Kyodai - The Awakening Of Chaos (Interativa)
6 Capítulo 5 - In search of answers
Notas iniciais
O dia avança e logo a tarde chega. Assim que o sexto horário tem fim, os alunos de todas as turmas se dispersam pelo colégio. Alguns vão para as diversas áreas de lazer, outros para o refeitório ou para o agradável jardim. Já uma pequena minoria retorna para os quartos. É essa a alternativa escolhida por Lucy Rouvier.
– Vamos, deixa de ser bobo, Kaoru-kun. – argumenta Saito, ao lado direito do terceiranista. – Pode ser que a gente descubra algo de interessante.
– Você é um grande tarado, isso sim! Querendo espionar a garota pela fechadura da porta...
– Deixa disso e tome coragem! – impera, enquanto a dupla segue Lucy, a certa distância. – O Daisuke-kun comentou comigo que ela é muito reclusa e parece ser bem inteligente.
– E o que tem? – o mais velho arqueia sua sobrancelha direita, sem ainda ligar os pontos.
– Algo me diz que ela esconde algo. Quem sabe por isso ela está indo tão depressa para o quarto?
– Como você sabe que ela está indo para o quarto? Pode ser que ela queria fazer necessidades no banheiro. – argumenta, dando de ombros. – A caminhada é mais curta e não sabemos qual o tamanho da bexiga dela.
– É intuição, intuição. E uma pitada de curiosidade também.
Os dois continuam seguindo a garota pelos corredores até que, em poucos minutos, Lucy chega à ala do dormitório feminino e vai em direção à porta do quarto que divide com Sophia Cianno e Sayuri Kishimoto. A abre e entra. A dupla vai atrás, apertando o passo.
– E se alguém nos ver? Podemos ter problemas... – cogita Kaoru, bem baixinho, diante da porta como o amigo.
– Sayuri-san foi tocar no jardim. Sophia-san está resolvendo algumas coisas referentes a, pelo que parece, um clube de gatos.
– Clube de gatos? – questiona, sem ter a mínima ideia do que se trata.
– Tenho certeza que mais ninguém deverá aparecer por aqui. – alega, curvando seu corpo e aproximando seu olho direito à fechadura.
Lucy se encontra assentada na cadeira de uma escrivaninha. Em uma ponta, uma gaiola, na outra, outro. Um pequeno rato branco em cada. Duas pilhas de papel, ladeando o notebook aberto diante da garota.
– O que ela está fazendo? – pergunta Kaoru, em um tom ainda mais baixo do que antes.
– Eu não sei. Parece estar navegando na internet. O curioso é que ela tem dois ratos brancos. – sussurra em resposta.
– Ratos? Minha irmã tem pavor deles...
– Você tem uma irmã? Ela é bonita?
O rosto do terceiranista fica corado, mas ele tenta disfarçar.
– Sim, é sim...
Lucy, com rapidez, digita algumas coisas no teclado do seu notebook. Parece dedicada à tarefa que agora desenvolve, alternando entre a web e o Word.
– Está analisando alguns papeis e umas páginas na internet para escrever algo em um documento.
– Talvez seja uma pesquisa.
– Sim, mas pesquisa de que? Nenhum professor pediria uma pesquisa logo no primeiro dia de aula, pediria? E, além disso, os papeis já estavam ali antes dela chegar.
– Então o que você acha que é?
– É alguma coisa importante para ela, sem dúvida.
Pela fechadura, Saito não consegue ver com precisão, mas a pesquisa de Lucy tem como tema divisão e regeneração celular. Tal assunto é o foco predileto da garota em suas vastas experiências já feitas. No fundamental, acabou adquirindo o apelido de “cientista maluca”, devido a todas elas. Apesar disso, nunca se incomodou com a opinião dos outros.
De repente, ela interrompe a digitação e leva sua mão direita para um dos bolsos do seu casaco. Dele, retira seu inseparável bloco de anotações. A estudante visualiza alguns nomes e as informações ligadas a eles. Na página da esquerda, há dados de três pessoas.
“James Anthony Krum – 16 anos, detesta expor seus sentimentos. É uma pessoa objetiva, determinada, fria é muitas vezes, sarcástica e orgulhosa. Presenciou o homicídio dos pais quando tinha apenas seis anos de idade. Desde então, mora com Amme Krum, sua tia paterna”.
