Lá E De Volta Outra Vez
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Notas iniciais
O dia de hoje seria um dia quieto. Sábado pela manhã eu acordei bem cedo, meio que por reflexo. Eu não me sentia em plena forma ainda, mas me sentei e calcei os chinelos, simplesmente fitando o chão por alguns instantes antes de finalmente ficar de pé e ir ao banheiro.
Eram oito da manhã, e meus pais ainda estavam no quarto, talvez exaustos por terem me esperado até as duas da manhã. E duvido que eles realmente fossem querer acordar para o dia de hoje.
Sai do banheiro e fiquei de pé na soleira da porta, encarando a pintura na minha parede. Pensei em ligar para Lysandre, mas não quis interromper seu sono com problemas. Eu não queria que ele achasse que eu só carregava problemas comigo.
Pareceu, no entanto, que ele tinha um radar bem acurado. Meu celular vibrou e eu estiquei o braço para pegá-lo. Meus olhos foram parar no porta retrato, mas ignorei e li a mensagem.
“Bom dia, linda. Queria saber se você quer sair hoje. Podíamos só caminhar.”
“Oi, Lys. Eu amaria. Preciso mesmo.”
“Qual horário?”
“Seria ótimo se pudesse vir agora.”
Ele nem me respondeu de volta. Tratei de arrumar uma roupa um pouco mais apresentável do que meu pijama velho e simplesmente escovei os dentes antes de ver o rapaz do cabelo branco descendo a rua. Deixei a casa e fui recebe-lo no portão.
– Bom dia. Não me parece que tenha dormido bem. – Ele comentou, pegando minha mão e me levando até o parque, checando as janelas do apartamento.
– Eles ainda estão dormindo, relaxa.
– Como passou a noite?
– Bem. Eu praticamente apaguei assim que encontrei minha cama.
– Eu também estava exausto, mas acredito que fosse cansaço mental. Eu sinto que te devo mais mil desculpas...
– Lys, está tudo bem. Eu também já me desculpei, deixa isso para lá.
– É, eu sei. Você está com uma carinha triste. O que aconteceu? – Senti a mão dele no meu pescoço, acariciando com o polegar minha nuca. Sorri fraco pra ele, dobrando uma das pernas para apoiar o pé no banco em que estávamos sentados.
– Hoje completam 4 anos. – Suspirei, como eu sempre fazia ao falar de Viktor. Lysandre não parou de mexer o polegar, esperando eu falar tudo que eu quisesse. – Ontem foi só mais um dia e hoje...Hoje veio tudo à tona de novo.
– Por isso quis sair?
– Eu peço desculpas se não era o encontro que você queria. Você deveria ser psicólogo.
– Eu não me incomodo de dividir o peso dos seus problemas. Se eu pudesse eu carregaria tudo sozinho. – Segurei sua mão, sorrindo. Eu sentia toda a gratidão do mundo naquele momento. – Mesmo que eu não saiba muito como te ajudar agora.
– Nem eu sei. Acho que eu nunca vou saber, na verdade, mas ter vocês comigo facilita tudo. Eu prefiro nem pensar nas coisas que eu faria se estivesse sozinha.
– Shh, você não está. E eu gostaria que isso realmente nem lhe passasse pela cabeça.
– Eu sei. Eu nunca quero causar essa dor em ninguém. – Ele tinha se inclinado para colar sua testa na minha, percorrendo os olhos bicolores por todo e qualquer traço das minhas feições. – É só que...É tão difícil sem ele, Lys.
E ai eu não suportei mais a tranquilidade aparente que até então me dominava. Simplesmente agarrei a frente do casaco para ocupar minhas mãos e cerrei os olhos, sentindo as lágrimas escorrendo livremente rosto abaixo, pingando pelo queixo e escorrendo novamente depois de despencarem no meu peito.
Lysandre passava as mãos pelos meus braços, calado. E eu mais uma vez só sabia agradecer pelo silêncio. Não existem palavras que realmente consigam acalmar nosso coração num momento desses. O saber que alguém está disposto a dizê-las a você te conforta depois, quando a dor é mais amena.
– Ele era tão novo, Lys. Ele tinha o potencial para ser o que ele quisesse nessa vida. E...E tudo isso simplesmente sumiu...Parece que a chuva daquele dia arrastou aquilo tudo com ela para sabe-se lá onde. O mundo é injusto.
– É. Realmente é.
Respirei fundo algumas vezes antes de me afastar e tentar secar o rosto com as mãos. Lysandre, cavalheiro como era de se esperar, tinha consigo um lenço no bolso, que ele usou para me ajudar.
– Como seus pais estão?
– Eu os deixei dormindo. O quanto menos eles tiverem que encarar o dia de hoje, melhor.
– Deve ser difícil.
