Assim que Shaka deixou a casa, Astréia relaxou e se deitou.


- Devia se envergonhar de estar na casa de um homem solteiro.


- Você esteve aqui a dois dias atrás, não pode me criticar. Sem contar que esta é minha casa, por suas regras o templo do regido é também do regente.


- A cada dia está mais perto de se submeter a Eros e não percebe.


- E você fica a cada dia mais irritante.


- Vocês não percebem, mas a cada passo...


- Ah, já estou cansada das suas ladainhas. Vou ter que falar com Atena sobre quem ela anda permitindo entrar no Santuário.


Se Atena ouvisse isso... Naquele exato momento, conversava com um dos poucos compasse livre no Santuário...


- Por favor, eu imploro que não a ataque enquanto ela estiver aqui!


- Não posso prometer... Tantos cavaleiros... E Virgo tem uma predisposição por ela...


- Shaka? Não sem sua interferência.


- Veremos o que posso fazer, mas a caçada está chegando ao fim.


- E a vontade dela?


- Posso te garantir que sou uma vontade maior.


- Eu sei. –ela sorriu.


- Talvez eu já esteja planejando alguma coisa. Ou não. –ele beijou o pescoço dela, sua forma habitual de cumprimento- Até logo Atena.


- Até.


No mesmo instante, Shaka e Astréia se destacaram nas escadarias.


- Atena, viemos te visitar.


- Podemos caminhar?


- Claro!


- Estava voltando do treinamento quando a encontrei subindo.


- Fazia tempo que eu não vinha aqui...


-Já estão treinando?


- Nossos discípulos são dedicados. –comentou Astréia, sorrindo.


Então o som de um trovão estremeceu o Santuário e a imagem do próprio desespero se formou aos seus olhos.


- Nêmesis?


- Eu mesma.


- O que faz aqui? –Saori se postou a frente de Astréia- Vocês juraram não mais profanar meu Santuário.


- Eu nunca juro nada. E estou aqui para as castigar. –Shaka armou a guarda em silencio, e Astréia entrou na frente de Saori.


- O que quer de mim Nêmesis?


- Tem sido muito prepotente Astréia, estou aqui para castigá-la.


- Então Atena não deve se ferir.


- Astréia...


- Vamos a outro lugar... –a voz de Astréia tremeu um pouco- Meu sangue não pode manchar esse chão.


- Seu orgulho e insolência para com os outros deuses não me passaram despercebidos Atena. –ela continuou, ignorando Astréia- Tenho flechas reservadas a vocês.


Suas flechas foram disparadas e Shaka parou por uma fração de segundo. Quem ele deveria proteger? O juramento dava sua vida para Atena, primordialmente e independentemente de sua vontade.


A protegeu com o próprio corpo e Astréia fechou os olhos. Por ele ser muito maior do que Saori, a flecha não atingiu um ponto vital, mas a dela vinha na mira exata de seu coração.


Porem Eros não deixara o local e não permitiria que ela fosse derrotada por outra pessoa.Seu arco sibilou e Nêmesis o encarou. Seus olhos desvairados encararam os olhos azuis do Amor e se deu por satisfeita.


A flecha acertou o ombro de Astréia, que caiu com o impacto e não mais levantou.


- Atena...


- Shaka! –o sangue do cavaleiro manchava as vestes brancas da deusa, que estava ilesa.


- Ajude... Astréia... –as palavras saíram com dificuldade, e, estando Saori segura, a preocupação maior era Astréia.


- Atena! Astréia, você está bem...


- Sim... –ela se esforçou para se levantar, em vão.


- O que houve Atena?


- Aiolos, tem que nos ajudar, eles estão feridos!


- Mas você...


- Eu estou bem! Onde estão os outros?


- Estamos aqui Atena. –a voz de Saga se sobressaiu ao murmúrio dos outros- Vamos, Shura, ajude Aiolos e Astréia. Kanon, chame Shion. Mu, você pode fazer algo quanto a esse ferimento?


- É profundo, e é um ferimento divino...


- O que está acontecendo?


- Shion!


Shion, em um rápido movimento, orientou os cavaleiros de ouro a levar os feridos a sua sala, aonde fechou seus ferimentos. Em seguida os mandou para a Fonte.


Horas depois, um conselho dourado era reunido.


- Isso é alarmante! –Milo expressou sua opinião- Pode levar um bom tempo para a Justiça se recuperar, e existe o risco de começar tudo de novo.


- Teremos que esperar. –Shion murmurou.


- E arriscar a segurança do Santuário, Mestre?


- Pode ser arriscado, mas teremos certeza de alguma coisa até lá Afrodite. –Mu argumentou- Vamos esperar.


