– Afinal, o que está acontecendo, Kenny? – questiona Lygis, diante dele.

Na classe, a professora encara o teletransportador junto dos estudantes que aqui estão. Anteriormente, Kenny surgira levando consigo Nagashi, Senshi, Tsubaki e Kaoru com o discurso de que precisava urgentemente deles. E agora surgiu chamando por Amaya Ome.

– Precisamos de você também, Amaya! – ele declama, fitando a garota em questão.

A jovem se levanta e vai em direção a ele. Séria, questiona:

– Poderia explicar que tipo de situação exige tamanho desespero nas suas medidas?

– As personalidades alternativas de Nagashi afloraram de tal forma que elas se materializaram sozinhas no mundo físico em que vivemos. – o integrante da Carmesim começa a explicar. – É provável que elas estejam se espalhando por aí e se isso acontecer, o segredo dos humanos avançados virá ao público.

– Suponho que precisam de mim para rastrear cada uma dessas duplicatas, correto? – questiona ela, ao se colocar bem diante dele.

– Exatamente! – assim ele confirma, colocando sua mão direita sobre o ombro esquerdo dela.

Ambos desaparecem.

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Sala de direção...

– O que vamos fazer para deter esse alterego da Swords-kun? – questiona Tsubaki, entre Senshi à sua direita e Kaoru à sua esquerda, usando sua mão direita para segurar o seu outro braço quebrado.

– Precisamos da Amaya para encontrar todas as duplicatas dela. Podem ser dezenas, centenas talvez... – fala Senshi, com sangramento em seus lábios e em seu nariz.

– O Luka e o Yuki já estão curados, não é? – o loiro presente vira sua face para a curandeira.

– Sim. – confirma ela, devolvendo a ele o seu olhar.

– Então vamos pegá-los e sair daqui. – sugere Kaoru.

Enquanto isso, Nagashi e Iyashi permanecem no centro do local: entre elas uma grande concentração de energia cinética, fruto da disputa de habilidades das duas.

– Devemos mesmo deixar Swords-kun aqui? – questiona a garota das flores, temerosa.

– É claro. – afirma Kaoru. – Apenas ela pode manter as coisas equilibradas por aqui.

Repentinamente, Kenny e Amaya surgem bem atrás do trio. Os jovens percebem e se viram para trás, dando de cara com a dupla recém-chegada.

– Estou aqui. – fala a garota da ultra comunicação. – O que tenho que fazer?

– Irmão, pego o Yuki-sama e o Luka-san e os leve para longe daqui, por favor. – Senshi pede ao dirigir seu olhar para o teletransportador.

– Sim. – alega ele.

Desse modo, o empático volta sua face para Amaya. Ainda sério, pede:

– Junto de nós três, você se organizará para encontrar cada duplicata da Nagashi. Creio que será capaz disso.

– Certo. – confirma sua ouvinte.

Dessa forma, Senshi, Tsubaki, Kaoru e Amaya atravessam a cratera que fora criada por Iyashi na parede e saem da sala. Kenny, por sua vez, recolhe o desacordado Luka e vai em direção ao diretor após atravessar todo o local. Ao pegá-lo – também sem consciência – e apoiá-lo em seus ombros, desaparece.

– Você é patética. – afirma Iyashi, encarando sua “versão original” enquanto a disputa telecinética continua.

– Tenho a impressão de já ter ouvido isso antes. – afirma a loira, sorrindo levemente. – Por que será?

– Você não tem controle sobre suas habilidades e posa de poderosa. – Iyashi prossegue com suas provocadoras palavras. – Não deveria ter uma postura que contraria tanto suas verdadeiras ações.

– Não estou disposta a ouvir críticas de uma personalidade alternativa minha. – Nagashi argumenta, fazendo seu sorriso desaparecer. – Além do mais, não tenho pose de nada. Sou o que sou da forma que sou e basta. Somente isso. Contudo, gostaria de saber uma coisa importante.

Mesmo com a pausa de Nagashi, Iyashi permanece calada. Perante tal situação, a amada de Senshi Yujo continua:

– Como você e minhas demais personalidades alternativas que surgiram, por causa do meu excesso de habilidades especiais, conseguiram se materializar?

Iyashi sorri, sem responder.

– Como podem fazer isso? – Nagashi insiste em saber, enquanto a disputa telecinética prossegue.

– Você teve contato com tantos poderes que alguns sequer utiliza. – afirma Iyashi. – Apenas quando se dar conta de tudo o que é capaz que suas personalidades alternativas serão reprimidas ao ponto de desaparecerem para sempre.

– O que isso quer dizer? – a neta de Madallena Swords tenta entender, arqueando sua sobrancelha esquerda.

