Notas iniciais
Olá, pessoas ♥ Dei uma pausa rapidinha aqui para atualizar a fic de Percy Jackson (que aliás, se interessar, só pegar o perfil aqui na fic msm ♥) E já voltei. Enfim, to de coração partido de ter que escrever isso ;-;

Naquela noite, eu tentei tocar um pouco para retomar pelo menos o mínimo da prática. Eu tinha perdido muito em agilidade desde a partida de Viktor. Minha mãe adorou me ver tocando sem despencar num rio de lágrimas. A verdade é que vontade de chorar não me faltou, mas eu estava preocupada com outro assunto. Aliás, assunto que estava me fazendo errar notas.

─ Sei que já faz tempo que não toca, querida, mas não acha que está errando demais? ─ Meu pai comentou, tomando sua taça de vinho. Ao que parecia, a música animou o casal apaixonado a passar uma noite de petiscos leves e vinho. Suspirei, aceitando o refrigerante que ele me entregou.

─ É, eu estou um pouco distraída. Prometo me esforçar mais, senhor.

─ Posso saber por que esse ânimo apareceu assim?

─ Hum, Lysandre deu a ideia de tocarmos uma versão de Once Upon A December e precisavam de um pianista. Como sou do grupo...

─ Ah... ─ Desviei os olhos daquele olhar de “sei bem” da minha mãe e troquei de partitura, uma música mais animadinha. Tell Me That You Love Me. Sim, aquela do show de televisão da Victoria Justice.

A boa notícia é que eu consegui tocar sem errar, mesmo que um pouco devagar demais. A má notícia é que eu ainda estava bem lenta. Meu pai disse que eu só precisava de mais alguns dias para voltar ao meu normal. E aquilo me animou. Fiquei até onze da noite treinando, quando minha mãe me mandou ir deitar para não perder a hora na manhã seguinte.

Acho que perder a hora não teria sido tão ruim. Eu levantei, troquei de roupa normalmente, prendi o cabelo naquele dia, comi e fui para a escola. A rotina continuou a mesma. Fui primeiro para o meu armário, antes de passar no grêmio. Então o show foi no corredor mesmo.

─ Anna. Anna.

─ Bom dia, lindo.

─ Lindo? Cala a boca. ─ Nathaniel bateu meu armário, quase prendendo minha mão junto. Silêncio pelo corredor todo. Finalmente virei o rosto, assustada. ─ Eu tinha te pedido um favor, uma merda de um único favor e essa sua língua não conseguiu guardar a desgraça do segredo.

─ Nathaniel...

─ Não começa! Eu confiei em você durante toda minha vida, desde que eu tenho seis anos de idade, para você apunhalar assim.

─ Eu fiz isso pro seu bem.

─ Meu bem? Faça-me o favor, Anna. Você só olhou pra si mesma e seu lindo umbigo, pensando só naquilo que você acha que é melhor. Você não manda na minha vida. ─ Se tudo aquilo já tinha partido meu coração, o que ele fez em seguida fez meu peito queimar por dentro. ─ Toma. Você nunca mais fala comigo, nunca mais me procura e de preferência esquece que eu existo. Se eu nunca mais te ver vai ser pouco tempo.

No primeiro aniversário dele depois que ficamos amigos, o de sete anos, eu dei de presente um enfeite de mesa em forma de gatinho. O amor de Nathaniel pelo animal sempre foi imenso, e mesmo sendo bagunceiro, ele tomava todo o cuidado do mundo com aquele presente. Dá pra imaginar o tanto que eu assustei quando ele jogou o enfeite na minha direção e se virou antes que eu reagisse.

O gato de madeira se partiu em três pedaços inteiros e mais algumas lascas. Meu coração já não dava para eu contar quantos fragmentos tinha. O sinal iniciando as aulas tocou, mas eu ainda estava de joelhos, apanhando o que sobrara do enfeite. Por mais que a curiosidade estivesse estalando no ar, os alunos correram para as salas de aula, olhando a figura patética encolhida no chão, chorando.

Eu deveria ter enxugado o rosto e entrado para a sala onde eu teria minha aula de física, mas na verdade corri para o porão e fiquei lá, com as costas na parede e os pedaços de madeira na mão. A ideia era fugir de tudo e todos, mas quando ele entrou eu não consegui pedir para ficar sozinha.

Porque no fundo ficar sozinha era o que eu menos queria. De novo não.

