Notas iniciais
Olá, pessoas ♥

– Boa tarde, senhoritas. E meus rapazes. – Antes mesmo de entrar no salão eu estava me sentindo sufocada. Nem mesmo o sorriso simpático de Lysandre conseguiu me acalmar. A organizadora, Julia, abriu as portas duplas de vidro, mostrando o salão espaçoso. – Notem que cada mesinha já está reservada para o casal, não se equivoquem.

Minha mesa era uma das da ponta. Sentei-me, de frente para Lysandre, coçando o rosto. A ansiedade parecia estar me dando até uma alergia psicológica. Rosa sorriu para mim, de uma mesa mais ao meio.

– Muito bem. Vamos logo aos ensinamentos de hoje. A parte mais importante dessa noite será que vocês todas são ladies. Moças educadas, gentis, são boas anfitriãs, e lindas, é claro. O que me leva à primeira lição. Cada gesto importa, não são apenas os vestidos. Por exemplo, qual seu nome senhorita?

Ela pegou minha mão e sorriu, esperando minha resposta. Estava todo mundo me olhando. Quase gaguejei antes de falar.

– Anna.

– Arrume sua postura, meu bem. E pare de roer as unhas. Um péssimo hábito.

– Desculpe.

– Notem bem o que precisam e o que não devem fazer. Sejam as princesas maravilhosas. Não parem de sorrir, não falem mais que o necessário, provem que estão felizes. Isso traz consigo a leveza, a gentileza que precisarão. O mesmo aos mocinhos. – Julia carregava consigo um leque enorme, que ela ficava batendo contra a palma da mão, quase me enlouquecendo. – Estão na companhia de princesas, verdadeiras damas. A melhor companhia que poderiam querer. A primeira prova, as refeições. Tragam o chá.

Tínhamos mesmo uma prova cujo objetivo era tomar chá sem parecer uma pessoa normal, e sim uma boneca. O pires foi colocado por um garçom na minha frente. Agradeci, com um sorriso singelo. Lysandre agradeceu também.

– Firmeza, mas ainda assim leveza. Achem o equilíbrio. Não pareçam mortas de fome. Comecem.

Estava com receio de encostar na xícara e deixar evidente que eu tremia depois de ser repreendida por Julia. Lysandre esperou eu começar para fazer o mesmo. Pisquei e segurei a xícara.

– Muito bem, Anna. Você também Melody. E Ambre. – Ela ia falando cada nome com um enorme sorriso. Soltei o ar, mais tranquila. Lysandre sorriu. Ele parecia ter a necessidade de me acalmar.

– Desculpe, estou nervosa. – Ele concordou, mostrando o bloco de notas escondido no bolso do casaco. Ele estava com medo de esquecer algum detalhe. Depois do chá, Julia passou à próxima lição.

– Sei que tem seu estilo, mas o clássico seria uma melhor opção. – Ela falou com Lysandre e olhou na direção de Leigh também. Os dois concordaram, calados. Ela deu aquele sorriso simpático dela. – Muito bem. Vocês, moças, precisarão de três vestidos. O primeiro deles é o da recepção. Algo confortável e elegante. Recomendamos poucas pedrarias. Definam uma cor, mesmo que ela possa se repetir entre vocês.

– Curto, longo, tanto faz? – Foi Iris quem perguntou. Eu não estava nem lembrando que Castiel estava naquele teatro. Ele devia mesmo ter muito carinho pela ruiva para se dispor àquilo.

– Opção sua. O segundo é o da valsa. O mais bonito deles, na maioria das vezes. Vestidos longos, minhas queridas. Da mesma cor do anterior, ou diferente, não importa. Contanto que estejam impecáveis. E por fim, o vestido para aproveitarem a festa. Algo elegante e ainda assim prático. Curtos normalmente são os mais adotados.

Naquilo os meninos teriam vantagem. Eles só precisavam estar de terno e pronto. Não que eu fosse reclamar. Eu até gostava de usar vestido, sempre me sentia mais bonita.

A voz de Julia parecia estar entrando na minha cabeça, parecido com alguma bruxaria antiga. E, infelizmente, eu estava gravando cada suspiro que ela dava. No fim da tarde, ela pediu que anotássemos sugestões de músicas para descermos as escadas e dançar. Lysandre ia pegar a caneta, mas notou que eu fiz o mesmo gesto. Esperou eu terminar e só então pegou a caneta.

Entreguei meu papel para Julia. Ela sorriu assim que leu o nome da música, aparentemente satisfeita. Olhou para o de Lysandre e nos encarou.

– Vocês dois discutiram qual iam escolher? – Neguei. Na verdade, eu nem tinha falado com ele direito. – Então devem mesmo ser um casal bem sintonizado.

– Não somos...

Ela não terminou de ouvir. Guardou os dois papéis e voltou para a entrada, recolhendo outras sugestões. Vi Rosalya me olhando com um sorriso e simplesmente ignorei.

