Capítulo II
"Verão"

Nos corredores da escola, os olhares de censura eram atirados a Tiago, sussurros gritavam aos ouvidos de Tiago, críticas, por tudo, muitos nem o conheciam, de olhos presos ao chão, a tristeza abraçava-o, ele e Mafalda já tinham acabado o namoro, tinham agora uma amizade, ela não era Inês, tic, ela não lhe preenchia o vazio como Inês fazia, tac.

E eram as férias à porta, há quase sete meses que não falava com Inês...

Ricardo era um rapaz que Tiago conhecia desde o dia em que nascera, era como um irmão para ele, e foi no dia de anos de João, irmão mais novo de Ricardo que Tiago pela primeira vez ouvira falar de uma rapariga chamada Filipa, era igual a Tiago, tic, quando começaram a falar, ela fora arrogante, mas depois de se conhecerem melhor depararam-se com algo, ela e Tiago eram tão parecidos, tristes, sozinhos, obrigados a viver com aquele vazio dentro de eles, tac. Mas mais uma vez Tiago pensava que ela lhe iria preencher o vazio que trazia no peito, mas enganou-se, pensava gostar dela, uma pequena atração, mas enganou-se, nada era como ele pensava... E quando lhe ia dizer o que sentia Tiago lembrou-se que Filipa namorara com Ricardo e que Tiago não podia fazer aquilo ao irmão, nunca lhe dissera, ela não é Inês, tic, tac.

Céu cinzento, nuvens encobriam tudo, o verde das árvores era trocado pelo negro dos ramos queimados, os raios de sol davam lugar a trovões flamejantes que rebentavam no ar, de tal modo violentos que até a mais corajosa das almas encolher-se-ia com o medo percorrendo as veias, avistava-se ruínas de prados enquanto os prantos das almas se ouvia rogando a salvação, assim era o mundo de Tiago, o lugar onde o mais belo mar era um violento inferno deixado por habitar, tic, tac...

“Quem sou eu?

Eu sou quem sou,
Sou eu…
Perdido,
Não sei onde estou…

Procuro para me encontrar
Um canto,
Um recanto,
Estou farto de vasculhar

Sem êxito,
Desisto…
Já não resisto…
Cansaço…

Tento perceber…
Que tenho de fazer
Mas parece que nasci
Para esperar para morrer…

Habito este lugar sombrio
Mundo só meu…
Sinto-me vazio

Nem a mais violenta tempestade
Me faz naufragar
Pois náufrago sou eu
Até esta vida acabar

Naufrago na ilusão,
Foi nessa tempestade
Que perdi a noção de realidade

Tenho passado ou história?
Perdi a memória…


Ruídos de murmúrios
Desorientam-me,
Atormentam-me,

Já não sei se aguento
Por muito mais tempo
Este tormento…

É assim a vida que levo
Vivo sem saber;
Que irá acontecer?
Vivo sem querer…

Tristeza reina no meu coração
Lágrimas há muito caídas
Causam confusão
Em memórias vividas.

Há muito me perdi
Pelo meio da ilusão
Hoje percebo que me perdi
No meu coração.

Tiago Morais”

No meio das palavras escritas a tinta preta no branco e frágil papel, Tiago deixava parte de si, era ali que ele realmente se mostrava, o papel era preenchido com o sentimento de Tiago, tic, o verdadeiro sentimento, a tristeza, a incerteza e de vez em quando as lágrimas molhavam o papel deixando-o para sempre manchado de infelicidades vividas naquela vida sofrida, tac, era ali que ele revelava o que ao mundo não mostrava, no meio das palavras aparecia Tiago, o verdadeiro Tiago, às palavras eram tudo o que ele tinha de verdadeiro na vida, eram elas que estavam sempre ali para ele, tic, eram elas que o iam acompanhar até ao leito de sua morte, eram elas, ali, palavras que não enganam, tac.

"Mãe... Amanhã vou ter com os avós a Castelo Branco, não vou poder estar contigo, vou sentir a tua falta, não vou poder vir aqui falar contigo como costumo vir... Mãe, até eu voltar, vou ter saudades tuas e apesar de ir para lá vou feliz, a Alice deixou a droga e o pai dá Joana está mais calmo, portanto, vai ser menos difícil visto que tenho algo para me agarrar... Bem, tenho de ir, já agora ficas também a saber que passei de ano, até uma próxima mãe...", Tiago voltou a passar os portões, deixando aquele lugar, tic, tac...