Ele se sentou ao meu lado e ficou calado, respeitando meu espaço e me dando apoio ao mesmo tempo. Respirei fundo e estiquei um dos pedaços de madeira para ele.

─ Acha que tem conserto?

─ Provavelmente. A madeira se partiu pouco.

─ Que bom. É, é ótimo.

─ Era importante, sim?

─ Foi o primeiro presente que eu dei para ele, nove anos atrás.

Silêncio de novo. Aquela cena me trouxe uma outra à memória, bem parecida. Quando Viktor morreu, Nathaniel teve aquela mesma atitude comigo. Sentou, ficou calado. Ele não quis me forçar a explicar algo que eu não queria entender. E agora Lysandre estava ali, simplesmente ao meu lado, enquanto eu me negava a entender que uma amizade estava morrendo.

E eu imitei a cena. Quando mais uma memória de Nathaniel me veio e o choro veio junto dela, eu deixei minha cabeça cair sobre o ombro ao meu lado e escondi o rosto ali, entre o pano escuro do casaco do meu amigo. A dor não era a mesma, mas em algum ponto muito parecida. Nas duas a sensação que eu tinha era de que algo de dentro de mim tinha sido arrancado de uma forma muito bruta e deixada de fora. Vazio.

Lysandre passou um braço tímido ao redor dos meus ombros e ficou comigo, afagando meu cabelo de quando em quando e matando a aula comigo, enquanto eu simplesmente enchia seu casaco de catarro e lágrimas, ainda com a madeira em meu colo.

Só consegui me acalmar de fato depois da segunda aula. Lysandre me levou até o ginásio, no vestiário vazio, para lavar o rosto e me recompor. Apesar do nariz vermelho e os olhos inchados, eu já me sentia apresentável ao mundo. Ou pelo melhor do que eu estivera nas últimas horas.

─ Anna.

─ Oi.

─ Não quero soar como se não me importasse com suas amizades, mas independente do que acontecer... Tomou a atitude correta. Não se esqueça disso.

─ Eu já questionei isso tudo, Lys. E, pra ser sincera, desde o início eu sabia que não ia acabar bem. ─ Dei uma risada fraca, daquelas bem sem graça, jogando a madeira no bolso da mochila e fechando o zíper antes de prosseguir. ─ Vai valer a pena. Acho que é um sacrifício que posso fazer se significa o bem dele.

─ Vem, precisa comer algo.

Hora do almoço. Àquela altura, todo mundo já estava sabendo do que se tratava a discussão toda. Não sei quem descobriu sobre a denúncia por agressão de menor, mas todas as mesas estavam discutindo sobre isso. Lysandre me deixou sozinha quando me aproximei das meninas, com um Alexy cabisbaixo e uma Rosa preocupada. Sentei e esperei a torrente de perguntas.

─ É verdade? Sobre o pai dele...

─ É.

─ E ele achou ruim você denunciar?

─ Alexy! ─ Iris parecia desesperada para apaziguar a situação, mas Kim defendeu o garoto.

─ Ele tem razão, Iris. Ela claramente só quis ajudar e ele está sendo ingrato.

─ Eu não estou preocupada com ele, estou preocupada com você. ─ Rosa falou mais alto que as outras, segurando meu ombro.

─ Eu vou sobreviver. Obrigada.

As opiniões divergiam pouco. A maioria das meninas concordou com minha atitude, e até me parabenizaram pela coragem. Alexy estava de mal do representante, enquanto Armin simplesmente tentava amenizar o clima com suas piadinhas costumeiras. E algumas até funcionaram. Já Melody, a pouca paciência que eu tinha com a atitude possessiva dela sobre Nathaniel se esgotou quando ela veio me enfrentar.

─ Não pode tomar decisões pelos outros assim.

─ Oh, é mesmo? Para alguém que se diz tão apaixonada por ele você parece não se importar muito com o garoto que existe dentro da fachada de aluno exemplar e filho perfeito. Desculpe, Melody, mas se você consegue fingir que nada disso aconteceu, eu claramente não consigo. Com licença.

E foi isso. Eu não vi mais Nathaniel pelo resto do dia, mas também não procurei. Sem querer ouvir mais nada das opiniões alheias, eu juntei minhas coisas na hora de ir embora e já ia deixando a escola, quando Castiel e Lysandre me alcançaram.

─ Indo para onde?

─ Casa, por que?