“Tsubaki Seijitsu – 15 anos, foi rejeitada pela mãe antes mesmo de nascer e sofreu várias tentativas de assassinato da própria. Aos quatro, foi encaminhada para um orfanato, e adotada por outros pais aos seis, que mais tarde morreram em um grave acidente de trânsito. Nunca conheceu o pai biológico”.
“Senshi Yujo – 16 anos, é uma pessoa extrovertida, desinibida e leal aos seus amigos. Os pais foram vítimas de uma grave doença, quando ele ainda era bem jovem, deixando-o apenas com a irmã gêmea, Sasha. Ambos tornaram-se moradores de rua e, aos 13 anos, ela morreu, vítima de bala perdida. Azori Atlus, empresário, lhe acolheu e o adotou dois meses depois”.
– São tantos no mesmo lugar. Isso não é normal. Essa escola deve ter algo por trás de tudo. – conclui Lucy, analisando com destreza.
Saito a escuta, mas não entende bem. Porém, permanece atento.
– Quatorze pessoas, incluindo a mim, estão em Kyodai e foram detectadas pelo meu sistema. – diz para si mesma, se referindo a um software que desenvolvera há dois anos. – É suspeito demais.
Ela apoia o cotovelo direito sobre a escrivaninha, aproximando seu rosto da tela do notebook. Acessando o ícone do tal sistema, na área de trabalho, aguarda alguns segundos. Assim que ele abre, uma imensa lista de nomes toma conta do monitor, organizada alfabeticamente.
– Pelo que tudo indica, esse colégio esconde alguns segredos. Mas qual seria o objetivo reunindo tantos de nós aqui? Seria mera coincidência?
Como faz raras vezes, Lucy sorri. Alternando seu olhar entre seus dois pequenos ratos, em suas respectivas gaiolas, ela se retrata:
– Para Lucy Rouvier, não existem coincidências...
– Ai Santo Cristo, preciso correr para o banheiro... – sussurra Saito, enquanto observa ela, tendo dificuldades para ouvi-la com perfeição. – Comer três sanduíches de ovo durante o segundo intervalo não foi uma boa ideia.
Repentinamente, o primeiranista sai disparado pelo corredor. Kaoru fica pasmo com a ação do mais novo.
– Saito-kun deveria aprender a ter refeições mais saudáveis...
Assumindo a posição que antes era do seu amigo, o aluno do terceiro ano curva seu corpo, colando seu olho esquerdo à fechadura, em semelhança ao que Saito fizera.
– Raiabaru Yamagato, diretor de Kyodai. – declama Lucy, analisando a foto de perfil do fundador do internato, quem aparenta já estar na meia idade. – Seja o que for que está tentando esconder ou o que sabe sobre nós, descobrirei. Tenho certeza de que moveu suas peças para nos reunir aqui. Contudo, logo você descobrirá que se meteu com alguém que não pode enfrentar.
Um barulho assusta a garota, fazendo com que feche o notebook de imediato e olhe em direção a porta. Surpresa, ela encontra Kaoru ao chão, com dois ou três livros de romance sobre suas costas.
– O que faz aqui? – Lucy analisa a porta e, notando que ela não foi aberta, faz um novo questionamento – Como fez para entrar sem abri-la?
O garoto, sem saber o que fazer, se levanta e se coloca de pé. Não responde, vermelho de vergonha.
– Saia. – pede a jovem cientista, com sutileza.
– Perdoe-me, Lucy-san. – pede, se virando e torcendo a maçaneta para sair.
Ele sai e a filha de Lamiel Rouvier suspira, aliviada. Voltando-se para seu notebook, o reabre, continuando com suas pesquisas.
– Eu deveria ter ido direto para o meu quarto escrever cartas para Saori. Bem melhor do que ficar bisbilhotando a vida alheia. – resmunga o terceiranista, se apressando, indo para a direção por qual veio.
Enquanto anda, Kaoru percebe que Sayuri vem ao seu encontro. Alegre como sempre, ela parece estar indo para o seu quarto.
– Olá Kaoru-kun. – o cumprimenta.
– Olá Sayuri-kun. – corresponde, tentando disfarçar sua ligeira instabilidade emocional.
Cada um prossegue com seu rumo. Enquanto ele vai para o seu quarto, a flautista vai para o dela. Pessoas diferentes, com personalidades diferentes, que em breve poderão se chocar com uma mesma verdade...
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Jimmy caminha sem nenhuma pressa, pela grama, no jardim do interior do prédio de Kyodai. Com as mãos nos seus bolsos, o garoto, pensativo, observa as poucas pessoas pela área. Ainda assim, nenhuma das que vê lhe importa agora. O único ser que não sai da sua cabeça chama-se Senshi Yujo.
