Notas iniciais
Para compensar a ausência nos últimos tempos ^~^ Bem fofinho antes de dar a pedrada, hehe. Aproveitem ♥

Eu gastei mais uns dois dias para acabar minha peça. Num resumo, eu tinha me resolvido decidindo fazer algo mais geométrico. O corte era mais rápido e fácil de ser feito e me dispensava a necessidade de Lysandre colado nas minhas costas.

A diretora veio ao fim do dia reunir todos e avisar sobre a nossa pequena feira de artes plásticas, que se realizaria na sexta feira. Não teríamos aulas e tínhamos permissão de convidar nossos familiares e amigos. Eu imaginei que só teria meus pais e tia Ágatha como convidados, mas só isso já me deixava ansiosa. Por menos pior que meu trabalho tivesse ficado, ainda não estava bom.

– Bem, executaremos uma limpeza e iremos organizar as obras no pátio, portanto também serão dispensados amanhã. Agradeço a compreensão e a colaboração de todos. E também do professor Savin, claro. Ele nos ajudará a selecionar a melhor peça exposta.

Um prêmio a mais para minha lista de prêmios que nunca ganhei. Ela era cheia. Pelo menos a folga seria muito bem-vinda. Juntei minhas coisas, arrumei minha bancada e fui para casa. Meus pais não estavam, então simplesmente subi pro meu quarto e fui achar algo interessante para assistir. Acabei pegando uma série policial que eu já tinha começado há tempos. Nathaniel me viciou naquela porcaria de gênero.

Telefone tocando. Suspirei. Nunca fui fã de falar ao telefone, menos ainda com tia Ágatha. Ela adorava se perder em casos e mais casos do hospital. Eu adorava e admirava o trabalho dela, mas ficar com a orelha quente pelo aparelho telefone não dava. Larguei meu computador e fui atender, descendo correndo.

– Alô.

– Oi, Anna. Quanta saudade.

– Lety? – Confesso ter precisado de alguns segundos para reconhecer a voz alegre. Tanto pela surpresa de tê-la me ligando quanto pelo choque de não ser tia Ágatha. – Oi, tudo bem?

– Sim. Aqui, deixa eu te perguntar. Meus pais e eu viemos para a cidade de novo e eles me sugeriram que eu passasse um tempo com você. Eu estou precisando tirar umas coisinhas do peito também, então seria ótimo. – Ela conseguia falar tanto quanto minha tia. – Enfim, meu plano era termos uma pequena festinha do pijama só para nós. Bom, se quiser convidar mais alguém, mas como eu não conheço, eu...

– Lety, eu adoraria te ter aqui em casa, mas pode ser amanhã? Eu aproveito e te levo para dar um passeio na escola, na sexta.

– Ai, jura? Pode ser dia que você quiser, até porque eu não quero atrapalhar se você já tinha algum compromisso. Eu vou estar aqui até o fim de semana que vem mesmo, mas na segunda vamos para a praia...

– É, você pode vir amanhã então. Vou avisar meus pais, ok? Eu preciso ir agora, ok?

– Ah, tudo bem. Vamos conseguir botar a conversa em dia logo. Um abraço, amiga.

– Tchauzinho, Lety.

Desliguei, sorrindo. Lety me fazia bem. Talvez eu nunca tivesse confiado nela como confio em Alexy e Rosalya, mas foi mais por uma questão de chance. Eu passei por coisas bem piores por aqui, e os dois me levantaram. Ela era simplesmente aquela companhia divertida da escola, com conversas um pouco mais íntimas.

Avisei meus pais como o prometido e até passei minha manhã dando uma ajeitada no meu quarto para receber minha visita. Meu pai se empolgou e quis fazer algo especial para a janta. Lasanha. Sorri, satisfeita. Ele era excelente cozinheiro. Minha amiga chegou às 6 em ponto, com uma mochila imensa e o sorriso fixo no rosto de boneca.

– Oi. Você está linda, sabia? Oi, eu sou a Lety. Lembram de mim, né?

– Claro que sim, Lety. Como vai? – Minha mãe sorriu, gentil como sempre. Meu pai era mais calado, mas também não deixou de cumprimentar.

– Vamos deixar suas coisas no quarto antes da janta, vem. – Ela subiu atrás de mim, sorridente como sempre. Deixou sua mochila na cama e foi estudar a minha parede com o desenho da lua.

