Lá e de volta outra vez
1 Primeiro verão
Notas iniciais
Harry voltou para o seu quarto, no número quatro da Rua dos Alfeneiros, assim que Vernon terminou de estacionar o carro, e correu as escadas sem nem ouvir as recomendações gritadas pra não fazer maluquices ou ele ficaria sem comer até o próximo verão. Entrando no quarto, ele fechou a porta com um chute e jogou o baú no chão, o abrindo imediatamente e olhando para o interior com o mesmo olhar que uma criança daria para dentro do saco do papai-noel.
Primeiro eram as vestes, e apesar de serem a coisa menos empolgante dentro do baú, ainda sim o garoto as vestiu, encaixando os pés nos sapatos, deixando a gravata com um aperto frouxo e mantendo a capa aberta, enquanto o bico pontudo do seu chapéu se projetava pra frente, torcendo por três vezes até parar, apontando pra baixo, pouco acima dos seus olhos. Olhando-se no espelho, o garoto achou que parecia diabolicamente legal.
O próximo, obviamente, foi a varinha. Harry a pegou nas mãos, sentindo as mesmas fagulhas de eletricidade que tinha sentido no Olivaras novamente percorrerem sob sua pele, enquanto a ponta se tornou vagamente luminosa. Hagrid havia lhe dito, não muito tempo atrás, que ele não deveria usa-la realmente, até chegar a escola, mas quem em sã consciência entrega uma varinha mágica e livros de feitiços para uma criança, e espera que eles não experimentem nada?
Havia uma porção de livros, organizados no fundo do seu baú de forma a não amassarem as roupas, todos eles com páginas escuras e símbolos nas capas de couro. O primeiro que Harry tirou foi um livro de transfiguração. Apesar do “Magia de combate para iniciantes” e “Uma introdução a defesa contra as artes das trevas” parecerem, de longe, os mais legais, ele achou que seria um pouco demais para o coração dos Vernon se maldições começassem a voar pra fora do seu quarto... quem sabe amanhã.
Abrindo o livro, Harry caiu sentado e cruzou as pernas. Era uma pena que ele fosse jovem demais pra fumar, por que um cachimbo cairia como uma luva naquela situação.
“Transfiguração é a arte mágica referente a formatar, por períodos indeterminados de tempo, a forma de objetos e seres vivos, e uma das técnicas mágicas mais complicadas, devido a necessidade de concentração por parte de usuário. Movimentos de varinha e encantamentos foram sendo inseridos, com o passar do tempo, na matéria de transfiguração, para torna-la mais simples para iniciantes, e embora funcione bem no começo, é desaconselhado que o aluno se prenda muito a eles, depois de ter passado pelo básico, como guardar na memória todos os movimentos e encantamentos podem vir a ser uma provação até para os maiores mestres de oclumencia, e o tempo que leva para executar os movimentos de varinha, em sua maioria longos e complexos, torna a arte quase inútil em combate. É importante ter em mente que, assim como toda magia, ela depende exclusivamente da força de vontade e energia do usuário, tudo o mais são formas de torna-la mais fácil, ao mesmo tempo, tornando-a mais complicada.”
— Gerald Sinclair.
—Uau, isso foi extremamente informativo – Harry murmurou consigo mesmo, dando uma segunda olhada na sua varinha – Eu me pergunto o que é oclumencia... talvez eu deva buscar um livro sobre isso mais tarde.
A maioria dos feitiços iniciais, Harry franziu a sobrancelha ao observar, envolviam coisas bobas e mais ou menos inúteis, como transformar ratos em canecas, ou canecas em gatos, ou gatos em ratos, e cada uma das transformações envolvia uma complexa série de movimentos e um encantamento em particular, completamente diferentes um do outro. Mesmo a magia para transformar um rato branco em uma taça necessitava de encantamentos completamente distintos da magia de transformar um rato preto em uma taça.
—Quer saber, eu vou tentar ir de acordo com a introdução, parece infinitamente mais simples...
Não havia nenhum rato no seu quarto, mas como o livro dizia, transfiguração era transformar uma coisa em outra, então ele acabou deduzindo que a “coisa A” não precisava, necessariamente, ser um rato, assim como a “coisa B” não tinha que ser, exclusivamente, uma taça. Basicamente, ele podia mudar uma coisa em outra, simples assim. Tendo deduzido isso, e parecendo razoável o bastante, ele puxou um bloco de montar, daqueles que Duda brincava quando tinha seis anos, e usava até hoje pra jogar na cabeça dele, e o deixou no chão, a sua frente. Empurrando os óculos pra cima do rosto, com o dedo, ele fitou o “B” colorido no bloco com o que imaginou ser a expressão de um feiticeiro muito sério e muito poderoso, mas também lembraria, vagamente, alguém tendo uma crise de gastrite.
—Eu... acho que deveria dizer alguma coisa – Harry parou, olhando pra sua varinha – O encantamento pra transformar um rato numa taça é: “Transformum ratótolis taçonomus”, mas parece tão idiota que eu tenho até vergonha de dizer isso em voz alta... eu deveria fazer em silencio? Ou murmurar alguma coisa, com uma expressão impessoal, ia me fazer parecer mais legal? Decisões, decisões...
Acenando a varinha, com um movimento particularmente desdenhoso, ele fulminou o bloco de montar com uma expressão de superioridade, como se a humanidade tivesse cometido um erro em construí-lo daquela forma, e ele estivesse pra concertar isso.
—Exchange...
A expressão desdenhosa caiu para uma fulminante assim que o bloco de madeira mudou pra um prisma de vidro. Harry sorriu abertamente ao seu primeiro sucesso claro na artes mágicas. Pegando o pedaço de vidro na mão, ele levantou a sobrancelha, curioso, ao notar que parecia um diamante.
—Será que eu realmente posso fazer um diamante?
Pegando mais um dos blocos, ele o depositou na sua frente, mas dessa vez ficou de pé, e o movimento de varinha foi um corte no ar, em diagonal, que Harry imaginou que o fizesse parecer ainda mais legal.
O bloco, novamente, obedecendo seu mestre, mudou pra sua nova forma. Harry o pegou do chão e comparou com o prisma de vidro, era quase idêntico, mas um pouco menor e mais chato e amplo, e lapidado em muitas mais facetas que antes. O prisma brilhava numa tonalidade amena de azul, e quando Harry o jogou no chão, ele deixou uma lasca na madeira do assoalho. Repetindo a experiência, ele pegou o prisma de vidro, mais opaco e branco, e o atirou ao chão, onde ele explodiu em pedaços.
—Interessante... – Harry murmurou, consigo mesmo – Eu tenho certeza que posso me dar muito bem com isso, mas quero praticar algumas coisas antes.
Guardando o prisma de diamante em um dos bolsos do manto, Harry coletou a maioria dos objetos inúteis ao redor da sala, e passou a próxima meia hora os transfigurando pra coisas completamente diferentes. Ele transformou uma bola em uma chave de fenda, um pedaço de madeira, do guarda-roupa quebrado, em um ioiô (e parou de praticar magia, por alguns minutos, pra brincar com ele), um par de meias velhas foram transformadas em luvas negras, e por achar que combinaria, Harry transformou uma régua em uma tesoura, cortando as pontas dos dedos da luva fora e borbulhando de felicidade com seu próprio brilhantismo. Havia uma tesoura, encima da mesa, mas por que se incomodar em ir buscar se ele poderia fazer uma?!
Como não parecia haver limites para o que ele poderia fazer, com transfiguração inanimada, Harry decidiu transfigurar seres vivos logo depois. Em teoria, era completamente e insanamente mais difícil que sua versão mais simples, mas magos no geral deveriam ser muito idiotas, por que ele conseguiu na primeira tentativa, transformando uma camiseta velha em um rato, e só pra dizer que fez, transformando o rato em uma taça. Parando pra pensar, as pessoas usavam essas taças pra beber? O quão nojento isso era?
Depois de várias tentativas, e conseguir fazer com sucesso um passarinho, e minhocas para alimenta-lo logo depois, Harry teve a ideia de tentar mudar algo em si mesmo. Parecia aquele tipo de coisa extremamente irresponsável e idiota de se fazer, mas Harry acabou dando de ombros, não é como se ele fosse tentar transfigurar seu coração em um quebra-nozes, uma pequena mudança nas suas córneas não deveria ser nada demais.
Afinal, que bruxo de respeito usaria óculos?! Era como um balde de água fria na coisa toda.
Bem longe dali, na Escócia, Alvo Dumbledore teve uma crise de espirros, perdendo o equilíbrio enquanto descia a escada e quebrando a bacia no processo. Nada que poções não pudessem curar.
Tirando os óculos, Harry apontou a varinha bem encima da ponte do nariz, se envesgando um pouco no processo de tentar focar a pontinha brilhante com ambos os olhos, e se preparou para o que estava prestes a fazer.
Petúnia abriu de supetão a porta do quarto, e no susto, Harry acabou cutucando o olho direito com o varinha, caindo de cara no chão e ganindo de dor logo depois.
—Menino! Eu... é... quero dizer – ela pareceu indecisa, entre ficar brava com ele e ver se ele estava bem – Você... você está bem?
Harry chorou, ajoelhado, com o olho direito explodindo de dor. Tomando algumas respirações profundas depois de alguns minutos, ele se levantou, e deu de cara com um mundo que não se parecia em nada com o que ele estava acostumado a ver.
