Notas iniciais
Segundo Gaiden. ^^

Aceito reviews u.u

“Individualista? Sim, sou individualista sim. Mas por que não ser? Se ligar aos outros me tornaria fraco e dependente. E eu posso ser forte por mim mesmo e enfrentar meus obstáculos sem necessitar do apoio de outras pessoas. Vivi grande parte da minha vida somente com a minha própria força de vontade. Nunca será diferente, assim como também não desejo que seja. Possuo aquilo que preciso para vencer: a minha determinação!”.

- Yuong Tsukyomi

/--/--/

Noite de verão, quatro anos atrás, na cidade de Konton...

Um garoto, com um cigarro acesso entre os dedos da mão direita, aproveita o “prazer” do mesmo, enquanto observa atentamente a placa de pedra centímetros diante de si. Clarrye Tsukyomi é o nome nela gravado.

– Por que você tinha que me deixar, mãe? – o adolescente se pergunta, observando a placa em questão.

Com mais algumas pitadas no cigarro, Yuong o deixa cair e, em seguida, o amassa com seu pé direito. Em momento algum, deixa de fitar a placa de pedra, fixa à terra.

– Você é um garoto cheio de cicatrizes. – fala uma voz feminina.

O garoto, um pouco surpreso, olha para trás. De si, uma bonita mulher se aproxima. A aparência sofisticada e naturalmente sensual dela em nada combina com o ambiente noturno de um cemitério. Pelo menos essa é a opinião de Yuong, ao observá-la.

– Por dentro e por fora... – completa ela, ao reduzir a distância que os separava a zero e se posicionar ao lado direito do menor.

– A conhecia? – questiona ele, voltando seu olhar para a placa, referindo-se à finada mãe.

– Infelizmente não desfrutei desse prazer. – nega a desconhecida, olhando para o mesmo ponto acolhido pelos olhos negros do mais jovem.

– Quem é você então, para vir fazer uma visita em uma hora desses a uma morta que sequer conheceu?

– Nossa, garoto. – a mulher se surpreende, guiando então sua atenção para o rosto do garoto. – Você fala como se ela não fosse a sua mãe...

Yuong, por instinto, passa a observar a serena expressão da desconhecida. Por outro lado, não tem a pretensão de rebater o comentário dela.

– Por mais que seus olhos escuros como ébano tentem passar frieza e independência, no fundo, seu coração clama por alguém a quem se agarrar.

– Eu não sei do que você está falando. – articula ele, sem se intimidar.

Um sorriso toma posse da clara face da mulher. Reajustando seus óculos com o indicador direito, ela decide se apresentar:

– Meu nome é Sugaku Megumi. Vim até aqui para lhe fazer uma proposta.

– Que proposta? – ele tenta saber, arqueando a sobrancelha direita.

– Sei que, após a morte da sua mãe, há dois anos, você se tornou o que muitos chamam de “rebelde sem causa”. A sua relação com teu pai deve estar um tanto quanto desgastada, eu suponho.

– Como sabe dessas coisas? – se surpreende Yuong.

– Sei de muitas coisas, como por exemplo, que você criou uma gangue imunda de rua e se tornou um drogado desprezível. Chegou até a ser apreendido, mas seu irmão mais velho sempre estava ali para te salvar, não é mesmo?

– Cala a boca! – grita, ao se irritar.

– Sua irmã caçula te vê como um herói. Pobrezinha... Não faz ideia da quão patética é a situação em que você se encontra. Não é um herói, na verdade, não passa de um sujo vândalo de rua. – prossegue, apoiando o braço esquerdo abaixo dos seios e cobrindo os lábios vermelhos com o indicador direito, enquanto ri em um tom baixo, mas provocador.

– Eu mandei você se calar, desgraçada! – perdendo a paciência, ele impulsiona seu punho direito contra o rosto dela, a fim de acertá-la com tudo.

Apesar da ameaça, Sugaku permanece na mesma posição, sem se abalar ou se intimidar, seja por qual intensidade fosse. É quando, ao quase acertar o rosto dela com seu punho, que Yuong é lançado alguns metros para trás, por algo que não saberia explicar. Assim que ele cai de costas na grama verde do cemitério, a mulher diz:

– Apesar de tudo, eu ainda posso dar um jeito em você, garoto. Você ainda é um caso com solução.

Mais que depressa, Yuong se levanta do chão. Irritado, olha dentro dos olhos intimidadores da mulher. Nesse momento, uma possibilidade passa por sua cabeça, resultando no instantâneo sorriso que toma controle do seu rosto.

– Nem pense em tentar me persuadir. Eu não sou uma presa tão fácil quanto os palermas que você está acostumado a dominar. – avisa ela, reajustando seus óculos com o mesmo dedo de momentos atrás.

– Como você...

