Kyodai - The Awakening Of Chaos (Interativa)

63 Capítulo 53 - Water, steam, ice or snow


Notas iniciais
Demorei, mas cheguei!!

Lucy Rouvier, Sayuri Kishimoto e James Anthony Krum. Juntos, na casa da primeira citada.

– O que você está fazendo, afinal? – questiona a flautista, de pernas cruzadas, assentada na cama da cientista não-formada, assim como Jimmy.

– Você não é a sabe-tudo? – indaga James, fitando a artista.

– Vejo coisas que aconteceram no passado e no futuro, mas não sou onisciente, seu lindo! – exclama, entre risos.

– Estou fazendo algumas pesquisas. – afirma Lucy, assentada em sua cadeira de costas para a dupla, perante a escrivaninha onde se encontram vários relatórios, seu notebook, alguns objetos estranhos e a pequena gaiola dos seus dois ratinhos: dormentes, no momento.

Ela não quer dizer, mas desde que Saito morrera e que seu dom de regeneração celular espontânea foi roubado por Fênix, vêm fazendo uma série de pesquisas para descobrir uma maneira de recuperar habilidades avançadas perdidas. E, de certo modo, tornara-se obsessiva com isso.

– Não vai descansar mesmo com essa chuva lá fora? – pergunta Sayuri, voltando sua atenção para sua amiga, novamente. – O quão importante são essas pesquisas?

– Não, não posso descansar. – alega a garota, teclando agilmente. – Preciso chegar a uma conclusão o quanto antes.

A jovem, de fato, está empenhada em recuperar seu dom. No fundo, não está acostumada com a dor e nem quer se acostumar. Sempre que se machuca e sente dor, a lembrança da morte de Saito vem à sua mente, lhe trazendo um sentimento horrível. Não pode continuar assim, nem que tenha que trazer do além as pesquisas e experiências de habilidades sintéticas promovidas por seu pai no passado.

– Olá. – fala Akemi Pégasus, ao abrir a porta do quarto inesperadamente.

– Akemi!? – dizem juntos, Sayuri e Jimmy.

– Sim, sou eu. – confirma a ilusionista. – Vim aqui para retirar os dois deste quarto agora.

– Como assim!? – os dois, em coro, de novo.

Lucy, apesar da chegada inesperada de quem nunca botou os pés em sua casa, – e quem nem mesmo pode ser considerada como amiga, já que Akemi e a Rouvier não são muito próximas – não cessa com o que está fazendo.

– Ela está fazendo algo muito importante.

– E como sabe!? – Sayuri e Jimmy, de novo.

– Estou envolvida com isso também. Essas pesquisas são importantes não só para ela como para mim e para vocês.

Foi Sherry a única pessoa que descobriu as pesquisas que estão sendo levantadas por Lucy há quase uma semana – através da sua capacidade de se tornar invisível. Achou estranha a maneira da mesma se comportar e decidiu investigar. Ao descobrir, a primeira pessoa para quem contou foi Akemi. Com tais pesquisas, Lucy pode não só fazer ressurgir dons perdidos como trazer ao mundo novos experimentos para habilidades sintéticas, além de outras possíveis vantagens.

– Como meu pai deixou uma estranha entrar aqui? – pergunta Lucy, sem nem mesmo olhar para Akemi.

– Meus dons ilusionistas são perfeitos para essas ocasiões. – diz a Soldada da Carmesim, olhando para a “cientista maluca”, mas voltando sua atenção para Sayuri e Jimmy logo depois. – Agora saiam! – ordena, direcionando seu braço direito para fora do quarto.

– Nossa, não precisa disso tudo. – afirma James.

– Ela está certa. – determina a flautista, levantando-se e deixando o garoto surpreso. – Lucy-san precisa de um tempo sozinha, pois seja lá o que ela está tentando descobrir ou fazer, é algo importante.

– Ok, né? – Jimmy se rende, levantando-se também. – Tchau Lucy-san. – despede-se, ao ir andando para Akemi junto de Sayuri.

– Tchau... – fala Lucy, observando-os com meio sorriso até eles saírem.

Com isso, os três se retiram. E, então, um ar de tristeza se instala na garota. Um pouco cansada, se levanta e anda em direção a sua cama. Ao se aproximar o suficiente, observa a janela por alguns instantes.

– Que chuva triste...

De repente, o corpo dela cai sobre a cama. Intencional. Com lágrimas em seus olhos, a estudante de Kyodai diz para si mesma:

– Onde está a água para lavar a minha alma?

/--/--/

Sob a chuva: Kaoru e Saori Tohara assentados ao chão; Yukino Arima pouco atrás deles e Grade Lark perante todos.

– Você lavará as minhas sujeiras... É isso mesmo? – supõe Grade, encarando a mãe de Yuki Arima.