– Isso quer dizer que a função do seu dom primordial, a absorção de habilidades, é combinar os poderes especiais que adquire e não utilizá-los separadamente. Quando eu, assim como suas demais personalidades alternativas, combinei a projeção astral de Sherry Fontaine com a intangibilidade de Kaoru Tohara e a telepatia de Sugaku Megumi, foi possível materializar um corpo físico. Projetando minha aura para fora do seu corpo, usei métodos telepáticos para inverter o dom do Tohara, fazendo com que eu me tornasse tangível ao invés de intangível. Compreende o que digo?

Nagashi fica espantada. Apesar de tudo, jamais poderia ter imaginado em algum momento que suas capacidades tinham essa faceta: combinação de poderes para um resultado novo. Vendo o impacto que causara nela, Iyashi declara:

– Foi por sua própria falta de vigilância e conhecimento sobre si mesma que eu e as suas outras personalidades múltiplas conseguimos adquirir liberdade.

– Tudo isso é minha responsabilidade. – pensa Nagashi. – Sempre procurei não ferir ninguém, mas estou causando justamente dor e sofrimento. Nesse momento, as minhas duplicatas devem estar se espalhando pela cidade, destruindo tudo. E a culpa é, exclusivamente, minha.

– Sim, a culpa é sua. – confirma Iyashi, sorrindo. – Não se esqueça: posso ouvir seus pensamentos assim como você pode ler os meus. Tudo o que você tem eu possuo também. É por esse mesmo fato que não pode me vencer e eu não posso vencê-la.

– Errado! – declama a verdadeira Swords, para a surpresa da outra. – Te superar significa superar a mim mesma! Não posso desistir! Nunca desistirei!

De repente, uma lembrança vem à mente de Nagashi. Ela se lembra de um certo momento na casa de Senshi quando Kenny falara sobre o significado de ser um Flamming. E, pouco a pouco, vai se recordando de cada dizer por ele expressado naquela ocasião...

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Certa noite, três dias atrás...

– Espero que entendam a importância do que vou dizer. – fala o teletransportador.

Ele está de pé na sala. Nagashi Swords, Senshi Yujo e Tsubaki Seijitsu estão assentados em um sofá diante do integrante da Carmesim. Conforme Kenny exigira, o trio se reunira aqui para ouvir atentamente o que ele tinha a dizer.

– Vocês três são Flammings, ou seja, pertencem à classe mais elevada dos humanos avançados, se assim pudermos dizer. – Kenny inicia. – Isso significa que suas habilidades estão conectadas aos sentimentos que possuem. Por isso, elas não podem ser anuladas, canceladas ou absorvidas exceto por alguém que seja capaz de compreender o que você sente ou se ligar de modo afetivo e profundo com suas essências. Além disso, quanto mais intensos forem seus sentimentos, mais intensas serão suas capacidades especiais. Creio que tal coisa ficou evidente quando enfrentaram Fênix. Pelo que constatamos, somente vocês três conseguiram equilibrar as coisas com ele, um humano avançado do mais alto nível que, ainda por cima, coleciona poderes especiais.

A teoria dos Flammings foi estipulada por Sugaku Megumi. Por muito tempo, ela estudara pessoas com poderes especiais que pareciam ficar mais fortes ou mais fracos conforme a intensificação ou oscilação dos seus sentimentos. Apesar dos esforços em tal empreitada, Sugaku nunca foi capaz de chegar a um resultado final e a existência dessa rara classe de humanos avançados ficou mais como um mito do que como fato. Entretanto, após a “temporária derrota” de Fênix, ficou claro para os integrantes da Carmesim de que os Flammings realmente existem. Além disso: ficou claro que Nagashi Swords, Senshi Yujo e Tsubaki Seijitsu são alguns deles.

– A verdade é que sempre acreditamos que, caso essas pessoas fossem mesmo reais, elas teriam um chamado diferente dos demais humanos avançados. – Kenny continua, alternando seu olhar entre os três. – Um chamado que pudesse fazer a diferença.

– Como assim? – Tsubaki, um pouco perdida com tanta informação ao mesmo tempo.

– Dentre os especiais, vocês são ainda mais especiais, entende? – diz ele, cruzando seus braços. – Estou dizendo que, cedo ou tarde, terão de assumir papeis específicos nas próximas batalhas que virão. Nagashi...

Kenny olha para ela. E garante:

– Você tem força de vontade e não tem medo de encarar seus desafios: isso será importante para que possa liderar os eventos futuros envolvendo todos nós como humanos avançados. Senshi...

E olha para ele.

– Você tem compaixão e equilíbrio: é, provavelmente, o único que conseguirá manter todos unidos não importando a situação. Precisaremos da sua contribuição para que permaneçamos conectados. Tsubaki...