—Por Deus, o que aconteceu com seu olho?!
Harry parou de olhar ao redor, e fixou Petúnia, inclinando a cabeça em incompreensão a mancha vermelha mínima que tingia seu estomago. Todas as coisas em volta estavam matizadas em diferentes tons de cores, a maioria cinzenta, e parecendo mortas. Mesmo dali, no entanto, ele conseguia ver mais duas manchas vermelhas, similares a de Petúnia, e pela forma como pareciam estar distantes, imaginou que fossem Vernon e Dudley, na sala de jantar, provavelmente aguardando irritados a sua ração diária.
—O que quer dizer?
—Seu olho direito, está todo vermelho, e tem um desenho nele!
—Tem? Ele parece legal?
—Como? – Petúnia interrompeu seus devaneios, voltando os olhos para o sobrinho que agora mirava o próprio rosto no espelho.
—Eu perguntei se parecia legal, sabe... eu acho que sim.
—Você não está preocupado?
—Nah... Eu acho que vou chamar isso de... “Geass”
—Entendo... se eu me preocupasse realmente com você insistiria pra te levar num médico ou chamaria seus amigos malucos, mas como não ligo realmente pro que te acontece desde que não atrapalhe minha vida perfeita, vou simplesmente dar de ombros e fingir que isso nunca aconteceu, estamos entendidos?
—Perfeitamente.
—Ótimo, agora venha fazer o jantar, seu tio e primo já estão tentando comer a toalha de mesa, eu não quero ter de ir comprar uma nova.
—Ok, eu só vou trocar de roupa e estou descendo.
—Não demore – ela disse, antes de bater à porta fechada, e descer gritando pra que os dois parassem de tentar mastigar os talheres.
Harry examinou por mais alguns instantes o olho no espelho, tentando chegar a uma conclusão minimamente razoável de como aquilo tinha acontecido. Ele primeiro estava pensando em corrigir sua própria visão, mas enfiar a varinha no olho daquela forma deve ter potencializado o próprio feitiço, talvez? Ele realmente não sabia nada sobre teoria mágica pra ficar especulando, mas parecia razoável o suficiente. Trocando de roupa, Harry transfigurou uma das carteiras velhas de Duda em um tapa olho, copiando a mesma insígnia estranha de pássaro que agora brilhava escarlate na sua íris direita, e saiu para a cozinha.
—Ao todo, acho que foi um bom primeiro dia... – ele murmurou consigo mesmo. Tapa-Olhos eram muito legais, afinal de contas, e estar escondendo algo debaixo de um era simplesmente a cereja no bolo.
II
Harry não se lembrou do diamante no bolso até depois de terminar de lavar os pratos, e rapidamente foi ter com Vernon, que estava dividindo com o filho um pote de sorvete tamanho “não conseguimos fazer maior do que isso”. O velho gordo voltou seu olhar para o garoto, cerrando os olhinhos suínos de irritação, enquanto lambia a calda de chocolate da colher. Harry achou que era uma visão bem perturbadora.
—Tio Vernon... hipoteticamente, quanto custa um diamante?
—Não que eu tenha tempo pra gastar com suas perguntas idiotas, mas hipoteticamente, de que tipo de diamante estamos falando?
—Um grande.
—Grande quanto?
—Um pouco menor que meu pulso cerrado... hipoteticamente...
—Bem, o preço do diamante varia entre o quilate, que é um quinto da grama, a pureza e a lapidação, se eu puder ver esse diamante hipotético poderia dar um chute...
—Aqui – Harry entregou-lhe a pedra.
Vernon tirou do bolso uma lente, e a ajustou sob os olhos. Quando Harry franziu a sobrancelha, ele explicou, um pouco mal humorado, que sua visão não era tão boa e ele precisava examinar as brocas da empresa.
—Um diamante desse tamanho valeria, provavelmente, mais de mil vezes o preço dessa casa, eu acho que é maior até que o diamante das jóias da coroa...
—Entendo... Eu o vendo pelo seu carro, aulas de direção e todo o dinheiro da sua carteira.
—Fechado – Vernon embolsou a pedra e saiu para o quintal, com Harry nos seus calcanhares.
—Dirigir é muito simples – Vernon disse, seu humor por fazer um bom negócio melhorando até o ponto em que ele poderia ser civil, se um pouco azedo, com o sobrinho – esse pedal é o acelerador, o outro é a embreagem e, em seguida, o freio. Você vira a chave na ignição, pro carro ligar, então engata a primeira e acelera, soltando levemente o pé da embreagem enquanto isso. Quando sentir que o motor está pedindo uma nova marcha, troque pra segunda, e assim por diante, dependendo da velocidade em que estiver – Vernon puxou a carteira do bolso, tirando um maço generoso de notas de cem e cinquenta libras, e as entregando para o sobrinho – Comece devagar, e não ouça o rádio nas primeiras semanas. Pra todos os efeitos, tente não se meter em encrenca, eu e sua tia estamos indo pro Havaí, vamos comprar um hotel cinco estrelas lá e passar nossos dias chafurdando no luxo enquanto traímos um ao outro. Se precisar voltar pra cá, aqui estão as chaves. Tenha uma boa vida.
Assentindo em confirmação, Harry voltou pro andar de cima e embalou todas as suas coisas, transfigurando um par de roupas velhas em aceitáveis roupas que serviam nele. Os livros foram guardados no baú, e a varinha ficou em uma bainha, também transfigurada em couro, no seu antebraço esquerdo. Mais tarde ele ia tentar encantar a bainha pra tentar sacar a varinha com um simples pensamento, mas por hora tinha que servir. Com um pouco de ajuda de Vernon, que estava terminando de fechar as portas, enquanto Petúnia chamava um táxi, Harry colocou suas coisas no porta malas, e pegou a chave da casa e do carro com Vernon.
—Eu sei que tivemos um relacionamento pedregoso nesses últimos anos Harry – o velho disse, segurando seus ombros e olhando fixamente pra ele – Eu só queria dizer que, apesar de tudo, eu odeio você. Boa sorte garoto.
—Obrigado tio – Harry murmurou, com lágrimas nos olhos, tratando de entrar no carro e dar a partida, antes de ficar sentimental demais. Com um último olhar pelo retrovisor, ele deixou a rua dos Alfeneiros pra trás, não tendo muita certeza do que fazer a seguir, mas sabendo que seria divertido.
Dirigir sem música era chato, então Harry fuçou no rádio até encontrar uma boa estação de rock, e deixou o braço descansar na porta, enquanto mantinha o volante firmemente seguro com uma única mão, ouvindo Kansas com o volume no máximo. Um ou dois carros passaram por Harry, e apesar do primeiro motorista ter perdido o controle da direção com a surpresa de ver uma criança ao volante e deixado o carro capotar morro abaixo, isso não atrapalhou seu humor. A noite estava estrelada, o ar fresco atirava seus cabelos pra trás, ele tinha um monte de dinheiro no bolso, e “Carry on my wayward son” era provavelmente a música mais foda já criada. Não tinha como ficar melhor.
Quando estava amanhecendo, Harry encostou o carro num posto de gasolina, perguntando quanto faltava para o vilarejo mais próximo, enquanto pagava vinte libras a mais para o proprietário do lugar não chamar a polícia. Ele foi muito mais agradável depois disso, e tratou de buscar um mapa.
—Se seguir reto, em uma ou duas horas vai chegar em Whitehill, em Hampshire – ele desenhou o trajeto com uma caneta esferográfica – Provavelmente vai ter que pagar um suborno na fronteira, mas você parece um garoto esperto, vai conseguir uma boa pechincha.
—Obrigado.
Nem foi preciso, entretanto, chegar em Hampshire, como Harry tomou um desvio por acidente e acabou dando numa vila agradável, pequena e bastante pacata. A placa dizia “Churt, população, 1202” e embaixo um rabisco, com tinha vermelha que Harry achou curiosamente parecido com sangue “fique longe, forasteiro, demônios são invocados nessas terras!”
Achando um lugarzinho bastante simpático, Harry guiou o Chavette de Vernon, agora seu, até uma grande casa de veraneio, com um anúncio de vagas em aberto. Ele pediu um quarto de solteiro e as refeições, e como passou a noite dirigindo, pediu pra ser acordado, no máximo, as três da tarde, o que lhe renderiam umas boas oito horas de sono. A mulher por trás do balcão, parecendo bastante severa e notavelmente parecida com Madame Malkin fez algumas perguntas, mas sua curiosidade pareceu escorregar depois que Harry acidentalmente deixou cair uma nota de cinquenta libras no seu bolso, e deu-lhe uma piscadela sem motivo aparente.
Harry acordou, sentindo-se completamente descansado, com alguém batendo na porta. Ajeitando seu tapa olho e certificando-se de que estava de cueca, e não apenas de cueca (ele tinha o hábito de dormir sem) ele foi atender a porta, e deu de cara com uma garota de cabelos ruivos, aparentando seus quinze ou dezesseis anos. Ela tinha pircings nos lábios e nas orelhas, uma tatuagem no pescoço, e era completamente e deslumbrantemente linda.