– Se você não sair do meu caminho, é o que terei de fazer. – alega a mulher, que permanece cercada por gotas de chuvas estáticas.

– A chuva ao redor dela... É como se tivesse parado no tempo. – pensa Kaoru, se levantando do chão, junto de sua irmã, de mão dada a ela. – É uma humana avançada como nós?

– Pensam que vão a algum lugar? – Grade os desafia, fitando-os. – Eu...

Yukino se coloca à frente dos gêmeos, para a surpresa tanto deles quanto da ex-Soldada da Gênese. Por isso, Grade sequer conseguiu terminar sua frase. Por alguma razão, se sentiu e ainda se sente intimidada com a presença da desconhecida.

– Pierre Fontaine e Marin Schneider devem morrer e meu objetivo é acabar com ambos. Quando minha missão for concluída, poderei ter novamente tudo o que perdi. – afirma Yukino, observando-a seriamente. – Sei que os conheceu, por ter feito parte do patético grupo chamado Gênese. Por isso, me diga: onde eles estão?

– Não tenho que obedecer suas ordens. E é você quem tem que sair da minha frente! – exclama.

Como fez antes com os dois estudantes de Kyodai presentes, ela ataca com potentes turbilhões de sombras provenientes de suas palmas. Contudo, quando as mesmas acertam o alvo, o corpo da ex-mulher do falecido Raiabaru Yamagato se transforma em água. Todos ficam pasmos, mas em segundos, Yukino volta à sua forma original.

– Água, vapor, gelo ou neve? O que prefere? – questiona a mãe do atual diretor de Kyodai. – Como não está incluída em minha vingança, posso te dar a honra de selecionar o método com qual a matarei.

– Vamos fugir daqui enquanto é tempo! – Kaoru sussurra para Saori.

Em seguida, os dois dão as costas para as mulheres e começam a correr para longe. Furiosa, Grade exclama:

– Voltem aqui agora! Eu não permitirei que fujam!!

– Qual das minhas perguntas quer responder? A sobre me dizer onde estão aqueles que procuro ou a sobre sua maneira de morrer? – insiste Yukino, impedindo a passagem dela.

Um sentimento ardente começa a brotar no mais profundo âmago de Grade: ódio. Por anos, esperou a melhor chance para levar Kaoru e Saori, juntos, para o mundo dos mortos. E agora, quando tem tal chance, uma qualquer ousas impedir o seu grande objetivo?

– Imperdoável! – grita a ex-Soldada da Gênese.

Os dois estudantes já não estão mais ao seu alcance. Viraram uma esquina e, sob a chuva, escaparam. Isso apenas eleva o rancor da mulher que já trabalhou, com tanta dedicação, para a família Tohara. E, sendo assim, ela literalmente pula contra Yukino: pretende arrancar o pescoço da mesma com a adaga em sua mão.

– Entendo: prefere a pergunta sobre sua morte. – diz a dama da água, do vapor e do gelo, quando Grade acerta seu pescoço com a lâmina, mas o local afetado se transforma em líquido para depois se reformar.

A Lark se enfurece mais ainda, o que parecia ser quase impossível. Separada por alguns centímetros de Yukino, a encara olho no olho: possuem uma altura quase idêntica.

– Mas como não teve educação para me responder, eu mesmo escolherei para você... – a mulher que um dia foi presa em uma cúpula de água, tendo todos os direitos que um humano comum pode ter restritos, completa. Na sequência, fecha suas pálpebras. – Desfrutará de tudo o que posso oferecer.

Todas, absolutamente todas as gotas da chuva param de cair, permanecendo paradas no ar. Em seguida, Yukino ergue seus braços, de palmas abertas, para o céu.

– Sinta a água! – declama, ao reabrir seus olhos.

Incontáveis gotas da chuva voam contra Grade, quase tão rápidas quanto tiros de armas de fogo. E a manipuladora da escuridão, urrando de dor, sente as mesmas perfurando seu corpo como agulhas. No fim do espetáculo que dura alguns poucos segundos, a vítima se encontra cheia de pequeninos buracos em suas roupas e pele. Sangue, muito sangue escorre de praticamente todo o seu corpo – inclusive do seu cabisbaixo e aterrorizado rosto.

– Sinta o vapor! – continua aquela que tanto almeja sua vingança.

A umidade do local começa a se concentrar em torno de Grade de modo tão visível que uma espécie de cortina gasosa é formada. Ela, que tinha cessado seus gritos, os revive, pois sua pele começa a ser queimada com o calor do vapor de sua inimiga. Não suporta e cai de joelhos em uma extensa poça d’água no solo – afinal, há pouco estava chovendo normalmente, antes de um certo alguém domar o fenômeno natural.

– Sinta a neve! – exclama Yukino, novamente.