– Sua mãe quem fez?

– Foi. Senta ai, me conta como anda a vida.

– Ai, ainda bem que perguntou. Eu estou totalmente sem rumo. Sabe, eu fiquei pensando desde o nosso último encontro e depois do meu último caso e...eu decidi dar um tempo nos meninos.

– Virou lésbica?

– Claro que não, boba. Não é isso. Não se vira lésbica.

– É, eu sei, você entendeu.

– Eu só pensei que eu não vou morrer se ficar sem beijar alguém por algum tempo. Além do mais, eu acho que me peguei virando uma pessoa que eu não era. Eu estava virando uma pessoa totalmente sexy e sem preocupações, mas no fundo eu sou...

– Meiga, brincalhona, meio infantil. Você é você, e se estava precisando mudar para conquistar alguém...

– Foi isso mesmo que me fez tomar essa decisão. Eu preciso me reencontrar. Um tempo sozinha vai me fazer bem. – Ela sorriu, satisfeita consigo mesmo. Sorri também.

– E já tem quanto tempo?

– Uma semana.

Não consegui segurar o riso. Ela ficou meio ofendida, mas logo viu o suposto absurdo da situação e riu também. Minha mãe bateu na porta e anunciou nosso jantar. Aproveitamos e descemos juntas dela, nos organizando na mesa.

Conversamos bem. Minha mãe sempre demonstrava interesse na vida dos outros, e como Lety amava conversar, as duas se deram bem, como já se davam antes. Meu pai comentava algo às vezes, mas era raro. Assim que acabamos o jantar, fomos para o quarto de novo. Ela falou mais um pouco sobre seu último romance falho, um menino chamado Roger.

– Ele começou a agir como se fosse meu dono, sem a gente nem se conhecer direito assim. Então eu simplesmente disse que não queria nada sério e pulei fora. Ele ficou incomodado e falou para os amigos, quase com certeza. Não que eu ligue.

– Fez bem. Bom, agora você está lindamente livre e de bem com você mesmo.

– Sim. E você, ainda cercada de meninos lindos?

– Continuam sendo meus amigos.

– Você tem sorte. Eu não sei como é ser amiga de homem e você tem vários.

– No fim das contas é bem normal. Vocês evitam alguns assuntos, de vez em quando, mas vida que segue. Você deveria aproveitar seu tempo sozinha para tentar.

– É, pode ser. Bom, a gente deveria ir dormir, não é? Amanhã você tem um compromisso.

– Tudo bem. Eu vou apagar a luz, então. Boa noite, Lety.

– Boa noite, Anna. – Apaguei a luz quando ela já tinha se ajeitado no colchão e corri para minha cama, o frio começando a arrepiar minhas pernas. Coberta, não demorei muito a dormir.

Acordei um pouco mais cedo que a Lety, tomei meu banho e peguei uma roupa para vestir. Na verdade, uma que ela mesma tinha me dado no meu primeiro aniversário com ela. Uma saia com meias de gatinho tipo de otaku e uma blusa de frio amarela.

– Nossa, quanta beleza. Não sabia que ainda te servia.

– A saia era mais comprida, mas a meia me ajuda bem. Bom dia.

– Eu posso tomar banho também?

– Pode. Eu te espero aqui, vai.

Depois de tudo pronto, meus pais fecharam a casa e me deram uma carona. As obras já estavam no pátio, mas ainda cobertos por um lençol branco imenso. Ou mais de um talvez. Meus pais ficaram curiosos pelo menos, encontrando a mãe dos gêmeos e puxando assunto.

Aproveitei a deixa e falei com Lety nossas regrinhas de convivência. Ela aceitou bem, lembrando da sua última visita. Nada de ficar andando sem rumo, evitar zonas muito desertas, ficar mais no pátio e conversar pacificamente com os outros.

– E não enche o saco do Kentin.

– Nem para dizer que ele ficou lindo?

– Não, nem para isso.

– Ok.

– E você não precisa me seguir se não quiser, só evite confusão. Melody ainda lembra da sua cara.

– Ok. Obrigada por me trazer. – Ainda assim ela ficou comigo por um tempo. Achamos Melody no corredor, o que me foi bastante útil. Ela me disse como a exposição aconteceria e quanto tempo duraria. Agradeci, vendo que ela não estava muito contente com a presença da Lety.