O barulho repetitivo do comboio nos carris fazia-se sobressair sobre a música nos auscultadores de Tiago, embalando-o numa atmosfera de sonolência, tic; “próxima paragem Vila Velha de Rodão"; Tiago despertou num solavanco, era a paragem onde tinha de sair, cinco minutos passaram e o comboio parou, Tiago deixou aquele ambiente monótono e assim que pisou o chão da estação sentiu o sono evaporar-se, o avô, Manuel, esperava-o para o levar até à pequena aldeia de Sobral Fernando, tac.

Aquela aldeia perdida nas serras era um lugar que trazia a Tiago pensamentos que em Lisboa era impossível existirem, pensamentos que só o sossego pacificador da alma que havia naquele lugar lhe podia dar, no meio desses pensamentos Tiago perdia-se por horas a fio, olhava para a serra, para o céu e a sua mente distanciava-se de tudo o resto, as únicas coisas que deixava presas a seu coração era Inês e a tristeza que lá reinava, a escuridão dá noite era única pois ali podia ver às estrelas que enchiam o céu de luz, mas a luz não era forte ao ponto de lhe chegar à alma, tic, tac...

Saiu de manhã ainda cedo, sentou-se à beira do rio Ocreza e ficou um pouco a contemplar a beleza do azul e verde, sem dar por isso uma rapariga tinha-se aproximado, nem uma palavra dissera, sentara-se ali numa rocha também ela parecia contemplar aquela beleza única, tic, Tiago nunca a tinha visto antes, e ali sentada à beira rio, fazia-lhe lembrar uma algo estranho, os seus olhos encontram-se com os dela e de repente, Tiago pareceu conhece-la, tac...

Foi mergulhado em mais pensamentos, deitado na cama de ferro branca onde Idalina já velha morrera, tic, pensamentos obscuros inundavam-lhe a mente, pôs os pé no chão frio e descalço caminhou até à cozinha abriu a porta e sentou-se no chão, uma leve brisa corria levantando algumas folhas, ao longe, por detrás das árvores via-se os candeeiros ao fundo, tac, o fumo do cigarro esvoaçava livremente no ar, bailado com às sombras e Tiago voltou para dentro com os seus pensamentos sozinho, acompanhado pela solidão, tudo estava negro como a sua alma e Tiago adormeceu na escuridão...

Uns dias depois aquela mesma cena repetiu-se, azul e verde no fundo, ela sentada naquela mesma rocha, nem uma palavra trocaram, ele escrevia, ela suspirava, ele escreveu cravando no coração daquela frágil folha "o olhar dela disse o que o coração não teve coragem de falar, o olhar dela fez o que os lábios não conseguiram, ela é assim a sereia, amor perdido, coração partido, é ela que num olhar me tocou", tic, tac...

Os sonhos atormentavam-lhe as noites, os dias eram os pensamentos, ele nunca estava bem, e aquela sereia trazia-lhe a curiosidade de todos os tempos e o tempo corria, escorria como a areia na ampulheta, tic, tac, não parava, era sempre assim, segundo a segundo monótono, cada momento sozinho igual ao anterior, cada segundo diferente do que acabara de passar...

Voltou a vê-la, tic, era ela, sempre ali, naquela rocha fria;

"Porque não te aproximas? Eu não mordo..."; disse ela olhando-o nos olhos, continuou;

"Vem cá... estás com medo?";

"Não tenho medo de ti, tenho curiosidade de saber que segredos guardam...";

"Parece que estás a ler um livro, a falar dessa maneira, escreves?";

"Apenas brincadeiras do coração"; o vestido azul que ela trazia balouçava com o passar dá brisa, brisa essa que lhe bateu na cara, Tiago fechou os olhos, tac, escuridão à sua volta novamente, apalpando os lençóis sentiu a madeira da mesa-de-cabeceira, procurou um pouco mais até encontrar o interruptor e acendeu a luz expulsando as sombras, esfregou os olhos, tic, estava na cama, tinha sido um sonho, apenas um sonho, "teriam as outras vezes sido meros sonhos?", pensava Tiago sozinho no seu quarto, tac.

