Kyodai - The Awakening Of Chaos (Interativa)
71 61 - Change of ground
Notas iniciais
Nagashi Swords. Ela abre seus olhos. E fica surpresa, o que não é de se estranhar: há pouco estava em Kyodai junto de Senshi e de todos os outros. Porém, bastou aquele estranho brilho envolver as duas viajantes do futuro para que a loira fosse levada para outra área. Ou melhor, para outro tempo...
– Onde estou? – se pergunta mentalmente, olhando para todos os lados na tentativa de identificar o local onde se encontra agora.
A área em questão é uma espécie de beco entre casas na cidade de Konton. Ela não sabe, mas é um ponto nem tão longe de Kyodai. E, apesar de já estar bastante impactada com sua situação, ao ver certo alguém se aproximando, fica ainda mais perplexa: Minos Tsuyoshi.
– Não pode ser!! – pensa ela, atordoada, analisando a silhueta do homem em questão que se torna cada vez mais próxima. – Ele deveria estar morto! Significa que fui mandada de volta no tempo!?
Se dando conta disso, Nagashi olha para sua direita. E, sem pensar demais, se atira contra um pequeno muro, atravessando-o: está usando a intangibilidade de Kaoru Tohara.
– O seu caminho está prestes a acabar, Senshi Yujo. – fala Minos, para si mesmo, andando com tranquilidade: Nagashi, entretanto, não foi capaz de ouvir tal comentário.
O homem se encontra de olhos fechados. Porém, de repente, os abre. E dessa forma vai dizendo para si mesmo, sem sequer notar a presença de Nagashi, mesmo estando ela ocupando o mesmo espaço que o muro no qual se escondeu:
– É lastimável ter que retirar a vida de pessoas tão jovens. Contudo, não tenho outra alternativa...
– Precisarei manter minha mente em branco e criar um bloqueio mental na minha cabeça para que ele não me perceba. – imagina Nagashi, ciente de que telepatia é um dos dons de Minos Tsuyoshi.
O Soldado da Gênese passa pelo muro em que ela está se escondendo normalmente, pois não rastreia nenhum pensamento da garota. Nagashi, por outro lado, se dá conta: esse foi um momento precedente a quando Minos invadira Kyodai e atacara Senshi para matá-lo.
– Ele está indo até o Senshi! – diz bem baixinho para si mesma.
Ela decide sair do muro e confrontar Minos aqui e agora. Contudo, as palavras da Yukino Arima de 2027 vêm à sua mente: “Há coisas que, por mais trágicas que sejam, precisam acontecer para manter natural o fluxo da realidade.”.
– Não posso interferir... – fala, ao se frear.
Quando Minos está longe o suficiente, Nagashi sai do muro e se coloca de volta no ponto onde estava anteriormente. Observando o afastar dele, articula:
– Será que devo segui-lo!? Afinal... Por qual razão acabei parando nesse período do espaço-tempo?
Mantendo uma distância segura, a estudante de Kyodai decide, então, segui-lo de fato. E o faz por alguns poucos minutos, notando que Minos caminha sem pressa alguma. Vez ou outra, ela se esconde em algum muro, árvore ou casa para que não seja vista, sem deixar inativo o bloqueio que colocara em sua própria mente para que não seja rastreada pelo seu alvo.
– Não posso causar nenhuma interferência desnecessária ou esmagarei uma borboleta... – se lembra das palavras ouvidas sobre os efeitos colaterais de alterações impensadas no fluxo do tempo e do espaço.
Repentinamente, ao chegar a certo ponto, o Soldado da Gênese para. A loira se assusta, supondo que, de algum modo, foi notada. Às pressas, se lança contra o portão de uma casa à sua esquerda, atravessando-o.
– É você mesmo? – questiona Minos, sem se virar para trás. – Rick Mendez?
Quem, agora, se coloca perante o músico é justamente o irmão mais novo de Sanford. Com meio sorriso, encara o Sub-general da Gênese com certo desprezo. E declara:
– Não entendo como uma florzinha como você pode ser declarado o Sub-general da nossa organização! Há outros com um pulso firme bem melhor do que o seu. Até mesmo a louca da Grade seria uma sub-líder melhor do que você.
Apesar da provocação, Minos não responde. Nagashi, por sua vez, observando tudo de longe, fica bem surpresa ao perceber Rick Mendez e reconhecê-lo.
– Será que isso aconteceu mesmo ou foi alguma interferência minha que mudou algo? – pensa, mantendo suas habilidades telepáticas ativas para que seus pensamentos não sejam captados por Minos.
– Vire homem, cara! – declara o Mendez, debochando da cara do seu superior.
