Notas iniciais
:3

Vi a janela do segundo andar acesa e praguejei mentalmente. Meus pais me esfolariam por estar até tarde. A não ser que eu mostrasse que não estava sozinha.

— Quer entrar? – Perguntei a Nathaniel, já com a chave no portão.

— Não, melhor não. Preciso voltar pro colégio e ir embora. Fica para outro dia.

— Ok. Beijos. – Ele me deu um beijo na bochecha e foi embora. Eu esperei ele dobrar a esquina para, só então, passar pelo portão e subir as escadas até meu apartamento.

— Uhum, posso saber onde estava? – Minha mãe me encarava com aqueles olhos amarelos que pareciam querer invadir sua alma.

— Na escola, mas Nathaniel me trouxe.

— Hum, ele não quis entrar? – Ela não parecia muito convencida.

— Não, ele disse que tinha que ir para casa. Ele deve vir outro dia.

— Ok, da próxima vez seria bom se você ligasse falando que vai se atrasar.

— Ok, pode deixar. – Concordei, sentindo o olhar se tornando mais carinhoso. – Vou tomar banho.

Ela concordou, sorrindo. Subi para o meu quarto, deixando a mochila em cima da cama. Tomei o tal banho e, com o pente em mãos para desembaraçar aquela cabeleira, sentei na escada de emergência, vendo o céu da noite com algumas nuvens.

Comecei a pensar na vergonha que eu tinha passado, mas agora achando graça. Fora algo tão bobo, mas deve ter sido bem engraçado. Até para Lysandre.

Lysandre...

Menino peculiar aquele. E não era só as roupas totalmente deslocadas no tempo, o cabelo branco com as pontas pretas e nem os olhos. Bom, tinha a ver com eles. Eu tentei ao máximo não ficar encarando, mas ainda dei algumas espiadas naquela singularidade. Um verde e um amarelo. De alguma forma, era bem harmonioso.

E bonito também, mas isso era detalhe menor.

E eu bem que poderia aprender alguma coisa com ele. Como ser amiga de Castiel e suportar seu mau humor por mais de dez segundos. Ri, puxando um nó preso nos dentes do pente de plástico preto.

Acabei de pentear o cabelo e voltei para o quarto, pegando meu computador. Depois de dar um passeio por minhas páginas de redes sociais e de checar as novidades do planeta, decidi simplesmente ir olhando o que eu tinha nos meus arquivos. Fui para os vídeos.

Todas as apresentações que eu fizera na antiga estavam ali, guardadas como boas memórias. Tinha um com Ken, nós dois tocando flauta. Eu não era muito fã, mas como minha mãe gostava eu achei que seria uma boa ideia aprender a tocar o instrumento.

E tinha um meu com Viktor. Ele me abraçava por trás, segurando a câmera na nossa frente, com os braços estendidos. Era o vídeo da nossa visita à Miami, cerca de cinco anos atrás. Eu estava com dez anos naquele vídeo. Sorri, tristonha.

Desliguei o computador e fui dormir, sem me preocupar em jantar nem nada. Quando acordei no outro dia, estava bem disposta. Decidi que estava na hora de fazer algo diferente. Sei lá, comer algum prato desconhecido, falar com um estranho...

— Tá ai. Lysandre, hoje vamos conversar direito. – Sorri de frente para o espelho. Pela primeira vez na vida eu ia me mover e tentar fazer uma amizade, sozinha.

Acabei de me vestir numa blusa lilás e uma saia, com o tamanco marrom. Minha mãe tinha me comprado aquela roupa e eu quase nunca usei. E ela foi a primeira que eu vi.

De mochila nas costas, desci para tomar café. Minha mãe conversava com tia Ágatha, falando do projeto para um novo shopping na cidade vizinha. E meu pai estava sentado, lendo o jornal.

— Bom dia, querida. – Ele falou, sem tirar os olhos de suas notícias. Beijei sua bochecha e me sentei para comer. Panqueca. Amava quando meu pai cozinhava no café da manhã.

Comi tanto que fiquei com medo de não conseguir caminhar até a escola. Respirei fundo e, depois de me despedir, tomei meu rumo.

Como em qualquer outro dia, eu fui para meu armário na intenção de pegar meu material. Uma menina de cabelos curtos pretos me esperava com um gravador em mãos.

— Bom dia.

— Ei. – Tentei ver se o aparelho estava ligado, mas ela estava com o dedão exatamente onde a luzinha deveria estar acesa. – Posso ajudar?

— Sim, na verdade sim. Meu nome é Peggy, eu trabalho para o jornal da escola. – Eu nem sabia que tínhamos um jornal, mas não comentei. – E eu adoraria fazer algumas perguntas sobre a suposta assombração da escola.

— Oh, isso. – Ri, dando de ombros. – Foi burrice minha mesmo, sabe? Eu achei que só tinha eu e a Li na escola, acontece que não era.

— E quem estava aqui até tão tarde?

— Eu não sei, eu só vi alguém entrando no porão depois. Humano, com certeza. – Talvez eu estivesse deixando transparecer que estava escondendo alguns detalhes.

— Nem ideia de quem poderia ser?

— Não. Eu estava no alto da escada, só vi a mochila.

— Qual cor?

— Minha cabeça fez sombra. – Eu estava tentando pensar em mais algo para dizer quando o corredor inteiro se assustou com a gritaria vinda do grêmio. Era a voz da senhora Shermansky.

— É BOM VOCÊ ENCONTRAR LOGO, SENÃO...

Ela saiu da sala no legítimo terninho rosa, com passinhos curtos, mas claramente enfurecidos. Aproveitei para me livrar da senhorita interrogatório e fui ver o que estava acontecendo.

