“Mãe, desculpa-me eu não tenho andado bem, tudo à minha volta está a cair aos bocados, a desmoronar-se como uma avalanche, não sei que fazer mais, a Joana e a Alice são tudo com que me preocupo e a vida delas não está bem e eu também não consigo estar bem, não sei se me consegues entender, mas elas são bastante importantes, eu preocupo-me demasiado com elas e se elas não estão bem eu não consigo estar… Entendes? Olha mãe eu agora tenho de ir embora, ainda vou ter aulas hoje…”;

Tiago levantou-se e acariciou a fria pedra da lápide que dizia “Ana Morais 1970-1994”, quase dezasseis anos tinham passado desde aquela fatídica noite em Tiago nascera e Ana morrera…

Passou os portões do cemitério, olhou para o céu cinzento de Novembro que ameaçava chover e refugiou-se na paragem esperando o autocarro, tic, sentou-se e meteu a mão ao bolso, puxou o maço vermelho abriu-o e tirou um cigarro e encostou-o aos lábios, sentiu o calor do isqueiro e encostou a frágil chama à ponta do cigarro que logo se tornou laranja, tac, o fumo subia ao céu em nuvens densas que de uma maneira ou de outra acabavam por se desfazer desvanecendo levemente no ar, tac o rugido do motor do autocarro soou mesmo à sua frente, as portas abriram-se e Tiago entrou sem hesitar… A viagem do 742 era sempre a mesma, monótona, a tristeza nas caras das pessoas era inevitável… quinze minutos depois e Tiago estava a sair do autocarro. Caminhou um pouco até à escola sendo sempre abraçado pelo frio de Outono, sentou-se à porta, de fones nos ouvidos, fugiu, refugiou-se no seu mundo, enquanto espaçadamente levava outro cigarro à boca, tic;

“Olá”; soou uma voz vinda por entre um sorriso, era Joana, ela era uma rapariga de olhos grandes e castanhos, cheios de ternura e carinho escondendo a tristeza presa dentro do seu coração, cabelo castanho e franja;

“Olá, como estás?”;

“Estou muito bem e tu?”;

“Nem por isso, acabei de vir do cemitério e sabes como é que isso me deixa…”;

“Sim sei, é normal que fiques assim… mas sabes que podes contar comigo.”;

“Sim sei mas quero saber como estão as coisas lá por tua casa, mais propriamente as coisas com o teu pai, ele continua com aquilo?”; tic, o pai de Joana tinha problemas com o álcool e tornava-se violento para a mãe de Joana e era Joana quem sofria com isso;

“Sim, quer dizer, mais ou menos, ele tem andado mais calmo, já nem tem bebido… olha dás-me um cigarro?”; Tiago fez um ar de frete, meteu a mão ao bolso tirou um cigarro e deu-lhe, ela acendeu-o, e voltou a falar;

“E tu e o teu pai?”;

“Eu e o meu pai…”; disse Tiago mostrando um sorriso de descontentamento;

“Eu e o meu pai estamos na mesma, ele não fala comigo, está sempre a trabalhar ou então simplesmente não me diz nada, chego a casa, uma casa vazia, fria, entendes? Em que o meu pai entra, jantamos e pronto, vai cada um para seu lado, não há diálogo entre nós… é triste…”; tac, a campainha tocou, e Joana levantou-se limpou as calças;

“Vens ou nem por isso?”;

“Já vou, já vou, aquela minha amiga, a Alice, vem cá por isso já vou…”;

“Tá bem, até já…”; e Joana desapareceu por entre as pessoas que rapidamente deambulavam para entrar na escola, Joana criara ao longo dos seus dezasseis anos uma enorme e profunda depressão sempre disfarçada por um enorme e lindo sorriso, a vida dela não era das melhores, Tiago não a conhecia há muito tempo mas preocupava-se bastante com ela.