—Ah, você é o nosso novo hóspede esquisito – a garota disse, sorrindo, enquanto apontava pra uma bandeja de comida. Harry saiu da frente com um rubor no rosto após perceber que tinha olhado tempo demais, e a deixou entrar. A garota deixou a bandeja no seu criado mudo e caiu sentada na sua cama – Não esquente muito com isso, nós recebemos pelo menos um por mês, a maioria são mochileiros em busca da lenda da Bruxa de Withmore Vale, eu ouço sobre ela desde que era criança e nunca ninguém deu bola, mas as pessoas ficaram agitadas depois que algumas pessoas começaram a aparecer mortas nos bosques...
—Foram encontradas pessoas mortas no bosque? – Harry perguntou, surpreso, se sentando ao lado dela e pegando a lata de refrigerante que veio junto com a comida – E o que é a lenda da bruxa de Withmore vale?
—Ah, é uma daquelas coisas que ouvimos desde criança, sabe, pra assustar – ela pegou a lata oferecida e tomou um gole – Dizem que uma bruxa vivia aqui, a duzentos anos atrás, e ela foi responsável pelo desaparecimento de várias crianças na época, então vasculharam a floresta e a trouxeram pra vila, onde ela foi queimada em frente à igreja, com toda a cidade assistindo. A lenda conta que, antes de morrer, já enegrecida, ela lançou uma maldição sobre Withmore Vale, qualquer criança que se perdesse nos bosques seria consumida pelo seu espírito vingativo. Algumas crianças somem de vez em quando, claro, é uma cidade pequena e uma floreta muito grande, mas ultimamente isso vem acontecendo com uma grande frequência...
—Entendo, talvez eu devesse dar uma olhada.
—Claro, se precisar de uma guia eu posso te levar lá, como são as férias eu não tenho escola, e nunca há nada de interessante pra se fazer aqui – ela se levantou, se espreguiçando – A propósito, meu nome é Alessa, e o seu?
—Eu sou Harry.
—Prazer em te conhecer – ela se agachou e o beijou na bochecha, rindo como o rosto dele esquentou perceptivelmente – Eu vou estar trabalhando na recepção, mas depois das seis nós fechamos, se quiser ir pode ir me chamar.
—Claro, prazer em te conhecer Alessa – ele a levou até a porta, e a fechou assim que ela saiu.
Voltando para o seu quarto, Harry comeu o almoço, considerando se devia passar a tarde praticando suas habilidades mágicas ou se masturbando enquanto imaginava Alessa em roupas de banho atrevidas, mas tanto quanto a segunda opção parecia atraente, ele achou que era hora de fazer algo útil.
Transfiguração, mesmo que ele tivesse praticado por apenas um dia, já tinha ficado velho, e ele não tinha vontade de tentar novas transformações em si mesmo depois do acidente com seu olho, e magia de combate precisaria ser praticado num lugar razoavelmente solitário, pra não chamar atenção demais. Assim que, tirando o livro de encantos do primeiro ano, ele começou a ler.
“Encantos”, também conhecido como “Encantamentos”, é um ramo arcaico da magia, conhecido propriamente como “Feitiçaria”. Se trata, basicamente, de mudar as propriedades de um objeto, não sua forma física como transfiguração ou transmutação, para os adeptos de alquimia, mas suas propriedades mágicas. Vassouras, e as próprias varinhas dos bruxos, são exemplos de itens encantados, e ainda existem os encantamentos latentes, que não possuem forma física, e são categorizados em várias outras artes mágicas, como algumas magias de combate, ou magias simples de utilidade doméstica. O encanto “Wingardium Leviosa”, talvez o mais simples e mais famoso de todos os encantamentos latentes, é um bom exemplo disso, assim como o feitiço “Diffindo”, que também é categorizado como magia de combate, pelo seu enorme potencial violento, apesar de ter sido primeiro desenvolvido como uma magia pra cortar papel, e foi o causador da morte do seu criador, que acabou lacerando sua própria jugular enquanto comemorava seu sucesso. Quando aplicados a objetos, no entanto, encantamentos podem tingi-lo com diferentes efeitos, sejam ofensivos, defensivos, ou simplesmente utilitários. Uma espada enfeitiçada para queimar seus oponentes, ou congelar seu sangue, é uma arma encantada, assim como runas, que dependem de encantamentos para fornecer proteção a uma pessoa ou propriedade”
— Armando Santiago
Harry avançou algumas páginas do livro, ignorando as notas introdutórias e teoria complacente em busca do encanto descrito na introdução do autor, e não demorou muito pra encontra-lo, era realmente a primeira tarefa prática do livro, e assim como transfiguração, parecia depender de uma série de movimentos complexos (aparentemente, o último agitar de pulso deveria vir junto com a sílaba tônica de LeviOsa, caso contrário efeitos colaterais incluíam, mas não se limitavam a: explosões, lacerações, perda de visão, diarreia, vomito, impotência ou morte) Achando tudo isso uma bobagem, como mostrado na sua brevíssima experiência rumo ao domínio da transfiguração, Harry pulou essas páginas, tentando descobrir o que diabos o feitiço fazia. Ele ficou encantado quando descobriu que era pra fazer as coisas flutuarem.
—Finalmente, eu estou me tornando cada vez mais um mago clássico – Harry pensou, fechando o livro com um baque – Seria muito maneiro se eu pudesse, tranquilamente, fazer as coisas voarem em direção a mim, ou arremessar coisas violentamente nos meus oponentes, eu quero tentar isso agora.
Fechando os olhos, pra se concentrar, ele murmurou o encantamento e observou como a bandeja de comida, agora vazia (estava deliciosa) flutuou alguns centímetros acima do ar. Harry imediatamente cancelou a magia, assim que percebeu seu sucesso.
—Não tem graça dizer “Wingardium leviosa”, apesar de “Exchange” ser bastante maneiro, eu vou tentar fazer em silencio...
Acenando com a mão da varinha, Harry tornou a levantar a bandeja, que subiu obedientemente no ar, em resposta. Ele tornou a baixa-la na mesa, franzindo o cenho ao notar que tinha algo errado com o que estava fazendo.
—Ah, que bobagem a minha – ele riu, assim que percebeu – É tosco usar a mão da varinha quando fizer isso, eu deveria usar a mão esquerda livre... Eu me pergunto se eu poderia fazer isso sem varinha, no entanto...
Levou duas tentativas, mas Harry conseguiu, e assim que percebeu que não precisava verdadeiramente de uma varinha pra fazer mágica, praticou por quase uma hora, até sentir que podia comutar qualquer coisa que quisesse com transfiguração e fazer qualquer objeto voar pelo ar, sem o menor esforço.
—Se varinhas são itens encantados, eu me pergunto se poderia encantar um cajado pra servir como varinha – ele descansou o rosto na mão esquerda, mirando sua própria varinha enquanto flutuava placidamente no lugar, usando Wingardium leviosa em si mesmo – Nada contra você, minha querida, mas um cajado seria simplesmente muito mais épico.
A ideia de simplesmente transfigurar sua varinha em um cajado veio logo depois, e Harry acabou caindo no chão, de tanto entusiasmo. Esfregando o traseiro, ele se levantou e fuçou nas gavetas, pegando alguns objetos simples que as pessoas provavelmente não sentiriam falta. Não levou um minuto e ele tinha, agrupados em um montinho diante de si, alguns lápis, os guardanapos do almoço e um novo diamante, que ele fez algumas bolinhas de gude que encontrou, provavelmente do inquilino anterior, no fundo de uma gaveta.
—Que forma ele deve ter...? – Harry pensou consigo mesmo – Eu quero algo que seja épico, mas ao mesmo tempo seja simples... Nada tão simples quanto o cajado do Gandalf, mas o do Saruman é simplesmente ostensivo demais... humm...
Por fim ele decidiu que um cajado simples, de madeira lisa polida na empunhadura e mais retorcida, na ponta, terminando num nó de madeira mais largo, entalhado pra se parecer com a cabeça de uma águia, com três penas amarradas, num nó anelar, que pendiam dali, pouco abaixo da crista de madeira. O diamante ficou encrustado dentro do nó, assim os olhos da águia, apesar de estreitos, brilhavam discretamente, sempre que ele usava magia, como ele comprovou logo depois, pra ver se sua nova invenção funcionava.
Satisfeito com sua criação insanamente maneira, ele desceu as escadas até o piso inferior, fazendo questão de pautar cada passo com uma batidinha do cajado no chão, e deu com Alessa, parecendo a ponto de morrer de tédio, na recepção.
—E aí garoto... onde arrumou esse cajado? E... por que você tem um, pra começar?
—Estava na minha mala, e... eu tenho um problema no joelho, dói as vezes, por isso uso isso pra me apoiar – ele inclinou o cajado até a cabeça entalhada de águia estar de frente para a garota – Legal né?
—Muito legal – ela concordou – Faz você parecer uma versão sem barba e mais estilosa de Merlin... Então, ta afim de ir na floresta? Já vai escurecer, e pode ser perigoso...
—Claro!
Alessa assentiu e saiu de trás do balcão, alisando a saia nas coxas e fechando a porta, assim que os dois saíram. A caminhada até Withmore Vale seguia pela rua principal do vilarejo, passando por uma trilha que Alessa explicou que era usada por pastores, na época dos saxões, e se embrenhando entre a floresta de coníferas. O sol rapidamente foi sendo tampado pela copa das árvores, e Harry começou a notar algumas coisas estranhas. Havia um estranho amuleto, feito de palha, pendurado num dos galhos mais altos, assim como marcas singulares, paralelas, em um dos troncos claros, que Harry percebeu, sobrepondo seus dedos a forma dos cortes, terem sido provocados por unhas humanas, provavelmente de alguém sendo arrastado a força para o interior da floresta.