Fui procurar meus amigos. Vi Violette e Priya perto dos portões, a menorzinha meio assustada com a ideia de mostrar sua criação. Kim estava com a mãe, Alexy veio me dar oi e acabou encantando Lety com aquele jeitinho carinhoso dele.

– Ele é um amor.

– É, eu sei. Ele me ajuda muito quando eu preciso. E é divertido também.

Continuei minha busca. Vi Lety indo para o ginásio e fui atrás querendo evitar confusão. A diretora estava lá com Bóris, os dois meio estressados. O professor me viu e veio me pedir para, por favor, levar umas caixas e sacolas para o porão. Aceitei e pedi a ajuda de Lety. Ela veio, toda risonha. Acho que nunca a vi sem aquele sorrisinho singelo.

– Que treco pesado. – Eu estava abaixada, rezando para não estar numa pose onde minha calcinha estivesse aparecendo, resmungando com uma pilha de três caixas que eu estava pegando, quando um par de mãos pousou na minha cintura e me ajudou a ficar de pé. E numa proximidade muito grande para o meu gosto.

– Precisando de ajuda, minha linda? – Puta merda. Aquela voz simplesmente era familiar, o jeito de me chamar era familiar, e o brilho nos olhos de Lety também já me tinha acontecido. Engoli em seco.

– Dake, ei. Que bom te ver.

– Cada dia que eu te vejo você está mais bonita. – Gelei quando ele passou do meu lado para pegar o resto das caixas no chão, antes parando no meu ouvido e sussurrando. – E gostosa também.

– Bom, vamos levar isso para o porão, né? – O desespero estava me batendo. Ok, era legal ouvir um cara te elogiando, e eu já tinha tido o prazer de passear por aquela boca, obrigada. Só que agora estava diferente, a situação tinha mudado. Só que só eu sabia.

Passei correndo pelo corredor, rezando para não dar de cara com o par de olhos lindos coloridos e diferentes. Parecia que eu ainda estava com sorte pelo dia. Quer dizer, até eu abaixar de novo para largar a minha carga e reparar que Lety já tinha dado linha. Merda.

Ele veio com aquele jeito de raposa dele e me pregou bem devagar nas costas da porta, não me deixando encostar na maçaneta. Ele também se aplicava a regra de estar mais gostoso a cada dia, mas hoje isso não seria aproveitado.

– Obrigada pela ajuda.

– Disponha. Por você eu faço qualquer coisa, você sabe. É só estalar os dedos que eu vou correndo.

– Olha que eu acredito, hein? – Acho que nunca dei uma risada tão sem graça, mas imagino que ela tenha achado que era o efeito dele sobre mim. Antes da mão boba tentar pegar na minha coxa, eu aproveitei e finalmente abri a porta. – A exposição não demora agora. Vamos?

Ainda tínhamos bastante tempo, na realidade. Dei uma bela despistada e achei Lety plantada no pátio. Fui correndo até ela e peguei no seu braço, sutil.

– Qual era seu plano?

– Eu imaginei que queria um tempo, sabe, feito no shopping.

– Lety, eu te aviso quando quiser. Não é mais assim.

– Por que? Você...

– É, já tem um cara na jogada, mas é segredo.

– Ai, me conta.

– Nath, oi. – Por um minuto ela achou que fosse minha resposta, até ver o loiro perto de mim. – Lembra da Lety?

– Oi, tudo bem? A exposição ainda não começou, huh?

– Não. Hum, Lety, pode ir me buscar uma garrafa d’água? – Ela concordou, sorrindo para mim. Agora ela definitivamente tinha entendido errado, mas eu tinha mesmo que falar daquilo, e entendia que não era assunto de roda de fofoca. Nathaniel também ficou meio apreensivo.

– Manda, o que foi?

– Seus pais, eles vão vir?

– Não sei. Minha irmã deve ter chamado os dois para a verem atuando no vídeo da oficina dela, ela ama ser a estrelinha da casa.

– Vai ficar bem. No pior dos casos, você cola em mim. Ou nos meus pais.

Aproveite a chance para dar um abraço nele, segurando-o pelo lado. Ele riu, grato. Até inclinou um pouco a cabeça pra encostar na minha, segurando meu antebraço na frente do seu peito. Cena meiga, mas não sei se todo mundo gostou do teatro.

– Hum, a diretora quer começar a exposição com todos.