Alice apareceu ao fundo da rua, toda de preto trazia umas botas de biqueira de aço, um casaco de cabedal com uma camisola por baixo e um gorro que lhe destapava uma franja preta cortada a direito pelo fundo da testa, de fones nos ouvidos e um cigarro na mão, assim se apresentava, tic, mas o problema de Alice, não era o cigarro, ela também tinha dezasseis anos e o vicio dela era a cocaína, ninguém sabe o porque para ela começar, mas ela também nunca mostrara vontade de deixar, tac…

“Olá”; disse Alice beijando-lhe a face;

“Tens de deixar essa merda, olha bem para o teu estado, isso é um abuso cada vez mais, cada vez que aqui vens estás pior que na anterior”; apressou-se Tiago;

“Tiago, eu não quero deixar…”;

“Mas porquê?”;

“Porque me sinto bem assim, porque isto faz parte de quem sou”;

“Não faz não… isso é parvo, as drogas não fazem parte de ninguém”; tic;

“ Para com os sermões Tiago, deixa-me ser assim”;

“Como queiras é só para o teu bem, mas à minha frente não consomes aviso-te já”; disse Tiago num tom severo, tac, Alice não tinha razões para consumir, era uma parvoíce na opinião de Tiago…

Era já noite e Tiago estava deitado na escuridão, quando esta fora atormentada pela luz;

“Estou?”;

“Tiago, sou eu a Joana”;

“Eu sei… diz”;

“Foi o André”;

“Que se passou desta vez?”;

“Chateou-se comigo porque pensa que tenho outro”;

“Porque raio pensa ele isso?”;

“Porque ele quer, tu sabes, sexo, e eu acho que ainda é cedo e ele diz que como tenho de outro não o quero…”;

“Já te dei a minha opinião sobre isso, deixa-o, larga-o, ele vai-te magoar como já o fez antes e tu vais deixar isso”;

“ Ele não me magoou, e além disso eu amo-o e ele ama-me”;

“Joana, tu matar-te-ias por causa dele, ele por ti nem metade disso era capaz, sim? Tu podes ama-lo mas uma coisa te digo, posso estar-me a enganar profundamente, mas aquele rapaz não te ama, isso tenho eu a certeza”;

“Oh! Lá estás tu com isso, vais ver que ele me ama e que nós seremos felizes juntos”;

“Talvez sim, mas Joana agora posso dormir? São duas da manhã”;

“Sim, sim, vai lá, até amanha”;

“Até amanha”, tic, Joana e André mantinham uma relação de namoro há quase 2 meses e Tiago nunca gostara de André e sempre pensara que ele não faria bem a Joana… tac…

Os dias passavam, não paravam, corriam sem muitas vezes Tiago conseguir olhar para eles, e uma semana tinha vindo, partido e já outra lá estava, era Domingo e o sol não brilhava, mas não era só no céu, dentro da alma de Tiago, estava escuro e frio… Era perto das três da tarde quando Tiago abandonou a casa, com ele um caderno e uma caneta preta com aparo em ouro que outrora fora do pai, tic, andou um pouco pelas ruas solitárias, polvilhadas de pessoas que andavam anonimas, sentou-se no banco de jardim, cruzou a perna e começou a escrever, tac.

“O Abraço

Olho para a frente
Cara-a-cara com a morte
E um sentimento forte
Passa pela minha mente

Uma luz,
Guia o meu caminho,
É ela que me conduz

Ao passar vejo memórias
Ouço histórias
Recordo momentos
Revivo sentimentos

De peito aberto,
Vejo o meu coração bater
O fim… está perto

Anseio por ele cada segundo mais,
“Onde vais?”
Pergunta uma voz chorosa
“Terminar esta viagem tenebrosa”

A luz deixou de me guiar
Não sei onde foi,
Não sei onde vou parar

Confundo-me com tudo
Já nada é o que parece
Mas cada um tem o que merece

Anjos há muito perdidos
Caiem do céu
Com os pecados vividos

Orgulho e traição
Parece tradição
Entre os seres divinos

Vejo a impureza,
Nas almas…
Esperam que sejam salvas

Olho para trás,
Alguém me diz,
“Nesta estrada morrerás”

Fico assustado,
Preocupado,
Estou cansado…

Vejo a imagem distorcida
Da verdade da vida
Vejo a dor,
Sinto o seu odor…

O fogo alastra
A tempestade começa
Perdido, espero que a luz reapareça

Caminho que mal conheço
Estrada sem fim
Já que aqui estou e estarei
Também nesta estrada morrerei

Pois se dei de caras com a morte
Não terei melhor sorte
Que esperar
Até ela me vir abraçar.

Tiago Morais”

Tiago escrevia poesia desde que tinha 12 anos, começou tudo, quando Tiago começou a ler um livro, “Poesias de Álvaro de Campos, Volume I”, era um livro dos da sua mãe, pois o pai, não tinha um hábito pela leitura, tic, a poesia de Tiago começou por imitar o estilo de Fernando Pessoa, este, tornou-se o seu ídolo, mas a tristeza da sua alma começou a revelar-se, cada vez mais, tac.