—Se apresse Harry...
—Ah, desculpe, eu divaguei um pouco.
Ele deu de ombros e tornou a segui-la, reparando um pouco nas marcas de sangue ocasionais que encontrava no caminho, ou nas pegadas e sinais estranhos na terra, mas principalmente na forma como a saia curta de Alessa agitava ao seu caminhar, deixando à mostra, apenas por uma fração de segundo, um pedacinho do seu bumbum altamente apetitoso.
—Então, que tipo de magias você estava praticando no seu quarto, Harry?
—Ah, principalmente encantamentos, era a única coisa silenciosa que eu podia praticar... espere...
Antes que pudesse voltar os olhos pra encara-la – ele ainda estava mirando suas coxas – Alguns ramos de conífera se agarraram ao seu corpo e o levantaram do chão, o prendendo violentamente ao tronco principal de uma árvore mais grossa e alta que as demais. Harry olhou pra garota, franzindo a sobrancelha, o cajado largado na terra ao lado dela.
—Sinceramente – Alessa riu, uma expressão maníaca no rosto – Eu já trouxe muitos mochileiros idiotas nessa parte da floresta, sabe, é bem fácil, alguns são seduzidos com lendas, com outros eu só preciso mostrar um pouquinho de pele, e eles ficam loucos pra escapulir e me foder contra uma árvore, como a vadia de cidade pequena que eles acham que eu sou, mas você... Ora, o primeiro bruxo em trinta anos que aparece por aqui, e quem diria que seria a presa mais fácil que eu teria...
—Presa? – Harry perguntou, inclinando a cabeça, confuso – Quer dizer que você me atraiu aqui?
—Sim, isso mesmo, você entende agora, não é? Está ficando desesperado...
—Não, eu estou de boa...
—Não minta! Eu consigo sentir o cheiro do seu medo...
—Não, realmente – ele disse, dando de ombros com um sorriso – Mas por que me trouxe aqui, afinal? E quem é realmente você?
—Eu era o proprietário de posto de gasolina, que te deu as informações erradas sobre como chegar a Hampshire – ela disse, seu rosto mudou brevemente para o do homem – Assim como era a senhora que te atendeu, a minha suposta mãe...
Seu rosto novamente mudou para o da senhora rechonchuda e de aparência zangada de antes, antes de voltar, pro alívio do garoto, para a forma da adolescente gostosa.
—Mas quem eu sou de verdade... Eu sou a Bruxa de Withmore vale! A mesma que, a duzentos anos atrás, esses tolos saxões queimaram na fogueira, a mesma que jurou vingança contra essa cidade! A mesma que vai se deleitar no seu sangue, e...
—Não, eu quis dizer, qual é o seu nome?
A garota perdeu o fio da meada e piscou, confusa, por um segundo.
—O que?
—Seu nome, sabe, como você se chama? É Alessa mesmo?
—É... quer dizer, sim é...
—Legal você me dar seu verdadeiro nome, mesmo estando preparada pra me sacrificar em algum tipo de ritual maligno – Harry sorriu agradavelmente pra ela, que começou a sorrir em resposta até se chutar e lembrar do que tinha que fazer.
—Eu sei o que você está fazendo, não vai dar certo!
—O que eu estou fazendo?
—Você está tentando ganhar tempo!
—Estou?
—Esta sim.
—Nossa... eu nem percebi que estava fazendo isso...
—Você acha que os aurores de Londres vão chegar aqui pra salvar você? Não seja bobo! – Alessa gritou, rindo – Nesse canto esquecido da Inglaterra, eles nem devem saber que Churt existe, por que acha que viriam aqui?
—O que são aurores?
—Hummm?
—O que são aurores?
—Bem... Aurores são funcionários do ministério da magia, eles trabalham no departamento de Aplicação das leis mágicas – Alessa explicou calmamente, batendo o dedo no queixo como que pra se lembrar dos detalhes – Eles são tipo policiais, sabe, e... Que porra você acha está fazendo, acha que pode me fazer de boba?!
—Não, eu sinceramente não sabia...
—Você deve ser o garoto mais idiota que eu já conheci – ela torceu o rosto numa careta mal humorada, antes de suspirar – Mas... Não importa, eu vou me livrar de você logo logo... Sabe o que está prestes a acontecer, docinho?
—Na verdade não.
—Bem... você deve ter percebido que eu tenho mais de duzentos anos, não é, como acha que consigo manter essa forma bela e sedutora, por tanto tempo?
Harry corou profundamente.
—Bem... eu não entendo muito de cosméticos, mas...
—É com sangue humano, tolinho – ela riu – Basicamente, eu desenvolvi um ritual de magia das trevas, se eu consumir o seu sangue todo, causando sua morte no processo, eu vou ganhar toda a sua longevidade... e adiciona-la para a minha, não é bonitinho?
—Então... você vai me matar?
—Sim, com medinho agora?
Harry suspirou, parecendo profundamente desapontado. Ele acenou com a cabeça e o cajado se levantou do chão, avançando com a velocidade de uma lança em direção a cabeça de Alessa, que por não esperar algo do gênero recebeu o golpe na têmpora e caiu pra trás, zonza. Sem o controle da magia, as raízes se soltaram e Harry escorregou seguramente para o ar, o cajado voando ao seu redor, protetoramente.
—Eu sinceramente queria esperar até saber mais do que um encantamento de levitação pra ter o meu primeiro duelo mágico – ele disse, desapontado, as faces ainda ruborizadas – mas ainda sim... Como você se atreve a brincar com os meus sentimentos?!
O cajado parou de dançar no ar, ficando em linha reta com Alessa e avançando na sua direção com a força de um arpão. Ela conseguiu desviar saltando para o lado, e mesmo assim as folhas e gravetos, no chão, voaram com o impacto, limpando aquele pedacinho de chão de floresta.
—Eu achei que você quisesse ter um encontro comigo! – Harry gritou, agora com raiva, ainda vermelho feito uma beterraba.
Alessa correu do cajado, que começou a girar como uma serra e persegui-la.
—Isso é insano – ela gritou, consigo mesmo – Esse pivete consegue lutar dessa maneira usando apenas um feitiço de levitação? Isso deve ser mentira, não é possível!
Antes que pudesse reagir, o cajado avançou ao seu lado, girando e a acertando no estomago com força, a mandando caída pro chão sem folego. Harry apareceu na sua frente, e apontou a mão na direção da sua garganta, com um brilho amarelo ameaçador recobrindo sua palma.
—Desculpe, eu me enganei... Eu ainda não tentei nem uma vez, mas tenho certeza que posso lançar um Diffindo se me concentrar...
Alessa não ousou se mover, ela apenas olhou nos seus olhos e deixou um sorrisinho pequeno escapar pros seus lábios.
—Então, é assim que acaba né... – ela murmurou, se deixando cair no chão da floresta – Vá em frente e me queime, como aqueles saxões de duzentos anos atrás, faça como eles fizeram, aliás, e antes de me matar, aproveite e me estupre um pouquinho, você não vai querer desperdiçar essa carne, né?
—Você tentou me matar – Harry disse, a expressão agora completamente impassível.
—Sim... verdade.
—O que aconteceu, duzentos anos atrás?
Alessa suspirou, mas se sentou novamente, os olhos fixos no cajado que flutuava ameaçadoramente a sua volta, pronto pra acertar sua cabeça novamente.
—Duzentos anos atrás...
Duzentos anos atrás, eu vivia aqui, em Churt. Não era chamado assim, naquela época, mas Withmore Vale era, e continua a mesma coisa até hoje, eu me assegurei que nunca fosse desmatado. Era uma época perigosa, pra nós, bruxos e feiticeiros. Toda uma comunidade bruxa havia sido destruída, em Salem, nos Estados Unidos, e estávamos apavorados. Eu não dei muita bola pra isso, na época, eu vivia aqui na floresta desde que tinha três anos, e quando ficavam doentes, as pessoas vinham até mim, e eu receitava ervas pra cura-las. Foi em um verão, assim como esse, que algumas crianças se perderam na floresta. Eu fiquei sabendo do ocorrido, e como conhecia os bosques melhor do que ninguém, decidi procura-las. No entanto, eu não sabia de um grupo de busca, fazendo praticamente a mesma coisa.
Eu encontrei as crianças primeiro, você deve perceber, seis crianças pequenas, mais jovens do que você, retalhadas por um urso. Uma delas ainda estava viva, quando a encontrei, estava com um grande corte no peito, o ombro mastigado, ervas não seriam suficientes, então tentei usar o pouco de magia de cura que eu conseguia, pra tentar salvar sua vida. Era um esforço vão, mas como eu poderia conviver comigo mesma senão tentasse?! Foi quando o grupo de busca me encontrou, você adoraria a cena, homens com foices e forcados, com tochas, me observando sentada no chão da floresta, cercada de crianças mortas, com as mãos brilhando no peito da última, enquanto dava seu último suspiro... Parando pra pensar, não é extraordinário que eles chegaram à conclusão de que eu havia matado todas elas, não é? Pra que me ouvir? Eu era apenas a mulher solitária da floresta. Eles me arrastaram pelos cabelos, pra longe dali, me levaram pra longe, você sabe o que aconteceu depois. Um por um, cada um deles me bateu, me torturou e me estuprou, antes deles me arrastarem, quase inconsciente e coberta de sangue, até a vila, me atrelar num mastro, e me atear fogo... Eu sobrevivi, claro, nenhum bruxo que se preze seria queimado vivo de forma tão patética, mas e o que eu sofri? E os estupros? E a tortura? Eu queria me vingar deles... Por vinte anos eu cuidei de seus feridos, eu curei suas crianças, eu trouxe ao mundo seus filhos durante o parto, e como eles me pagam?! Eu...