– Eu nunca te contei propriamente porque nós nos mudamos. – Esfreguei o rosto mais uma vez antes de começar meu conto. Ele segurava minha mão esquerda, dando leves apertos ocasionais, como se para me lembrar que ele estava ali por mim. – Quando minha mãe recebeu a notícia pelo telefonema dos oficiais, ela desmaiou. Meu pai teve que ouvir a mesma mensagem, porque teve que atender o telefone em seguida. E eu simplesmente ouvi pela voz desesperada da minha mãe antes de ela apagar.
Tive que me calar um minuto, lembrando com clareza cada detalhe da cena que eu acabava de descrever. Não tinha que fazer o menor esforço pra me lembrar, mas colocar tudo em palavras...Parecia que era o peso do mundo todo.
– Eu não quis acreditar. Enquanto meu pai ficou ocupado com minha mãe, tentando acalmá-la para irem ao hospital...Eu fui pro meu quarto e comecei a ligar pro celular dele. Claro que só dava caixa postal.
– Você foi com eles?
– Fui. Meu pai não queria me levar porque eu era muito nova, de acordo ele. Eu bati o pé até ele acabar cedendo. Às vezes eu fico pensando se eu não deveria ter ficado quieta. Não que eu tenha visto nada, mas ficar no hospital só fez a realidade bater mais forte ainda.
– Por isso você detesta hospitais.
– É. Eu sei que muita coisa boa acontece em hospitais. Minha mãe se recuperou, eu me salvei lá, até você. Só que quando algo dá errado, o peso é muito maior. E naquele dia, aquele foi o dia que eu tive certeza que eu e Nathaniel nunca mais íamos nos soltar.
Hesitei um instante em falar de Nathaniel, mas Lysandre nem pestanejou. Ele sabia que aquilo que acontecera na noite anterior nada tinha a ver com meu desabafo de agora. Mesmo que Nathaniel algum dia pudesse sentir qualquer coisa por mim, o que eu tinha por ele era um carinho imenso, mas que eu nunca reconheci como nada além.
– Eu liguei pra ele aos prantos. Ele fez o pai dele dirigir até a minha casa e ficou esperando na chuva enquanto nós não voltávamos do hospital. Acho que é a única memória que eu tenho do pai do Nathaniel, antes dele ser um idiota. Na época eu nem registrei direito. Não me interessava. A gente ficou o tempo todo sentado um do lado do outro.
A cena era bem clara na minha cabeça. Nathaniel se sentou comigo no sofá, calado. Na época, nós dois não sabíamos como nos consolar. Nathaniel queria reprimir todas as lágrimas dele, mas assim que eu começava a desabar em choro de novo, ele acabava cedendo também.
– E no dia do enterro piorou tudo. Não tem nada mais real do que um caixão sendo colocado numa cova. E muito menos entrar em uma casa vazia. Você sabe que ele não está no quarto. Nunca mais. Como você entra num quarto que era povoado até ontem?
– Eu não consigo imaginar o apartamento sem Leigh.
– É, esse mesmo o problema. A gente passou dias vivendo aquele pesadelo. A gente queria continuar com nossas vidas, como a gente sabe que ele gostaria que a gente fizesse...Só que...
– Não é tão fácil.
– Pra não dizer impossível. Meu pai estava tão devastado. Eu sei que ele queria ser forte por nós, mas...Ele também perdeu um filho. Eu simplesmente me tranquei no meu quarto. Às vezes, de madrugada, eu ainda tentava chamar o número dele, mas era só para me magoar mais ainda. E minha mãe...Ela saiu completamente de si, Lys. Os dois eram tão próximos. E do nada ele partiu.
– Eu não sei imaginar sua dor. Menos ainda a dela.
– Ela parou de pintar. Por meses, ela nem olhava para as telas. Não dormia, meu pai tinha que convencê-la a comer. De vez em quando eu a via parada de frente pra janela, com o olhar fixo no horizonte. E um dia, sentada no sofá, olhando para a parede...ela pediu para ir.
– E como você se sentiu?
– Eu me convenci de que era o melhor pra gente. Aquela casa estava carregada com o clima pesado. Era sufocante viver ali. Então a gente se mudou para a cidade do meu pai.
– E?
– Facilitou. Óbvio que não passou, mas lá a gente se distraía mais fácil. Pelo menos no início. Nos primeiros meses. Depois o resto da família começou a superar. A gente não. As datas especiais passaram, e ai a gente começou a perceber que as memórias estavam com a gente...Não na casa.
– Você quis voltar. O passado não fica no lugar, e sim com a gente. – Sorri, lembrando do momento em que falei aquilo para ele. Foi a primeira vez que eu falei de Viktor pra ele. Na floresta, com o tornozelo machucado.
– É. Ela aceitou, desde que não tirássemos minha tia da casa. Ela não queria o apartamento mais, de todo jeito. Daí ela pegou o projeto do prédio e pediu um apartamento como pagamento.