Como poderia estar com uma ideia tão fixa em relação a quem mal conheceu? O guitarrista não consegue entender. Tudo bem que ele é divertido, alegre, nada inibido, atlético, bonito... Mas e daí? Não deveria ser apenas amigo dele? Desenvolver uma amizade com o novato mais falado em todo o colégio poderia não ser lá algo tão ruim. Mais do que isso, talvez, seja inaceitável. Ou impossível...
– Jimmy-kun! – alguém o chama, acordando-o do seu transe.
James se dá conta que está andando ao lado de uma das piscinas de Kyodai. Seu coração perde o controle quando, olhando para a água, encontra o “babável motivo” de sua inquietação, tão grande que mal percebeu onde foi parar.
– Está parecendo preocupado. Tudo bem com você? – questiona Senshi, entre as águas, nadando em sua direção.
Jimmy para e tenta se controlar. Quem se aproxima é apenas o seu companheiro de quarto atraente, popular e “mega sociável”. Não tem nada demais nisso tudo, para se desestabilizar dessa forma, tem?
Apesar da tarde estar bem quente, apenas dois estudantes se refrescam na maior das piscinas do internato. Estão competindo algumas partidas, para descobrir “o mais rápido sobre circunstâncias aquáticas”. Para Gingamaru Pride, foi uma vitória esmagadora.
– Wow, Senshi, você é um mané! – zomba o vencedor de oito partidas, atravessando a piscina com um nado extremamente rápido, saindo segundos antes do outro. – Debaixo d’água, ninguém pode comigo!
– Gingamaru, competimos mais depois, pode ser? – pede, sério, fitando-o e ignorando a provocação.
Os dois garotos ladeiam Jimmy assim que saem, e este se vê diante de um legítimo beco sem saída. Tanto Senshi quanto Gingamaru possuem corpos bem definidos, traços faciais instigantes e olhos naturalmente sedutores. E pior: esses são seus dois companheiros de quarto. Desde o ano passado, o sobrinho de Amme Krum vem suportando a “tormenta” de conviver tão próximo do melhor nadador de Kyodai. Contudo, agora, parece que seu dilema será em dobro.
– Ok, já saquei. – se dá por vencido, pelo menos em relação a sua permanência no local, ao estudar com mais profundidade o olhar de seu rival.
Encharcado, o maior dos três se vira em anda em direção às suas roupas, mais distantes. Jimmy presta a sua atenção no afastar dele. Sente mais perigo observando o real responsável de sua instabilidade.
– Quer conversar? – questiona Senshi, cruzando os braços, abaixo do peitoral firme.
James vira o rosto para ele, que permanece parado, centímetros diante de si. Engolindo seco, dispensa:
– Não precisa. Eu não gosto muito de me expor.
– Seja o que for, pode falar. Quero ser teu amigo, te ajudar.
Jimmy sorri. Percebe que a intenção dele é a melhor possível. Está mesmo disposto à amizade. Mas o que incomoda o coração do menor é justamente sua própria intenção. Se pudesse, seria mais do que um amigo para Senshi?
– Se abra comigo. – pede, insistente.
Senshi nota a hesitação na face do companheiro de quarto. Por mais que insista, não consegue convencê-lo. Pelo menos não enquanto usar apenas uma sunga vermelha...
– Se eu me vestir, você desabafa? – indaga, arqueando a sobrancelha direita.
O movimento positivo da cabeça do outro lhe faz sorrir como ele. Gingamaru já não está mais por perto, foi para o vestiário se enxugar e se trocar. Porém, o carismático “perdedor de oito vezes”, acolhendo suas roupas do chão para seus braços, não pretende fazer o mesmo. Vestindo, com pressa, no mesmo lugar, ele fala ao terminar:
– Pronto. E agora?
– Agora sim. – responde Jimmy, sabendo que a ameaça está mais inofensiva dessa forma.
Não consegue parar de cogitar a possibilidade: “Será que ele já percebeu?”. Apesar disso, compreende que a melhor coisa a se fazer é conversar e não se limitar a pensar sobre o assunto.
De repente, Senshi se abaixa, assentando-se sobre a beira da piscina. Colocando seus pés descalços na água, ele leva seus braços para trás do corpo, esperando que o veterano faça o mesmo. E, instantes depois, James faz, mas mantem suas pernas para fora da piscina e seus braços sobre elas.