Alessa engoliu as lágrimas dos olhos, se aconchegou mais num montinho no chão e mirou o feiticeiro que ouvia sua história. Ela não tinha reparado antes, mas seus olhos era de um tom simplesmente indescritível de verde, lindos olhos de esmeralda, que agora, a fitavam, regados de lágrimas, que escorriam pelo seu rosto.
—Entendo... – ele se levantou, estendeu a mão, e o cajado de madeira flutuou placidamente até ela, enquanto Alessa o fitava confusa, no chão. Não era agora que ele deveria estupra-la? Era o que acontecia, não? – Eu estou indo embora agora, desculpe por te machucar...
—Ei... Ei, espere!
Harry se voltou pra ela, e Alessa se encontrou, de repente, corando de timidez, sem saber o que dizer. Ela se levantou e caminhou até ele, fitando de cima seu único olho verde aparente.
—Você não vai me matar?
—Não.
—Por que?
—Por que eu mataria?
—Você é burro por acaso? – ela gritou com ele – Sabe quantas pessoas nos últimos dois séculos eu matei? Eu suguei o sangue de mais de trinta jovens viajantes, os ludibriei pra acreditarem em mim, os seduzi, os intimidei, os arrastei até a floresta, quando era preciso, os prendi naquela árvore e suguei seu sangue até não restar nada mais do que carcaças vazias, como você pode deixar um monstro como eu vivo?!
—Ora... você fala como se fosse minha responsabilidade – Harry sorriu de canto, flutuando os quinze centímetros que faltavam até sua visão estar na mesma altura da dela – Você faz o que quiser, eu só não posso matar alguém como você.
—Por que não?
—Por que você é parecida demais comigo mesmo – ele disse, com um sorriso, então avançou e deixou um beijo na sua bochecha, antes de dar as costas e, num impulso incrível de velocidade, desaparecer dali, subindo cada vez mais em direção ao céu, em direção a cidade.
Alessa ficou parada, estupidamente, por quase um minuto inteiro, até levar a mão a bochecha, e toca-la com a pontinha dos dedos. Depois disso um rubor que era como fogo subiu pelas suas bochechas, deixando seus olhos marejados.
—Aquele idiota – ela murmurou, coradinha, com um sorriso tremendo nas faces.
Quando voltou para o hotel, que usava pra atrair os viajantes, nem Harry nem o carro dele estavam mais ali, mas em cima do balcão, junto com uma nota de cinquenta libras pelo quarto, havia um bilhete, que ela pegou e leu, só pra depois cair na gargalhada.
“Eu vou estar em Hogwarts esse ano, por que não nos encontramos lá?”
—Decididamente – ela murmurou, com um sorriso no rosto ainda vermelho – Um grande idiota...
III
Harry tirou o mapa de dentro do porta luvas, assim como uma lata de Pepsi que ele achou que Alessa não se importaria por ele ter roubado de sua geladeira. Apesar do caminho até Whitehill estar demarcado errado, o restante parecia autentico, assim que ele anotou mentalmente as estradas que o levariam até Lower Bourne, sua próxima parada, e sorriu satisfeito consigo mesmo, tudo isso enquanto guiava o carro com os joelhos e causava mais um acidente de transito involuntário. A explosão foi só o que chamou sua atenção, e ele olhou ao redor, confuso, até notar que estava cinco quilômetros acima do limite e reduzir.
—Um motorista precavido é um motorista feliz – ele repetiu consigo mesmo, contente por ser tão responsável numa idade tão precoce.
Não demorou muito tempo pra cruzar a distância entre Churt e Lower Bourne, diferente da longa noite na estrada que levara pra sair de Little Wingling, no nordeste do condado. Mesmo assim, deu pra repetir várias vezes “Carry on my wayward son”, e experimentar algumas músicas de Black Sabbat, que estava rapidamente crescendo no seu conceito. Foi enquanto cantava “Iron man”, tentando rivalizar com a própria potência do som do Chevette, que uma flecha, de todas as coisas, atravessou o para-brisa do seu carro, parando enfincada no banco do passageiro.
Harry freou bruscamente, os pneus cantando no asfalto e levantando um cheiro horroroso de madeira queimada, enquanto ele olhava pro banco ao lado com a expressão tão vazia quanto uma lousa em branco. Então ele abriu a porta, saiu do carro e a fechou, gritando aos céus:
—Quem foi o filho da puta que estragou o couro?! É legítimo!
Duas novas flechas voaram, de direções distintas, e se não fosse pelo seu olho estranho, Harry não teria conseguido desviar delas. As manchas coloridas avançaram, de ambos os lados da sua visão, e Harry torceu o corpo, pra que passassem incólumes por ele, uma de cada lado do seu pescoço. Usar levitação pra agarra-las e arremessa-las de volta ao ponto de origem foi pateticamente fácil, mas diferente do que ele esperava, não houveram gritos de dor de malditos destruidores de couro legítimo mortos, em vez disso, ele sentiu o mundo girar, conforme seus pés eram laçados, e um instante depois, tudo estava negro.
...
Harry acordou zonzo, com um saco cobrindo sua cabeça e várias manchas de cor ao redor. Ele notou que algumas eram vermelhas e minúsculas, assim como os Dursley, mas várias também eram azuis, com diferentes níveis de tamanho e intensidade. Da sua breve experiência, ele podia dizer que os vermelhos eram o que Hagrid havia chamado de trouxas, enquanto os azuis eram magos, bruxos ou feiticeiros, seja lá como eles próprios se denominassem.
—Você tem certeza que é ele Robin? – ele ouviu alguém resmungando, apesar do som ser abafado e levemente incompreensível, por causa do tecido cobrindo-lhe as orelhas – É apenas uma criança...
—Eu era uma criança um dia Will... todos o éramos, os piores assassinos do mundo já foram crianças inocentes, o que te faz pensar que esse é diferente?
—Eu quero dizer, ok, eles já foram crianças, mas ele ainda é uma, cacete! – Harry observou a mancha vagamente azul do homem que ele supôs ser Will andando de um lado a outro, enquanto a vermelha, que ele achou ser Robin, continuava parado, de braços cruzados, bem à sua frente – Tem certeza que John passou o relatório certo?
—Sim, o espião vai chegar aqui em um Chevette 84, mesma cor e similaridades que o carro desse garoto. Além disso, ele tem um mapa demarcando Lower Bourne e Whitehill no seu porta-luvas, que é o trajeto que John nos informou que o informante iria tomar, se não é ele, quem você acha que é?
—Pelo menos acorde a criança, pergunte a ele... Diabos, torture-o se for necessário, mas você não pode simplesmente mata-lo sem mais nem menos!
—Não posso, e não vou Will, eu pretendia ter uma conversa com ele de qualquer modo, vou ter que repreender os arqueiros pela sua atitude, eu disse pra captura-lo, não mata-lo...
—Os homens ficam demasiadamente excitados nessa situação – Will disse, rindo um pouco – Mas ainda assim, ele conseguiu desviar de duas flechas e redireciona-las com algum tipo de magia desconhecida, e na idade dele... já comprovamos que ele não é um metamorfomago e nem está sob influência de poções, ele tem que ser um combatente muito talentoso pra fazer o que fez...
Robin acenou ao amigo, e tirou o saco negro da cabeça de Harry. Ambos franziram as sobrancelhas ao notar que ele estava levemente corado.
—Não foi nada, sério – ele riu um pouquinho – Mas eu acho que sou meio talentoso sim.
—Ora, ora, ora, mas que espião espirituoso temos aqui – Robin riu, tirando uma faca da cintura sob o olhar temeroso de Will – Me diga garoto, se eu soltar suas mãos, promete não nos causar problemas? Sentimos muito pela forma como você foi trazido até aqui, e claro que pagaremos pelo concerto do seu carro, mas eu gostaria de ter uma conversa com você.
—Claro, eu vou ficar de boa – ele disse, se levantando logo depois, com as mãos livres. Robin piscou impressionado e Will deu um passo pra trás, retirando duas adagas da cintura – Mas não precisa me soltar, sério, foram nós muito fáceis de tirar, só usar um simples Leviosa...
—Wingardium Leviosa, você diz, senão me engano é o encantamento de levitação – Robin se voltou para o companheiro – Will, pelo que entendo, bruxos não podem fazer magia sem suas varinhas...
—Você tem toda a razão Robin...
—Na verdade, como eu acabo de provar, eles podem sim – Harry estendeu a mão, e como uma lança, seu cajado voou até ele, do outro lado da sala. Vendo os outros dois tensos, de repente, o garoto sorriu – Eu prometi que não vou fazer nada drástico, quero saber o que você quer conversar comigo.
—Entendo, meus agradecimentos.
Bastou um olhar do rapaz pra que Will assentisse e saísse do quarto.