Ainda sem soltar Nathaniel, vi Lysandre olhando para o chão, segurando a porta do grêmio aberta. O loiro agradeceu por nós dois, beijando o alto da minha cabeça antes de me soltar. Passamos por Lysandre, meio sem graça. Eu pelo menos.

A diretora nos reuniu no ginásio, apresentando Patrick aos nossos pais e explicando sobre o assunto da nossa exposição. E finalmente ergueram nosso lençol. Vi meu monstrinho lá no meio de uma mesa, como se fosse importante. Sorri.

Ali os rostinhos já eram mais familiares. Bom, menos por um Kentin aborrecido, sentado numa cadeira e com uma pose bem irritada. Alexy e Rosalya estavam do lado, sorridentes. Imaginei que a jaqueta de dólares tivesse sido ideia deles. Avareza estava na plaquinha ao lado deles, numa mesa baixa. Sorri, acenando para eles.

As fotografias mostravam a Melody. Estranhei, mas quando a vi de cara fechada perto de uma Peggy orgulhosa, entendi. Ela realmente não queria estar ali. E estava bem perto de explodir. Li o tema. Inveja. Olhei a menina de novo. Só tinha uma situação onde Melody tinha aquele olhar raivoso, e geralmente era para mim. Nathaniel, ou o ciúmes que ela tinha dele.

Ela podia não gostar, mas era uma ideia inteligente. O vídeo estava sendo exibido numa das salas, mas deixei para o final. Vi as pinturas perto de Castiel, que claramente esperava um elogio vindo de mim. Revirei os olhos antes de ceder.

– Ficou ótimo. Egocêntrico. – Só consegui uma risadinha dele e sai de perto. Vi Lysandre sério do outro lado, e a figura loira oposta a ele. Nina. Ele não me parecia se incomodar com ela, normalmente, mas hoje parecia diferente. Como se ele fosse fugir dela tanto quanto pudesse.

– Lys... – Mas ele não ouviu. Fui atrás dele, escola a dentro. Parecia até que ele estava fugindo de mim também. Esperei até ele subir as escadas e virar no corredor. Por que se esconder no laboratório? Subi atrás, séria. – Lys?

– Oh, Anna. Hey. – O sorriso não chegou nos olhos. Encostei a porta e me aproximei, reparando que ele tinha preferido ficar estudando o tampo da mesa onde tinha se sentado. Puxei a cadeira da dupla e me sentei também, calada.

– Parece que está fugindo. O que foi?

– Achei que não queria dar na cara.

– Não é de mim que eu estou falando. Quer dizer, eu pensei em te pedir para não me procurar antes de deixar a escola na quarta, mas eu sabia que ia te chatear. E no fim, eu só queria evitar conflito mesmo, acho que pensou nisso também.

– Eu pensei no seu pai, sim.

– Então o que foi? – Encostei no queixo dele, como se pedisse para ele me olhar e não a madeira. Ele acabou cedendo.

– Você é incrível, sabia disso? Eu sou tão sortudo de te ter comigo.

– Lys, o que foi?

– É meu pai. Ele está doente. Muito. – Era de partir o coração. O pai dele não era exatamente um jovem forte e com saúde de ferro, feito meu pai para uma comparação simples. O medo dele fazia sentido. – O estado dele não está nada bom.

Meus abraços de lado sempre tinham funcionado em Nath, e era a melhor dica que eu tinha sobre como agir. Depois de segurar a mão dele por um tempo, eu envolvi a silhueta larga num abraço, deixando a cabeça em seu ombro. Ele suspirou.

– Eu estou aqui, tudo bem? Assim como você ficou.

– Eu te amo. – Tive que me controlar naquele momento. Acho que nunca tinha o escutado sendo tão sincero quanto naquela frase. E, mesmo que não fosse durar para sempre, naquele minuto eu senti que era tão recíproco quanto poderia ser.

– Eu também te amo. Agora, qual é o problema com a Nina? Fugindo dela?

– Eu cansei de falar com ela. Ela vai ter que ouvir agora e pronto.

– Bom, a gente devia ir. Ela deve te caçar logo. – Apertei-o um pouco antes de soltar. Me pareceu que ele estranhou, mas não reclamou do gesto. Sai da sala antes, fingindo o melhor que podia que eu estava na verdade vindo de um dos banheiros.

Notas finais
E ai, prontos? Beijos :3