Na Fonte de Atena, neste mesmo momento, Vesta velava pelos feridos.


- Você não pode morrer agora Virgo, eu lhe avisei sobre Nêmesis...


- O que faz aqui Vesta? –Astréia despertou e se encaminhou até o quarto ao lado.


- Vejo que está melhor Astréia.


- Vai me fazer repetir a pergunta?


- Vim ver Virgo.


- Shaka.


- Me preocupa o resultado dessa imprudência. –a deusa de todos os templos continuou, como se não tivesse sido interrompida.


- Eu cuido disso.


- Você também está ferida...


- Estou bem.


- Se você, em sua prepotência, acha que...


- Não adianta desdenhar Vesta, e eu não vou querer você por perto enquanto estiver por aqui.


Vesta deu ombros à irritação da outra para com ela, e continuou andando pelo jardim, até se perder de vista.


Astréia balançou a cabeça, e se voltou para Shaka. Por um instante parecera até que ela estava com ciúme.


Não, não pode ser. Ah, Eros...


- Eu posso cuidar disso, eu posso. –repetia para si mesma.


- Me ataca com unhas e dentes como se eu fosse sua inimiga Astréia, espero sinceramente que isso não a prejudique. –Vesta se manifestou por meio de seu cosmo, ainda indiferente.


- Petulante... Até quando vou suportar a presença dela...? Ah, Shaka, você vai melhorar não vai? Me ajudar a por juízo naquela cabeça bitolada?


- Tem alguém aí?


Astréia se afastou rapidamente e observou Mu, Saga e Aiolos entrarem.


- Não tem ninguém Aiolos.


- Pensei ter ouvido algo. Eles estão indefesos, alguém tem que ficar aqui para cuidar disso, não acham?


- Não podemos deixar nossas casas por muito tempo, e eu tenho ainda de restaurar todas as nossas armaduras. A ordem é de que devo devolver todas de uma só vez.


- Está bem Mu. Eu posso ficar, Kanon e eu...


- Eu também posso ficar, nós revezamos para você poder curtir sua casa e seu irmão também Saga...


- Obrigado.


- Saga, eu entendo o que aconteceu e eu...


Saga semicerrou os olhos e sai, Mu meneou a cabeça, em uma negativa.


- Ainda não é o momento.


- Eu sinto muito por isso.


- Como foi com Shura?


- Bem mais fácil. Não deixamos de ser amigos... É um laço estreito demais para ser rompido por um mal-entendido.


Mu sorriu e saiu, e Aiolos se sentou em um banco do lado de fora do recinto.


- Olá Sagittarius.


- Aiolos ao seu dispor senhora. –ele se ajoelhou e beijou sua mão.


- Astréia. –ela o fitou e Aiolos sentiu o olhar entediado da deusa.


- Está tudo bem?


- Sim. Estou me divertindo muito. –ela foi sarcástica e continuou a fitar o nada.


- Minha presença te incomoda?


- Se incomodasse não teria vindo falar com você. Eu sou assim, devia...


- Quíron não me falou muito dos outros regentes, ficou comigo por apenas dois dias.


- Ele também não tem boas lembranças da Terra.


- Estarei aqui para os proteger, então conte comigo, como sempre contou.


- Esteve ao meu lado...


- Aprecio sua companhia.


Astréia o observou, um pouco sem reação. Estava falando do momento em que fora atingida, mas algo na forma que ele dissera aquilo, era como se significasse algo mais.


Algo que era estranhamente quente e muito incomodo.


- O que quer dizer?


- Sempre fui fiel a você... –as pontas dos dedos roçaram seu rosto e ela retrocedeu-Mais do que ele.


- Eu também não sou muito fiel. Ele se decidiu antes de mim, os discípulos sempre superam os mestres...


- Dei minha vida por você.


- Eu sei. Todos vocês deram, e você foi o primeiro. Só não digo que foi o mais corajoso, porque Gemini...


- O que houve?


- Acho que agora não é o momento...


- Tenho de ir agora, é melhor você descansar Astréia, tem que se recuperar.


Ela assentiu e acompanhou os passos do homem até onde pode, só então relaxou. Ficava estranhamente tensa nessas situações, e era como se ele estivesse lhe sugerindo algo.


Ouviu um barulho muito leve e se voltou. Um homem alto, de porte ainda mais altivo do que acabara de sair, a encarou. Seus olhos eram pedras do mais puro pesar e ela os reconheceu imediatamente...


- Gemini...


Porem sua fisionomia continuou inexpressiva.


- A justiceira está decaindo.


- O que...?


- Você está viva. Nêmesis perdeu o jeito.


- Você é?


- Saga de Gêmeos.