E olha para ela.

– Já você tem a doçura e a sabedoria para saber qual é sua posição de acordo com o momento. Tua participação representa a manutenção de cada elemento em nós, desde os ideais até à vida propriamente dita. – Kenny explica. – Juntos, serão vocês quem atenderão ao chamado e que farão a diferença. Creio que serão, também, aqueles que darão espaço a um mundo novo no qual todos nós poderemos viver em harmonia e paz.

– Nosso papel é tão crucial assim? – Nagashi, tentando confirmar.

– É claro! – declama o Soldado da Carmesim. – Todavia, não pensem que devem agir sozinhos sempre. Haverá momentos que precisarão travar lutas em solo, outros, em conjunto. Afinal de contas, nossos sentimentos se tornam muito mais intensos quando há algo ou alguém que desejamos proteger...

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Os olhos de Nagashi adquirem uma cor lilás. Iyashi percebe isso e fica pasma.

– Você pode ter os mesmos poderes que eu, mas não tem meus sentimentos. – declara a Swords.

A concentração de energia telecinética entre elas começa a ser forçada na direção de Iyashi. Em outras palavras, Nagashi está conseguindo superá-la.

– Não é possível!! – pensa a personalidade alternativa da amada de Senshi.

– Sim, é possível. Pode ter certeza! – exclama. – Afinal de contas, acredito no chamado de todos os meus amigos. No chamado de quem acredita em mim!!

Desse modo, de uma só vez, toda a energia se volta contra Iyashi, lançando-a contra a parede. Quando isso acontece, a mesma se choca nela e cai de bruços ao chão. Os olhos de Nagashi voltam ao normal e a jovem abaixa seus braços que estavam erguidos até o momento.

– Agora volte para mim para que nunca mais nos cause problemas. – exige Nagashi.

O corpo da desacordada Iyashi começa a brilhar como uma aura espiritual. Em seguida, ela vai desaparecendo e ir em direção de sua “verdadeira versão”. Logo depois, some completamente após ser absorvida por Nagashi.

– 21 delas. – alega Amaya Ome, do lado de fora da sala, cercada por Senshi Yujo, Tsubaki Seijitsu e Kaoru Tohara.

A garota em questão está de olhos fechados com os dedos indicador e médio de ambas as mãos apoiados nos respectivos lados de sua face. Está se atentando à sua missão de encontrar todas as duplicatas de Nagashi Swords.

– Algumas delas ainda estão no colégio, mas outras já estão espalhadas pela cidade. É provável que já estejam causando estragos.

Senshi suspira profundamente. E pensa:

– Quando será que essas personalidades alternativas conseguiram se desvencilhar da Nagashi? É provável que tenha sido ainda hoje, mas quando? E se foi hoje, por que ela sentiu a falta da Arashi antes?

– Pessoal... – fala a loira, saindo da sala através da cratera na parede.

Amaya abre seus olhos, mas permanece com suas mãos da maneira como estão. Senshi, Tsubaki e Kaoru se viram para Nagashi que, por sua vez, vem se aproximando e falando:

– Precisamos encontrar as demais. Eu mesma acabarei com cada uma delas.

– Não será trabalho demais para você, Swords-san? Poderemos ajudar você... – Tsubaki se manifesta.

– Vocês me ajudarão sim, obviamente. – afirma Nagashi. – Contudo, deixe para mim o confronto direto. É meu dever concertar todos os problemas que estou causando.

– A culpa não é sua, não é você quem causou a separação das suas personalidades alternativas da sua primordial. – alega Senshi. – Pelo contrário! De todos nós, é sempre você quem passa pelos piores problemas. Seu passado foi bem mais doloroso do que o de qualquer um de nós, a responsabilidade do peso que seus poderes têm é maior, até mesmo foi quem teve que se arriscar para parar o Fênix. Sabemos o quanto fica complicado carregar tanta coisa sozinha. É por isso que temos que ficar do seu lado.

– Não apenas nós pensamos assim, mas todos os nossos amigos também. – Kaoru alerta.

Nagashi sorri. E agradece:

– Obrigada...

– Bem, agora creio que devemos ir em busca das demais duplicatas. – alerta Amaya, fechando seus olhos outra vez. – A mais próxima está na área dos quartos femininos.

– Certo! – declama Nagashi, dando meia volta e começando a correr. – Vamos para lá agora!

Dessa maneira, Senshi, Tsubaki, Kaoru e Amaya começam a correr também, seguindo-a. Afinal de contas, quanto mais tempo se passa com as personalidades alternativas da Swords por aí fazendo o que bem entendem, a situação de tudo fica cada vez mais grave... E insustentável.