– Como eu sei do que você é capaz? – Sugaku se adianta, após escutar os pensamentos do garoto. – Como lhe disse antes, eu sei de muitas coisas. Sei muito mais do que você.

Yuong se sente ameaçado, como poucas vezes em sua vida. É a primeira vez, desde muito tempo, que alguém consegue lhe fazer frente. Lembrando-se da estranha força que o afastara da mulher, impedindo-o de nela acertar um soco, o jovem engole seco, sem saber o que dizer ou fazer diante de tal situação.

– Você não é o único que possui dons especiais. Eu, por exemplo, também tenho os meus. – declara ela, cruzando os braços no contorno de seus seios. – Sou uma telepata e telecinética. Posso ler os seus pensamentos e me comunicar mentalmente com você ou qualquer outra pessoa na face da Terra, além de poder apagar ou reviver memórias em sua mente com apenas um toque dos meus dedos em sua cabeça. E, claro, posso mover corpos com minha capacidade mental, através da minha telecinese.

– Isso não existe! – rebate o adolescente, pasmo, com dificuldade de acreditar no que a mulher fala.

– É claro que existe. Seu dom de manipular as pessoas, de seduzi-las... Não é algo comum. Ou por acaso acha que, mesmo sendo tão bonito, apenas sua beleza pode abrir portar onde quer que você passe?

– Você deve ser louca! – exclama, se recusando a dar credibilidade para as palavras dela.

– Talvez nisso esteja certo. – brinca, entre leves risos. – Porém, minhas habilidades são reais, tanto quanto as suas. E se estiver mesmo interessado em mudar, fazer da sua vida algo melhor, vai querer acreditar em mim.

– E se eu não estiver? – provoca, elevando a sobrancelha direita, colocando as mãos nos bolsos de sua bermuda preta.

– Eu sei que está. E, no fundo, você me ajudará mais do que eu ajudarei você.

– Como assim?

Sugaku, com leves passos, se aproxima do garoto. Ao se posicionar bem diante dele, repousa seus olhos. Neles, o filho da falecida Clarrye Tsukyomi nota algo diferente do que, antes, os dominava. É um espírito fraternal, um sentimento um tanto quanto caloroso, que diverge, e muito, da silhueta imponente da recém-conhecida.

– Uma pessoa muito importante para mim precisará de você. Tenho que acreditar que, no futuro, estará lá... Ao lado dela.

– Uma pessoa muito importante para você? – repete, mais para si mesmo do que para ela. É difícil crer que uma mulher, à primeira visão tão fria e independente, possa se importar com alguém no mundo senão ela mesma.

– Sim. E para isso, precisará se matricular neste colégio. – afirma Sugaku, ao retirar dos seios o cartão de contato de uma escola.

A mulher, com sua mão direita, entrega o cartão para Yuong. Com sua respectiva palma, o recolhe, lendo em seguida:

– “Kyodai: traçando possibilidades para um futuro melhor”. – com um suspiro, guarda o cartão no bolso direito de sua bermuda e, redirecionando seu olhar para ela, comenta – Eu abandonei meus estudos e não estou a fim de retornar. E mesmo que eu quisesse, teria de voltar para os anos finais do Fundamental e não ingressar no Médio.

– Está enganado. Eu trabalho neste internato e já mexi os pauzinhos necessários para a sua matrícula. Tudo o que falta é a assinatura dos seus responsáveis, aliás, do seu responsável: teu pai.

– Aquele imbecil nem se importa comigo. Não vai querer colaborar.

Um novo sorriso invade a expressão da professora. Segundos depois, articula:

– Nós dois sabemos muito bem como convencê-lo ao contrário.

Yuong abaixa seu rosto. Porém, não deixa de dar a devida atenção às palavras da, até agora, estranha:

– Quanto ao seu desejo, ou não, de estudar... Nem mesmo isso pode fazer frente ao seu destino. Você será alguém importante, não só para essa cidade como para o mundo inteiro. Não pode fugir do seu chamado.

Direcionando o braço direito para ele, Sugaku libera comportadas e baixas risadas, satisfeita com o sucesso de sua missão. Assim que seus dedos tocam a cabeça do garoto, ela diz:

– Agora, vamos lá... Já está na hora de apagar da sua memória alguns detalhes desse nosso encontro.

Instantes em seguida, ele cai, inconsciente, de bruços ao chão. Ela, séria, abaixa seu braço e, com passos ágeis, anda em direção a uma limusine, estacionada a metros dali, diante da porta do cemitério. Sem mais nem menos, a professora se aproxima do carro ao atravessar o cemitério. Uma das portas do carro se abre e ela entra, assentando-se e se ajeitando em seu interior. A porta, então, se fecha sozinha.

– Como foi com o garoto, Sugaku? – questiona a silhueta de um homem, diante dela.

– Foi tudo como o planejado, Uria-sama. – afirma a mulher, olhando para fora, através da janela aberta.

– Tem certeza?

– Absoluta! – exclama. – E como está o andamento dos seus planos particulares?

– Posso dizer o mesmo que você. Aquela garota nem desconfia que eu a estou manipulando. Ou melhor, que estou manipulando os sonhos dela. – afirma o homem, que, através de sua voz, parece já ter certa idade. – Samasha Seiya deve achar que é uma vidente, quando na verdade sou eu quem a possibilito ver o futuro.

A mulher volta a sorrir. Vendo, de longe, Yuong se levantar do chão, ela profere o seguinte dizer:

– Manipular é um talento. Alguns nascem com ele, outros passam a vida tentando alcança-lo. Mas além desses...

O carro começa a se movimentar. Aos poucos, ele vai adquirindo velocidade até tomar um novo rumo. Nessa situação, Sugaku declama:

– Há os raros indivíduos com o destino de manipular, algo que transcende até mesmo a chegada neste mundo.

A limusine segue seu rumo. Yuong, após se levantar, ainda no mesmo ponto, continua observando a placa de pedra com o nome de sua falecida mãe, agindo como se houvesse um inexplicável vácuo em sua memória.

­– Yuu-kun!! – grita uma garota, ao longe.

Como se estivesse em transe, o garoto movimenta seu corpo em direção à voz. Na entrada do cemitério, vê uma pequena menina, de pele clara, cabelos negros até o pescoço e olhos pequenos e de mesma coloração. É Bruna, sua irmã mais nova.

– Yuu-kun!! – ela insiste, acenando com a palma direita.

Yuong, particularmente, detesta ser chamado dessa maneira. Se há algo que ele odeia, e com todas as suas forças, é ser nomeado como “Yuu-kun”. Porém, o caso de sua pequena princesa é diferente. Apenas ela, e mais ninguém, tem o direito de se dirigir a ele assim.

– O que você está fazendo aqui, sozinha, numa hora dessas? – pergunta, correndo para se aproximar dela.

Bruna sempre foi muito ligada ao irmão do meio, mas se tornou ainda mais há dois anos, quando perderam a mãe em um grave acidente. Os seguidos casamentos e divórcios do pai serviram apenas para aumentar a fissura na família, mas também para unir mais ainda os dois. Doce e gentil, a pequena se importa muito com ele, vendo em Yuong uma figura heroica e exemplar. Entretanto, a maior frustração do garoto é saber que não é essa a verdade, por mais que a irmã insista em seguir esse ideal.

– Vim encontrar você. O papai disse que você tinha sumido desde cedo sem falar para onde tinha ido. Como hoje faz exatamente dois anos, soube que estava aqui. – alega, com um sorriso, assim que o irmão se posiciona bem diante de si.

Fitando-a, o mais velho sorri. Com lágrimas em seus olhos, Bruna se joga nos braços dele.

– Eu sinto muita falta dela, Yuu-kun! Muita falta!

– Eu também sinto. Mas não se preocupe, você nunca estará sozinha. Estou aqui do seu lado.

– Yuu-nii-san, promete que nunca vai me deixar? – questiona, passando a olhar diretamente nos olhos do irmão, enquanto chora cada vez mais.

– Mesmo que eu esteja distante, sempre estarei no seu coração. – afirma ele, sorridente. – O que é mais importante entre nós é o nosso laço de irmãos.

Bruna, ao ouvir tal comentário, aperta as pernas do mais velho ainda mais, como se tivesse medo de se separar dele. O motivo foi a recente briga de gangues em que Yuong participou. A disputa foi séria e sanguinária, envolvendo armas e drogas. Muitos morreram e, por pouco, o mesmo não aconteceu com ele. Foi na cama de um hospital, vendo o desespero de sua querida irmã, que o garoto percebeu que estava no caminho errado.

– Eu não quero mais te ver daquele jeito. – diz ela, ao se lembrar de seu encontro com Yuong no hospital da cidade. – Por favor, não siga mais essa vida, Yuu-nii-san...

– Não precisa ficar preocupada, Bruna-hime. Estou aqui, não estou?

– Mas até quando? – indaga ela, cada vez mais chorosa.

A mão direita do mais alto acaricia o topo da cabeça da pequena, passando seus dedos por entre os fios negros. Com um leve sorrir, afirma:

– Já lhe falei várias vezes, mas não cansarei de repetir: por mais que eu esteja distante, sempre estarei contigo, em seu coração.