- Saga... –ela ainda se lembrava claramente do nome, e também lhe eram trazidas as lembranças de seu galante e impetuoso amigo Pólux.


- Por que seu rosto é tão nítido em minha mente?


- Você estava lá, no momento de minha morte.


- Você...


“ – É o certo a se fazer.


- Eu sei.”


Ele não hesitou por um segundo sequer, e chocou a todos com sua atitude. Era a segunda vez desde que fora embora que ela voltava a interferir, Eros chegara até a sugerir que ela estava tomando gosto pelos humanos.


Eros... Zombava dela.


- É um homem decidido Saga.


- Hum...


- Não gosta muito de falar...


- Não gosto que me analisem.


- É a minha natureza. Pólux nunca se incomodou.


- E porque isso a faz pensar que eu não me incomodaria?


- Ele é seu regente.


- Fala como se isso fizesse todo o sentido. Shaka é seu e não é tão...


- Esquece! Você deveria me respeitar um pouco mais, eu não vou jogar isso na cara de ninguém, mas salvei vocês do sofrimento eterno!


- Você me jogou de volta no sofrimento eterno. Não me peça para ser grato. Minha lealdade se resume a Atena, pois os deuses não olham para mim.


- Sei que sofreu, mas não pode me culpar!


- Tem certeza? –ele revidou em tom cínico, cerrando os olhos- Tenho que ir.


Ele foi para a sala ao lado, se afastando dela. Astréia estava abismada.


Era a primeira vez que um ser humano a enfrentava com tanta certeza.


Os dias se passaram e Astréia estava praticamente curada. Se acostumara a presença de Saga e Aiolos, e estava se dando muito bem com este ultimo.


- Astréia?


- Entre!


- Te trouxe isso! É digno? –ele brincou, lhe estendendo um embrulho.


A bainha de sua espada, que ela perdera a séculos na sua primeira visita a Terra, agora lhe era devolvida pelo atencioso guardião.


- Perfeito!


- Um antiquário em Atenas... Nunca foi comprada, ele me doou. Quando a vi, pensei em você...


- Eu aprecio a perfeição. –ela correu os dedos pelos entalhes criados por Heféstos, intactos- Obrigada.


- Eu gostaria de provar... O sabor dos seus lábios... –ele se aproximou muito dela, segurando firmemente seu rosto entre as mãos.


Ela gelou. O que estava acontecendo? Certamente deveria puni-lo cortando suas mãos, mas se quer conseguia levar a própria mão a espada.


Em um impulso descomunal ela se desvencilhou dele e saiu, sem olhar para trás.


O lugar mais próximo de seu lar, a Fonte de Atena, estava se tornando um pesadelo.


- Mas aposto que em seus pesadelos não existem cavaleiros gentis como os que te cercam aqui, estou errado?


- Estou cansada disso. –ela desembainhou a espada- Vamos terminar isso aqui.


- Vai me enfrentar?


- Vou te destruir.


A face de Eros, emoldurada pelas ondas negras de seu cabelo, se tornou séria.


Tirou de sua aljava a flecha mais dourada e envergou seu arco ao máximo.


- Arme sua guarda.


As flechas zuniam e se chocavam a espada da Justiça. Quanto mais tempo durava a disputa, mais o sorriso zombeteiro de Eros morria em seus lábios.


- Eros! Você não pode batalhar em meu Santuário!


Eros plainou até Saori e Astréia cravou a espada em sua asa direita.


- ASTRÉIA NÃO!


Eros desabou e Astréia sorriu.


- Pensei que não teria coragem...


- Pensou errado.


Ela cravou a espada no solo, onde estivera o peito nu de Eros até poucos segundos. Psiquê tirara o marido da área de risco e agora se encontrava abraçada a ele.


- Você é louca!


- Eu... –Astréia percebeu o que estava fazendo.


- Disse para ficar longe dela! –agora se voltara para o marido- Ela ia te MATAR!


- Não ia não. Ela não é tão poderosa.


- Vamos embora, por favor...


- Pode ir querida, tenho que acabar com isso.


- Ninguém vai acabar com nada! Esse Santuário é sagrado, a paz deve prevalecer aqui!


- Sim irmã. Me perdoe.


Astréia abraçou a meia irmã, arrependida.


Eros não se fez de rogado e armou sua ultima seta, acertando a oponente pelas costas. Psiquê protestou, mas ele a fez se calar com um gesto, apreciando cada momento daquele dia pelo qual ele esperara tanto.


Seu sorriso estava mais acentuado em seus lábios do que nunca.


Agora só faltava uma...


Notas finais
A Astreia é minha personificação... Aff...
Outra coisa, os parenteses informao quando eh uma lembrança, ok: