Lá E De Volta Outra Vez

73 Dois Lados de Uma Mesma Moeda


Notas iniciais
Alou, pessoas. Eu achei que já tinha postado esse capítulo, mas a cabeça de vento viu que faltava só terminar um parágrafo (o que escrever de madrugada não faz com a pessoa kk). Enfim, pensando que já estou na altura do episódio 36 do jogo, to começando a perceber que não vai demorar tanto assim pra esse ciclo acabar. Ainda to considerando escrever sobre o UL, mas não sei se começaria outra fic, se seguiria aqui mesmo...Deixem uma opinião sobre, sempre bem vinda. Sem mais enrolação, boa leitura ♥

Normalmente, as aulas de Patrick passavam num sopro. Era só eu me sentar, e dois minutos depois ele estava nos dispensando. Hoje não. Eu conseguia ouvir os ponteiros de um relógio, que eu nem sei se existia naquela sala, se movendo. Encontrei o outro gêmeo dentro da sala, a cabeleira colorida sentada mais ao canto, não tão ao fundo.

Eu precisava falar com ele. Eu já tinha ouvido o que Armin tinha a declarar, mas para Alexy parecia que seria pior. O próprio Armin disse que ele era mais sensível quando se tratava dos pais biológicos. E tinha também o que ele tinha dito sobre as “conversas” das pessoas. Ele provavelmente já foi vítima de tanta conversa maldosa, que com certeza devia ser, no mínimo, desconfortável.

Quando Patrick finalmente nos libertou, eu juntei minhas coisas e tentei sair da sala para ir atrás de Alexy. Tentei. Um par de braços envolveu minha cintura e me impediu, me puxando alguns passos para trás e me girando, finalmente me pondo de frente para meu bloqueio.

Ele era tão lindo que meu peito parecia ser pequeno demais para o coração lá dentro.

– Bom dia, Anna. – O jeito como ele falava meu nome sempre transformava meus joelhos em geléia, mas o jeito como ele me deu um beijo na testa me transformou inteira em uma poça.

– Bom dia. – Eu sabia que o sorriso que estampava meu rosto era bobo. Eu simplesmente não me aguentava diante de tanto carinho. – Como passou a noite?

– Sonhando com você. Tudo bem com o Armin? – Ele perguntou. Não encontrei traços de ciúme, mas decidi explicar mesmo assim. Não era nada para esconder também.

– Eu achei ele e Alexy brigando antes da aula e acabei fazendo um interrogatório...sobre a prisão e tudo. E o contei da Iris também.

– Entendi. Bom, a grande terapeuta desse colégio não descansa. – Ele me deu um abraço, levantando o queixo para apoiá-lo em minha cabeça. Sorri mais uma vez, amando aquela proximidade. E melhor. Sem me preocupar com mais ninguém.

– Eu sei que tenho um impulso de me intrometer em assuntos alheios, mas eles são meus amigos e Armin tinha prometido me explicar tudo sobre a tal prisão.

– E ele te contou? – Ele perguntou, voltando a olhar para mim. Respirei fundo, olhando ao redor da sala. Já estávamos sozinhos. Eu sabia se tratar de um assunto pessoal, mas ele talvez pudesse me ajudar em como agir. Se até do Nathaniel eu contei para ele.

– Ele acessou alguns dados confidenciais do banco de dados da cidade natal dele. Digamos que ele...se desafiou.

– Ele hackeou o site da polícia? Com qual intuito?

– Ele queria encontrar os pais biológicos. – Olhei para ele, surpresa em vê-lo sério, quase chocado eu diria. Sorri com a expressão nova dele. – E ele fez isso em segredo da família, ou seja, Alexy está completamente irritado e chateado.

– Eu sempre soube que o Armin era do tipo...impetuoso, mas não que ele faria algo ilegal nesse meio. Bom, eu imagino que eu interrompi sua caçada ao Alexy, então?

– Não é uma caçada. Eu só quero saber como ele está. O próprio Armin me disse que o irmão é mais sensível com esse tópico.

– Apesar de eu estar certo de que você saberá cada palavra para falar, talvez nem precise de tudo isso. Talvez ele só queira alguém que o entenda.

– Bom, eu não sei nada sobre ser adotada, mas eu com certeza sou boa em ouvir.

– Eu sei. Não vou te travar mais. Boa sorte. – Antes que ele soltasse o abraço eu aproveitei que já estava tão próxima e dei um beijo no pescoço dele. Senti o peito dele subir e descer sob minha palma, respirando fundo. Sorri e fui atrás de Alexy.

E não foi fácil acha-lo. Eu procurei nas salas, nos corredores, em alguns cantos mais escondidos da escola, como perto dos banheiros e o jardim. Nada no ginásio também. Fui até o vestiário e bati na porta, já aberta.

– Alexy, você está ai? – Depois de uns segundos, ouvi uma afirmativa fraca. Suspirei. – Tudo limpo? Posso entrar?

– Sim. Eu vim até aqui justamente porque não teria ninguém. – Ele respondeu, e eu já estava ao seu lado.

– Posso te deixar sozinho se quiser, mas eu gostaria muito se você pelo menos me dissesse como você está.

– Como você acha? Eu não estou nem suportando olhar a cara dele. Eu não acredito que mesmo com tudo isso ele ainda acha que era só um desafio, um jogo como aquelas porcarias que ele não larga nenhum minuto.

– Eu conversei com ele sobre o assunto. Quer conversar também?

– Quero. Anna, ele estava distante há tantos dias. Eu comentei com a Rosa, já que você estava ocupada com sei lá o que. Ele parecia preso numa bolha e então...bum, ele me diz que era sobre nossos pais biológicos. Eu me senti traído dele ter feito isso sem dizer nada. Eu considerei que talvez você soubesse de algo, mas você tinha nos dito que era sobre a Iris. Aliás, vocês a ajudaram?

– Já, conseguimos resolver tudo. E eu não sabia. Eu até o vi mexer numas coisas um dia, mas assim que eu me aproximei ele fechou tudo e disse que não podia me ajudar naquele dia.

– Eu sempre considerei o Arnaldo e a Vitória nossos pais, Anna. Aliás, não considerei, eu considero. Eles são meus pais. E o Armin, ele...bem, eu achava que ele também. Só que do nada ele me vem com isso de pais biológicos. Para quê? – Alexy já estava bem menos irritado agora. Claro, o tom explosivo ainda estava lá. Mas eu podia ver a mágoa por trás disso. E pior. O medo.

– Alexy, eu não quero bancar a terapeuta nem nada, juro. – Ele deu um sorriso fraco, esperando pelo que eu adicionaria. – Você não estava só com...medo, de que ele encontrasse algo?

– Eu pensei nisso. Eu não queria que ele conseguisse nada, mas não é por medo de saber porque fomos abandonados, ou algo assim. É só que, eu não tenho nada a ver com seja lá quem for esse casal. Claro, eles me puseram nesse mundo, e eu sou grato por isso, mas nossa relação morre ai. Só que o Armin não percebe. Nada, ele não percebe nada.

– Seus pais?

– Eles ficaram abalados. Eu sei que eles tentam disfarçar e evitar demonstrar algo para não piorarem tudo, mas que pai não ficaria arrasado de saber que não é suficiente pro filho?

– Alexy, eu sei que isso tudo é horrível, mas você tentou conversar com ele? Com calma. Seu irmão leva em consideração como você se sente...

– Aham, claro. Ele não ouve nada além do que ele quer naquela cabeça dura dele. – O tom raivoso voltou. Suspirei. Eu não podia dizer que ele estava certo ou não, pelo simples fato de que eu não tomaria partido ali. O Alexy era meu melhor amigo, praticamente junto de Nathaniel no pódio, mas Armin também era importante. Ele também era meu amigo, e tinha me ajudado muito.

– Bom, e que tal uma volta na lanchonete depois das aulas? Pra gente sair um pouco desse clima ruim.

Alexy tinha razão quando reclamava das conversinhas. A escola toda estava olhando para ele estranho, cochichando e sussurrando coisas que eu nem queria saber o que eram. E ele também reparou.

– Não seria ruim, ir pra algum lugar e não ser tratado feito um bandido. Eu tive que me convencer a vir ver as aulas e ainda estou me arrependendo.

– Eu fico feliz, eu senti sua falta. De verdade. – Ele pegou minhas mãos, finalmente esboçando um sorriso real, apertando-as de leve. – Eu te vejo mais tarde, então.

Ele me soltou e eu o deixei sozinho. Eu não ia tomar partido naquela briga deles, mas era importante que ele soubesse que mesmo assim tinha meu apoio. E por falar em apoio, decidi procurar por Rosa. Com todo esse problema de Iris, ela tinha se responsabilizado por Alexy, mas eu mesma quase não falei com ele nos últimos dias. E conhecendo a peça, ela não estaria exatamente satisfeita.

Com minha sorte, eu achei a escola toda antes dela. Violette estava em uma das salas, quase que encolhida em um dos cantos, rabiscando numa folha. A carinha abatida dela me impediu de ignorar sua presença, e fui falar com ela.

– Oh, oi, Anna. Tudo bom?

– Comigo sim. Está tudo bem? – Perguntei, me sentando de frente para ela. Ela suspirou, soltando o lápis e apoiando o rosto nas duas mãos.

– Não. O Alexy não está nem parecendo ele mesmo. Ele está triste desse jeito pelo irmão?

– Podemos dizer que sim. A prisão do Armin deixou ele bem chateado, pelo que o Armin fez. Ele acessou umas coisas confidenciais.

– Eu também ficaria triste vendo meu irmão sendo preso. Não que eu tenha um.

– Dá pra pensar, né? Eu sei que você não vai contar para mais ninguém, mas só reforçando para não levantar o assunto.

– Tudo bem. Obrigada pela confiança. – Sorri, ficando de pé de novo. Eu precisava achar Rosa. – Você acha que um desenho animaria ele?

– Vindo de você, Vi, o Alexy amaria qualquer coisa. – Ela deu um sorriso tímido. O fato é que Violette provavelmente nunca tinha superado seu crush em Alexy, mas pelo menos ela sabia se aproveitar daquele carinho todo. – Com licença.

Voltei à minha busca. O último lugar que eu olhei foi o porão, mesmo já imaginando que estaria vazio. Não estava. A dupla dinâmica de músicos estava lá, e parecia bem agitada.

– Eu não sabia que você ficaria chateado assim, eu peço desculpas. Só não precisa exagerar. – A voz de Lysandre falava no mesmo tom contido de sempre, mas Castiel não estava tão satisfeito assim.

– Ah, é exagero eu achar ruim que meu melhor amigo não me conta mais detalhes como esse, realmente. Uma baita demonstração de confiança, meu peito chega a doer. – Eu tinha achado que poderia ser uma discussão sobre os hábitos ruins do Castiel e seus cigarros, mas me enganei.

– Eu confio em você, Castiel, você sabe bem disse. Você deve saber todas as minhas senhas de cartões de crédito e e-mails.

– Ah, e isso você não podia me contar?

– Eu ia contar antes, só que ai eu me concentrei em outra coisa e o tempo passou.

– Ah, mas o que seria? – O tom debochado de Castiel me fez temer que aquilo poderia virar uma discussão séria. Lysandre já parecia cansado de toda aquela conversa. Bati de leve na parede, limpando a garganta.

– Oi, meninos. – Cumprimentei, e obtive um oi bem seco em resposta, vindo de Castiel. Nada de novo sob o sol.

– Ei, Anna. Você tem um ótimo timing para aparecer nos lugares.

– Tenho? O que foi?

– Nada. – Castiel falou, mas Lysandre emendou por cima dele, quase ignorando o outro.

– Castiel está chateado porque eu não contei para ele antes sobre nós dois...

– Eu não estou chateado com o relacionamento de vocês, essa historinha suas não é problema meu.

– Bom, se for assim, eu posso deixar vocês se resolverem sozinhos. – Pensei em sair e deixar a situação para os dois, eles já eram bem grandinhos.

– Não, fica. – Os dois falaram juntos, antes que eu me virasse. Foi tão espontâneo que até eles estranharam e se olharam rapidamente. Sorri de leve.

– Bom, tudo bem, então.

– E se almoçássemos no jardim hoje? Está um dia lindo, não é? – Lysandre decidiu mudar de assunto, se aproximando um pouco de mim. Reparei como ele estava medindo seus movimentos, muito provavelmente pelo olhar quase cortante de Castiel sobre nós.

– Acho uma ideia ótima.

– Bem, eu vou pegar uns sanduíches? Você quer vir? – Ele se virou para Castiel, que parecia a ponto de ter um derrame.

– Nem morto. Não gosto de segurar vela. – Lysandre suspirou, mas não insistiu.

– Você quer algo específico? – Ele finalmente segurou minha mão, me fazendo sorrir.

– Se ainda tiver daquele de patê de frango. Ou então o de presunto de peru. Aliás... – Parei para pensar um segundo na fome que eu estava, justamente por não ter tomado café. – Pega um de cada para mim. Eu não tomei café, estou morrendo de fome.

– Tudo bem. Te espero lá. – Ele soltou minha mão e deixou o porão. Olhei para Castiel, ainda de braços cruzados e cara fechada.

– Leve todos os sanduíches disponíveis de uma vez. – Ele falou com a vozinha aguda, um segundo antes de Lysandre fechar a porta. – Ele te deixou sem nem um beijinho? Oh, não. Espero que o pudor não te deixe esfomeada.

– Não precisa se preocupar nenhum pouco quanto a isso. – Respondi, fazendo-o revirar os olhos e descruzar os braços. E então, quando eu me aproximei, ele deu o jeito dele de jogar sua última cartada.

– Caso ocorra, você sabe onde me achar.

– Ele ainda é seu melhor amigo, Castiel. Não deveria falar assim.

– Ele é o amigo, eu sou o melhor. – Revirei os olhos, fazendo-o dar aquele sorrisinho debochado dele. – E quanto a isso, para sua infelicidade, é uma brincadeira. Você só encostará no meu corpinho em seus sonhos mais pervertidos.

– Bom, você o ouviu, ele me espera no jardim. Imagino que você também não vá ficar por aqui mais.

– Vou sair o mais rápido possível.

– Então, até mais. – Virei as costas, deixando o porão primeiro. No último degrau, antes de passar pela porta, falei o que eu finalmente poderia falar para ganhar aquela briguinha de provocações. – Castiel. Você é bem ciumento, hein?

Antes que ele pudesse disfarçar, sorri e fui embora. Quem diria que o Castiel seria tão possessivo sobre Lysandre.

Desisti de encontrar Rosalya e fui direto para o jardim. Achei a diretora conversando com a professora Delanay, e a mais nova não parecia muito satisfeita. Passei direto, ouvindo só o tom de descontentamento da professora.

Ele já estava em um dos bancos, observando um arbusto ao seu lado. Logo assumi meu lugar ao seu lado, apoiando o queixo em seu ombro. Ele se virou, meio alarmado, o rosto muito próximo do meu. Acabei com a distância e lhe dei um beijo, ao qual ele parecia bem feliz de ganhar.

– Achei que já estaria comendo. Tentei achar Rosalya, mas desisti.

– Eu quis te esperar. Ela pode ter ido até o centro. – Ele pegou os dois sanduíches e me entregou, sorrindo. – Eles não tinham o de presunto de peru, peguei o de presunto cozido.

– Está ótimo. – Abri o primeiro e comecei a comer, quase que numa mordida só. A fome era realmente o melhor tempero. Quando terminei e abri o segundo, reparei o sorriso dele me olhando. E travei.

Eu era uma pessoa relativamente insegura com meu tipo físico. Além de me achar alta demais, os quilinhos extras também não me ajudavam. A questão é que eu nunca fui de reclamar muito disso para ninguém. Eu sabia quais eram as soluções: fazer dieta e ir a uma academia com frequência. O boxe até me ajudava um pouco a me manter, mas como eu passava algum tempo sem me exercitar, as vezes meu corpo não tinha muito como impedir o ganho de peso. Então, normalmente, eu só tentava ignorar as coisas que poderiam me deixar insegura.

Naquele minuto, sob o olhar de Lysandre, com meu segundo sanduíche em mãos, eu hesitei um pouco. E ele percebeu.

– Você é uma graça, sabia? Apesar de não achar que deveria pular seu café da manhã.

– Normalmente um sanduíche desses me enche, de verdade.

– Eu sei. Eu já reparei que você não come muito normalmente. Não que isso seja da minha conta.

– Você é o melhor, sabia? – Sorri, lhe dando um abraço. Ele sorriu de volta, retribuindo com o braço sobre meus ombros.

– O que foi que eu fiz? Te contei um fato. Você é maravilhosa. – Sorri ainda mais, se é que era possível, e acabei de desembrulhar o sanduíche.

– Quer um pedaço? – Levei o sanduíche até a altura do seu rosto, e ele aceitou. Também mordi um pedaço do dele, ainda naquele abraço torto nosso. Pus minhas pernas no banco, como um casal assistindo um filme no sofá de casa. Era aconchegante. Sabendo que eu passaria a tarde com Alexy, e que provavelmente não seria o melhor clima do mundo, aqueles momentos de paz e amor eram muito bem vindos.

Notas finais
Abraços, mores ♥