Nathaniel estava de pé, apoiado na mesa da sala, resmungando. Ele notou que eu entrei e me pediu para fechar a porta. Fechei, vendo-o respirar fundo na tentativa de se acalmar.

— É sobre as chaves do porão?

— Não. Não essas, pelo menos. Alguém roubou as chaves da sala dos professores.

— Por quê?

— A primeira semana de provas está pra começar. E adivinhe o que roubaram na sala.

— As provas?

— Todos os professores deixam lá, ninguém nunca fez esse tipo de coisa.

— Ok, então vamos por partes. – Falei, puxando uma cadeira. A ideia era me sentar com as costas na minha frente, mas ai lembrei que estava de saia e me sentei feito uma moça de verdade. – Você precisa reencontrar essa chave e as provas, óbvio.

— É, ou adeus cargo de representante.

— Ok, vamos fazer assim...

— Vamos? – Ele me olhou, sem saber se eu estava me envolvendo de verdade.

— É, eu vou te ajudar. Você é meu amigo, não custa nada.

— Ok, justo. – Ele deu um sorriso, voltando a me escutar.

— Eu vou procurar a chave, você se ocupa em encontrar as tais provas. Ok?

— Ok. E Anna. – Eu já estava na porta quando ele me chamou. – Perdemos “documentos”, entendeu?

Concordei com a cabeça e sai da sala, indo atrás da bendita chave. Como era um objeto muito pequeno, eu achei melhor perguntar se alguém tinha visto do que ficar rodando a escola olhando para o chão, parecendo doida.

— Castiel. – Ele estava no banco do pátio, como de costume. Abriu os olhos e ficou esperando eu continuar. – Oi. É, você não teria visto uma chave, por acaso?

— Não. – Ele nem pensou para responder. Também não insisti. Apesar da evidente desavença entre o representante e ele, Castiel não parecia interessado nas provas.

— Ok, obrigada. – Murmurei, olhando pelo pátio. Tinha mais gente ali, que eu até reconhecia por ver os rostos na sala de aula.

Falei com umas duas meninas que nunca tinha visto e fui para a terceira, uma negra do cabelo curto. Ela me olhou por inteiro antes de falar.

— Fala, guria. Posso ajudar?

— Pode, talvez. Estou procurando por uma chave, alguma chance de você ter visto?

— Não que eu me lembre. Está na minha turma.

— É, Anna. Você é...?

— Kim. Eu aviso se achar a tal chave.

— Valeu, Kim. – Voltei à busca, procurando pelo ginásio. Iris estava lá, mas não tinha visto a tal chave. E perto dela, estava uma menina de vestidinho, bem menor que eu.

— Licença, você não teria visto uma chave? – Ela me olhou com um sorrisinho que eu não sei se era de escárnio ou de simpatia. Fiquei bem confusa.

— Não. Anna, não é?

— É, você...

— Bia. Ouvi de você. – Até pensei em perguntar o que ela ouvira, mas não ia mudar muito. Aliás, todo mundo tinha ouvido de mim, a menina da foto rabiscada.

— Ok, eu preciso ir. – Acenei, afastando. E quase dei de cara contra o peito de Lysandre. No reflexo de um segundo eu travei os pés no chão, evitando o choque. – Hey, Lysandre.

— Oh, oi, Anna. Acertei?

— Sim, tranquilo. – Sorri. Eu quase esqueci que tinha a ideia de conversar com ele, mas a oportunidade surgiu sozinha. – Hum, aproveitando, você viu alguma chave hoje?

— Além da minha, não. Por que?

— Hum, é que eu perdi essa chave, e preciso muito dela.

— Chaves não se perdem sozinhas. Não está em um bolso diferente?

— Não. Bom, se encontrar...

— Eu te procuro. – Ele deu um sorriso simpático e foi se sentar num canto isolado. Antes que o desânimo me alcançasse, eu voltei a procurar.

Perguntei para outras meninas que encontrei. Violette estava no jardim, desenhando um dos arbustos floridos. Muito bem, aliás. Ela não soube da chave, assim como Melody, a menina com Nathaniel no grêmio.

Na verdade, eu a encontrei por acaso. Eu estava indo ver se Nathaniel já tinha achado as provas e, quando abri a porta, os dois estavam abaixados pegando algumas folhas no chão. E, por algum motivo, senti que tinha atrapalhado o que podia ser um possível clima.

— Hum, desculpa...– Falei, querendo sair da sala. Nathaniel ficou de pé e sorriu para mim.

— Imagina, é só a Melody que deixou umas folhas caírem. Aliás, Melody, essa é Anna.

— Sua antiga amiga, sim? – Ela sorriu, alisando a saia branca. – Prazer.

— O prazer é meu. – Comentei, ainda sem saber ainda se eu tinha atrapalhado ou não.

— Você achou? – Ele perguntou, ignorando o que eu acabara de ver.

— Não, ainda não. – Melody pediu licença e saiu da sala, passando sem graça por mim. Nathaniel me olhou, calado. – Foi mal, eu...

— Anna, não tinha nada acontecendo.

— Sério? Porque vocês pareciam meio...

— Não tem nada, sério. Sobre a chave?

— Eu vou tentar achar, mas...Como você pretende encontrar quem fez isso?

— Eu não sei. Não existe crime perfeito, mas existe alguns bem elaborados. Parece ser o caso.

— Bom, vou voltar a procurar. Já que ninguém viu, vou ter que procurar.

— Não precisa disso tudo.

— Precisa sim. Você vivia me ajudando a encontrar o que eu perdia, nada mais justo.

— É, mas...

— Volto com sua chave. – Sai, deixando o representante rindo sozinho. Voltei à busca implacável pela chave.

Notas finais
E esse clima da Melody, em? Sei não...