A forma como Rick se refere a ele, agora, se explica pelo fato de que o irmão de Sanford costuma não ter submissão aos seus superiores. E, ainda por cima, sempre repudiou a personalidade serena e a calma intocável de Minos. Nunca quis admitir, mas a maneira de ser do músico sempre o tirou do sério.
– Não dá mesmo para acreditar que você vá para uma missão de assassinato com essa sua cara de bosta... – o mais jovem continua satirizando, mesmo com a percepção de que Minos não está sendo afetado de maneira alguma.
– Sua opinião em nada me interessa. – revela o sereno Sub-general da Gênese. – Saia do meu caminho e não atrapalhe a minha missão.
– Garanto que vai voltar como um cachorrinho vadio com o rabo entre as pernas. – opina Rick, entre risos irônicos. – Isso, é claro, se conseguir sobreviver...
– As pessoas sofrem, choram e se ferem. Outrora, se alegram, sorriem e são curadas. A dualidade que não pode ser quebrada é como uma regra para quem vive. Porém, a morte... – recita Minos, como quem mal dá valor para os dizeres daquele que lhe confronta. – É mesmo algo pleno e, para nós humanos, definitivo. Porém, há mais do que simplesmente viver e morrer na existência humana.
– Anh? – Rick indaga, arqueando sua sobrancelha direita, sem entender.
Inesperadamente, Minos sorri. Nagashi, que até agora não estava entendendo a postura dele, entende menos ainda. Por alguma razão, mesmo com as capacidades empáticas de Senshi, ela não consegue compreendê-lo. E sente que, caso tente, será detectada.
– Se não entende o que digo, sequer merece trocar palavras comigo. – afirma o artista, mantendo seu sorriso.
Rick se enfurece o sente o ardente desejo de tentar, aqui e agora, matá-lo por conta própria. Entretanto, se lembra do momento em que seu irmão Sanford Mendez lhe avisara para não se meter com Minos Tsuyoshi. É o que retém suas ideias cheias de ira e fúria.
– Minos... – pensa a observadora, analisando a situação do momento de longe. – Eu não havia dado a devida atenção para sua maneira de ser na época em que o enfrentei, mas... Prestando mais da mesma, vejo que há um ar de melancolia em torno de você. E para isso a empatia do Senshi nem é necessária... É algo bem evidente.
De repente, uma forte preocupação se instala em Nagashi. Ao se lembrar de Senshi, se dá conta que ele e seus amigos, talvez, tenham sido tragados também pela abertura no espaço-tempo que foi criado por Reiko e pela Yukino do futuro. Isso faz os pensamentos da garota entrarem em conflito, fazendo-a perder a estabilidade.
– Alguém inesperado está por aqui. – fala Minos, virando-se de uma só vez para trás.
– Ele me percebeu... – ela fala bem baixo para si mesmo, perplexa e assustada com a possibilidade de fazer alterações perigosas no espaço-tempo.
Nagashi se concentra, fechando seus olhos: está tentando sair daqui o quanto antes com o dom de Kenny. E consegue, se teletransportando para outro local. Quando reabre suas pálpebras, está mesmo em um lugar diferente do anterior.
– Que alívio... – suspira, colocando sua mão direita no seu seio esquerdo, sentindo o bater do seu próprio coração: que ainda está bem acelerado.
De repente, a loira ergue sua face para o céu. E fica espantada: uma donzela de longos cabelos rosados, de vestes claras e puras como a neve, vem atravessando as nuvens e voando com graciosas e angelicais asas em sua direção.
– Um anjo!? – Nagashi fica perplexa ao supor isso.
Em poucos instantes, a estranha entidade se coloca a consideráveis, mas contáveis centímetros da Swords. Encarando-a com um ar sereno e uma expressão pacífica, a desconhecida decide se apresentar:
– Olá Nagashi Swords. Sou uma enviada dos céus: Andrômeda.
– Enviada dos céus!? – a humana avançada se surpreende. – Andrômeda é seu nome?
– Exatamente. – a beldade confirma, estando pairada com alguns centímetros acima do chão. – Assim como aquele que tanto ama.
De imediato, à mente de Nagashi vem a imagem de Senshi. De quem mais a tal Andrômeda poderia estar falando, afinal de contas? Por isso, uma estranha sensação invade o coração da estudante de Kyodai.
– Ele tem uma missão preciosa que está atendendo ao seu lado. – afirma a anja. – Afinal, você passou por coisas complicadas.
– Sim... – confirma a loira, prestando bastante atenção nela.