– Desabafa. Tenho todo o prazer em te ouvir. – comenta o “cabelos prateados”, olhando-o de maneira fixa.
Jimmy suspira fundo, procurando o melhor método para falar de um tema, para si, tão complicado e delicado. Tem medo do que podem pensar, do que iriam falar... De como Senshi reagiria. Apenas sua tia, que é a única pessoa em que confia plenamente, sabe de sua opção. E ela nunca o condenou, pelo contrário, o apoiou sempre, apesar de qualquer coisa. Deveria, então, revelar para mais alguém?
– Eu sou... Eu sou... – tenta dizer, mas tendo problemas para tal tarefa.
– Eu sei no que você quer se “catalogar”. – revela, surpreendendo James.
– Sabe? – pasmo, olha para Senshi. – Como assim?
– Não precisa procurar uma definição para o que você é, deve apenas ser. – recomenda, certo das suas palavras. – Se você tenta se catalogar como um produto no supermercado, se sente inseguro diante das pessoas, temendo ser rejeitado como as marcas de má qualidade.
– Estou confuso. – admite, mais calmo com a maneira serena utilizada pelo outro.
– Quero dizer que você não precisa agir como a sociedade quer, nem se comportar de uma maneira que lhe dê mais segurança, baseando-se em um ideal prefixado por outras pessoas. Estou falando que você deve apenas ser o que você é e viver o que te faz bem.
– Se refere a...
– Me refiro a tudo – o interrompe, tranquilo como antes. – O mundo seria melhor e a vida mais prazerosa se as pessoas substituíssem o preconceito, o ódio e a ambição por compreensão, amor e solidariedade. Infelizmente, ele não é assim. Mas não significa que devemos sentar e chorar sem fazer a nossa parte.
– A nossa parte?
– Claro! Cada um tem um papel a desempenhar na Terra, é o que eu acredito. De uma maneira ou de outra, cada pessoa é importante, especial da sua própria forma. Mas nem todos atendem a função que, nessa teoria, deveriam atender.
– Seguindo esse raciocínio... Qual é o meu papel nessa situação?
Um brilho toma controle da expressão de Senshi Yujo. É como se a emoção evidenciada em seu rosto o fizesse se conectar a James, como se fosse um laço constituído por sua indestrutível ideologia.
– Ser feliz. – afirma, deixando seu ouvinte perplexo. – E para lhe ajudar nisso, estou disposto a ser o seu melhor amigo, aquele que você nunca teve. Promete cumprir com a sua função?
O assombro de Jimmy se desfaz. Não faz ideia de como o novato parece lhe entender tão bem, de um modo quase perfeito. Quem sabe, já é perfeito e ainda não percebera? Mas não importa, seja como for, não para o guitarrista. Pode ser que sua personalidade irônica e fria tenha reduzido seus amigos a quase zero, o que é verdade. Contudo, independente disso, Senshi desintegrou a armadura do veterano e alcançou o verdadeiro James Anthony Krum.
– Prometo! – declara, alegre.
– É isso ai! – se empolga. – Agora vamos nadar?
Ele demora para responder, alguns poucos segundos. Pensativo, ele articula:
– Por favor, não fica só de sunga de novo...
Senshi ri, mas replica:
– Tudo bem, ficarei com ela e com a camisa também, pode ser?
– Pode.
– Então vai lá no quarto buscar a sua! – pede, se levantando, mas mantendo o olhar sobre o menor. – Não deve estar com ela agora, certo?
– Já estou indo! – declara, se erguendo e dando-lhe as costas, correndo em disparada, bem mais alegre do que antes.
Senshi observa o companheiro de quarto se afastar. Se sente feliz, fazendo algo que lhe faz tão bem: alcançar os reais sentimentos de quem o cerca. Sem espera-lo, ele retira sua calça e seu blazer, ficando apenas com a sunga e a camisa, como o combinado. Em seguida, salta para a piscina.
Jimmy continua a correr, sem olhar para trás. Quando ouviu a pergunta “Agora vamos nadar?”, Jimmy sentiu sua hesitação e seu temor retornarem com todo o fervor. Porém, os dizeres que escutou anteriores a ela, do novo amigo, ecoaram em sua mente e fizeram a diferença. Dizimaram todo e qualquer receio. Tudo o que resta no pensamento de James é a sua certeza: a certeza de que, como fizera com todas as suas promessas anteriores, não voltará atrás com a sua palavra.
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