Em todas a aldeias perdidas nas serras, lendas e mitos eram contados, em avô havia um lobisomem, bruxas e bruxelas, contos de arrepiar em que muita gente acreditava com o coração, tic, mágicos e magias, mas a magia era real, aquela pequena aldeia de Sobral Fernando, ali, a magia das lendas era real, a noite ali era mágica, tic, debaixo da abóboda celestial, estava Tiago sentado a escrevinhar no caderno ela apareceu e sentou-se ali à frente dele, no chão, olhando para ele, tic; "ola..."; disse ela olhando-o nos olhos;

"Ola"; respondeu cozinhando o receio e a vergonha no sangue;

“Sou a Soraia e tu?";

"Sou o Tiago... Nunca te tinha visto por aqui";

"Nunca cá tinha estado, aliás estive cá há algum tempo atrás mas esta é a primeira vez que venho depois disso e tu vens cá muitas vezes?";

"Algumas sim..."; voltou o seu olhar para o caderno e voltou a escrevinhar;

"Que é isto?";

"Brincadeiras do meu coração"; no princípio da folha que levantava com o vento, lia-se: "Dança da Morte", os olhos dela pousaram sobre a folha e lera aquele poema, tac...

“Dança da Morte

O sol já não brilha
Nesta alma minha
Escuro, negra escuridão
Sai de dentro de mim
Por esta faca que trago na mão

Vida por um fio,
O meu sangue escorre como um rio
Deixando o meu corpo frio

Um suspiro saiu
A minha alma,
Por entre os dedos me fugiu


Não sei onde estou
Morri?
Ou apenas adormeci?

Está escuro à minha volta
E sinto a nascer no meu coração,
A revolta…

Revolto-me contra mim
Contra o que fiz
Revolto-me por ter posto um fim

Tarde me apercebi
Que cedo demais parti,
Que pouco vivi

Mas porquê viver?
Viver e ser obrigado a sofrer?
Sendo assim preferi morrer

Parti,
Nem me despedi
Fiz uma viagem sem retorno

No meu peito,
O meu coração já não bate
Fecho os olhos com medo
Não é tarde nem é cedo

Com aquele sentimento forte
Ouço uma melodia
E vejo a morte,
Dançar…
Está-me a chamar

Bela a dança
Sinto-me atraído,
Traído,
Pela própria mente

Já não mando,
Já não controlo,
Já não tenho vontade
Já não sou eu,
Mas fui eu quem morreu

Com a morte dancei
E ao fim cheguei
E agora já não sei
Se foi bom o que desejei

A dança me seduziu
A morte me iludiu
E ao fim me conduziu

Tiago Morais”

"Isto é tão triste, porque escreves assim?";

"Porque esse é o meu mundo";

"Ninguém tem um mundo assim tão... triste..."; ela dizendo isto escondeu a cara, tic, Tiago tirou do bolso um cigarro e acendeu-o, olhou para ela, viu-a e viu a alma dela;

“O teu mundo não é diferente do meu, perdida no teu coração, não sabes quem és, és mais do que o que vejo, és mais que a Soraia, isto que tens à vista de todos não passa de uma armadura que usas para te proteger, para não atingirem o teu coração, eu sou assim”; disse Tiago batendo com o dedo no peito, tac, ela fitou-o com ar surpreso;

“Como sabes que sou assim se acabaste de me conhecer”; meia boquiaberta, continuou fitando-o;

“Tu és como eu e nada mais te digo, se me queres conhecer conhece-te, mas não é assim tão fácil, porque eu acabei de te ver e não me conheço”; tic, dito isto Tiago olhou para o relógio;

“Mas… eu conheço-me e não te conheço…”; suspensa, a frase fora levada pelo vento; “se calhar não te conheces”; tac…

“Olá… como estás? Já não falamos há algum tempo…”;

“Estou bem e tu? Sim é verdade”; respondeu Joana;

“Eu também estou bem… o teu pai? O André? Está mesmo tudo bem?”;

“Sim, o meu pai acalmou e as coisas com o André estão diferentes e muito…”;

“Fico feliz mas explica… diferentes como?”;

“Ele agora parece compreender-me o que de facto é bom, ele está mudado”;

“Ainda bem fico feliz por ti…”;

“Podemos para de falar de mim e falar de ti, como estão as coisas contigo e com a Inês?”;

“Não estão, eu e ela praticamente não falamos, a última vez que falamos foi quando a conheci e isso está a dar-me voltas à cabeça, amanha vou para avô nem sei se ela vai ou não… queria tanto estar com ela e não posso…”;

“Sei o que isso é, já estive assim, nessa posição e sei que é lixado, mas vais ver que vai tudo correr bem e que ainda se vão encontrar, mas olha eu agora tenho de ir sim? A minha mãe chamou”;

“Está bem, vai lá e sim eu também espero encontra-la…”; tic, Inês não saía do pensamento de Tiago um único momento, e com o sorriso dela junto do peito dele, com o amor dela no coração dele, Tiago vivia, tac…