– Eu fico feliz que tenham tomado essa decisão. Do contrário, como eu te conheceria, não é mesmo?
– Eu também. Você é uma das melhores coisas que me aconteceu. – Fechei meus braços ao seu redor de volta, sentindo seu abraço logo em seguida. Ficamos alguns minutos daquele jeito, até ele me soltar e secar meu rosto com o lenço de novo.
Meu celular tocou. Soltei o abraço e peguei o aparelho no bolso do fundo, imaginando que seria um dos meus pais. Não era. Meu amigo não demorou para acordar, pelo visto. Atendi, sob o olhar curioso de Lysandre.
– Oi, querido.
– Já de pé? A gente vai que horas?
– Eu já estou na rua, na verdade. Lys está comigo.
– Hum. Eu posso esperar se quiser...
– Não, tudo bem. Eu estou na praça, vou esperar.
Ele desligou, e eu logo encontrei o olhar curioso de Lysandre. Chegava a ser engraçado vê-lo daquele jeito. Eu sabia que ele não insistiria se eu não quisesse falar, mas a vontade de saber existia. Fiquei de pé, secando o rosto só para garantir. O choro já tinha parado. Ele esperou para saber se ele deveria ir a algum lugar.
– Nath vai chegar logo. A gente vai até o cemitério. É um hábito nosso.
– Eu sei. Você brigou com ele quando Priya chegou.
– É, enfim. – Da mesma forma que ele não gostava muito da ideia de me ver no hospital, eu não gostava de lembrar que por uma briga idiota eu quase morri. Nathaniel se sentira culpado, mas eu sabia que podia ter verbalizado tudo e nada aconteceria.
– Eu vou...
– Vem com a gente. – Ele pareceu um pouco incerto, mas eu o abracei de novo. – Nath não vai nem lembrar de ontem com a situação atual. E, por mais que ele não diga, ele não se incomoda de ter você por perto. Digo, no sentido de querer bancar o forte.
Ele acabou concordando, dizendo que se achasse que estava atrapalhando ele se retiraria. Nathaniel nos encontrou ainda abraçados, mas sequer comentou nada. Àquela altura, ele certamente já tinha juntado as peças.
– Bom dia. – Lys me soltou, ainda respeitando o meu desejo. Sorri fraco.
– Oi. Vamos?
Ele concordou com a cabeça. Num geral, Nathaniel sempre me ajudava a suportar aquele peso inteiramente, mas hoje, como todos os outros aniversários de morte, se é que isso existe, ele não ia conseguir. E eu sabia disso pelo olhar cansado dele e o cabelo desarrumado.
Os três andamos em silêncio até o portão já familiar. Eu passei primeiro e atravessei a ponte sozinha. Os outros dois me seguiram, ainda sem falar nada. De frente para a lápide, Lysandre nos deu algum espaço. Ele continuou de pé, alguns metros atrás.
– Oi, Vik. – Falei, tentando segurar o choro. Nathaniel...Eu nunca o vi tão destruído. Talvez porque eu não tinha o visto realmente nos anos passados.
– Oi, mano. Faz muito tempo que eu converso com você assim. – Ele começou a falar. Nos outros meses, ele sempre me deixava falar e depois ficava algum tempo olhando para o céu antes de irmos. Hoje não. Eu respeitei o momento e deixei ele falar, com os olhos marejados. – E eu sinto muita falta disso.
Olhei para trás. Lysandre estava com as mãos nos bolsos, fitando o chão.
– Muita coisa mudou. Sua irmã está linda. – Sorri quando ele me olhou, só para um segundo depois voltar a olhar para baixo e respirar fundo. – Eu melhorei muito, modéstia à parte. Não que interesse muito. Eu devia saber que você tinha razão. Aquela última vez, eu devia saber do que você estava falando. E eu realmente perdi minha chance. Só que eu não consigo mais parar.
– Ele se virou bem, Vik. – Ele engasgou nas próprias lágrimas quando eu abracei o braço dele e comecei a elogiá-lo. – Ele cresceu tão responsável e amável, até com a irmã dele. E olha que isso é uma conquista.
Ele não respondeu. Eu senti o rosto dele escondido no meu cabelo e simplesmente o deixei lá. Ele claramente segurou muita coisa, por muito tempo. E contando o tanto que ele me apoiou, nada mais justo do que segurá-lo por um minuto.
– Eu só queria que tudo voltasse... – Ele resmungou, me apertando ainda mais contra si, depois de soltar seu braço e me cercar com ele. Dentro do abraço eu conseguia ver o ponto onde Lysandre antes esteve. Achei-o esperando na ponte, observando o riacho.
– Tudo não. Só ele. – Isso serviu para alimentar a descarga emocional de Nathaniel, mas não me incomodei.
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