A poça d’água em que Grade – gritando, sendo queimada pela densa cortina de vapor – está de joelhos se transforma em neve. Até mesmo o vapor ao seu redor se transforma, a envolvendo de tal forma que, em segundos, a vítima se vê presa em um cubo de neve. E nele, ela geme de dor. Sua pele queimada, em contato com o frio da neve, apenas gera mais sofrimento.

– E por último... – a poderosa humana evoluída decide encerrar, virando-se para o outro lado. – Sinta o gelo!

Das nuvens do céu, enormes estacas de gelo vêm caindo – em alta velocidade – rumo ao cubo de neve formado pelas habilidades de Yukino. Ao todo, são sete, que caem e se autodestroem ao perfurar o cubo. O espetáculo é esplendorosamente trágico. Porém, já não é mais possível ouvir os gritos e gemidos de Grade Lark. A neve – agora vermelha de sangue – se espalha no chão, junto da vítima que cai de bruços, estraçalhada.

– Acho que Raiabaru falhou ao me prender naquele lugar. – pensa a ex-esposa do citado, de costas para o corpo. – Afinal aquilo...

Yukino libera um simples assopro – o qual está em uma temperatura bem próxima do zero absoluto. Em segundos, não só a chuva no local como toda a rua – e tudo o que nela há, inclusive a própria Yukino – é completamente congelado. Entretanto, a escultura de gelo que seu corpo se tornara derrete – o que leva míseros instantes – e volta a ser o que era antes. Com um leve sorriso, a mulher volta a caminhar, articulando:

– Só me deixou ainda mais poderosa!!

/--/--/

A chuva cessa, a tarde acaba e a noite chega. E, então, na casa de Azori Atlus...

Na grande sala da residência, estão juntos em um sofá Nagashi Swords e Senshi Yujo. Ela está assentada e ele deitado em seu colo. No outro sofá, estão Julie Gray, Daniel Strauss e Sherry Fontaine.

– Que filme chato... – opina Sherry, entediada, ao lado direito de Daniel.

– Não achei tão ruim. – desta vez, é Julie, do outro lado dele.

– Gente, não falem demais durante o filme. – recomenda Senshi, ao olhar para as duas. – A Nagashi pode ficar brava porque ela ama romances.

– Senshi, fica quieto. – exige a loira, completamente fascinada pelo filme que assiste agora: Um amor para recordar.

O filme acabara de começar. O filho de Azori Atlus havia convidado Daniel, Sherry e Julie para vê-lo já que sua família saiu para uma festa – e Senshi, mesmo sendo namorado da “garota indomável”, não gosta da ideia de ficar sozinho com ela. A razão é simples: ele foi educado assim, para que nunca ficasse sozinho com uma garota.

– Você é tão fofo, Senshi-san... – alega Julie, ao sorrir e olhar para ele.

De repente, Nagashi manda um olhar fatal para a garota que, ao perceber, engole seco. É quando o namorado da Swords questiona, observando para que obtenha sua resposta:

– Obrigado. Mas... Por quê?

– Por que você não quis ficar sozinho com a Nagashi mesmo quando teve chance. – afirma Daniel, notando que a citada mandara aquele olhar fatal por querer assistir o filme e não por ciúmes. – Agora vamos ficar calados, senão podemos apanhar!

Repentinamente, no meio da sala, Kenny surge. Julie é a única a se assustar. Afinal, não é uma humana avançada e apenas ouviu falar um pouco sobre, através do seu amigo Daniel. Agora ver com seus próprios olhos é uma coisa bem diferente...

– Olá. – o teletransportador cumprimenta a todos, com seu guarda-chuva na mão direita.

– Olá. – corresponde seu irmão, sem deixar de prestar atenção no filme. – Se você ficar com esse guarda-chuva molhando o tapete, mamãe vai arrancar o seu pescoço fora.

– Ela já tentou várias vezes, né? O difícil é conseguir me pegar. – vai falando, enquanto atira o objeto em um canto, fora do tal tapete em que seus pés estão no momento, e retira a sua camisa molhada no meio de todo mundo.

– K-K-K-K-K-K-K-Kennyyyyyyy!!! – grita Sherry, totalmente corada, ao ver o tórax musculoso do tal à mostra.

– O que foi!? – questiona ele, erguendo a sobrancelha direita.

– Vai tirar sua roupa longe de mim! – grita ela, erguendo o braço esquerdo e apontando o seu indicador para o andar de cima, no qual fica o quarto do filho mais velho de Azori Atlus.

– Será que dá para todo mundo sossegar o facho!? – indaga Nagashi, alternando seu olhar entre os presentes. – Uma pobre mortal não tem o direito de assistir a um filme em paz!?

– Claro que tem. – fala Kenny, jogando sua camisa molhada na cara do Senshi.