Após sua saída do hospital, há poucos meses, Yuong decidiu abandonar a gangue, que na verdade já estava em frangalhos. Sem sua liderança, ela chegou ao fim, semanas depois. Entretanto, o garoto ainda usa drogas, com a desculpa para si mesmo de que é uma forma de escapar da dor que a saudade da mãe lhe causa. No fundo, as lembranças do passado de como era sua família quando ela ainda era viva também lhe atormentam. E, dessa maneira, o adolescente se vê cada vez mais preso nessas correntes sombrias.

– Yuu-kun, a Lua está tão bonita hoje... – diz a garota, ao levar seu olhar para o céu estrelado.

– É verdade. – concorda, ao fazer o mesmo que ela. – Lembra que nossa mãe sempre dizia que a Lua representava o coração dela?

– Lembro sim, mas nunca entendi direito. Se fosse assim, a Lua não deveria ser vermelha? – questiona, separando-se do corpo do irmão e enxugando seus olhos com ambas as mãos.

Por alguns instantes, ele nada fala. Apenas observa o satélite natural da Terra, neste céu infinito e reluzente. Se lembra de todo o amor que recebia da mãe, de todos os sorrisos que no rosto dela via. Cada lembrança desse passado feliz representa as gotas que, agora, se esvaem dos olhos de Yuong.

– Você está chorando? – pergunta a garotinha, ao observar o rosto do mais velho por alguns segundos.

– Chorando? Eu? Que nada! Homens não choram! – tenta negar, entrefechando suas pálpebras, para disfarçar, mas mantendo-as em direção ao céu.

– Homens choram sim, só os bobos que não! – exclama, fazendo bico.

O adolescente abaixa seu rosto, passando então a observar a face de desaprovação da caçula. Alegre por poder desfrutar desses pequenos momentos felizes, a abraça com força e vontade, logo após curvar seu corpo para ela. Suas lágrimas caem no chão, assim como gotas de chuva ao caírem das nuvens.

– Eu voltarei a estudar, Bruna-hime. Finalmente poderei ser o herói que você sempre quis que eu fosse.

– Eu nunca quis, pois você já é, foi e sempre será o meu herói! – exclama a pequena, apertando-se nos braços do irmão. – A mamãe sempre acreditou nisso, eu também acredito!

Yuong sente-se ainda mais feliz. É possível entender o sentimento, o calor que o coração de sua irmãzinha tenta lhe passar. Por mais que as decisões do irmão do meio já tenham sido erradas e por mais que muitas atitudes tenham sido negativas, Bruna insiste em acreditar na mesma ideia: “Meu irmão é o meu herói!”.

De longe, uma silhueta imersa em sombras observa os dois menores de idade. Distanciada por vários metros, a estranha pessoa sussurra, para si mesma:

– Então foi atrás daquele garoto que meu pai te enviou, Sugaku?

Uma intensa chama flameja em seu olhar. Para qualquer um, é como se sua alma ardesse como fogo. Direcionando toda a sua atenção para os dois irmãos, que ainda se abraçam, a pessoa que, pela voz, parece ser um homem, conclui:

– Mais um que será levado para Kyodai? Bem... Vejamos até onde ele poderá chegar...

Yuong e sua irmã se separam. Enquanto um olha nos olhos do outro, os sorrisos e as lágrimas de comoção não podem ser contidas. Especialmente pela data que esta noite representa. O pai e o irmão mais velho sempre fogem dela, mas para os dois, ela representa algo muito maior do que a morte de quem tanto amavam. Uma noite que significa muito mais do que a partida de Clarrye Tsukyomi. Além de toda a dor, ela representa também o sonho de uma valorosa mãe: os filhos no caminho da felicidade.

– Por nossa mãe e também por você, me esforçarei ao máximo, para ser o melhor estudante que esse colégio já conheceu... – afirma, ao observar o cartão que, há pouco, retirara do bolso direito com a respectiva mão.

– Com certeza, Yuu-nii-san! Estarei te apoiando! – exclama, alegre. – Hoje e sempre!

Um forte sentimento toma posse do coração do seu irmão. É a felicidade, que Clarrye Tsukyomi, mesmo prestes a morrer, tanto desejou para os dois. O garoto, agora, finalmente consegue entender tudo o que ela, de modo tão amável e esforçado, tentou lhe passar: a verdadeira felicidade só poder ser alcançada ao lado daqueles que amamos. Ser individualista nesta vida, muitas vezes, é necessário. Entretanto, essa regra é inválida quanto o assunto é o coração. Não é sinal de fraqueza criar laços com outras pessoas, mas sim o sinal de um poderoso desejo de querer ser feliz.

O garoto ergue seu rosto, voltando então a observar a Lua prateada no céu. Por mais que a visão física contrarie aquela doce ideia, a alma de ambos os irmãos a enxerga de uma maneira diferente, de um modo mais encorajador. Para eles, a Lua é vermelha. Vermelha como aquele valente e materno coração...

Notas finais
Ate!