, mas talvez tenha sido melhor, não sofrer como o Thalles, quando a Log morreu ela... – Filipe para.

–Ela o que?

Filipe se vira pra Magru com lagrimas nos olhos.

–Ela tava grávida.

Magru baixa a cabeça.

–Eu me entrego muito fácil às pessoas e acabo saindo machucada, tenho que aprender a ler melhor nas entrelinhas pra quando eu for mais velha não ter tanto arrependimento.

–Na minha vida já tive muita tristeza e dor, não sei se vou agüentar muito mais, meu objetivo agora é manter a Mapa viva e não vou parar agora, já viajei até aqui tenho esperança de conseguir dar uma vida de verdade a todos, mas não queria ter uma vida solitária, por isso procuro sempre satisfazer vocês.

–Lipe, te amo.

–Eu também te amo, agora nós somos uma família, eu amo todos vocês, de verdade.

–Não, Lipe, eu quero saber o que é o amor e quero que você me mostre, quero sentir amor de verdade e sei que você pode me mostrar.

–Desculpa, Magru, mas eu realmente não posso. Quem sabe se conseguirmos sobreviver por um bom tempo e tiver uma vida tranquila, mas não agora. – Filipe beija a testa de Magru. – Agora vai dormir.

–Okay... Me desculpa.

–Ta tudo bem.

–Quer dividir o cobertor?

–Não precisa, boa noite.

–Boa noite.