– Não duvide de si mesma, Nagashi, nem se ache a culpada pelos problemas que os outros têm. – a dona dos longos cabelos rosados recomenda. – Você tem brilho, tem luz. E todo ser humano, por mais perverso e cruel que seja, possui o direito de se arrepender, abandonar seu passado e renascer como nova criatura. Não há nada que faça que vá contra os ideais dos justos.
– Porém, um dia irei perdê-lo, não é? – indaga, exibindo um sorriso de angústia e dor.
– Senshi Yujo é um anjo. Você é uma humana. Não podem permanecer unidos fisicamente, mas permanecerão unidos pelo laço que os une. – ela explica. – Ainda não é chegada a hora da separação, mas devo avisar que você precisa estar preparada para quando esse dia chegar.
– Tentarei estar, mas... – diz, abaixando sua face, permitindo o desaparecer do seu tão contraditório sorriso. – Gostaria de poder entender certas coisas, gostaria de poder...
– Amá-lo sem medo? – Andrômeda, ao notar a hesitação dela, sugere.
A humana avançada ergue sua face e a volta para a anja. Agora, com seus olhos umedecidos, Nagashi fala:
– Sim. Amá-lo sem medo do amanhã, sem medo de estar errando, sem medo de causar sofrimento, sem medo de sofrer...
No fundo, a Swords sempre soube que Senshi era diferente, sempre notou que ele possuía algo de diferente. E justamente por isso que o evitava no início, mas não teve muito sucesso em tal empreitada. Quando se deu conta, já estava apaixonada e nos braços de um anjo... Nos braços do seu amado anjo.
– Siga o seu caminho em paz. – aconselha. – Deixe seus temores de lado e passe a viver segundo, e somente segundo, o amor. Perceberá que o amor é maior do que qualquer coisa, superior até mesmo às regras do espaço e do tempo.
– Eu já sei disso. Fui capaz de perceber que minha avó sempre esteve certa. – admite, se lembrando de todas as vezes que Madallena, em leito de morte, tentou reverter sua sofrida situação. – Não tenho mais dúvidas do quanto esse sentimento pode ser poderoso.
– Então nada mais tenho a tratar com você. – afirma Andrômeda, fitando-a. – Sei que fará tudo conforme devem seguir as coisas. Acredito que os céus não erraram quando acreditaram em seu potencial e em sua justiça.
A beldade celestial reabre suas asas, alçando voo. Observando a face de Nagashi, declara:
– Não está longe o momento em que nos reencontraremos. Saiba que quando isso acontecer, será o prelúdio da última e mais dolorosa das batalhas. Entretanto, tenha em mente que o Sol sempre brilha após a tempestade.
Desse modo, Andrômeda dá as costas para Nagashi e voa de volta para o céu. A Swords observa a cena que parece tão surreal e, quando a anja desaparece entre as nuvens, a neta da falecida Madallena Swords se dá conta que deveria ter perguntado sobre o que fazer para retornar ao seu tempo.
– Perdi uma oportunidade sem igual... – pensa ela.
A garota abaixa sua face. E algo a surpreende de novo: um ovo.
– O que é isso!? Eu não tinha visto isso aqui antes!! – fala para si mesma, de olhos arregalados, observando o ovo, grandinho até, no ponto qual os pés de Andrômeda quase tocaram. – Parece um ovo de avestruz!
“Sei que fará tudo conforme devem seguir as coisas. Acredito que os céus não erraram quando acreditaram em seu potencial e em sua justiça”. A estudante de Kyodai se relembra dos dizeres que acabou de escutar. E, então, pensa:
– Há coisas mais poderosas do que o destino. Há coisas que não podem ser ultrapassadas por habilidades especiais ou pelas forças da natureza. Coisas como o amor é que conceituam a verdadeira essência da humanidade.
Desse modo, a loira anda, se aproxima, para e agacha. E recolhe o ovo com seus braços.
– Não posso permitir que a dor ressurja dentro de mim. – mentaliza, observando o ovo que agora carrega com seriedade. – Preciso lutar contra ela com tudo o que tenho. Mais do que isso: devo lutar contra a dor de todos!
A jovem se levanta, reassumindo uma postura ereta. É quando dá atenção para o local onde está: a calçada do hospital no qual vivenciou os últimos segundos de vida de sua avó. Direcionando seu olhar para o grande edifício em questão, ao seu lado direito, sorri.
– Obrigada... – diz, pensando em Madallena. – Você sempre esteve certa e hoje sei disso. Espero que, seja nesse ou no meu tempo, que nem tanta diferença tem assim, você esteja descansando em paz.
– Olha papai. – diz alguém.