─ Temos um ensaio, esqueceu?

─ Está falando sério, Castiel? Nosso grupo não está completo.

─ Não, mas temos nossas duas estrelas. Só precisamos de você e Lysandre dessa vez. E você bem que precisa de uma distração.

─ Tocar não é uma distração muito boa.

Eu tinha voltado a andar enquanto eles me seguiam. Castiel parecia muito mais comunicativo que o normal, mas não comentei. Abri o portão e deixei os dois entrarem antes de subir atrás deles, desanimada.

─ Belo apê. Seus pais te deixam trazer meninos aqui, sozinha?

─ Eles confiam na filha que têm. E só vamos ficar na sala.

─ Okay. Posso pelo menos procurar um banheiro?

─ Tem um no corredor, segunda porta à esquerda.

─ Obrigado. ─ Castiel acabara de agradecer? Olhei Lysandre um pouco chocada, enquanto ele pegava a folha dobrada ao meio de dentro da sua mochila e me entregava, alguns passos longe do piano.

─ Se quiser tocar algo antes...Não que precise se provar nem nada parecido, apenas...

─ Claro.

─ Posso pedir uma? ─ A voz de Castiel voltou ao corredor, logo em seguida a imagem dele com as mãos enroladas na camisa. Eu tinha certeza de que havia uma toalha no banheiro, mas apenas esperei a sugestão. ─ Spring Waltz.

─ Chopin?

─ Isso. É a favorita do meu pai.

Castiel podia ter toda aquela pose de machão, mas quando se tratava de família, ele era apenas um garoto irritado por ter sido deixado de fora na maior parte do tempo. Ele desviava o olhar triste quando falava dos pais, mas simplesmente não se entendia com eles. Acho que não existe caso mais explicativo sobre dificuldade de expressão. Encontrei a partitura entre todas as outras e respirei fundo antes de começar.

Spring Waltz, Chopin. Música preferida de Viktor também. Foi uma das primeiras que ele me mostrou, empolgado. Eu lembrava da forma alegre, leve, como ele tocava aquela música como se fosse uma declaração para a pessoa que ele mais amava. E lembro também de que ele, às vezes, passava a tarde inteira praticando, sozinho. O perfil concentrado, os dedos ágeis, a sutileza ao apertar cada tecla.

Na noite do acidente, eu passei horas tentando imitá-lo. Eu queria que, quando ele chegasse em casa, ele me visse lá, tocando sua preferida. Claro que ele não viu. Foi Nathaniel quem me achou, sentada ao piano.

─ Promete que esse choro não é pelo imbecil do representante.

─ Hum. Desculpa.

─ É ou não?

─ Castiel.

─ Não, não é. Também era a música preferida do meu irmão.

─ Não me disse que era filha única?

─ Eu sou agora.

─ Oh. Bom, tome aqui. Once Upon A December. Velho, a voz é toda sua.

Eu precisaria treinar bastante minha agilidade, mas a música em si não era a mais difícil que eu já tinha tocado. Nem a mais fácil, mas estava tudo bem. Lysandre ouviu uma primeira vez, encontrando o ritmo exato para colocar sua voz. Toquei algumas vezes mais, depois, com ele já me acompanhando. Pela primeira vez, o canto de Lysandre não me prendeu. Quando eu já estava entrando em modo mecânico, minha mente voltou a vagar até Nathaniel novamente. Ele devia ter voltado para a casa e estar enfrentando Deus sabe lá qual tipo de tortura.

E por culpa minha. Tentei ao máximo não ver as coisas por aquele lado, mas era meio impossível. Ele podia estar sofrendo mais ainda, por um telefonema imbecil meu. Não. Imbecil não.

─ Já está bom. Está na nossa hora, Castiel, vamos?

─ Claro. Eu confesso que não acreditei muito quando me disseram que tocava. Parabéns.

─ Obrigada, vou aceitar como elogio. Abro para vocês.

Sozinha na casa, eu sentia ainda mais aquela angústia. Eu tinha dito a Lysandre que era um sacrifício válido, mas eu não tinha certeza se eu realmente conseguiria pagar aquele preço. Subi as escadas e me joguei na cama, simplesmente deixando todas as lágrimas caírem no travesseiro desprotegido, observando as estrelas na minha parede.

Notas finais
Sim, eu só quis fazer isso vendo esse episódio. Nem o arco do meu paquera msm me fez chorar tanto ;-;