—Bem, agora que estamos em privado – o homem se sentou, e tirou o capuz verde da cabeça. Harry percebeu que ele era louro, com cabelos razoavelmente compridos, na altura dos ombros, um cavanhaque bem aparado e uma máscara de silicone, que grudava em seu rosto e deixava os olhos completamente invisíveis – Eu poderia começar me apresentando, meu nome é Robert de Loxley, mas meus amigos me chamam de Robin Hood.
—Seeeeeeeeei... – Harry proferiu, lentamente, preferindo não levantar questões sobre a lenda de Robin Hood, e conservar o pouco de sanidade que lhe restava – Meu nome é Harry Potter... de Little Wingling... Então... Onde estamos?
—Bourne wood, a terra ancestral da minha família, hoje em dia um covil de bons ladrões e homens felizes da floresta, todos a meu serviço, em minha honra.
“Isso soou tão gay” – Harry pensou, mas achou que fosse falta de educação dizer em voz alta.
—Eu ouvi algo sobre um espião num Chevette, vindo de Whitehill...
—Sim, um de meus homem infiltrado nas forças do xerife disse que eles mandaram um espião, pra se juntar ao nosso bando e me assassinar na surdina, eu devo dizer que soube que não era você assim que o vi, mas ainda assim, permiti que fosse trazido pra cá e interrogado pra acalmar o ânimo dos meus homens, eles são todos muito protetores sobre mim, mas agora, há algo mais que eu gostaria de tratar com você, tendo em vista suas... notáveis habilidades.
“Oh meu Deus, ele não para de soar mais gay a cada segundo”
—Bourne Wood já foi uma terra rica, assim como Nothingan, ao redor dela, éramos um vilarejo próspero, até o sagrado Rei Ricardo, coração de Leão, partir para sua brava cruzada. Como homens leais ao reino, fomos com ele, mas deixamos nossas casas, nossas vidas, a mercê da escória que restou...
“Agora ele está falando sobre Reis mortos...”
—O irmão do rei, o malvado príncipe John, aumentou os impostos, e nossa terra sofreu. Esse bando é a última esperança de resistência do reino, até a chegada de Ricardo, quando a justiça será feita, os maus punidos por seus crimes e os valorosos recompensados por sua bravura... O que lhe peço, jovem Harry, de Little Wingling, é que se junte a mim.
—Ok.
—Eu sei que não é uma decisão fácil, e é um pedido por demais incisivo de um completo estranho, de uma terra estranha – Robin continuou, como se não tivesse o ouvido – Mas nossos números são baixos, os deles, altos, nossa moral é pouca, a deles sobe a cada dia, com um mago do seu calibre ao nosso lado, poderemos... espere, o que?
—Eu disse ok, eu me junto a vocês.
Robin pareceu sem chão por um momento.
—Sério?
—Claro, parece divertido.
—Ah... sim, bem, claro que é... divertido lutar contra a opressão de um tirano, eu quero dizer, traz boas sensações de valor e coragem ao amago de um homem, é isso que quis dizer?
—É, mais ou menos isso, então, o que quer que eu faça?
—Nós capturaremos o verdadeiro espião, assim que ele aparecer, depois, peço com toda a humildade que volte ao covil do príncipe John, informe ao xerife o que lhe dissermos, e traremos os vilões para uma emboscada nossa, onde dizimaremos suas forças e libertaremos o nosso povo tão brutalmente explorado.
—Ok, parece simples o suficiente pra mim.
—Eu entendo que é uma missão arriscada, e você talvez sinta-se tentado a negar, mas eu confio no valor que queima em sua alma, na coragem, a honra e a destreza de suas mãos para desempenhar esse vital papel, e... ah, você já concordou – ele pareceu constrangido, de repente – Perdoe-me, você é talvez o homem mais valoroso e destemido que já conheci, e ainda nem tem pelo nas axilas.
“Por favor, pare, pare de soar tão gay” – Harry chorou, internamente, tentando manter a compostura do lado de fora.
—Tudo bem, mas o que faço enquanto isso?
—Nós temos alguns magos dentre nosso bando, mas nenhum que se equipare a sua habilidade e incríveis talentos. Se pudesse os ensinar alguma coisa, eles valeriam por dez vezes o que valem, em combate – Robin parou pra pensar, depois acrescentou – Apesar do valor de um homem ser medido na bravura e na lealdade, e nesse quesito, cada um dos meus homens valem por riachos de soldados do rei. Meu jovem amigo, eu estou honrado com sua presença no nosso bando, tome...
Robin tirou um manto verde e uma pena, de uma prateleira no canto, e os entregou a Harry, que deu de ombros antes de vestir a capa, deixando o capuz abaixado, e prender a pena junto com as outras, no seu cajado.
—Agora devo me desculpar, e atender alguns assuntos que requerem minha imediata atenção. Se você puder se apresentar a Will, ele saberá o que fazer, e o guiará em sua missão.
—Claro, obrigado – Harry disse, se levantando e saindo pela porta aberta, acenando um adeus.
Will estava parado do lado de fora das muralhas, quando Harry o encontrou, conversando com alguns homens que, como seu geass apontou, eram todos bruxos. Assim que o viu, carregando o cajado e olhando em volta, Will correu até ele.
—Você é o Harry não, eu fui informado do seu ingresso a resistência, deixe-me dar-lhe as boas vindas por todos nós.
—Incrível, como você soube tão rápido?
Will corou.
—Bem, na verdade eu estava ouvindo atrás da porta, Robin acha que passa um bom efeito aos novatos, de que somos bem versados e sabemos de tudo, entende?
—Claro, faz sentido, essas são as pessoas que eu devo treinar?
—Sim, todos estão ansiosos pra aprender os mistérios das artes arcanas com um mago tão experiente quanto você.
—Entendo, não vamos deixá-los esperando então.
Havia sete pessoas apenas, e um oitavo, contando com o próprio Will, entre as quase cinquenta manchas coloridas vivas que Harry tinha contado, dentro das paredes e se ocupando com várias coisas nos diferentes cantos das ruínas do castelo, que podiam usar magia, mas o rapaz parecia um caso aparte por que não ficou junto com os outros aprendizes, em vez disso pedindo licença e dizendo que tinha de tratar de outros assuntos. Os aprendizes em si eram todos homens grandes, musculosos, muitos com cicatrizes cobrindo o peito, rosto e braços e com barbas longas e emaranhadas, cada um pelo menos o dobro da altura de Harry.
—Olá, eu sou Harry, de Little Wingling, vou ser o seu mestre em magia de agora até o momento que o verdadeiro espião chegar.
Um a um, os homens se apresentaram, e um silencio tenso pesou sobre o lugar.
—Ah... mestre Harry? – um deles se adiantou – Eu sou Rellaf, de Shere, eu gostaria de saber... o que o senhor vai estar nos ensinando?
—Bem, depende, algum de vocês conhece o feitiço de levitação, o “Wingardium”?
Todos assentiram.
—Conhecem o “Diffindo”?
Todos assentiram novamente, entreolhando-se confusos.
—Sabem fazer transfiguração básica?
Todos assentiram novamente.
—Bem, então não tenho nada o que lhes ensinar, isso é tudo o que eu sei fazer por hora.
O silencio no lugar triplicou, enquanto Harry esperava calmamente por uma resposta dos seus alunos, considerando consigo mesmo como Robin tinha reconhecido pelo olho um Chevette 84 se ainda acreditava estar no século XII.
—O... O senhor está brincando, não é mestre?
—Não.
—Tem certeza?
—Absoluta.
—Mas todos nós sabemos muito mais magias que isso, por que Will e Robin enviariam um novato que sabe apenas três magias para nos ensinar, isso é um insulto!
Os outros rapidamente concordaram, gritando e atirando as mãos ao alto.
—Entendo seu ponto de vista – Harry disse, de braços cruzados – Muito bem, quem entre vocês seria o mais experiente?
Todos voltaram os olhos para o homem que primeiro tinha falado com Harry, era facilmente o maior, mais feio, mais bruto e mais massacrado por cicatrizes de todos os outros, facilmente uma cabeça mais alto que o resto do bando e três vezes a altura de Harry, sem contar os cabelos.
—Eu diria que sou o mais experiente, sou versado em transfiguração, alquimia e magia de combate, já lutei pelo Rei Ricardo e agora luto por Robin!
—Maravilha, lute comigo.
Novamente o silencio caiu sobre o campo, enquanto Harry e o gigante se encaravam.
—Você quer que eu lute com você?
—Sim, se não for muito incomodo...
—Você tem certeza?
—Absoluta...
—Bem... se você insiste, devo me reter?
—Não, venha com tudo, mas eu só vou usar o Wingardium.
—Até saber se você fala sério ou se está apenas bancando o bobo, eu vou tomar isso como um insulto garoto – o gigante deu um passo à frente, retirando uma varinha de madeira retorcida que mais parecia um pequeno galho do bolso — Por isso, se você morrer como resultado da nossa luta, culpe apenas a si mesmo no outro mundo.
—Ok, começamos quando quiser.
Sem esperar nem um segundo, o homem correu pra frente, enviando uma enxurrada de magias de cores diferentes, todas brilhantes e provavelmente recheadas de efeitos desagradáveis. Harry continuou impassível até a primeira delas estar a um centímetro de toca-lo, então desapareceu da visão do gigante, deixando apenas a poeira levantada do chão.
—O que, onde ele está? – o homem olhou para os lados, aturdido – Isso foi uma aparatação? Esse covarde fugiu da luta por que sabia que não podia ganhar? Ele...