Já tinha deixado para trás aquele banco de madeira, quando viu ao fundo um rosto conhecido, era Alice, trazia consigo um sorriso, ao aproximar-se de Tiago disse;

“Deixei”;

“A sério?”; disse Tiago enchendo-se de felicidade;

“Sim, a sério”;

“E como estás?”;

“Um pouco mal, comecei a fumar mais, mas isto há-de passar”; a conversa entre eles continuou mas Tiago nunca se tinha sentido tão feliz como naquele dia, tic, tac.

“Mãe, estou tão feliz, a Alice conseguiu deixar, se ao menos estivesses aqui para ver a minha felicidade… mãe… por que razão foste embora?”; tic; “eu preciso de ti, o pai precisa de ti, ele não anda bem… ele só vê o trabalho e mal me liga… eu preciso de ti para o ajudares… Mãe, ajuda-nos…”; com a cara encharcada em lágrimas, sacudiu os joelhos sujos da poeira que repousava no chão, tac, “até amanhã, mãe”…

Nessa noite, as lágrimas reapareceram nos olhos de Tiago, ele, namorava com Maria há quatro meses, e nessa noite recebeu uma chamada assombrosa, Maria estava grávida, tic, era um pesadelo, estava a tornar-se realidade, a angústia, a raiva e a tristeza juntavam-se e inundavam os olhos de Tiago, que sentado no escuro chorava, por entre as lágrimas, cravou no braço uma lâmina, ao sentir o aço da lâmina, ao sentir o sangue escorrer, parou tudo à sua volta, tic, tac…

“Desculpa acordar-te Joana, mas não estou nada bem…”;

“Já percebi, mas que se passou?”;

“A Maria… está grávida”;

“Está o quê!?”; gritou Joana com preocupação na voz, tic;

“Ela está grávida e eu não sei o que fazer”;

“Vais ter um filho?”;

“Não, provavelmente não, ainda não falam sobre isso mas vou propor o aborto”;

“Aborto? Sabes qual é a minha opinião sobre isso, mas no vosso caso talvez seja o melhor”;

“Sim é e é disso que vou falar com ela amanhã”;

“Olha, vai dormir, amanhã falamos, precisas de dormir para manter a cabeça fresca”;

“Sim é melhor, até amanhã”;

“Até amanhã”, tac.

Amanheceu e Tiago ainda não tinha dormido, ao ir ter com Maria, o delicado assunto fora discutido e a conclusão a que chegaram foi que o melhor seria Maria abortar, tic, mas dois dias depois ainda Maria não tinha realizado o aborto, Tiago acabou a relação, tac, e foi ai que quando Tiago lhe dissera “eu ainda não acabei porque não abortaste, por uma questão de honra”, ela disse-lhe algo que ele nunca se esquecerá “a tua honra nunca te levará a lado nenhum”, tic, a relação entre eles nunca tinha sido perfeita, sempre em discussões e tudo isso desanimava Tiago, foi nesse dia que Tiago prometera algo, não voltar a chorar por nenhuma rapariga que não o merecesse, tac.

Dia após dia, hora após hora, a solidão de Tiago aumentava, e entretanto, no meio do passar do tempo, já depois do aniversário de Tiago, o Natal chegara e como sempre a vila de Avô, era o seu destino, ele, o pai e os avós maternos iam para lá, tic, tac.

Depois de três horas de viagem, o rugido do motor do carro cessou violentamente imobilizando o veiculo à porta da casa, Tiago foi o primeiro a sair, um frio enorme gelou-o até aos ossos, deixando-o quase sem respiração, tic, depois de ter ajudado a arrumar as malas, saiu de casa e sentou-se no pelourinho mesmo na praça em frente a sua casa, acendeu um cigarro e o fumo misturava-se com o denso vapor de água que saía da sua boca, levantou-se e caminhou um pouco, passou o portão dos jardins do casarão transformados em hortas, foi envolvido pela ponte, e a meio, apoiou a mão no rebordo, olhou para a água onde se refletia a luz da lua, deixou-se abraçar por aquele som hipnotizante e quando deu por si, os seus olhos fixaram-se no topo da serra que avistava ao longe onde a lua já se escondia do mundo, tac, andou até ao fim da ponte e sentou-se na fonte, de preto sentado na sombra nem reparava no que se passava em seu redor em quem passava, mas algo lhe despertou à atenção, dois vultos surgiram no outro lado da ponte coo vindos do nada, por entre as densas colunas de fumo os olhos de Tiago procuravam satisfazer-lhe a curiosidade, tic, os dois vultos transformaram-se então em duas raparigas, agora mais próximas;