Depois da reunião, Rosalya quis que saíssemos os quatro para comer pizza, mas eu não podia ir. Disse que precisava ir comprar o amplificador de Castiel. Ela só faltou botar um ovo tentando me convencer, mas eu mostrei as notinhas para ela.

– Tudo bem. pode ir. Castiel me deve uma.

– Você discute com ele. – Ri, acenando para ela. Os três foram embora e eu segui na direção oposta. Mais cedo, Castiel tinha me dado o endereço da loja de música que ele comprava o que precisava. Eu tinha prometido ir depois da tal reunião.

Achei fácil o endereço, comprei o tal amplificador que ele tinha sugerido e paguei com o dinheiro da turma. O vendedor sorriu e agradeceu. Ele devia estar acostumado em vender tudo parcelado, ver dinheiro vivo devia ser no mínimo divertido.

Ou a graça morava em me ver carregando aquele peso todo. Como um caixote conseguia pesar tanto? Eu tinha que parar de tempos em tempos para descansar. Gastei o dobro do tempo normal que eu tomaria para chegar em casa.

Os dias fluíram. Eu entreguei o bendito amplificador ao seu dono, que eu quase tive que socar para ouvir um obrigado. Eu continuava indo nas tais reuniões, até os dias dos ensaios começarem.

– Postura, queridas, não queremos vestidos maiores do que são de fato. E nem de quedas, entenderam? Se notarem que vão cair, segurem-se nos pares. – Julia ficava cada vez mais lunática. Toda hora agora ela esbravejava com alguma das meninas. – A música foi sugerida por um belo par, Moon River.

Sorri. Lysandre também. Podia ser pouco, mas era muito bom ser a ideia que mais agradara. Ela ia mostrando os passos e checando se estávamos fazendo certo.

– Muito bem, até a próxima reunião. – Julia nos dispensou. Eu não tive nem tempo de respirar quando Rosalya pulou no meu pescoço, animada.

– Sua mãe está esperando lá fora, disse que nos leva até o shopping.

– Vai me ajudar a escolher os vestidos. – Comentei, dando de ombros. Ela sorriu e se despediu do namorado com um beijo. E depois saiu me arrastando até o carro da minha mãe.

– Olá, meninas. Pronto? – Minha mãe sorria, radiante. Realmente, ela devia estar empolgada para me ver num vestido de festa de novo. Devia ter uns dois anos que eu não ia em nenhuma.

Realmente, compras não era a minha praia. Rosalya parecia que ia morrer se não fosse em todas as lojas. E eu só ficava pensando no carro estacionado, na minha cama, em ir embora.

– Vem cá, anda. – Rosalya me arrastou para a loja de vestidos. Ela disse que Leigh não vendia nada tão sofisticado e que ela queria surpreendê-lo, por isso tinha vindo comigo. – Experimenta algum.

Ela já tinha uns três ou quatro nos braços, enquanto eu ia passando cabide por cabide atrás de algum que eu gostasse. Azul. Gostei da cor do vestido, apesar de não ficar muito feliz com o modelo. Ainda assim eu ia experimentar. Peguei também um preto e um branco, outro rosa claro.

Minha mãe ficou esperando do lado de fora do provador. Rosalya também ajudava. Deixei o azul pro último e vesti os outros.

– Acabou com sua bunda, tira. – Rosa ficou horrorizada com o branco e o preto. Minha mãe fez um comentário negativo para o rosa também. Respirei fundo.

– É bom gostarem do azul, porque não teve mais nenhum que eu gostei. – Eu nem tinha me olhado no reflexo. Vi os sorrisos das duas e defini que devia estar bom. Voltei a reparar no espelho.

– Oh, minha nossa.

– Azul é sua cor, com certeza. – Rosalya comentou, esperando eu falar algo.

– É, acho que encontrei o primeiro. Vamos ver os seus agora, Rosa.

Rosalya devia ter pelo menos uns dez vestidos dentro daquela cabine. E eu estava quase indo lá tirar alguns para andar mais rápido. Ela não gostou de dois verdes, nem de um violeta. Vestiu dois azuis, mas não ficou muito bom. Tinha cor de enterro, como ela disse.

Acabou que ela escolheu um vermelho que ficou muito bom. Ficamos mais umas duas horas escolhendo os outros dois vestidos de cada uma. Eu fiquei com o azul, um roxo e um vermelho. Ela acabou com o vermelho, um branco e um azul claro.

– Muito bem. Eu te levo em casa, Rosalya, já está tarde. – Minha mãe comentou, pegando as chaves do carro e indo na direção do estacionamento.

Depois de deixar Rosalya em casa e irmos para o nosso lar, guardei as sacolas com minhas roupas novas no armário e fui me aprontar para dormir. Acordei no dia seguinte, vesti a roupa mais confortável que encontrei e fui para a escola. Kim me esperava para checarmos se o porão seria o lugar ideal.