– Opa, que foi que eu fiz!? – o mais jovem dos irmãos se revolta, se levantando de uma só vez do colo da namorada, pegando a tal camisa com sua mão direita e jogando de volta contra o mais velho.

Kenny nem se dá ao trabalho de se teletransportar, apenas desvia. E, com um sorriso maroto no rosto, fala:

– Ficou irritadinho!? Vem me pegar!

Senshi suspira profundamente e se deita no colo da amada de novo. Assim, articula:

– Nem vou tentar. Te pegar para mim é impossível.

– Ah, poxa... – comenta, decepcionado. – Você era mais legal quando menor, ficava todo nervosinho.

– Quando se cresce, se aprende esse tipo de lição. – afirma o adolescente, cruzando seus braços e voltando sua atenção para o filme.

– Kenny, vai, xô! – desta vez é Daniel. – Queremos ver o filme.

– Ok, ok... – o assistente de Yuki Arima se rende, cruzando seus braços e tomando passos em direção à escada que leva ao segundo andar da casa.

Sherry, ainda com sua face vermelha, olha disfarçadamente para o subir do tal. Pela primeira vez, percebe o quanto Kenny lhe parece bonito. E percebe também a tatuagem tribal de uma grande ave nas costas do mesmo.

– Por que você está quase babando por ele assim? – indaga Daniel, chamando para si o olhar de Sherry, quando o companheiro da Carmesim sobe toda a escada, desaparecendo do campo de visão deles.

– E-eu!? – ela, gaguejando.

– É, você. – afirma, cruzando seus braços.

– Está com ciúmes, Daniel-kun? – desta vez, é Julie, entre alguns leves risos.

– E-eu!? – agora é ele quem gagueja.

– Vou dormir. – afirma Nagashi, usando ambas as mãos para acariciar a face de Senshi. – Estou cansada e não adianta tentar assistir o filme com todos falando assim...

Seu namorado ergue seu rosto do seu colo e assumindo, normalmente, a posição ao seu lado esquerdo, ele passa a fitá-la, indagando:

– Não quer mesmo assistir mais?

– Não. – responde, sorrindo. – Estou bem cansada, vou dormir mesmo.

A loira se levanta. E, tomando o mesmo rumo que Kenny, fala para todos:

– Boa noite, Daniel, Sherry, Julie...

– Boa noite. – dizem os três, juntos.

E Nagashi sobe. Porém, antes de ir para o quarto onde está dormindo nas últimas noites, ela se direciona para o banheiro do segundo andar. Após alguns segundos, se aproxima o suficiente do cômodo em questão e, quando direciona sua mão direita para girar a maçaneta, alguém do lado de dentro do banheiro o faz por ela.

– K-Kenny!? – a loira, surpresa, ao se deparar com o tal, se camisa ainda.

– Eu estava...

– Não preciso saber. – dispensa ela, entrefechando seus olhos. – Poderia me dar licença?

– Claro! – responde, saindo do seu lugar, dando espaço para a mais jovem passar.

Kenny vai para o seu quarto e Nagashi entra no banheiro, fechando a porta em seguida. Com poucos instantes, se posiciona perante o espelho que fica um pouco acima da pia do local.

– Tem alguma coisa errada... – diz para si mesma, observando o seu reflexo na superfície de vidro.

Por algum motivo, a adolescente permanece observando seu próprio reflexo por longos instantes. Entretanto, se cansa disso e suspira, frustrada.

– Ah... Nem sei por que estou me queixando pela falta dela... Se sou a única em mim mesma, nada mal!

Nagashi se refere à Arashi. Desde que contou com sua personalidade alternativa para deter Fênix, a namorada de Senshi nunca mais a sentiu. É como se ela tivesse desaparecido por completo desde então. Ou, quem sabe, esteja em algum canto do seu subconsciente que nem mesmo a própria Nagashi possa alcançar?

– Você está bem? – pergunta Senshi, ao abrir a porta o suficiente para colocar apenas seu rosto para dentro do banheiro.

– Hey! – reclama ela, voltando seu olhar suavemente surpreso para o amado. – Eu poderia estar fazendo algo pessoal demais, mocinho!

– Se tivesse mesmo, trancaria a porta. – diz ele, sorrindo. – Esqueceu que eu te conheço bem demais?

– Por um momento, esqueci sim. – afirma a loira. – Pode descer e voltar para ver o filme, eu estou bem.

Sem dizer mais nada, a loira se volta para a porta e usa sua mão para sair daqui. E Senshi a acompanha até o quarto. Todavia, como um fato sobrenatural, o reflexo dela permanece no espelho, observando-a com um sorriso sádico, ainda mais do que todos os que Arashi exibira um dia. Um sorriso assustador, prova de que a neta de Madallena Swords não está tão “única em si” quanto pensa...