“Catarina”; chamou Tiago com alguma satisfação na voz, Catarina era uma rapariga de 20 anos que morava no Bairro Alto, em Lisboa, de cabelos pretos tinha uns olhos castanhos sinceros, profundos, com ela, uma desconhecida para a qual Tiago não parava de olhar, tac;

“Inês”; disse a rapariga com um sorriso na cara, o mais belo que ele já tinha visto, um sorriso único, diferente, especial e ao mesmo tempo estranhamente conhecido, o seu cabelo alourado, uns olhos que escondiam tristeza numa alma profunda, tic, tac.

Os dias frios iam passando lá fora enquanto Tiago se refugiava num só pensamento, de frente para as chamas ardentes da lareira, ele pensava nela, na sua beleza e no seu olhar, ele pensava na profundeza daquela alma, no vazio daquele coração que ele queria preencher, tic, assim enquanto os dias frios de Dezembro passavam lá fora, Tiago sorria, sem saber apaixonado, ele, estava verdadeiramente feliz, ele esquecera a dor, ele esquecera o frio abraçando-se ao calor dela, ao calor que ela lhe trazia ao coração, à fresta de luz que ela lhe abria na alma, Inês, era a rapariga com a qual ele sonhava, ela era o que lhe preenchia o vazio, ela era tudo o que ele desejava e queria, Inês era Inês, a rapariga com a qual ele ansiara, tac…

Já uma semana tinha passado e aqueles dois seres tinham-se aproximado, e fora nas ruinas do castelo só com a luz da lua a iluminar aquele momento que os lábios de Tiago encontraram os lábios de Inês, ao tocarem-se, num mórbido silêncio, o tempo parou, tic, tac...

Uns dias depois, num local mais privado, algo aconteceu, tic, os dois seres, eram agora apenas um, amavam-se sem querer, sem saberem, eles eram parte um do outro, eles completavam-se, tac.

Mas rápido o tempo passou, a Lisboa Tiago voltava, era Janeiro e as aulas iam recomeçar e com toda aquela ocupação das aulas, eles afastaram-se, tic;

"Nem sabes... Conheci uma rapariga.";

"Quem conta-me"; o entusiasmo na voz de Joana era evidente; ela tinha mais entusiasmo que o de Tiago;

"Chama-se Inês Trindade, tem 20 anos, mora no bairro alto e é a mulher dos meus sonhos, ela é perfeita..."; ao dizer o nome dela, Tiago sorria, ela fizera aquela alma negra ganhar um pouco de luz e sorrir, tac...

Numa noite fria de Fevereiro em que a névoa cercava lisboa, Tiago deitou-se no lençol de neve e olhando para o vazio contemplava o louco delírio do amor, tanto pensou que acabou por cair, e o vazio tornou-se escuro, a névoa de lisboa era a escuridão que cercava o coração daquele pobre rapaz, densas sombras que bailavam, tic, mas rapidamente o mundo parou em seu redor, uma luz brilhou no fundo, um caminho se ergueu e meio a medo, traído pela curiosidade o sozinho rapaz avançou por aquele caminho;

"Não tenhas medo"; leve e tremulamente, de uma maneira carinhosa, soou aquela voz feminina, os pés de Tiago detiveram-se, e ao fundo na luz, bem ao longe, no fundo do caminho, uma única sombra apareceu, tac, as mãos de Tiago tremiam como ramos de árvores abanadas ao vento... Involuntariamente os pés dele voltaram a andar, e a sombra tornou-se de tal modo clara que Tiago caíra de joelhos ao chão, olhou para aquele rosto e uma lágrima solitária como aquele coração caíra, apoiou as mãos no chão, ainda soluçando disse;

"mãe... Porque foste?"; tic, tac...

De novo deitado, acordou com uma lágrima que lhe caía do olho, olhou para o vazio novamente e a única coisa na qual pensava era em Ana, ela que partira, que deixando-o o abandonou...

Mais um dia de aulas e ao voltar a casa, deparou-se com a solidão, triste solidão que inundava aquela casa, aquela alma, aquele coração.

Ainda antes das férias da páscoa, mais uma rapariga entrou na vida de Tiago, Mafalda, tic, uma rapariga de cabelo castanho ondulado, óculos, e aparelho uma semana depois de a ter conhecido, Tiago arriscou, beijou-a, tac, eles começaram a namorar, mas não era Inês...