Um som como um assovio soou nos ouvidos de todos, e assim que olharam pra cima, soltaram exclamações. O gigante, percebendo o acontecido, também olhou pra cima, no exato instante da sua testa fazer contato, dolorosamente, com o joelho de um garoto que caía no céu. Ele caiu desfalecido no mesmo instante, um hematoma já começando a se formar na sua testa inchada.
—E isso foi apenas um feitiço de levitação, o tema dessa primeira aula, então, foi a não subestimar o poder de feitiços comuns do dia a dia, a habilidade de um mago não vem de quantos feitiços ele conhece, mas de como os usa. Classe dispensada – Harry disse, antes de dar as costas e sair do local, levitando, com seu cajado o seguindo, alguns metros atrás.
“Cara... eu sou tão maneiro” – foi seu pensamento, enquanto seguia em direção a um alvoroçado Robin Hood, que corria em sua direção.
IV
Robin guiou Harry em direção a um outro Chevette 84 que, se Harry não soubesse, diria que era o seu próprio, O motorista estava desacordado, com uma flecha enfincada no ombro.
—Você é versado em cura mágica?
—Sinto muito, não – Harry respondeu, examinando a capa de volante legal que o cara tinha, e a roubando logo depois.
—Tudo bem, não se martirize sobre isso, não tinha como você saber, e além disso, não podemos salvar todas as pessoas. O valor de um homem se mede não pelo orgulho que tem do que sabe, mas pela humildade em reconhecer o que não sabe...
—Entendo, qualquer coisa que você disser – Harry deu de ombros, prestando somente metade da atenção em Robin, e mais concentrado em roubar os acessórios maneiros do carro do cara. Que sorte que o porta-luvas estava recheado de cd’s do AC&DC e do Black Sabbat!
—Espero que ainda esteja disposto a se arriscar nessa missão?
—Claro, vou fazer isso, o que quer que eu diga a esse tal de xerife?
—Todas as informações que precisa estão nessa carta – Robin a entregou – Temos poção polissuco estocada o suficiente pra que você possa manter a forma desse homem por, pelo menos, cinco horas, deve ser o bastante pra convencer o Príncipe John a ordenar o ataque onde temos a emboscada preparada.
—Entendo, vai precisar de ajuda com algo mais?
Robin pareceu surpreso, então tirou a máscara e limpou as lágrimas dos olhos. Harry se preparou mentalmente para o discurso altamente homo que provavelmente viria a seguir.
—Não obstante você se arrisca para passa-los essa informação vital, ainda deseja voltar a ajudar nosso bando, você realmente é um homem valoroso, Harry de Little Wingling, vou guarda-lo pra sempre no meu coração!
“Gay!”
—Mas você não deve voltar com eles, a emboscada que tenho preparada terá um efeito devastador, não desejo que seja pego junto, então arrume uma desculpa pra permanecer no castelo, ou fuja... eu sugeriria uma gripe forte, deve funcionar.
—Entendo... – Harry disse, tentando manter a face o mais composta possível e longe da exasperação – Então eu estou indo, vou usar esse carro, até mais.
A viagem até Bourne, a partir de Lower Bourne, levou apenas uma hora, e quando viu o castelo a distância, Harry tirou o frasco de polissuco do bolso e tomou um bom gole. Os efeitos foram quase instantâneos, mas razoavelmente dolorosos. Assim que chegou perto o bastante, os homens armados da guarda do rei apontaram suas lanças pra ele.
—Alto, quem vem lá!
Harry franziu o cenho, mas acabou dando de ombros e saindo do carro. Ele ergueu o envelope e o sacudiu no ar, a vista dos soldados, antes de tornar a embolsa-lo.
—Sou eu, Sir Guy de Gisbourne, em seu Chevette 84, com notícias para o Principe John, abram o portão!
Os guardas imediatamente baixaram as lanças, gritaram para um companheiro de cima das muralhas, e ele rodou uma pesada manivela, erguendo o portão e baixando a ponte do fosso. Harry tornou a entrar no carro e dirigiu até o estacionamento, dando com o Principe John assim que saiu.
—Guy, meu amigo e nobre conselheiro, que bom vê-lo – ele agarrou Harry pelos ombros e deu-lhe um beijo em cada face – Que notícias tem pra mim desse detestável bando de homens felizes?
“E eu que achava que Robin era gay...”
—Todas estão seladas, por segurança, nessa carta, vossa majestade – Harry se curvou – Se o senhor me der licença, posso me retirar? A viagem foi longa e exaustiva pra mim, e temo sofrer de uma forte gripe.
—Entendo, pois vá descansar meu nobre conselheiro, seu trabalho está concluído – John estalou os dedos e um bando de garotos vieram correndo, um deles jogou água no para-brisa e a secou com um rodo, enquanto o outro começou a bombear gasolina para o tanque com uma geringonça de madeira – Trataremos ainda hoje desse horrível bando de foras da lei.
Harry deu de ombros e saiu, a meio caminho para o seu quarto, ele deu de cara com uma mulher furiosa, com sobrancelhas avantajadas, dentes tortos e um nariz adunco, era basicamente a mulher mais feia que ele já tinha visto na vida, e isso contando a tia Petúnia.
—Sir Guy de Gisbourne, vejo que o vilão retorna a sua toca – ela disse, com lágrimas nos olhos – Não vê como parte meu coração? Agora meu amado Robin será alvejado pela numerosa tropa do malvado Principe John, e nosso reino sofrerá, fez tudo isso por amor a mim? É assim que demonstra me querer?
Harry suou frio como jamais havia o feito em sua vida.
—Milady, asseguro-lhe que... – ele começou, com a voz tremendo, mas Marian não o deixou terminar. O agarrando pelos ombros, ela o puxou e fez como se desfalecesse nos seus braços, gemendo alto.
—Conseguiste o que queria, pois tome-me, sempre fui a recompensa pretendida, não? – ela se deitou mais ainda encima dele, os braços estendidos no ar, como que pra agarrar algo que não estava ali. Harry tremeu de pavor – Tome meu corpo, você o ganhou, mas saiba que meu coração morrerá, assim como minha alma, pois nunca suportará ser de ninguém além de Robin...
“Por Deus não. Vá com ele! vá com ele!”
Dada a falta de reação de Harry, Marian se levantou, tentando fazer-se de digna novamente. Ela amuou e soltou o ar pelas narinas, numa expressão de indignação que deixaria Petúnia orgulhosa.
—Pois quer preparar-se pra mim, não é verdade, pois bem, seu bruto, esperarei em meus aposentos, venha reclamar teu prêmio carnal, tomado a força!
E, antes de ir, Marian deu uma piscadela e saiu correndo, entre risinhos esfuziantes e animados. Harry achou que ia desmaiar.
—Essa é a donzela da Lenda, por quem mil homens lutaram? – ele conteve um calafrio – Deuses, as pessoas tem gostos estranhos...
Harry não precisou sequer tomar a segunda dose de polissuco antes de conseguir se esgueirar pra fora do palácio, flutuando por uma janela. Infelizmente ele passou em frente à janela do quarto de Marian, e a encontrou na cama, vestindo e fazendo coisas que uma donzela NUNCA deveria fazer. Onze anos era uma idade estranha pra desenvolver alcoolismo, mas essa era uma situação tão boa quanto qualquer outra. Assim que saiu das muralhas, ele convocou seu cajado de dentro do Chevette, e acompanhou a tropa do rei a distância, curioso sobre qual artimanha Robin usaria pra derrotar os mil homens de armadura.
Ele não precisou esperar muito.
Assim que chegaram a meio caminho de Bourne Wood, onde as árvores eram altos pinheiros, Robin saltou pra frente da estrada, por puro efeito cênico, talvez, e assobiou. Imediatamente quatro catapultas foram ativadas, com as cordas retesadas ao mínimo, e uma manta entrelaçada de fios de aço finos, escondida pela areia, foi levantada com força, cortando através de membros, pele e gordura, separando cavalos ao meio e fatiando todas as pessoas. Os que não foram mortos foram arremessados pra cima, e se estatelaram no chão, longe dali.
Robin pôs os punhos na cintura e riu enfaticamente.
—Ah, as maravilhas da engenharia! – ele riu mais – O valor de um homem não é medido na força bruta de seus braços ou no fio de sua espada, mas na esperteza e na capacidade de improvisar, seus tolos!
Harry achou que já era o suficiente pra ele, e vendo o chão coberto de tripas, cérebros e sangue, vomitou numa moita qualquer.
Duas horas depois, após uma festa em sua homenagem, ele estava saindo dali, com o Chevette concertado, uma capa de volante nova e uma pena de ponta vermelha, que ele não sentiu necessidade de tirar do seu cajado. O carro acelerou no seu caminho pra fora de Bourne, e antes que pudesse se dar conta, ele estava a rumo de Aldershot. Uma trupe de artistas itinerantes estavam apresentando “Robin Hood e Guy de Gisbourne” em uma das vilas pelo qual passou, mas ele não ficou pra ouvir a história, nem ficou sabendo do famoso personagem “Harry, de Wingling”, que curiosamente, estava em todos os livros de história sobre Robin Hood no país.