As árvores voavam no lado de fora da janela, a princípio desfocadas, mas à medida que o relógio batia os segundos tornava-se tudo mais claro, os vultos passaram a rostos, o som dos carris era repetitivo, monótono, sozinho naquela carruagem Tiago não sabia em que pensar, nada lhe vinha à cabeça, tic, frustrado procurava pensamentos, abriu a mala, tirou o caderno, abriu-o e destapou a caneta, mas tudo o que fora capaz de produzir eram meros riscos dispersos aleatoriamente pelo papel, a frustração aumentou… até que Tiago voltou a cair no sono, tac.

Um último abanão, o comboio parou, Coimbra, o tio esperava-o para o levar para junto dos avós, mais uma vez ia passar umas semanas na vila de avô onde conhecera Inês, onde tudo começara, tic, tac.

A viagem noctívaga, os faróis a encandear os olhos a quem passava, nada se via, tudo vazio, sombrio, os arvoredos eram assustadores e metiam medo só de se olhar para eles, pois dentro deles, no meio das árvores escondiam-se os fantasmas de segredos por revelar de histórias por contar, escondia-se o passado, escondiam-se os suspiros e os murmúrios, ali no meio dos ramos e das folhas que balouçavam, tudo estava escondido, tic, tac…

O carro estremeceu, imobilizando-se, parou, a noite quente de final de Agosto era acolhedora, convidativa, saiu do carro e sentou-se mais uma vez no pelourinho deixando passar por entre os lábios densas nuvens de fumo cor de cinza, sentia-se vazio, aquele lugar trazia-lhe memórias, tic, ali junto da fonte, acompanhados pelo som do murmúrio da água que corria livremente, ali, Tiago apaixonou-se, ali Tiago sorriu, ali ele foi feliz, mas desta vez Inês não estaria ali, provavelmente nem Catarina, tac…

O tempo passou a correr mais uma vez, e à porta de casa encontrou uma amiga, Catarina, que pelo meio da conversa lhe perguntou algo;

“Tiago… aquilo que aconteceu com a Inês o ano passado foi algo meramente físico, ou sentes alguma coisa por ela?”; tic, os olhos de Tiago esconderam-se em vergonha ainda antes da resposta;

“Eu… gosto dela, desde aquele dia ela não me sai da cabeça, eu gosto bastante dela e para mim é uma pena que não possa estar com ela mais vezes…”;

“Eu compreendo isso…”;

“Mas… ela disse alguma coisa sobre mim? Ela gosta de mim?”;

“Tiago, ela não falou de ti, eu apenas quis saber isto, quis perceber o que sentias por ela”; a conversa ficou pendente, suspensa no ar voando livre com o vento, tac.

A definição de Verão de Tiago era estar no rio, num local mais reservado sozinho acompanhado pelos seus pensamentos, um rosto conhecido aparecia de vez em quando, alguém com quem falar, de resto, os dias de Tiago eram acompanhados pela solidão e as noites pela inspiração, marcavam os momentos frases que o próprio Tiago deixava fugir do coração, tic, “Tu és quem eu quero porque és quem me acompanha, tu és a única memória que tenho de mim, tu és a solidão”, aquela alma estava novamente escura, não havia luz que iluminasse aquele local, tocha que desviasse as sombras que habitam a penumbra daquele triste e longo corredor feito de frias paredes de pedra, tac.

“Tô?”;

“Sim, Tiago, sou eu a Jennifer, estás em avô?”;

“Ah! Sim estou, estou em casa”;

“Então até já…”; e desligou, Jennifer era uma grande amiga de Tiago, uma rapariga com longos cabelos pretos ondulados, uns olhos castanhos cheios de ternura, um sorriso que aparecia por detrás de uns lábios vermelhos que estavam numa pele pálida e com sardas perto dos olhos, uma ex-namorada de Ricardo com quem Tiago mantinha uma imensa amizade, ela era quem o aconselhava para tudo e era com ela que naquele momento Tiago necessitava falar, ela saberia ajuda-lo com Inês, mas depois de horas sem fim a falar o que ela lhe dissera fora que talvez a devesse tirar do pensamento e foi ali, na sala, com o caderno assente no joelho que a preto escreveu no interior da capa escreveu, “Não importa que faça, esqueço-me de te esquecer”, Inês, aquela cara, aquele sorriso, aquele intenso olhar, não lhe saíam da cabeça, ela era tudo, tic, tac…