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Enquanto isso, na sala onde Yukino Arima era mantida como prisioneira por Raiabaru Yamagato – secretamente...

– Acho que ficarão seguros aqui. – afirma Kenny, cruzando os braços e observando, desmaiados no chão, Luka Trancy Gold e Yuki Arima.

O teletransportador pensara que aqui seria o lugar mais seguro do colégio, no qual seria difícil até mesmo para as personalidades alternativas de Nagashi encontrarem. E como não se sabe o que esperar delas, é preciso focar na segurança dos dois.

– Vou voltar para a sala de direção ver como estão as coisas. – pensa ele, após respirar profundamente.

– Espere... – pede alguém.

Surpreso, Kenny se vira para trás. E quando o faz, dá de cara com ninguém mais ninguém menos que a filha do diretor.

– O que aconteceu com ele? – ela questiona ao correr em direção ao seu pai e se agachar bem próxima após ficar perto o suficiente.

– É uma longa história.

Juli se levanta. Apesar de tudo, não há temor algum sobre o estado do seu pai em sua expressão ou em seu olhar. Virando-se para Kenny, ela questiona:

– O problema tem relação com aqueles assuntos sigilosos, não é?

– Como assim? – Kenny, sem entender.

A garota sorri – e, evidentemente, de modo artificial e dissimulado. Encarando-o, declara:

– Sugaku-sensei apagou minha memória várias vezes, porém com o tempo minha mente foi criando certa resistência. À cada nova ocasião em que ela tentava me fazer esquecer de tudo relacionado com os humanos avançados, minha mente mantinha rastros das minhas lembranças. E agora que ela não está mais entre nós, não há quem possa fazer tal trabalho. – após um leve suspiro, continua, fazendo seu sorriso desaparecer. – Juntei as tão apagadas peças da minha mente e, de certa forma, consegui me lembrar de certas coisas: consegui montar o quebra-cabeça.

Kenny permanece em silêncio, estudando a face da garota com seu olhar. Não saberia explicar, mas por algum motivo, Juli está se comportando de modo diferente do que costumava ser.

– Enfim... Sei de tudo. – ela conclui, sem deixar de manter seu olhar conectado ao dele. – Não é preciso esconder essas coisas de mim, não mais.

– Juli, seu pai tentava te proteger.

– Assim como o vovô tentava proteger ele. Sim, sei disso. – garante a aluna de Kyodai. – Porém, isso não faz diferença. Na verdade, se eu morrer, também não fará diferença.

– Do que está falando!? Seu pai te ama! – esbraveja.

– Ama tanto que a obsessão dele em me manter longe de tudo isso criou um aneurisma no meu cérebro.

Kenny fica perplexo com o que acabara de ouvir e, por isso, não consegue falar mais nenhuma palavra. Juli, por sua vez, decide dizer:

– Acha mesmo que forçar o cérebro humano a deletar suas memórias inúmeras vezes não causa nenhuma consequência?

– Eu...

A garota ri, o que faz Kenny se calar outra vez. Ela articula:

– Esse aneurisma surgiu há quatro meses, mas descobri recentemente quando comecei a sentir fortes dores de cabeça. Procurei um médico e recebi o meu diagnóstico. Estou morrendo...

– O seu pai jamais poderia ter imaginado que isso lhe aconteceria. O mesmo posso dizer da Sugaku. – o teletransportador deixa bem claro.

– Isso não importa mais. – Juli deixa claro. – Estou à beira da morte e isso é tudo.

A aluna de Kyodai começa a caminhar em direção à porta do local. Quando se aproxima o suficiente, encerra seus dizeres, assim mesmo, de costas para teu ouvinte:

– Espero que eu consiga, finalmente, encontrar um sentido na minha existência antes do meu último dia de fôlego de vida.

Juli passa pela porta e acessa o corredor. Caminhando com calma, mas com o coração pesado, ela permanece séria. E, de longe, vê alguém cruzando a esquina e vindo em sua direção.

– Nagashi? – ela pensa assim, constatando que a pessoa que se aproxima é Nagashi.

Contudo, não é: e sim uma duplicata da Swords. É quando as duas se aproximam o suficiente que se colocam frente a frente. Sorrindo, a personalidade alternativa de Nagashi Swords aqui presente somente questiona:

– Você me dá permissão de dar um fim ao seu sofrimento?

– Como é que é? – Juli, desentendida.

A loira retira, usando sua mão direita, da sua cintura uma faca. Manuseando-a, permanece encarando a filha de Yuki Arima. Mantendo o sorriso, decide esclarecer:

– Sinto que, para você, viver é como agonizar dia após dia. – e seu sorriso se eleva. – Estou aqui para dar um basta, de uma vez por todas, à sua terrível dor... Juli...