A humana avançada se vira para trás. E dá de cara com uma pequena garotinha de pele negra, olhos castanhos, cabelos negros curtos e corpo frágil. Quem a acompanha é ninguém mais ninguém menos do que Azori Atlus.
– Uma menina estranha carregando um ovo gigante. Será que foi ela que botou? – a garotinha vira sua face para o pai, com a mão direita dada para ele.
– Não fale assim das pessoas, Kokko. – exige ele, repreendendo-a para que não fale mais dessa forma indelicada.
Azori dirige sua face para Nagashi. Sorrindo, pede:
– A desculpe, por favor. É uma menina espevitada que não tem papas na língua.
– Não sou uma menina, já tenho 12 anos! – declama Kokko. – Sou uma pré-adolescente!
– Para mim, dá no mesmo. – afirma o empresário, fitando sua filha de novo por mais alguns segundos.
– Não tem problema algum. – alega a Swords.
Azori fica um pouco mais sério, exibindo uma expressão pensativa. Observando a face da loira por alguns segundos, faz com que ela se dê conta de que está interferindo no espaço-tempo, já que seu encontro com Azori e Kokko não deveria acontecer nesse período.
– Estou esmagando uma borboleta... – imagina a estudante de Kyodai.
– Por acaso já nos conhecemos? – questiona Azori, levando sua mão livre para o queixo, franzindo sua testa.
– C-creio que não senhor. – nega ela, um pouco aflita. – Agora, se me dá licença, preciso ir. Tenho um compromisso urgente!
– Espere. – pede ele. – Julgando pelo seu uniforme, suponho que é uma estudante de Kyodai, não é verdade?
– Sim, é. – confirma ela.
O homem sorri e retira sua mão do queixo. Encarando-a dessa maneira, articula:
– Meu filho Senshi estuda lá também. Provavelmente, se ele te conhecer, não tenho dúvidas de que se apaixonará!
– P-por quê? – pergunta ela, bem curiosa.
– Por que seus olhos são gentis e amáveis, ao mesmo tempo em que exibem a sua personalidade forte e determinada. – ele define, mantendo seu sorriso. – Até mesmo eu não me surpreenderia se me apaixonasse por alguém assim. Claro, se fosse décadas mais velha e se eu já não amasse quem amo.
– Papai, não seja safado! – reclama Kokko, chamando para si o olhar dos dois. – Ou conto tudo para a mamãe!
– Pode contar. – permite ele, dando de ombros.
– Vou contar mesmo, você vai ver só! – exclama ela, mostrando a língua para seu pai. – Quando a mamãe ficar sabendo que você está dando em cima de garotas chocadeiras, vai pegar a vassoura que nem daquela vez em que você quebrou o vaso chinês dela jogando futebol com o Senshi-kun em casa!
– Menina, você é atrevidinha, sabia? – questiona Azori.
Assistindo a isso, Nagashi não consegue evitar suas risadas. Por mais que tenha medo de causar consequências no futuro por sua interferência indevida no passado, algo em seu interior lhe dá a segurança de que está tudo bem. Entretanto, ao pensar em Senshi novamente, se dá conta de que, nesse momento, Minos Tsuyoshi já deve estar tentando matá-lo. E mesmo sabendo que no fim das contas dará tudo certo, não consegue evitar o aperto em seu coração.
– Ela riu de você, Kokko. – fala Azori, voltando seu olhar para Nagashi. – Bem... Foi um prazer te conhecer, minha jovem.
– Igualmente. – Nagashi afirma, sorrindo como ele.
Com isso, o pai e a filha voltam a caminhar.
– Até um dia, quem sabe. – ele se despede.
– Choque seu ovo direitinho, viu? – sugere Kokko, indo junto do seu pai.
– Já falei para parar com isso! – exige ele, enquanto ambos se afastam.
Com seu olhar doce e ao mesmo tempo bem seguro de si, Nagashi observa o afastar da dupla até que a mesma dobra uma esquina e desaparece do seu campo de visão. Mantendo seu sorriso, a garota indomável fala para si mesma:
– Com toda a certeza, há coisas muito mais poderosas do que o destino.
Ela suspira profundamente, fechando seus olhos. Quando os reabre, se vê em seu quarto, em Kyodai, em seu tempo...
– Voltei... – pensa, um pouco surpresa.
A loira olha para cada canto do local, tentando tirar toda e qualquer sombra de dúvida sobre estar mesmo de volta em seu tempo. Percebe que dúvidas não existem. Se voltando para sua cama, se aproxima dela e coloca o estranho ovo sobre a mesma. Na sequência, se direciona para a porta e, com poucos passos, sai daqui: convicta de que ainda há muito para ser feito por suas mãos...
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