– Parece bom. Se tirarmos todas as caixas, lógico. – Kim mascava um chiclete, escorada no corrimão da escada. Ela tinha olhado o espaço antes e pedido a opinião de um amigo dela.

– É, se tirarmos essa tranqueira toda. – Concordei, suspirando. Mais trabalho.

– Bom, eu preciso ir. Tenho um compromisso agora. Eu chamaria ajuda para limpar isso tudo.

– Pode deixar, eu vou pedir. – Sorri, deixando-a ir. Pedi Rosa por sms para me encontrar lá embaixo e recrutar quem ela pudesse.

– Espero que considere o Lys-fofo um bom recruta, só consegui encontrá-lo. – Ela olhava ao seu redor, pondo o cabelo atrás da orelha.

– É, mas acho melhor conseguirmos mais gente. Isso aqui está uma bagunça. – Dei mais um suspiro e prendi o cabelo num rabo de cavalo. – Vou ver se Nathaniel está por ai e procuro mais alguém.

– Se der esse sorriso sedutor seu, aposto que todos os meninos vão vir. – Ela falou, sorrindo. Revirei os olhos e subi as escadas.

– Castiel. Hey.

– O que? Que foi?

– Precisamos de ajuda limpando o porão, para o show. Podíamos usar sua ajuda.

– O que ganho nisso? – Ele tinha que ser essa pessoa horrível sempre? Respirei fundo, dando o melhor de mim.

– Saber que foi uma boa pessoa uma vez na vida? Uma boa ação para poder entrar no céu?

– Tudo bem, estou precisando aumentar a lista e, por sorte, estou de bom humor. Porão?

– Eu já te encontro lá, bom samaritano. – Sorri, indo atrás de Nathaniel. Armin estava passando pela porta do grêmio, então aproveitei a chance. – Armin, querido.

– Oi, meu bem, fala. – Ele deu um sorriso, desligando o videogame.

– Precisamos de ajuda para limpar o porão. – A cara que ele fez teria me desanimado, mas segui o conselho da Rosa e dei o meu maior sorriso. – Anda, por favor. Vai tudo mais rápido se você vier também.

– Ok, eu vou. Já estou indo. – Concordei e mandei ele seguir, antes de entrar no grêmio e quase cair num Nathaniel sentado atrás da porta. Ele ficou de pé, fechando seu livro.

– Posso ajudar?

– Pode. Preciso de você para limpar o porão. Vem.

– Eu estava pensando em fazer o dever de inglês.

– Aquele que temos mais uns quatro dias para fazer? Para com isso e anda, vem. – Tive que arrastá-lo pelo braço até o corredor, antes de ele começar a rir e me acompanhar de bom grado, sem soltar o braço do meu.

– Parece que chegou todo mundo. – Rosalya estava esperando com os meninos do lado de fora, sorrindo. – O casal está ocupado?

– Que? Ah, desculpa. – Soltei Nathaniel e o empurrei na direção dos outros. – Hum, então, qual a logística? Trabalhar em duplas?

– Pode ser, assim vamos mais rápido. – Castiel comentou, segurando Lysandre pelo casaco. Talvez ele estivesse com medo de ser largado comigo ou com Nathaniel.

– Tudo bem. Eu fico com Nath então. Rosa...

– Vamos logo, Armin. Anda. – A ideia das duplas funcionou bem. Eu e Nathaniel levamos algumas caixas para o grêmio e depois carregamos algumas carteiras para as salas. Ao que eu notei, Castiel e Lysandre iam levando quase tudo que podia ficar no ginásio. E Armin e Rosalya tiravam as escadas.

– Muito bem. – Falei, voltando depois da última viagem. Olhei o espaço, agora vazio. – Eu nunca tinha notado que era tão largo. Ficou bem legal.

– Essa andação me deixou com fome. – Rosalya falou, esperando que alguém concordasse com ela. – Vou buscar uns salgadinhos e refri, me esperem aqui.

O bom da Rosalya é que ninguém nunca a enfrentava. Bom, eu o fazia, de vez em quando, mas era raro. Ela tinha um jeito bem firme, e ninguém queria saber como ela era contrariada. Não demorou muito ela voltou com nosso lanche.

A outra vantagem da Rosalya é que ela conseguia criar aqueles momentos. Os seis dentro do porão agora mais espaçoso, comendo batata chips e tomando refrigerante, simplesmente conversando. E o mais importante, em paz. Nathaniel ficou do meu lado, roubando minhas batatas.

Acabou que eu não comi muito. Eu aproveitei que Nathaniel disse que ia me levar até minha casa e, com suas pernas de travesseiro, eu tirei um cochilo. Adormeci enquanto ele brincava com meu cabelo, agora solto.

Notas finais
Boa noite pra vocês :3