V
Ninfadora Tonks era uma auror-Júnior em treinamento muito, muito infeliz. Ela havia estudado todos os anos em Hogwarts, sabendo que estaria se formando com o intuito de combater bruxos das trevas. Ela aderiu e abandonou classes, estudou e ignorou matérias, tudo com o intuito de criar o currículo perfeito pra um auror, com todos os “Excelente” e “Excede expectativas” nos lugares certos. Ela conseguira chamar a atenção do próprio Moody, que a levou sob sua asa, e recebeu treinamento direto dele, um dos melhores aurores do reino unido e um dos oficiais da lei mais bem conceituados e respeitados de toda a civilização bruxa europeia. Até aí, nada parecia dar errado. Ela tinha os feitiços, tinha o cérebro, e tinha sua capacidade única de se metamorfosear em qualquer um, a tornando uma agente de infiltração perfeita. Se não fosse sua falta de jeito com as pernas, ela poderia dizer que era o modelo perfeito do que um auror devia ser. Dedicada – com certeza – Séria – Ok... nem tanto – E habilidosa – damm right!
Só havia um minúsculo, miseravelzinho, infinitesimalmentezinho pequeno problema.
Quando seu treinamento tinha acabado, havia chegado a notícia de que magia fora praticada por um menor de idade, ninguém menos que o próprio Harry Potter, e Moody disse que se pudesse pega-lo, passar-lhe a advertência e voltar com sua resposta, ela estaria formada. Simples e fácil. Era a primeira missão perfeita, rápida de executar.
Mas havia aquele minúsculo, miseravelzinho, infinitesimalmentezinho pequeno problema.
Achar Harry Potter parecia ser IMPOSSÍVEL!
Ela tinha tomado seu tempo, colocou algumas roupas legais e foi pra casa dele, pensando como seria legal conhece-lo e dizer: “Ei, eu conheci seus pais, sabia? Se quiser posso te contar sobre eles”, então eles ficariam amigos na hora e ela poderia brincar com ele como sempre tinha tido vontade de fazer, com um irmão mais novo, e ele poderia vê-la como uma espécie de irmã mais velha substituta, um modelo a se seguir, o que seria muito, muito legal.
Isso é, até chegar lá e descobrir que a casa estava vazia, encontrar uma aborto chorando desconsolada na porta, dizendo que Harry tinha fugido, e partir feito louca atrás dele, seguindo os traços de sua magia por metade do país.
Ela estava fazendo isso já tinha quase uma semana, uma semana de desespero, dor e irritação sem igual. Ela não tinha tomado banho, mal tinha comido, e seu cabelo estava completamente horroroso. Esqueça a relação de irmã mais velha/irmão mais novo, ela ia simplesmente mata-lo quando o encontrasse.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Primeiro foi Churt, uma vilazinha pequena, com pouco mais de mil habitantes. Ela tinha falado com a garota na recepção da única pousada na cidade, e perguntado sobre um garoto de cabelos negros, óculos e olhos verdes, provavelmente dirigindo um Chevette. A garota não sabia de nada, mas disse que um rapaz com lindos olhos verdes e tapa olho tinha passado por ali mais cedo pra fazer sua vida um pouco melhor. Corando, Tonks saiu da pousada.
O próximo passo foi Lower Bourne, em seguida Bourne, e apesar do traço ainda estar razoavelmente fresco, ele já não estava mais ali. No seu caminho pela cidade ela perguntou sobre Harry, tentando pegar seu rumo antes dele usar magia de novo pra atualizar o rastro e tentar ganhar alguma vantagem, e acabou parando pra descansar em frente a uma estátua de Harry de Wingling, das lendas de Robin Hood... parando pra pensar, não é que ele era a cara do Harry mesmo? Tinha até um tapa olho...
Tonks foi tirada dos seus pensamentos, quando o rastro atualizou, e ela seguiu a caminho de New Hampshire, sem saber exatamente onde procurar. Foram horas de busca infrutífera, antes de finalmente se render ao cansaço e a fome e entrar em um bar qualquer, pedir uma porção de qualquer coisa gordurosa, coberta de chocolate, pra acalmar os ânimos, quando ela levantou os olhos e piscou, aturdida.
Cabelos negros, olhos verdes, um tapa olho, um cajado legal...
Ninfadora ficou uns bons cinco minutos, parada na porta, metade do tempo sendo gasto pra reiniciar seu cérebro cansado do choque, a outra metade pra decidir o que fazer. Por fim ela resolveu que o jeito simples era o mais efetivo, e a passos largos, foi até ele, o agarrou pelo colarinho e o arrastou pra fora do bar, sob o olhar curioso de todos os outros. O Chevette estava estacionado logo ali na frente, e Tonks o jogou no banco do motorista, prendeu o cinto nele, deu a volta, sentou no banco do passageiro, prendeu o cinto, fechou a porta, e começou a fuzilar o para-brisa de irritação.
—Ah... sinto muito perguntar assim, mas quem é...
—Me leve pra casa... – ela murmurou.
—Desculpe, o que?
—Me leve pra casa! – Tonks gritou, fula da vida, e Harry se apressou a dar partida e sair dali, cantando pneu.
Cinco minutos de silencio tenso depois, Harry arriscou olhar pro lado. A mulher estranha de cabelos cor de rosa ainda estava fixando o vidro do para-brisa como se ele fosse o culpado por todas as desgraças do mundo, os olhos praticamente queimando de irritação.
—Você vai falar comigo agora?
—Não!
—Ajuda se eu me desculpar? – Harry sugeriu, com um sorriso, mesmo não tendo ideia de quem ela era e do que ele possivelmente poderia ter feito.
—Não!
—E se eu te levar pra jantar?
Ela pareceu relaxar um pouquinho no banco, mas ainda continuou fuzilando o para-brisa.
—Num restaurante italiano... lagostas e macarrão, um bom vinho...
A cada palavra ela foi relaxando mais e mais, até suspirar e voltar os olhos pra ele.
—Muito bem, um jantar e um cinema, então eu te perdoo – ela disse, sorrindo levemente – Depois você vai me levar pra casa.
—Ok... – Harry concordou, por simplesmente não saber o que mais poderia fazer nessa situação – Você vai me dizer o seu nome?
—É Tonks... Ninfadora Tonks, mas nunca me chame de Ninfadora.
—Tudo bem, eu sou o Harry.
Ela assentiu, dando de ombros como se já soubesse, e o resto da viagem eles passaram em um silencio confortável, cantando juntos os pedaços que conheciam das letras de Black Sabbat.
O primeiro restaurante italiano que Harry encontrou foi em Fleet, a oeste de Aldershot, apenas algumas horas de carro com ele dirigindo feito um louco, o que parecia agradar a Tonks, que enfiou a cabeça pra fora pra gritar o refrão de “War Pigs”. Como ele prometera, ambos comeram macarrão italiano com lagostas, acompanhado de um bom vinho doce, que Tonks tomou sozinha, por que ele aparentemente ainda era menor de idade e não podia consumir álcool. Ele deu de ombros quanto a isso e pediu uma Pepsi.
O cinema também foi razoavelmente interessante, mas Tonks estava tão bêbada que caiu no sono na metade do filme, mesmo enquanto o Stalone brutalizava com sua .50 em Rambo. Ele saiu a carregando, ainda meio grogue, até o carro, e durante o caminho até o hotel ela ficou murmurando coisas ininteligíveis sobre ser uma boa auror e ter cumprido sua missão. Qualquer que fosse a missão dela, Harry não sabia dizer, ela tinha dito que as explicações iriam ficar pra depois do jantar, mas bêbada como estava ela não tinha condições disso. Faltava apenas um dia pra voltar pra Londres e ele precisava partir rápido, se quisesse pegar o trem, então, como um perfeito cavalheiro, ele deixou duzentas libras junto com um bilhete no quarto de hotel pago, encheu o tanque do Chevette e saiu do hotel, enquanto Tonks murmurava em seu sono.
Ele não ficou sabendo mais dela por um longo tempo depois disso.
Tonks acordou se sentindo grogue, quente, e com a cabeça mais pesada do que uma bigorna. Achando que ir ao banheiro fosse boa uma ideia, ela cambaleou em direção a privada, puxou os cabelos pra trás e vomitou lagosta com macarrão, regadas a vinho tinto, por quase um minuto ininterrupto. Isso foi acompanhado de um banho refrescante e energizante, uma boa escavação de dentes pra tirar o gosto de merda da boca e, como um mimo adicional totalmente merecido, uma boa escova no cabelo. Quando saiu do banheiro, no entanto, ela se deu conta que não estava na sua casa, se lembrou do dia anterior, e seu pesadelo começou novamente.
Encima da cômoda havia duas notas de cem libras, e um bilhete. Ela o pegou e leu:
Querida Tonks,
Eu ainda não sei por que você está brava comigo, nem quem você é ou quem pensa que sou, mas eu realmente gostei do nosso encontro ontem à noite. Você acabou bebendo demais, por isso eu te trouxe pro meu hotel e te deixei dormir na minha cama, pode ficar tranquila, não fiz nada indigno com você. Como eu estou atrasado pra um compromisso urgente, entretanto, não pude ficar pra conversar, mas o hotel está pago e eu deixei duzentas libras, pra você voltar pra casa, seja lá onde ela for, ou gastar tudo em craque caso você seja uma drogada delirante. Seja lá o que for, gostei muito do nosso tempo juntos.
Espero te ver de novo algum dia,
Cuide-se,
Harry.
Levou cinco minutos pra digerir toda a informação, e quando o fez, os funcionários do hotel se arrepiaram com o grito de gelar o sangue que foi ouvido, a três andares de distância.
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